A Raça Vindoura - Capítulo VI

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[36]Eu permaneci neste estado de inconsciência, como mais tarde aprendi, por muitos dias, mesmo por algumas semanas, segundo o nosso cálculo de tempo. Quando eu me recuperei estava em um aposento estranho; meu anfitrião e toda a família dele estavam reunidos ao meu redor e, para meu total assombro, a filha de meu anfitrião abordou-me em minha própria língua com somente um leve sotaque estrangeiro.

Como você se sente?” ela perguntou.

Foram alguns momentos antes que eu pudesse superar minha surpresa o suficiente para gaguejar, “Você conhece minha língua? Como? Quem e o que vocês são?”

Meu anfitrião sorriu e gesticulou para um de seus filhos, que tomou de uma mesa um número de finas folhas metálicas nas quais estavam traçadas desenhos de várias figuras – um cavalo, uma árvore, um pássaro, um homem, etc.

[37]Nesse desenhos eu reconheci meu próprio estilo de desenho. Sob cada figura estava escrito o nome dela em minha linguagem e em minha escrita; e, em outra caligrafia, uma palavra estranha para mim, abaixo dela.

Disse o anfitrião, “Deste modo nós começamos; e minha filha Zee, que pertence ao Colégio dos Sábios, tem sido sua instrutora e a nossa também.”

Zee então colocou diante de mim outras folhas metálicas, nas quais, em minha caligrafia, primeiramente palavras e em seguida sentenças, estavam inscritas. Sob cada palavra e cada sentença sinais estranhos em outra caligrafia. Reunindo meus sentidos, eu compreendi que deste modo um rude dicionário fora realizado. Fora isso feito enquanto eu estava dormindo? “Isso é suficiente agora,” disse Zee, em um tom de comando. “Descansa e come.”


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 36-37. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/36/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Raça Vindoura - Capítulo V

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[18]Uma voz abordou-me – uma voz muito calma e de um tom muito musical – em uma linguagem da qual eu não podia entender uma palavra, mas [que] serviu para dissipar meu medo. Eu descobri meu rosto e olhei para cima. O estranho (eu dificilmente faria a mim mesmo chamá-lo de homem) inspecionou-me com um olho que parecia ler as profundezas mesmas de meu coração. Em seguida, ele colocou a mão esquerda sobre minha testa e com o bastão em sua direita tocou meu ombro. O efeito deste contato duplo foi mágico. No lugar de meu antigo terror ali passou para mim uma sensação de contentamento, de alegria, de confiança em mim mesmo e no ser diante de mim. Eu ergui-me e falei em minha própria língua. Ele ouviu-me com atenção aparente, mas com uma leve surpresa em seu aspecto; e sacudiu sua cabeça, como se para significar que eu não fui entendido. Ele [19]então me tomou pela mão e guiou-me em silêncio para o prédio. A entrada estava aberta – de fato não havia porta para ela. Nós entramos em um imenso salão, iluminado pelo mesmo tipo de brilho como no cenário de fora, mas difundindo um perfume fragrante. O piso estava em grande [parte] decorado com blocos de mosaicos de metais preciosos, e parcialmente coberto com um tipo de carpete semelhante a um tapete. A tensão de uma música baixa, acima e ao redor, ondulava como se a partir de instrumentos invisíveis, parecendo pertencer naturalmente ao lugar, exatamente como o som de águas murmurantes pertence à paisagem rochosa, ou o gorjeio dos pássaros aos bosques primaveris.

Uma figura, em um traje mais simples do que aquele de meu guia, mas de estilo similar, estava de pé imóvel próximo à entrada. Meu guia tocou-a duas vezes com o bastão dele e ela pôs-se em um movimento rápido e deslizante, roçando sem som sobre o chão. Olhando para ela, eu então vi que não era uma forma viva, mas um autômato mecânico. Podia ser dois minutos até ele ter desaparecido através de uma abertura sem porta, meio oculta por cortinas na outra extremidade do salão, quando, através da mesma abertura, avançou um garoto de [20]aproximadamente doze anos, com feições intimamente semelhantes às de meu guia. Ao ver-me, a criança soltou um grito e ergueu um bastão como aquele carregado por meu guia, como se em ameaça. Numa palavra do ancião ele largou-o. Os dois então conversaram por alguns momentos, examinando-me enquanto eles falavam. A criança toucou minhas roupas e afagou meu rosto com curiosidade evidente, soltando um som com um riso, mas com uma hilaridade mais moderada do que o regozijo de nossa risada. Logo, a cobertura do salão abriu e a plataforma desceu, aparentemente construída segundo o mesmo principio dos ‘elevadores’ usados em hotéis e armazéns para subir de um andar para o outro.

O estranho pôs a si mesmo assim como a criança na plataforma e gesticulou para eu fazer o mesmo, o que fiz. Nós subimos rápida e seguramente e descemos no meio de um corredor com vãos de porta em cada lado.

Através de um desses vãos de porta eu fui conduzido para dentro de uma câmara mobiliada com esplendor oriental: as paredes eram decoradas com mosaicos de minerais cliváveis, [21]metais e joias brutas; almofadas e divãs abundavam; aberturas como para janelas, mas sem vidro, foram feitas na câmara, abrindo para o piso; e enquanto eu passava observei que essas aberturas levavam para dentro de varandas espaçosas com visões ordenadas da paisagem iluminada de fora. Em celas suspensas a partir do teto haviam pássaros de forma estranha e plumagem brilhante, os quais, mediante a nossa entrada, elevaram um coro de música, modulado em um tom como é aquele de nossos dom-fafes aflautados. Uma fragrância deliciosa, [oriunda] de turíbulos de ouro elaboradamente esculpidos, preencheu o ar. Vários autômatos, como o que eu vira, estavam de pé mudos e imóveis próximos às paredes. O estranho colocou-me atrás dele em um divã e novamente falou comigo assim como outra vez eu falei, mas sem o mínimo avanço na direção do entendimento entre nos.

Mas agora, eu comecei a sentir os efeitos da pancada que recebera dos estilhaços de rochas cadentes mais agudamente que eu sentira no início.

Ali, dominou-me uma sensação de desmaio doentio, acompanhada de dores agudas, lancinantes, na cabeça e no pescoço. Eu afundei no assento e [22]esforcei-me em vão para sufocar um gemido. Nisto, a criança, que até agora parecera olhar com desconfiança ou aversão, ajoelhou-se a meu lado para apoiar-me. Tomando uma de minhas mão em ambas as suas, ele aproximou seus lábios de minha testa, respirando suavemente sobre ela. Em uns poucos minutos, minha dor cessou; uma calma feliz e sonolenta arrastou-se sobre mim; eu adormeci.

