[78]Ele levantou-se cedo, mas não encontrou ninguém para cumprimentá-lo, nem havia qualquer som de pessoas movendo-se dentro da bela casa. Assim, ele apenas tomou seu café e, em seguida, saiu e passeou em meio às árvores, até que encontrou para si um córrego para banhar-se. Depois que ele lavara a noite de si, deitou-se debaixo de uma árvore perto dali por um tempo, mas logo voltou em direção da casa, com medo de que talvez a Donzela devesse chegar aqui e ele devesse perdê-la.
Deve ser dito que à metade de um tiro de arco a partir da casa desse lado (isto é, diretamente ao norte dali) ficava uma pequena mata de avelãs, e em torno, aqui e ali, as árvores eram de um tipo menor do que os carvalhos e castanheiras que ele atravessara antes, sendo principalmente de bétulas e sorvas e jovens freixos, com pequenos bosques entre elas. [79]Então agora ele atravessou o matagal e, chegando à borda do mesmo, contemplou a Senhora e o Filho do Rei andando juntos de mãos dadas, parecendo cheios de afeto.
Ele considerou indigno recuar e esconder-se, então ele foi em frente perto deles na direção da casa. O Filho do Rei fez-lhe careta enquanto ele passava. Mas a Senhora, sobre a bela face de quem chamejavam o alegres sorrisos da manhã, não prestou mas atenção a ele do que se ele fosse uma das árvores do bosque. Mas ela fora tão superior e desdenhosa com ele na noite anterior, que ele pensou pouco disso. O par passou, marginando o bosquete de avelãs, e ele não pôde escolher, somente virar os olhos para eles, tão intensamente a beleza da Senhora atraiu-os. Então sucedeu outra coisa; pois, atrás deles, os galhos das aveleiras separaram-se, e lá ficou de pé aquela pequena coisa maligna, ele ou outro do seu tipo; pois ele estava bem despido, salvo por sua cabeleira de cabelo castanho amarelado, e que tinha à cintura um cinto de couro, no qual estava preso uma feia faca de dois gumes. Ele ficou de pé direito por um momento, lançou seus olhos em [direção a] Walter e sorriu ironicamente, mas não como se ele o conhecesse; e dificilmente Walter pôde dizer se era aquele que ele vira antes ou outro. Em seguida, ele abaixou-se sobre sua barriga e começou [80]a rastejar através da extensa grama como uma serpente, seguindo os passos da Senhora e do amante dela; e agora, enquanto ele rastejava, Walter considerou, em seu asco, que a criatura era mais semelhante a um furão do que a qualquer outra coisa. Ele rastejou em maravilhosa rapidez e logo ficou fora de visão. Mas Walter permaneceu de pé olhando em busca dele por um tempo e, em seguida, deitou-se próximo à beira do bosque, para que ele pudesse observar a casa e a entrada dali; pois pensou, ‘agora talvez em breve a amável donzela vira aqui para confortar-me com uma palavra ou duas.’ Mas hora passou por hora e, entretanto, ela não vinha; e ainda ele assentava-se lá [junto com] o pensamento da Donzela, o anseio pela gentileza e sabedoria dela; até que não pôde conter as lágrimas e chorou pela falta dela. Em seguida, ele levantou-se, foi-se e sentou-se na varanda, e estava muito abatido de humor.
Mas, enquanto ele sentava-se ali, a Senhora retornava novamente, o Filho do Rei guiando-a pela mão. Eles entraram pela varanda e ela passou por ele tão perto que o cheiro da vestimenta dela preencheu todo o ar ao redor dele, e a elegância do flanco dela quase o tocou; de modo que ele não pôde deixar de notar que as vestes delas estavam um pouco desarrumadas e que ela mantinha sua mão direita (pois a esquerda o [81]Filho de Rei segurava) sobre seio para segurar o tecido junto ali, visto que o rico traje fora arrancado de seu ombro direito. Conforme eles passavam por ele, o Filho do Rei mais uma vez lhe fez uma careta, sem palavras, mas ainda mais ferozmente do que antes e, novamente, a Senhora não lhe deu atenção.
Depois deles terem ido por um tempo, ele entrou no salão e encontrou-o vazio de ponta a ponta; nenhum som nele salvo o tilintar da fonte, mais havia alimentos colocados sobre a mesa. Ele comeu e bebeu dali para manter a vida vigorosa dentro dele e, em seguida, saiu novamente para o bosque para vigiar e desejar. O tempo pendia pesado nas mãos dele por causa da falta da bela Donzela.