Por quanto tempo eu permaneci neste estado não sei, mas quando acordei senti-me perfeitamente restaurado. Meus olhos abriram sobre um grupo de formas silenciosas, sentadas a meu redor na gravidade e quietude orientais – todos mais ou menos como o primeiro estranho; as mesmas asas na forma de manto, a mesma moda de vestuário, as mesmas faces semelhantes a esfinge, com os olhos profundamente negros e a cor do homem vermelho; sobretudo, o mesmo tipo de raça – raça aparentada a do homem, mas infinitamente mais forte e grandiosa de aspecto, e inspirando o mesmo sentimento inexprimível de pavor. Contudo, cada semblante era suave, tranquilo e mesmo amável em sua expressão. E, estranho o suficiente, parecia a mim que nesta calma e benignidade mesmas consistia o segredo do medo que seus semblantes inspiravam. Eles pareciam tão vazios das linhas e sombras que [23]o cuidado e o sofrimento, a paixão e o pecado, deixam nas faces dos homens, como são as faces dos deuses esculpidos, ou como, aos olhos de cristãos enlutados, parecem as frontes pacíficas dos mortos.

Eu senti uma mão quente sobre meu ombro; era da criança. Nos olhos dele havia um tipo de compaixão altiva e ternura, tal como aquela com a qual nós podemos contemplar algum pássaro ou borboleta sofredores. Eu recuei daquele toque – recuei daquele olho. Eu estava vagamente impressionado com a convicção que, assim ele desejasse, aquela criança podia ter matado-me tão facilmente quanto um homem mata um pássaro ou uma borboleta. A criança parecia magoada diante de minha repugnância; abandonou-me e colocou-se perto de uma das janelas. Os outros continuaram a conversar um com o outro em um tom baixo e, através de suas olhadas em minha direção, eu pude perceber que era o objeto da conversação deles. Um em especial parecia insistir em alguma proposta afetando-me, junto ao ser que eu primeiro encontrara, e este último, por seu gesto, parecia próximo de concordar com ela, quando a criança subitamente abandonou seu posto próximo à janela, colocou-se entre mim e as outras duas formas, como se em proteção, e falou rápida [24]e avidamente. Por alguma intuição ou instinto e senti que a criança que eu tinha antes temido tanto estava suplicando em meu favor. Antes que ele parasse outro estranho entrou na sala. Ele parecia mais velho do que o resto, embora não velho; seu semblante, menos suavemente sereno do que os deles, embora igualmente regular em suas feições, parecia a mim ter mais do toque de uma humanidade semelhante a minha mesma. Ele ouviu quietamente às palavras dirigidas a ele, primeiramente por meu guia, depois pelos dois outros do grupo, e finalmente pela criança; em seguida virou-se para mim e dirigiu-se a mim, não com palavras, mas através de sinais e gestos. Esses eu imaginei que entendi perfeitamente e não fui enganado. Eu compreendi que ele perguntou de onde eu vinha. Eu estendi meu braço e apontei na direção da estrada que me conduzira [a partir] do abismo na rocha; então uma ideia capturou-me. Eu saquei meu livro de apontamentos e esbocei em uma de suas folhas em branco um desenho grosseiro da elevação da rocha, da corda e de mim mesmo agarrando-me a ela; em seguida de uma rocha cavernosa abaixo, da cabeça do reptil e da forma sem vida do meu amigo. Eu dei este tipo primitivo de hieroglifo [25]a meu interrogador, que, depois de inspecioná-lo gravemente, entregou-o a seu próximo vizinho, e ele deste modo passou ao redor do grupo. Então, o ser que eu encontrara primeiro disse umas poucas palavras e a criança, que se aproximou e olhou para meu desenho, acenou com a cabeça como se ela compreendesse intenção dele, e, retornando à janela, expandiu as asas apensas à sua forma, sacudi-as uma ou duas vezes e em seguida se lançou ao espaço de fora. Eu irrompi em assombro e apresei-me para a janela. A criança já estava no ar, flutuando sobre suas asas, as quais ela não batia para lá e para cá como um pássaro faz, mas que ficavam elevadas sobre sua cabeça e pareciam suportá-lo firmemente no alto sem esforço de si próprio. Seu voo parecia tão veloz quanto o de qualquer águia e eu observei que era na direção da rocha de onde eu descera, da qual o contorno assomava visível na atmosfera brilhante. Em poucos minutos ele retornou, passando levemente através da abertura pela qual ele fora e largando no chão o cabo e os ganchos que eu deixara na descida do abismo. Algumas palavras em um tom baixo passaram entre os seres presentes: [26]um do grupo tocou um autômato, o qual começou a avançar e deslizou [para fora] da sala; em seguida, o último que chegou – que se dirigiu a mim por gestos – tomou-me pela mão e guiou-me para o corredor. Lá a plataforma pela qual eu subira aguardava-nos. Nós nos colocamos sobre ela e fomos baixados no salão abaixo. Meu novo companheiro, ainda segurando-me pela mão, conduziu-me do prédio a uma rua (por assim dizer) que se estendia para além dele, com prédios em cada lado, separados uns dos outros por jardins iluminados por vegetação ricamente colorida e flores estranhas. Intercalados no meio desses jardins, os quais eram divididos uns dos outros por paredes baixas, ou andando lentamente ao longo da estrada, estavam muitas formas semelhantes àquelas que já vira. Alguns dos transeuntes, ao observar-me, abordaram meu guia, evidentemente por seus tons, aspectos, e gestos dirigindo a ele perguntas sobre mim mesmo. Em poucos minutos uma multidão reuniu-se ao redor de nos, examinando-me com grande interesse, como se eu fosse algum raro animal selvagem. Contudo, mesmo ao satisfazerem sua curiosidade, eles preservaram um comportamento grave e cortês e, [27]após algumas palavras de meu guia, que parecia para mim desaprovar obstrução em nosso caminho, eles recuaram com uma imponente inclinação de cabeça, e retomaram seus próprios caminhos com tranquila indiferença. Ao meio do caminho nesta estrada, nós paramos diante de um prédio que diferia dos outros pelos quais até agora nós passáramos, na medida em que ele formava três lados de uma vasta quadra, nos ângulos da qual ficavam altivas torres piramidais. No espaço aberto entre os lados havia uma fonte circular de proporções colossais e atirando um deslumbrante borrifo do que me parecia fogo. Nos entramos no prédio através de uma porta aberta e chegamos a um enorme salão, no qual estavam vários grupos de crianças, todas aparentemente empregadas em trabalho, como em alguma grande fábrica. Havia um grande motor na parede que estava em pleno movimento, com rodas e cilindros semelhantes aos nossos próprios motores a vapor, exceto que era ricamente ornamentado com pedras preciosas e metais e parecia emanar uma pálida atmosfera fosforescente de luz inconstante. Muitas das crianças estavam em algum trabalho misterioso nesta maquinaria, outras estavam sentadas perante as mesas. Eu não fui [28]permitido a demorar o suficiente para examinar a natureza de seu emprego. Nem uma jovem voz foi ouvida – nem uma jovem face virou-se para olhar-nos. Eles estavam todos calmos e indiferentes como podem estar fantasmas, embora através de cujo meio passassem despercebidas as formas dos vivos.

Deixando este salão, meu guia conduziu-me através de uma galeria ricamente pintada em compartimentos, com uma mistura bárbara de ouro nas cores, como retratos de Louis Cranach. Os tópicos descritos nessas paredes pareciam, para meu olhar, como planejados para ilustrar a história da raça em meio a qual eu fui admitido. Em tudo ali havia figuras, a maioria delas como as criaturas semelhantes aos homens que eu vira, mas nem todas na mesma moda de vestuário, nem todas com asas. Havia também efígies de vários animais e pássaros inteiramente estranhos para mim, com fundos retratando paisagens ou construções. Tão longe quanto meu conhecimento imperfeito de arte pictórica permitir-me-ia formar uma opinião, aquelas pinturas pareciam muitas precisas no desenho e muito ricas em coloração, mostrando um conhecimento perfeito de perspectiva, mas os detalhes delas não [eram] organizados de acordo com as regras [29]de composição reconhecidas por nossos artistas – carecendo, como estavam, de um centro; de modo que o efeito era vago, difuso, confuso, desconcertante – eles eram fragmentos heterogêneos de um sonho de arte.

Nós agora chegamos a uma sala de tamanho moderado, na qual estava reunida o que eu depois soube ser a família de meu guia, sentada à mesa espalhada como para repasto. As figuras deste modo reunidas eram as da esposa de meu guia, de sua filha e de dois filhos. Eu reconheci imediatamente a diferença entre os sexos, embora as duas mulheres fossem de estatura mais alta e proporções mais amplas que os homens e os semblantes delas, se ainda mais simétricos no perfil e no contorno, eram isentos da suavidade e da timidez de expressão que davam charme ao rosto da mulher como visto sobre a terra acima. A esposa não usava asas e a filha usava asas mais lonas do que aquelas dos homens.

Meu guia proferiu umas poucas palavras, em que todas as pessoas sentadas levantaram-se e, com aquela peculiar suavidade de aparência e maneira a qual que notei antes e que é, em verdade, o atributo [30]comum desta raça formidável, eles saudaram-me de acordo com a maneira deles; a qual consiste em colocar a mão direta muito gentilmente sobre a cabeça pronunciando um suave monossílabo sibilante – S.Si, equivalente a “Bem-vindo.”

A senhora da casa, então, sentou-me ao lado dela e encheu um prato dourado diante de mim [a partir] de um dos pratos.

Enquanto eu comia (e ainda que os mantimentos fossem novos para mim, eu maravilhei-me mais nas guloseimas do que na estranheza do sabor delas), meus companheiros conversaram quietamente, e, tão longe quanto eu pude detectar, com evasão polida de qualquer referência direta a mim mesmo, ou qualquer escrutínio intrusivo de minha aparência. Contudo, eu era a primeira criatura daquela variedade da raça humana a qual eu pertenço que eles alguma vez contemplaram, e, consequentemente, fui considerado por eles como um fenômeno curioso e anormal. Mas toda grosseria é desconhecida por este povo, e o filho mais jovem é ensinado a desprezar qualquer forte demonstração emocional. Quando a refeição terminara, meu guia novamente me tomou pela mão, e, reentrando na galeria, tocou uma placa metálica inscrita com figuras estranhas e [31]a qual eu corretamente conjecturei ser da natureza de nossos telégrafos. A plataforma desceu. Mas desta vez nós subimos para uma elevação muito maior do que no antigo prédio e encontramos a nós mesmos em uma sala de dimensões moderadas que, em seu caráter geral, tinha muito que podia ser familiar às associações de um visitante do mundo de cima. Havia estantes na parede contento o que pareciam ser livros e assim de fato eram: na sua maior parte muito pequenos, como nossos duodécimos de diamante, formados no estilo de nossos volumes e encadernados em finas folhas de metal. Havia várias peças de mecanismo curiosas de se olhar, espalhadas em volta, aparentemente modelos, tais como podiam ser vistos no estúdio de qualquer mecânico profissional. Quatro autômatos (aparelhos mecânicos que, com essas pessoas, respondem aos propósitos ordinários do serviço doméstico) ficavam de pé como fantasmas em cada ângulo da parede. Em um recuo ficada um sofá baixo, ou cama com travesseiros. Uma janela – com cortinas afastadas para o lado e de algum material fibroso – abria-se sobre um grande terraço. Meu anfitrião pôs o pé no terraço; eu o segui. Nós estávamos no andar mais elevado de uma das [32]pirâmides angulares. A visão além era de uma beleza selvagem e solene, impossível de descrever: as vastas faixas de rochas escarpadas, as quais formavam o fundo distante; os vales intermediários de místicas pastagens de muitas cores; o esguicho das águas, muitas delas como córregos de chamas róseas; o brilho sereno espalhado sobre todos por uma miríade de lâmpadas; combinadas para formar um todo do qual nenhuma palavra minha pode transmitir descrição adequada. Tão esplêndido era, contudo tão sombrio; tão amável, porém tão terrível.

Mas minha atenção logo foi desviada dessas paisagens inferiores. Subitamente ali surgiu, a partir das ruas abaixo, uma explosão de música alegre. Em seguida, uma forma alada elevou-se no espaço; outra, como em perseguição à primeira, outra e outra; outras depois de outras, até que a multidão tornou-se espessa e o número sem conta. Mas, como descrever a graça fantástica dessa formas em seu movimentos ondulados! Elas pareciam ocupadas com algum esporte ou entretenimento: agora formando esquadrões opostos; agora se espalhando; agora cada grupo atravessando o outro, subindo, descendo, entrelaçando-se, separando. Tudo em tempo medido pela [33]música abaixo, como se na dança do lendário Peri.

Eu virei meu olhar para meu anfitrião em uma admiração febril. Eu ousei por minha mão sobre as longas asas que se deitavam dobradas sobre o peito dele e, ao fazê-lo, um choque leve como de eletricidade atravessou-se. Eu recuei de medo. Meu anfitrião sorriu, e, como se cortesmente para gratificar minha curiosidade, lentamente expandiu as pontas de suas asas. Eu observei que o traje abaixo então tornou-se dilatado como uma bexiga que se enche com ar. Os braços pareceram deslizar para dentro das asas e, em outro momento, ele lançara-se à atmosfera luminosa; pairou lá, calmo e com asas estendidas, como uma águia que se aquece ao sol. Em seguida, rapidamente como uma águia arrebata, ele apressou-se para baixo em meio a um dos grupos, roçando através do meio e, tão subitamente, outra vez voando alto. Nisso, três formas, em uma das quais eu pensei reconhecer a filha de meu anfitrião, destacaram-se do resto, e seguiram-no como um pássaro esportivamente segue um pássaro. Meus olhos, deslumbrados com as luzes e aturdidos pelas multidões, pararam para distinguir [34]as rotações e evoluções desses companheiros de brincadeira, até que logo meu anfitrião ressurgiu da multidão e pousou ao meu lado.

A estranheza de tudo que eu vira começava agora a operar rápido sobre meus sentidos; minha mente mesma começou a passear. Embora não inclinado a ser supersticioso, nem até agora a acreditar que o homem pudesse ser trazido à comunicação física com demônios, eu senti terror e excitação selvagem com o que, nas idades Góticas, um viajante podia ter persuadido a si mesmo que ele testemunhara um sabá de demônios e bruxas. Eu tenho uma lembrança vaga de ter tentado, com gesticulação veemente, formas de exorcismo e incoerente palavras em voz alta, repelir meu anfitrião cortês e indulgente; de seus moderados esforços para acalmar-me e abrandar-me; de sua conjectura inteligente de que meu susto e perplexidade foram ocasionados pela diferença de forma e movimento entre nós, a qual as asas, que excitaram minha curiosidade maravilhosa, tinham, em exercício, tornado ainda mais fortemente perceptível; do sorriso gentil com o qual ele buscou dissipar meu alarme ao soltar as asas no chão e esforçando-se para mostrar-me [35]que elas eram somente uma invenção mecânica. Aquela transformação súbita somente aumentou meu horror e, como susto extremo as vezes mostra-se por intermédio de extrema ousadia, eu pulei em seu pescoço como uma besta selvagem. Em um instante, eu fui derrubado no chão como por um choque elétrico, e as últimas imagens confusas flutuante diante da minha visão, até que me tornei inteiramente inconsciente, foram a forma de meu anfitrião ajoelhando-se diante de mim, com uma mão em minha testa, e a face bela e calma da filha dele, com olhos inescrutáveis, profundos, grandes e fixados sobre mim.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 18-35. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/18/mode/1up>


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A História da Planície Cintilante - Capítulo XII Eles contemplam o Rei da Planície Cintilante

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[97]Então agora as mulheres levaram-nos para cima, ao longo do córrego, e Hallblithe foi lado a lado com o Sea-eagle. Mas, de modo geral, as mulheres tornaram-se felizes novamente; brincavam e corriam ao redor deles tão brincalhonas quanto jovens cabras. Elas patinharam pelo raso do claro córrego brilhante, de pés descalços para lavar os membros delas da salmoura do mar, e extraviaram-se ao redor dos prados, colhendo as flores e fazendo delas grinaldas e coroas, as quais elas arranjaram sobre elas mesmas e sobre o Sea-eagle; mas Hallblithe elas não tocaram, pois elas ainda o temiam. Eles prosseguiram conforme o córrego conduzia-os acima na direção das colinas e os campos ao redor deles eram sempre tão belos e floridos quanto podiam ser. Pessoas eles viram longe, mas não se encontraram com nenhuma por um bom tempo, exceto um homem e uma moça – vestidos levemente como para os dias do solstício de verão – os quais estavam vagando juntos, amorosa e felizmente, ao lado do córrego e que olharam pensativamente para o forte Sea-eagle e para [98]Hallblithe com sua lança cintilante. A donzela de cabelos negros cumprimentou esses dois e falou alguma coisa com eles. Eles riram alegremente; o homem curvou-se em meio à grama e às flores da ribanceira, sacou uma cesta, espalhou alimentos saborosos sobre a grama debaixo de um salgueiro e convidou-os para serem seus convivas aquela bela tarde. Então eles sentaram-se ali, acima do córrego brilhante, comeram, beberam e ficaram felizes. Depois disso, os recém-chegados e seus guias de caminho partiram com gentis palavras e calmamente firmaram suas faces na direção das colinas.

Finalmente eles viram diante deles uma pequena colina arborizada e abaixo dela algo vermelho, brilhando, e coisas de outras cores cintilando sob o sol ao redor. Então disse o Sea-eagle: “O que temos nós acolá?” Disse a donzela: “Aquele é o pavilhão do Rei e ao redor dele estão as tendas e toldos de nosso povo, que são a companhia dele; pois frequentemente ele habita nos campos com eles, embora ele tenha casas e salões tão belos quanto o coração homem pode conceber.” “Não tem ele nenhum inimigo a temer?” disse o Sea-eagle. “Como isso poderia ser?” disse a donzela. “Se, por acaso, quaisquer [inimigos] chegassem a esta terra para trazer guerra sobre ele, a cólera de batalha deles deveria deixá-los, uma vez que a felicidade da Planície Cintilante entrasse em suas almas, e eles não pediriam por nada somente deixar [99]ficar para residir aqui e ser felizes. Contudo, eu acredito que, se ele tivesse inimigos, poderia esmagá-los tão facilmente quanto eu ponho meu pé sobre esta margarida.”

Então, conforme eles continuavam, encontraram-se com muitas pessoas, homens e mulheres, exercitando-se e brincando nos campos. Não havia nenhuma semelhança de velhice em qualquer um deles e nem cicatriz, deformidade ou fraqueza de corpo ou tristeza de semblante; nem qualquer um portava uma arma ou qualquer parte de armadura. Imediatamente, alguns deles reuniram-se ao redor dos recém-chegados e maravilharam-se diante de Hallblithe, sua longa lança, seu elmo brilhante e cota de malha cinza escura; mas ninguém perguntou a respeito eles, pois todos sabiam que eles eram gente recém-chegada à felicidade da Planície Cintilante. Então eles passaram no meio desse belo povo, pouco impedidos por eles, e passou pelos pensamentos de Hallblithe quão feliz a sociedade de tais [pessoas] seria e como o coração dele seria elevado pela visão deles, se somente sua donzela prometida estivesse a seu lado.

Deste modo, em seguida, eles chegaram ao pavilhão do Rei, onde ele levantava-se em uma angra da campina ao pé da colina, com o bosque ao redor dele por três lados. Hallblithe considerou que nunca vira uma casa tão bela; pois era trabalhada por toda a parte com histórias e flores, com bordas costuradas com ouro e com bordaduras de ouro, pérola e gemas.

[100]Lá, à porta do pavilhão, sentava-se o Rei da Terra em uma cadeira de marfim; ele estava envolto em uma toga dourada, circundado à cintura com um cinto de gemas e tinha a coroa em sua cabeça e a espada a seu lado. Visto que esta era a hora na qual ele ouvia o que qualquer um de seu povo diria a ele e, para esse mesmo fim, sentava-se à porta de sua tenda. As pessoas ficavam de pé diante dele, sentando-se ou deitando-se sobre a grama em volta aqui e ali; e agora uma, agora outra, vinha a ele e falava diante dele.

A face dele brilhava como uma estrela; era excessivamente bela e tão gentil quanto a noite de Maio nos jardins do ditoso, quando o perfume da madressilva preenche todo o ar. Quando ele falou, sua voz era tão doce que todos os corações foram arrebatados e ninguém podia contradizer-lhe.

Mas, quando Hallblithe pôs os olhos nele, soube imediatamente que este era aquele de quem a imagem ele vira no salão dos Saqueadores; seu coração bateu rápido e disse a si mesmo: “Levanta tua cabeça, Oh Filho do Corvo, fortalece teu coração e não permitas que nenhum homem ou deus intimide-te. Pois agora pode teu coração mudar, o qual te ordenou a ir à casa de onde era devido a ti tomar o prazer de uma mulher e, naquele lugar, empenhar tua confiança e sinceridade àquela que te ama mais e anseia por ti dia a dia e hora por hora, tão grande é o amor que nós dois fortalecemos.”

[101]Agora eles aproximaram-se, pois as pessoas retrocederam diante deles para a direita e para a esquerda, como diante de homens que são recém-chegados e têm muito a fazer; de modo que não havia nada entre eles a face do Rei. Ele apenas sorriu para eles, de modo que alegrou seus corações com a esperança de realização dos desejos deles e disse: “Bem-vindo, filhos! Quem são esses que vós trouxestes aqui para aumentar nossa alegria? Quem é este homem alto, de face corada e alegre, tão adequado para a felicidade da Planície Cintilante? E quem é este jovem vistoso e adorável, que carrega armas no meio de nossa paz, e de quem a face está triste e severa debaixo do brilho do elmo dele?”

Disse a donzela de cabelos negros: “Oh Rei! Oh Doador de dádivas e assegurador de júbilo! Este alto é ele que esteve uma vez oprimido pela velhice e que veio aqui para ti da Ilha do Resgate, de acordo com o costume da ilha.” Disse o Rei: “Homem alto, bom é que você tenha chegado. Agora teus dias estão mudados e tu ainda vivo. Para ti, a batalha está terminada, e com isso o prêmio da batalha, que o guerreiro não se lembre em meio aos golpes árduos. A paz começou, e tu não necessitas ser cuidadoso pelo sofrimento [da batalha]; pois, nesta terra, nenhum homem tem uma carência a qual ele não pode satisfazer sem tomar [102]algo de algum outro. Eu não considero que teu coração possa conceber um desejo que eu não deverei realizar para ti, ou almejar um dom o qual eu não deverei dar a ti.”

Em seguida, o Sea-eagle riu de alegria e virou a cabeça por aqui e por ali, de modo que podia aproveitar melhor para ele os sorrisos de todos os que estavam de pé ao redor.

Em seguida, o Rei disse a Hallblithe: “Tu também és bem-vindo. Eu conheço-te quem tu és, afigurou-se grande alegria esperar-te e eu realizarei teu desejo ao máximo.”

Disse Hallblithe: “Oh grande Rei de uma terra feliz, eu não te peço nada salvo aquilo que ninguém deve retirar de mim sem ser amaldiçoado.”

Eu o darei a ti,” disse o Rei, “e tu deves exaltar-me. Mas o que é essa coisa que tu desejavas? O que mais tu podes ter do que os Dons da terra?”

Disse Hallblithe: “Eu vim aqui não buscando dons, mas ter o meu próprio novamente; e esse é o amor em pessoa de minha donzela prometida. Eles roubaram-na de mim e a mim dela; pois ela amava-me. Eu desci ao mar e não a encontrei, nem a embarcação em que a carregaram para longe. Eu velejei daí para a Ilha do Resgate, pois ele contaram-me que ali eu devia comprá-la por um preço; tampouco estava o corpo dela ali. [103]Mas a imagem dela chegou a mim em um sonho da noite e ordenou-me procurá-la aqui. Portanto, Oh Rei, se ela está na região, mostre-me como eu posso encontrá-la; e se ela não está aqui, mostre-me como eu posso partir para procurá-la em outro lugar. Esta é toda minha solicitação.”

Disse o Rei: “Teu desejo deve ser satisfeito; tu deves ter a mulher que te teria e a quem tu deves ter.”

Hallblithe foi satisfeito além da medida por aquela palavra e agora o Rei parece-lhe um conforto e um consolo para todo coração; igualmente como ele considerara sua imagem entalhada no Salão dos Saqueadores; ele agradeceu-lhe e exaltou-o.

Mas o Rei ordenou-lhe permanecer próximo a ele aquela noite e festejar com ele. “E no dia seguinte,” disse ele, “tu deves seguir teus caminhos para contemplar aquela quem tu deves amar.”

Com isso chegou o anoitecer e o começo da noite; quente, perfumado e brilhante com a cintilação das estrelas. Eles entraram no pavilhão do Rei e lá estava o banquete tão belo e saboroso quanto podia ser. Hallblithe recebeu a carne do próprio prato do Rei e bebeu do copo dele; mas a carne não tinha sabor para ele e a bebida não tinha deleite, por causa do anseio que o possuía.

[104]E, quando o banquete estava terminado, as donzelas levaram Hallblithe para a cama dele, em uma bela tenda, semeada com ouro ao redor de sua cabeça como a noite estrelada, e ele deitou-se e dormiu por puro cansaço de corpo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.97-104. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/97/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XII O Desgaste de Quatro Dias na Floresta além do Mundo

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[78]Ele levantou-se cedo, mas não encontrou ninguém para cumprimentá-lo, nem havia qualquer som de pessoas movendo-se dentro da bela casa. Assim, ele apenas tomou seu café e, em seguida, saiu e passeou em meio às árvores, até que encontrou para si um córrego para banhar-se. Depois que ele lavara a noite de si, deitou-se debaixo de uma árvore perto dali por um tempo, mas logo voltou em direção da casa, com medo de que talvez a Donzela devesse chegar aqui e ele devesse perdê-la.

Deve ser dito que à metade de um tiro de arco a partir da casa desse lado (isto é, diretamente ao norte dali) ficava uma pequena mata de avelãs, e em torno, aqui e ali, as árvores eram de um tipo menor do que os carvalhos e castanheiras que ele atravessara antes, sendo principalmente de bétulas e sorvas e jovens freixos, com pequenos bosques entre elas. [79]Então agora ele atravessou o matagal e, chegando à borda do mesmo, contemplou a Senhora e o Filho do Rei andando juntos de mãos dadas, parecendo cheios de afeto.

Ele considerou indigno recuar e esconder-se, então ele foi em frente perto deles na direção da casa. O Filho do Rei fez-lhe careta enquanto ele passava. Mas a Senhora, sobre a bela face de quem chamejavam o alegres sorrisos da manhã, não prestou mas atenção a ele do que se ele fosse uma das árvores do bosque. Mas ela fora tão superior e desdenhosa com ele na noite anterior, que ele pensou pouco disso. O par passou, marginando o bosquete de avelãs, e ele não pôde escolher, somente virar os olhos para eles, tão intensamente a beleza da Senhora atraiu-os. Então sucedeu outra coisa; pois, atrás deles, os galhos das aveleiras separaram-se, e lá ficou de pé aquela pequena coisa maligna, ele ou outro do seu tipo; pois ele estava bem despido, salvo por sua cabeleira de cabelo castanho amarelado, e que tinha à cintura um cinto de couro, no qual estava preso uma feia faca de dois gumes. Ele ficou de pé direito por um momento, lançou seus olhos em [direção a] Walter e sorriu ironicamente, mas não como se ele o conhecesse; e dificilmente Walter pôde dizer se era aquele que ele vira antes ou outro. Em seguida, ele abaixou-se sobre sua barriga e começou [80]a rastejar através da extensa grama como uma serpente, seguindo os passos da Senhora e do amante dela; e agora, enquanto ele rastejava, Walter considerou, em seu asco, que a criatura era mais semelhante a um furão do que a qualquer outra coisa. Ele rastejou em maravilhosa rapidez e logo ficou fora de visão. Mas Walter permaneceu de pé olhando em busca dele por um tempo e, em seguida, deitou-se próximo à beira do bosque, para que ele pudesse observar a casa e a entrada dali; pois pensou, ‘agora talvez em breve a amável donzela vira aqui para confortar-me com uma palavra ou duas.’ Mas hora passou por hora e, entretanto, ela não vinha; e ainda ele assentava-se lá [junto com] o pensamento da Donzela, o anseio pela gentileza e sabedoria dela; até que não pôde conter as lágrimas e chorou pela falta dela. Em seguida, ele levantou-se, foi-se e sentou-se na varanda, e estava muito abatido de humor.

Mas, enquanto ele sentava-se ali, a Senhora retornava novamente, o Filho do Rei guiando-a pela mão. Eles entraram pela varanda e ela passou por ele tão perto que o cheiro da vestimenta dela preencheu todo o ar ao redor dele, e a elegância do flanco dela quase o tocou; de modo que ele não pôde deixar de notar que as vestes delas estavam um pouco desarrumadas e que ela mantinha sua mão direita (pois a esquerda o [81]Filho de Rei segurava) sobre seio para segurar o tecido junto ali, visto que o rico traje fora arrancado de seu ombro direito. Conforme eles passavam por ele, o Filho do Rei mais uma vez lhe fez uma careta, sem palavras, mas ainda mais ferozmente do que antes e, novamente, a Senhora não lhe deu atenção.

Depois deles terem ido por um tempo, ele entrou no salão e encontrou-o vazio de ponta a ponta; nenhum som nele salvo o tilintar da fonte, mais havia alimentos colocados sobre a mesa. Ele comeu e bebeu dali para manter a vida vigorosa dentro dele e, em seguida, saiu novamente para o bosque para vigiar e desejar. O tempo pendia pesado nas mãos dele por causa da falta da bela Donzela.

Ele era da opinião de não entrar na casa para seu descanso naquela noite, mas de dormir debaixo dos galhos da floresta. Mas, um pouco depois do pôr do sol, ele viu uma imagem resplandecente movendo-se em meios as imagens esculpidas da varanda e o Filho do Rei saiu, veio diretamente a ele e disse: ‘Tu és para entrar na casa, e vai para dentro de teu aposento imediatamente, e de jeito nenhum sair dele entre o pôr do sol e o nascer do sol. Minha Senhora não deseja [que vás] para longe com teu perambular em volta da casa no curso da noite.’

Após o que, ele virou-se e entrou [82]na casa novamente. Walter seguiu-o sobriamente, lembrando-se de como a Donzela mandara-o tolerar. Assim ele foi a seu quarto e dormiu.

Mas bem no meio da noite ele despertou e julgou que ouviu uma voz não muito longe, então saiu de mansinho da cama e espiou ao redor, com o receio de que, talvez, a Donzela tenha vindo para falar com ele, mas seu quarto estava escuro e vazio. Em seguida, ele foi à janela e olhou para fora, e viu a lua reluzindo brilhante e branca sobre o relvado. E Oh, a Senhora caminhando com o Filho do Rei, ele trajado em vestes finas e lascivas, mas ela em nada mais salvo o que Deus dera-lhe de cabelo dourado, comprido e fresco. Nessa altura Walter envergonhou-se de olhar para ela, vendo que havia um homem com ela, e voltou-se para sua cama. Mas, ainda um longo tempo até que ele dormisse novamente, ele teve a imagem diante de seus olhos da bela mulher sobre a orvalhada grama iluminada pela lua.

Os fatos do próximo dia ocorreram muito do mesmo modo, e do próximo dia também; salvo que a tristeza dele aumentara e ele adoeceu severamente de esperança diferida. No quarto dia, também a manhã consumiu-se como outrora. Mas, no calor da tarde, Walter buscou o bosquete de aveleiras e deitou-se lá, um pouco [83]asperamente, clareando [a mente] daquilo, e dormiu do cansaço mesmo da aflição. Ali, após um tempo, ele acordou, com palavras ainda pendentes nos ouvidos, e ele soube de uma vez que era eles dois juntos conversando.

O Filho do Rei há pouco acabara de falar e agora era a Senhora começando, na voz doce como mel dela, baixa mas forte, na qual existia mesmo um pouco de rouquidão. Ela disse: ‘Otto, talvez fosse melhor ter um pouco de paciência, até que nós descubramos o que o homem é e de onde ele vêm. Sempre será fácil nós nos livrarmos dele: é apenas uma palavra para nosso Rei Anão e será feito em uns poucos minutos.’

Paciência!’ disse o Filho do Rei, colericamente; ‘eu não sei como ter paciência com ele. Pois eu posso ver dele que ele é rude, violento e obstinado; um alguém astucioso, de baixo nascimento. Em verdade, ele teve paciência o suficiente comigo na outra noite, quando eu ralhei com ele, como o cão que ele é, e ele não teve coragem de dizer uma palavra para mim. Suavemente, enquanto ele seguia depois de mim, eu tive a intenção de virar-me e dar-lhe uma bofetada na face, para ver se eu podia somente extrair uma palavra irada dele.

A Senhora riu e disse: ‘Bem, Otto, eu não sei; aquilo que tu consideras [84]covardia nele pode ser somente prudência e sabedoria, e ele um estrangeiro, distante de seus amidos e próximo de seus inimigos. Talvez nós devêssemos julgá-lo pelo que ele é. Enquanto isso, eu aconselho-te a não o tentes com bofetadas, salvo se ele estiver desarmado e com mãos limpas; ou senão eu considero que apenas um pouco depois tu deverás estar fraco de teu golpe.

Agora, quando Walter ouviu as palavras dela e a voz na qual elas foram ditas, ele não pôde evitar ser mexido por elas, e para ele, completamente sozinho ali, eles pareciam amigáveis.

Mas ele permaneceu quieto, o Filho do Rei respondeu a Senhora e disse: ‘Eu não sei o que está em teu coração a respeito deste renegado, para que tu devesses zombar de mim com a valentia dele, da qual tu nada sabes. Se tu consideras-me indigno de ti, envia-me de volta a salvo ao país de meu pai. Eu posso buscar ter respeito lá; sim, e o amor de belas mulheres possivelmente.

Após o que, pareceu como se ele estendesse as mãos à Senhora para acariciá-la, pois ela disse: ‘Não, não coloques tua mão em meu ombro, pois hoje e agora não é a mão do amor, mas do orgulho e da insensatez, e da pretensa superioridade. Nem tu deves erguer-te e deixar-me até que teu humor esteja mais suave e mais gentil para mim.’

[85]Em seguida, houve silêncio entre eles por um tempo, e depois disso o Filho do Rei falou em uma voz lisonjeira: ‘Minha deusa, eu suplico-te perdão! Mas podes tu admirar-te que eu tema teu cansaço de mim e que por isso eu esteja rabugento e ciumento? Tu, tão acima das Rainhas do Mundo, e eu, um pobre jovem, que sem ti fosse nada!

Ela não respondeu nada e ele prosseguiu novamente: ‘Não é assim, Oh deusa, que este homem dos filhos de mercadores esteve pouco atento a ti, a tua amabilidade e a tua majestade?’

Ela riu e disse: ‘Talvez ele considere que não tinha muito a obter de nós, vendo-te sentado a nosso lado, e considerando que nós falamos com ele friamente, severamente e com desdém. Além disso, o pobre jovem estava deslumbrado e acanhado diante de nós; de tal modo que nós pudemos ver nos olhos e no semblante dele.

Agora isso, ela falou tão gentil e docemente, que novamente Walter ficou todo mexido por causa disso. E veio-lhe à mente que isso podia ser [porque] ela sabia que ele estava perto e ouvindo-a, e que ela falava tanto para ele quanto para o Filho do Rei, mas o mesmo respondeu: ‘Senhora, tu não vês um pouco mais nos olhos dele, a saber, que eles olharam senão ultimamente [86]alguma bela mulher outra que não seja tu? Quanto a mim, eu considero isso não tão improvável, que no caminho para teu salão ele possa ter encontrado-se com tua Criada.’

Ele falou em uma voz vacilante, como se contraindo-se de alguma tempestade que pudesse vir. E verdadeiramente a voz da Senhora mudara conforme ela respondia, embora não houvesse nenhuma cólera exterior nela, antes era penetrante, impaciente e indiferente de uma vez. Ela disse: ‘Sim, o pensamento disso não é impróprio; mas nós não podemos ter sempre nossa escrava em mente. Se for como tu consideras, nós devemos chegar a saber disso mais provavelmente quando nós a encontrarmos. Ou se estiver arisca desta vez, então ela deve pagar o mais difícil por isso; pois nós a questionaremos junto a Fonte no Salão a respeito do que aconteceu próximo à Fonte da Rocha.’

Falou o Filho do Rei, vacilando ainda mais: ‘Senhora, [talvez] não fosse melhor questionar o homem mesmo? A Donzela é valente e não será prontamente dominada em uma narrativa verdadeiro; enquanto que o homem eu considero de nenhuma importância.

Não, não,’ disse a Senhora rispidamente, ‘isso não deve ser.’

Em seguida ela silenciou por um tempo e depois disse: ‘Quanto a se o homem devesse provar ser nosso mestre?

[87]‘Não, nossa Senhora,’ disse o Filho do Rei, ‘tu estás brincando comigo; tu, teu poder e tua sabedoria, e tudo que tua sabedoria pode comandar, ser subjugada por um vagabundo rústico.’

Mas como, se eu não te comandarei, Filho do Rei?’ disse a Senhora: ‘Eu digo-te conheço teu coração, mas tu não conheces o meu. Mas fica em paz! Pois desde que tu suplicaste por esta mulher … não, não com tuas palavras, eu tenho conhecimento, mas com tuas mãos trementes, teus olhos ansiosos e tuas sobrancelhas franzidas… eu digo, desde que suplicaste por ela tão sinceramente, ela deve escapar desta vez. Mas se isso será para o benefício dela a longo prazo, eu duvido de mim. Vê tu isso, Otto! Tu seguraste-me em teus braços tantas vezes. E agora tu podes partir se tu desejares.’

Pareceu a Walter como se o Filho do Rei estivesse estupefato diante das palavras dela: ele não respondeu nada, logo levantou-se do chão e seguiu seus caminhos lentamente na direção da casa. A Senhora deitou-se lá por pouco tempo e em seguida seguiu seus caminhos também; mas afastou-se da casa na direção do bosque na outra extremidade dali, por onde Walter primeiro chegou aqui.

[88]Quanto a Walter, ele estava confuso na mente e abalado em espírito. Igualmente ele parecia ver malícia e atos cruéis na conversa daqueles dois, e com isso ira aumentada. Contudo, ele disse a si mesmo, que nada ele podia fazer, mas estava como alguém com a mão e o pé confinados, até que ele visse a Donzela novamente.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.78-88. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/78/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Raça Vindoura - Capítulo IV

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[15]Agora, eu alcancei visão completa do prédio. Sim, fora feito por mãos e escavado parcialmente a partir de uma grande rocha. Eu devia ter suposto isto à primeira vista, ter sido de uma forma inicial de arquitetura egípcia. Era fronteado por colunas imensas, afunilando-se para cima a partir de plintos massivos e com capiteis que, conforme eu chegava mais perto, percebi ser mais ornamentais e mais fantasticamente elegantes do que a arquitetura egípcia permite. Como os capiteis coríntios imitam a folha do acanto, assim os capiteis dessas colunas imitavam a folhagem da vegetação que lhes vizinha; alguns semelhantes aos aloés, outros semelhantes às samambaias. E agora, ali, saiu deste prédio uma forma – humana; - era humana? Ficou de pé na via ampla e olhou ao redor, observou-me e aproximou-se. Chegou a poucas jardas de mim [16]e, à visão e à presença dele, um temor e um tremor indescritíveis capturaram-me, firmando meus pés no solo. Lembrou-me de imagens simbólicas de Gênio ou Demônio, que são vistas em vasos etruscos ou retratadas em paredes de sepulcros orientais – imagens que tomam emprestado os contornos do homem e são, contudo, de outra raça. Era alto, não gigantesco, apenas alto como os homens mais altos, abaixo da altura dos gigantes.

Sua cobertura principal parecia-me ser composta de grandes asas dobradas sobre seu peito e alcançando seus joelhos. O resto de seu vestuário era composto de uma túnica por baixo e perneiras de um fino material fibroso. Usava em sua cabeça um tipo de tiara que brilhava com joias e levava em sua mão direita um fino bastão de metal brilhante como aço pólico. Mas a face! Foi o que inspirou minha admiração e meu terror. Era a face de um homem, mas ainda de um tipo de homem distinto de nossas raças existentes conhecidas. O jeito mais próximo dele, em perfil e expressão, é a face da esfinge esculpida – tão harmoniosa em sua beleza calma, intelectual e misteriosa. Sua cor era peculiar, mais como aquela do homem vermelho do que [17]qualquer outra variedade de nossa espécie e, contudo, diferente dele – uma tonalidade mais rica e mais suave, com largos olhos negros, profundos e brilhantes, e sobrancelhas arqueadas como um semicírculo. A face era sem barba; mas [com] algo sem nome no aspecto. Embora de expressão tranquila e de feições belas, despertou aquele instinto de perigo o qual a visão de um tigre ou de uma serpente provocam. Eu senti que esta imagem semelhante ao homem era dotada com forças hostis ao homem. Conforme eu aproximava-me, um arrepio frio veio sobre mim. Eu cai sobre meus joelhos e cobri o rosto com minhas mãos.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 15-17. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/15/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XI Walter depara-se com a Senhora

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[72]Era apenas um pouco depois de meio-dia quando Walter deixou a Donzela para trás. Ele dirigiu-se para o sul de acordo com o sol, como a Donzela mandara-lhe, e prosseguiu rapidamente; pois, como um bom cavaleiro dirigindo-se à batalha, o tempo parecia-lhe longo até que ele devesse encontrar o inimigo.

Então, uma hora antes do pôr do sol, ele viu algo branco e alegre brilhando através dos troncos de carvalhos e, em breve, havia claro diante dele uma casa muito magnífica construída de mármore branco, toda entalhada ao redor com laços e imagens. O povo cinzelado estava todo pintado de suas cores vivas, quer fosse a da vestimenta deles ou de sua carne, e as habitações nas quais eles estavam de pé todas trabalhadas com ouro e belos tons. Alegres eram as janelas da casa e havia um alpendre com colunas [73]na frente da porta grande, com imagens entre os pilares igualmente de homens e bestas. Quando Walter olhou para cima para o teto da casa, viu que o mesmo cintilava e brilhava; pois todos os azulejos eram de metal amarelo, o qual ele considerou ser de ouro mesmo.

Tudo isto ele via conforme ele passava e não se demorou ao contemplar aquilo; pois ele disse, ‘provavelmente haverá tempo para eu olhar para tudo isto antes de morrer’. Mas ele disse também que, embora a casa não fosse a maior [de todas], estava além de comparação com todas as casas do mundo.

Assim sendo, ele entrou na casa pela varanda e chegou a um salão de muitas colunas e abobadado por cima; as paredes pintadas com ouro e ultramarino, o piso escuro e coberto com lantejoulas de muitas cores, e as janelas esmaltadas com laços e retratos. Bem no centro dali ficava uma fonte de ouro, de onde a água corria por dois caminhos em arroios revestidos de ouro, prolongados duas vezes com pequenas pontes de prata. Comprido era aquele salão, e agora não muito claro, de modo que Walter passou a fonte antes que ele visse alguma pessoa ali. Em seguida, ele olhou para cima, na direção do assento elevado, e pareceu-lhe que uma grande luz brilhava de lá e ofuscava os olhos dele. Ele prosseguiu um pouco e então caiu sobre os joelhos; pois ali, diante dele, no [74]assento elevado, sentava-se aquela Senhora maravilhosa, cuja a imagem viva fora mostrada a ele três vezes antes, e ela estava envolta em ouro e joias; como ele primeiro a vira. Mas agora, ela não estava sozinha; pois ao lado dela sentava-se um jovem, vistoso o suficiente, até onde Walter podia vê-lo, e muito ricamente vestido, com uma espada cheia de joias a seu lado e uma coroa de gemas sobre cabeça dele. Eles seguravam um ao outro pela mão, e pareciam estar juntos em estimada conversa; mas falavam suavemente, de modo que Walter não podia ouvir o que diziam, até que finalmente o homem falou em voz alta com a Senhora: ‘Tu não vês que há um homem no salão?’

Sim,’ ela disse, ‘Eu vejo-o acolá, ajoelhando-se sobre os joelhos dele; deixe-o vir mais perto e dar algum relato de si mesmo.

Então Walter colocou-se de pé, aproximou-se e ficou de pé ali, todo envergonhado e confuso, olhando para aquele par, e maravilhando-se diante da beleza da Senhora. Quanto ao homem, que era magro, de cabelos negros e de aspecto ereto; por toda a grandiosidade dele Walter considerava-lhe pouco, e de maneira alguma o considerou parecer com um chefe.

Agora, a Senhora não falou para Walter algo mais do que antes; mas finalmente o homem disse: [75]‘Por que tu não te ajoelhas como tu fizeste um pouco antes?’

Walter estava a ponto de devolver-lhe uma resposta cruel, mas a Senhora falou e disse: ‘Não, amigo, não importa se ele ajoelha-se ou permanece de pé. Mas ele pode dizer, se ele quiser, o que ele teria de mim e porque ele veio aqui.’

Em seguida falou Walter, tão irado e envergonhado quanto ele estava: ‘Senhora, eu perdi-me nesta terra e cheguei a tua casa como suponho. Se não for bem-vindo, bem posso partir imediatamente, e procurar um caminho para fora de tua terra, se tu me conduzires daí, bem como para fora de tua casa.’

Depois disso, a Senhora virou-se e olhou para ele e, quando os olhos dela encontraram os dele, ele sentiu uma aflição de medo e desejo misturados disparar através de seu coração. Desta vez ela falou para ele; mas friamente, sem qualquer ira ou qualquer pensamento nele: ‘Recém-chegado,’ ela disse, ‘eu não te convidei para cá; mas aqui tu podes permanecer por um tempo, se tu desejares. Mesmo assim, fica atento que aqui não é Corte de Rei. Há, verdadeiramente, um povo que me serve (ou, pode ser, mais de um), de quem tu ficaste melhor de não saber nada. Quanto a outros, eu tenho somente dois servos, quem tu verás. Um é [76]uma criatura estranha; que te assustaria ou prejudicar-te-ia com uma boa vontade, mas de uma boa vontade que deverá servir a nada senão a mim. A outra é uma mulher, uma escrava, de pouco proveito, salvo que, sendo compelida, ela trabalhará em serviços de mulher para mim, mas quem ninguém mais deve compelir… Sim, mas o que é tudo isto para ti; ou para mim que eu deverei contá-lo a ti? Eu não te expulsarei; mas, se tua hospedagem não te agradar, não reclames dela para mim, mas parte segundo tua vontade. Agora, esta conversa entre nós está muito longa, já que, como tu vês, eu e este Filho de Rei estamos juntos a conversar. És tu um Filho de Rei?’

Não, Senhora,’ disse Walter, ‘eu sou somente o filho de mercadores.’

Não importa,’ ela disse: ‘segue teus caminhos para um dos aposentos.’

E imediatamente ela começou a falar ao homem que se sentava a seu lado sobre o canto dos pássaros sob a janela dela pela manhã e de como ela banhara-se, naquele dia, em um poço no bosque, quando tinha aquecido-se com caça, e assim por diante. Tudo como se não houvesse ninguém ali salvo ela e o Filho do Rei.

Mas Walter partiu todo envergonhado, como se ele fosse um homem pobre afastado da [77]porta de um parente rico. Ele disse a si mesmo que esta mulher era detestável, nada digna de amor e que era pouco provável que ela seduzi-o, apesar de todo a beleza do corpo dela.

Ninguém mais ele viu na casa aquela noite. Ele encontrou comida e bebida devidamente servidas sobre uma bela mesa e, depois disso, chegou a uma boa cama. Todas as coisas necessárias, mas nenhum filho de Adão para fazer-lhe serviço, dar-lhe boas vindas ou advertência. Mesmo assim, ele comeu, bebeu, dormiu e protelou o pensamento de todas essas coisas até o dia seguinte, tanto mais quanto ele esperava ver a amável donzela alguma vez entre o nascer e o pôr do sol naquele novo dia.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.72-77. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/72/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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