Ele era da opinião de não entrar na casa para seu descanso naquela noite, mas de dormir debaixo dos galhos da floresta. Mas, um pouco depois do pôr do sol, ele viu uma imagem resplandecente movendo-se em meios as imagens esculpidas da varanda e o Filho do Rei saiu, veio diretamente a ele e disse: ‘Tu és para entrar na casa, e vai para dentro de teu aposento imediatamente, e de jeito nenhum sair dele entre o pôr do sol e o nascer do sol. Minha Senhora não deseja [que vás] para longe com teu perambular em volta da casa no curso da noite.’
Após o que, ele virou-se e entrou [82]na casa novamente. Walter seguiu-o sobriamente, lembrando-se de como a Donzela mandara-o tolerar. Assim ele foi a seu quarto e dormiu.
Mas bem no meio da noite ele despertou e julgou que ouviu uma voz não muito longe, então saiu de mansinho da cama e espiou ao redor, com o receio de que, talvez, a Donzela tenha vindo para falar com ele, mas seu quarto estava escuro e vazio. Em seguida, ele foi à janela e olhou para fora, e viu a lua reluzindo brilhante e branca sobre o relvado. E Oh, a Senhora caminhando com o Filho do Rei, ele trajado em vestes finas e lascivas, mas ela em nada mais salvo o que Deus dera-lhe de cabelo dourado, comprido e fresco. Nessa altura Walter envergonhou-se de olhar para ela, vendo que havia um homem com ela, e voltou-se para sua cama. Mas, ainda um longo tempo até que ele dormisse novamente, ele teve a imagem diante de seus olhos da bela mulher sobre a orvalhada grama iluminada pela lua.
Os fatos do próximo dia ocorreram muito do mesmo modo, e do próximo dia também; salvo que a tristeza dele aumentara e ele adoeceu severamente de esperança diferida. No quarto dia, também a manhã consumiu-se como outrora. Mas, no calor da tarde, Walter buscou o bosquete de aveleiras e deitou-se lá, um pouco [83]asperamente, clareando [a mente] daquilo, e dormiu do cansaço mesmo da aflição. Ali, após um tempo, ele acordou, com palavras ainda pendentes nos ouvidos, e ele soube de uma vez que era eles dois juntos conversando.
O Filho do Rei há pouco acabara de falar e agora era a Senhora começando, na voz doce como mel dela, baixa mas forte, na qual existia mesmo um pouco de rouquidão. Ela disse: ‘Otto, talvez fosse melhor ter um pouco de paciência, até que nós descubramos o que o homem é e de onde ele vêm. Sempre será fácil nós nos livrarmos dele: é apenas uma palavra para nosso Rei Anão e será feito em uns poucos minutos.’
‘Paciência!’ disse o Filho do Rei, colericamente; ‘eu não sei como ter paciência com ele. Pois eu posso ver dele que ele é rude, violento e obstinado; um alguém astucioso, de baixo nascimento. Em verdade, ele teve paciência o suficiente comigo na outra noite, quando eu ralhei com ele, como o cão que ele é, e ele não teve coragem de dizer uma palavra para mim. Suavemente, enquanto ele seguia depois de mim, eu tive a intenção de virar-me e dar-lhe uma bofetada na face, para ver se eu podia somente extrair uma palavra irada dele.’
A Senhora riu e disse: ‘Bem, Otto, eu não sei; aquilo que tu consideras [84]covardia nele pode ser somente prudência e sabedoria, e ele um estrangeiro, distante de seus amidos e próximo de seus inimigos. Talvez nós devêssemos julgá-lo pelo que ele é. Enquanto isso, eu aconselho-te a não o tentes com bofetadas, salvo se ele estiver desarmado e com mãos limpas; ou senão eu considero que apenas um pouco depois tu deverás estar fraco de teu golpe.’
Agora, quando Walter ouviu as palavras dela e a voz na qual elas foram ditas, ele não pôde evitar ser mexido por elas, e para ele, completamente sozinho ali, eles pareciam amigáveis.
Mas ele permaneceu quieto, o Filho do Rei respondeu a Senhora e disse: ‘Eu não sei o que está em teu coração a respeito deste renegado, para que tu devesses zombar de mim com a valentia dele, da qual tu nada sabes. Se tu consideras-me indigno de ti, envia-me de volta a salvo ao país de meu pai. Eu posso buscar ter respeito lá; sim, e o amor de belas mulheres possivelmente.’
Após o que, pareceu como se ele estendesse as mãos à Senhora para acariciá-la, pois ela disse: ‘Não, não coloques tua mão em meu ombro, pois hoje e agora não é a mão do amor, mas do orgulho e da insensatez, e da pretensa superioridade. Nem tu deves erguer-te e deixar-me até que teu humor esteja mais suave e mais gentil para mim.’
[85]Em seguida, houve silêncio entre eles por um tempo, e depois disso o Filho do Rei falou em uma voz lisonjeira: ‘Minha deusa, eu suplico-te perdão! Mas podes tu admirar-te que eu tema teu cansaço de mim e que por isso eu esteja rabugento e ciumento? Tu, tão acima das Rainhas do Mundo, e eu, um pobre jovem, que sem ti fosse nada!’
Ela não respondeu nada e ele prosseguiu novamente: ‘Não é assim, Oh deusa, que este homem dos filhos de mercadores esteve pouco atento a ti, a tua amabilidade e a tua majestade?’
Ela riu e disse: ‘Talvez ele considere que não tinha muito a obter de nós, vendo-te sentado a nosso lado, e considerando que nós falamos com ele friamente, severamente e com desdém. Além disso, o pobre jovem estava deslumbrado e acanhado diante de nós; de tal modo que nós pudemos ver nos olhos e no semblante dele.’
Agora isso, ela falou tão gentil e docemente, que novamente Walter ficou todo mexido por causa disso. E veio-lhe à mente que isso podia ser [porque] ela sabia que ele estava perto e ouvindo-a, e que ela falava tanto para ele quanto para o Filho do Rei, mas o mesmo respondeu: ‘Senhora, tu não vês um pouco mais nos olhos dele, a saber, que eles olharam senão ultimamente [86]alguma bela mulher outra que não seja tu? Quanto a mim, eu considero isso não tão improvável, que no caminho para teu salão ele possa ter encontrado-se com tua Criada.’
Ele falou em uma voz vacilante, como se contraindo-se de alguma tempestade que pudesse vir. E verdadeiramente a voz da Senhora mudara conforme ela respondia, embora não houvesse nenhuma cólera exterior nela, antes era penetrante, impaciente e indiferente de uma vez. Ela disse: ‘Sim, o pensamento disso não é impróprio; mas nós não podemos ter sempre nossa escrava em mente. Se for como tu consideras, nós devemos chegar a saber disso mais provavelmente quando nós a encontrarmos. Ou se estiver arisca desta vez, então ela deve pagar o mais difícil por isso; pois nós a questionaremos junto a Fonte no Salão a respeito do que aconteceu próximo à Fonte da Rocha.’
Falou o Filho do Rei, vacilando ainda mais: ‘Senhora, [talvez] não fosse melhor questionar o homem mesmo? A Donzela é valente e não será prontamente dominada em uma narrativa verdadeiro; enquanto que o homem eu considero de nenhuma importância.’
‘Não, não,’ disse a Senhora rispidamente, ‘isso não deve ser.’
Em seguida ela silenciou por um tempo e depois disse: ‘Quanto a se o homem devesse provar ser nosso mestre?’
[87]‘Não, nossa Senhora,’ disse o Filho do Rei, ‘tu estás brincando comigo; tu, teu poder e tua sabedoria, e tudo que tua sabedoria pode comandar, ser subjugada por um vagabundo rústico.’
‘Mas como, se eu não te comandarei, Filho do Rei?’ disse a Senhora: ‘Eu digo-te conheço teu coração, mas tu não conheces o meu. Mas fica em paz! Pois desde que tu suplicaste por esta mulher … não, não com tuas palavras, eu tenho conhecimento, mas com tuas mãos trementes, teus olhos ansiosos e tuas sobrancelhas franzidas… eu digo, desde que suplicaste por ela tão sinceramente, ela deve escapar desta vez. Mas se isso será para o benefício dela a longo prazo, eu duvido de mim. Vê tu isso, Otto! Tu seguraste-me em teus braços tantas vezes. E agora tu podes partir se tu desejares.’
Pareceu a Walter como se o Filho do Rei estivesse estupefato diante das palavras dela: ele não respondeu nada, logo levantou-se do chão e seguiu seus caminhos lentamente na direção da casa. A Senhora deitou-se lá por pouco tempo e em seguida seguiu seus caminhos também; mas afastou-se da casa na direção do bosque na outra extremidade dali, por onde Walter primeiro chegou aqui.
[88]Quanto a Walter, ele estava confuso na mente e abalado em espírito. Igualmente ele parecia ver malícia e atos cruéis na conversa daqueles dois, e com isso ira aumentada. Contudo, ele disse a si mesmo, que nada ele podia fazer, mas estava como alguém com a mão e o pé confinados, até que ele visse a Donzela novamente.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.78-88. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/78/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário