A Raça Vindoura - Capítulo V

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[18]Uma voz abordou-me – uma voz muito calma e de um tom muito musical – em uma linguagem da qual eu não podia entender uma palavra, mas [que] serviu para dissipar meu medo. Eu descobri meu rosto e olhei para cima. O estranho (eu dificilmente faria a mim mesmo chamá-lo de homem) inspecionou-me com um olho que parecia ler as profundezas mesmas de meu coração. Em seguida, ele colocou a mão esquerda sobre minha testa e com o bastão em sua direita tocou meu ombro. O efeito deste contato duplo foi mágico. No lugar de meu antigo terror ali passou para mim uma sensação de contentamento, de alegria, de confiança em mim mesmo e no ser diante de mim. Eu ergui-me e falei em minha própria língua. Ele ouviu-me com atenção aparente, mas com uma leve surpresa em seu aspecto; e sacudiu sua cabeça, como se para significar que eu não fui entendido. Ele [19]então me tomou pela mão e guiou-me em silêncio para o prédio. A entrada estava aberta – de fato não havia porta para ela. Nós entramos em um imenso salão, iluminado pelo mesmo tipo de brilho como no cenário de fora, mas difundindo um perfume fragrante. O piso estava em grande [parte] decorado com blocos de mosaicos de metais preciosos, e parcialmente coberto com um tipo de carpete semelhante a um tapete. A tensão de uma música baixa, acima e ao redor, ondulava como se a partir de instrumentos invisíveis, parecendo pertencer naturalmente ao lugar, exatamente como o som de águas murmurantes pertence à paisagem rochosa, ou o gorjeio dos pássaros aos bosques primaveris.

Uma figura, em um traje mais simples do que aquele de meu guia, mas de estilo similar, estava de pé imóvel próximo à entrada. Meu guia tocou-a duas vezes com o bastão dele e ela pôs-se em um movimento rápido e deslizante, roçando sem som sobre o chão. Olhando para ela, eu então vi que não era uma forma viva, mas um autômato mecânico. Podia ser dois minutos até ele ter desaparecido através de uma abertura sem porta, meio oculta por cortinas na outra extremidade do salão, quando, através da mesma abertura, avançou um garoto de [20]aproximadamente doze anos, com feições intimamente semelhantes às de meu guia. Ao ver-me, a criança soltou um grito e ergueu um bastão como aquele carregado por meu guia, como se em ameaça. Numa palavra do ancião ele largou-o. Os dois então conversaram por alguns momentos, examinando-me enquanto eles falavam. A criança toucou minhas roupas e afagou meu rosto com curiosidade evidente, soltando um som com um riso, mas com uma hilaridade mais moderada do que o regozijo de nossa risada. Logo, a cobertura do salão abriu e a plataforma desceu, aparentemente construída segundo o mesmo principio dos ‘elevadores’ usados em hotéis e armazéns para subir de um andar para o outro.

O estranho pôs a si mesmo assim como a criança na plataforma e gesticulou para eu fazer o mesmo, o que fiz. Nós subimos rápida e seguramente e descemos no meio de um corredor com vãos de porta em cada lado.

Através de um desses vãos de porta eu fui conduzido para dentro de uma câmara mobiliada com esplendor oriental: as paredes eram decoradas com mosaicos de minerais cliváveis, [21]metais e joias brutas; almofadas e divãs abundavam; aberturas como para janelas, mas sem vidro, foram feitas na câmara, abrindo para o piso; e enquanto eu passava observei que essas aberturas levavam para dentro de varandas espaçosas com visões ordenadas da paisagem iluminada de fora. Em celas suspensas a partir do teto haviam pássaros de forma estranha e plumagem brilhante, os quais, mediante a nossa entrada, elevaram um coro de música, modulado em um tom como é aquele de nossos dom-fafes aflautados. Uma fragrância deliciosa, [oriunda] de turíbulos de ouro elaboradamente esculpidos, preencheu o ar. Vários autômatos, como o que eu vira, estavam de pé mudos e imóveis próximos às paredes. O estranho colocou-me atrás dele em um divã e novamente falou comigo assim como outra vez eu falei, mas sem o mínimo avanço na direção do entendimento entre nos.

Mas agora, eu comecei a sentir os efeitos da pancada que recebera dos estilhaços de rochas cadentes mais agudamente que eu sentira no início.

Ali, dominou-me uma sensação de desmaio doentio, acompanhada de dores agudas, lancinantes, na cabeça e no pescoço. Eu afundei no assento e [22]esforcei-me em vão para sufocar um gemido. Nisto, a criança, que até agora parecera olhar com desconfiança ou aversão, ajoelhou-se a meu lado para apoiar-me. Tomando uma de minhas mão em ambas as suas, ele aproximou seus lábios de minha testa, respirando suavemente sobre ela. Em uns poucos minutos, minha dor cessou; uma calma feliz e sonolenta arrastou-se sobre mim; eu adormeci.

Por quanto tempo eu permaneci neste estado não sei, mas quando acordei senti-me perfeitamente restaurado. Meus olhos abriram sobre um grupo de formas silenciosas, sentadas a meu redor na gravidade e quietude orientais – todos mais ou menos como o primeiro estranho; as mesmas asas na forma de manto, a mesma moda de vestuário, as mesmas faces semelhantes a esfinge, com os olhos profundamente negros e a cor do homem vermelho; sobretudo, o mesmo tipo de raça – raça aparentada a do homem, mas infinitamente mais forte e grandiosa de aspecto, e inspirando o mesmo sentimento inexprimível de pavor. Contudo, cada semblante era suave, tranquilo e mesmo amável em sua expressão. E, estranho o suficiente, parecia a mim que nesta calma e benignidade mesmas consistia o segredo do medo que seus semblantes inspiravam. Eles pareciam tão vazios das linhas e sombras que [23]o cuidado e o sofrimento, a paixão e o pecado, deixam nas faces dos homens, como são as faces dos deuses esculpidos, ou como, aos olhos de cristãos enlutados, parecem as frontes pacíficas dos mortos.

Eu senti uma mão quente sobre meu ombro; era da criança. Nos olhos dele havia um tipo de compaixão altiva e ternura, tal como aquela com a qual nós podemos contemplar algum pássaro ou borboleta sofredores. Eu recuei daquele toque – recuei daquele olho. Eu estava vagamente impressionado com a convicção que, assim ele desejasse, aquela criança podia ter matado-me tão facilmente quanto um homem mata um pássaro ou uma borboleta. A criança parecia magoada diante de minha repugnância; abandonou-me e colocou-se perto de uma das janelas. Os outros continuaram a conversar um com o outro em um tom baixo e, através de suas olhadas em minha direção, eu pude perceber que era o objeto da conversação deles. Um em especial parecia insistir em alguma proposta afetando-me, junto ao ser que eu primeiro encontrara, e este último, por seu gesto, parecia próximo de concordar com ela, quando a criança subitamente abandonou seu posto próximo à janela, colocou-se entre mim e as outras duas formas, como se em proteção, e falou rápida [24]e avidamente. Por alguma intuição ou instinto e senti que a criança que eu tinha antes temido tanto estava suplicando em meu favor. Antes que ele parasse outro estranho entrou na sala. Ele parecia mais velho do que o resto, embora não velho; seu semblante, menos suavemente sereno do que os deles, embora igualmente regular em suas feições, parecia a mim ter mais do toque de uma humanidade semelhante a minha mesma. Ele ouviu quietamente às palavras dirigidas a ele, primeiramente por meu guia, depois pelos dois outros do grupo, e finalmente pela criança; em seguida virou-se para mim e dirigiu-se a mim, não com palavras, mas através de sinais e gestos. Esses eu imaginei que entendi perfeitamente e não fui enganado. Eu compreendi que ele perguntou de onde eu vinha. Eu estendi meu braço e apontei na direção da estrada que me conduzira [a partir] do abismo na rocha; então uma ideia capturou-me. Eu saquei meu livro de apontamentos e esbocei em uma de suas folhas em branco um desenho grosseiro da elevação da rocha, da corda e de mim mesmo agarrando-me a ela; em seguida de uma rocha cavernosa abaixo, da cabeça do reptil e da forma sem vida do meu amigo. Eu dei este tipo primitivo de hieroglifo [25]a meu interrogador, que, depois de inspecioná-lo gravemente, entregou-o a seu próximo vizinho, e ele deste modo passou ao redor do grupo. Então, o ser que eu encontrara primeiro disse umas poucas palavras e a criança, que se aproximou e olhou para meu desenho, acenou com a cabeça como se ela compreendesse intenção dele, e, retornando à janela, expandiu as asas apensas à sua forma, sacudi-as uma ou duas vezes e em seguida se lançou ao espaço de fora. Eu irrompi em assombro e apresei-me para a janela. A criança já estava no ar, flutuando sobre suas asas, as quais ela não batia para lá e para cá como um pássaro faz, mas que ficavam elevadas sobre sua cabeça e pareciam suportá-lo firmemente no alto sem esforço de si próprio. Seu voo parecia tão veloz quanto o de qualquer águia e eu observei que era na direção da rocha de onde eu descera, da qual o contorno assomava visível na atmosfera brilhante. Em poucos minutos ele retornou, passando levemente através da abertura pela qual ele fora e largando no chão o cabo e os ganchos que eu deixara na descida do abismo. Algumas palavras em um tom baixo passaram entre os seres presentes: [26]um do grupo tocou um autômato, o qual começou a avançar e deslizou [para fora] da sala; em seguida, o último que chegou – que se dirigiu a mim por gestos – tomou-me pela mão e guiou-me para o corredor. Lá a plataforma pela qual eu subira aguardava-nos. Nós nos colocamos sobre ela e fomos baixados no salão abaixo. Meu novo companheiro, ainda segurando-me pela mão, conduziu-me do prédio a uma rua (por assim dizer) que se estendia para além dele, com prédios em cada lado, separados uns dos outros por jardins iluminados por vegetação ricamente colorida e flores estranhas. Intercalados no meio desses jardins, os quais eram divididos uns dos outros por paredes baixas, ou andando lentamente ao longo da estrada, estavam muitas formas semelhantes àquelas que já vira. Alguns dos transeuntes, ao observar-me, abordaram meu guia, evidentemente por seus tons, aspectos, e gestos dirigindo a ele perguntas sobre mim mesmo. Em poucos minutos uma multidão reuniu-se ao redor de nos, examinando-me com grande interesse, como se eu fosse algum raro animal selvagem. Contudo, mesmo ao satisfazerem sua curiosidade, eles preservaram um comportamento grave e cortês e, [27]após algumas palavras de meu guia, que parecia para mim desaprovar obstrução em nosso caminho, eles recuaram com uma imponente inclinação de cabeça, e retomaram seus próprios caminhos com tranquila indiferença. Ao meio do caminho nesta estrada, nós paramos diante de um prédio que diferia dos outros pelos quais até agora nós passáramos, na medida em que ele formava três lados de uma vasta quadra, nos ângulos da qual ficavam altivas torres piramidais. No espaço aberto entre os lados havia uma fonte circular de proporções colossais e atirando um deslumbrante borrifo do que me parecia fogo. Nos entramos no prédio através de uma porta aberta e chegamos a um enorme salão, no qual estavam vários grupos de crianças, todas aparentemente empregadas em trabalho, como em alguma grande fábrica. Havia um grande motor na parede que estava em pleno movimento, com rodas e cilindros semelhantes aos nossos próprios motores a vapor, exceto que era ricamente ornamentado com pedras preciosas e metais e parecia emanar uma pálida atmosfera fosforescente de luz inconstante. Muitas das crianças estavam em algum trabalho misterioso nesta maquinaria, outras estavam sentadas perante as mesas. Eu não fui [28]permitido a demorar o suficiente para examinar a natureza de seu emprego. Nem uma jovem voz foi ouvida – nem uma jovem face virou-se para olhar-nos. Eles estavam todos calmos e indiferentes como podem estar fantasmas, embora através de cujo meio passassem despercebidas as formas dos vivos.

Deixando este salão, meu guia conduziu-me através de uma galeria ricamente pintada em compartimentos, com uma mistura bárbara de ouro nas cores, como retratos de Louis Cranach. Os tópicos descritos nessas paredes pareciam, para meu olhar, como planejados para ilustrar a história da raça em meio a qual eu fui admitido. Em tudo ali havia figuras, a maioria delas como as criaturas semelhantes aos homens que eu vira, mas nem todas na mesma moda de vestuário, nem todas com asas. Havia também efígies de vários animais e pássaros inteiramente estranhos para mim, com fundos retratando paisagens ou construções. Tão longe quanto meu conhecimento imperfeito de arte pictórica permitir-me-ia formar uma opinião, aquelas pinturas pareciam muitas precisas no desenho e muito ricas em coloração, mostrando um conhecimento perfeito de perspectiva, mas os detalhes delas não [eram] organizados de acordo com as regras [29]de composição reconhecidas por nossos artistas – carecendo, como estavam, de um centro; de modo que o efeito era vago, difuso, confuso, desconcertante – eles eram fragmentos heterogêneos de um sonho de arte.

Nós agora chegamos a uma sala de tamanho moderado, na qual estava reunida o que eu depois soube ser a família de meu guia, sentada à mesa espalhada como para repasto. As figuras deste modo reunidas eram as da esposa de meu guia, de sua filha e de dois filhos. Eu reconheci imediatamente a diferença entre os sexos, embora as duas mulheres fossem de estatura mais alta e proporções mais amplas que os homens e os semblantes delas, se ainda mais simétricos no perfil e no contorno, eram isentos da suavidade e da timidez de expressão que davam charme ao rosto da mulher como visto sobre a terra acima. A esposa não usava asas e a filha usava asas mais lonas do que aquelas dos homens.

Meu guia proferiu umas poucas palavras, em que todas as pessoas sentadas levantaram-se e, com aquela peculiar suavidade de aparência e maneira a qual que notei antes e que é, em verdade, o atributo [30]comum desta raça formidável, eles saudaram-me de acordo com a maneira deles; a qual consiste em colocar a mão direta muito gentilmente sobre a cabeça pronunciando um suave monossílabo sibilante – S.Si, equivalente a “Bem-vindo.”

A senhora da casa, então, sentou-me ao lado dela e encheu um prato dourado diante de mim [a partir] de um dos pratos.

Enquanto eu comia (e ainda que os mantimentos fossem novos para mim, eu maravilhei-me mais nas guloseimas do que na estranheza do sabor delas), meus companheiros conversaram quietamente, e, tão longe quanto eu pude detectar, com evasão polida de qualquer referência direta a mim mesmo, ou qualquer escrutínio intrusivo de minha aparência. Contudo, eu era a primeira criatura daquela variedade da raça humana a qual eu pertenço que eles alguma vez contemplaram, e, consequentemente, fui considerado por eles como um fenômeno curioso e anormal. Mas toda grosseria é desconhecida por este povo, e o filho mais jovem é ensinado a desprezar qualquer forte demonstração emocional. Quando a refeição terminara, meu guia novamente me tomou pela mão, e, reentrando na galeria, tocou uma placa metálica inscrita com figuras estranhas e [31]a qual eu corretamente conjecturei ser da natureza de nossos telégrafos. A plataforma desceu. Mas desta vez nós subimos para uma elevação muito maior do que no antigo prédio e encontramos a nós mesmos em uma sala de dimensões moderadas que, em seu caráter geral, tinha muito que podia ser familiar às associações de um visitante do mundo de cima. Havia estantes na parede contento o que pareciam ser livros e assim de fato eram: na sua maior parte muito pequenos, como nossos duodécimos de diamante, formados no estilo de nossos volumes e encadernados em finas folhas de metal. Havia várias peças de mecanismo curiosas de se olhar, espalhadas em volta, aparentemente modelos, tais como podiam ser vistos no estúdio de qualquer mecânico profissional. Quatro autômatos (aparelhos mecânicos que, com essas pessoas, respondem aos propósitos ordinários do serviço doméstico) ficavam de pé como fantasmas em cada ângulo da parede. Em um recuo ficada um sofá baixo, ou cama com travesseiros. Uma janela – com cortinas afastadas para o lado e de algum material fibroso – abria-se sobre um grande terraço. Meu anfitrião pôs o pé no terraço; eu o segui. Nós estávamos no andar mais elevado de uma das [32]pirâmides angulares. A visão além era de uma beleza selvagem e solene, impossível de descrever: as vastas faixas de rochas escarpadas, as quais formavam o fundo distante; os vales intermediários de místicas pastagens de muitas cores; o esguicho das águas, muitas delas como córregos de chamas róseas; o brilho sereno espalhado sobre todos por uma miríade de lâmpadas; combinadas para formar um todo do qual nenhuma palavra minha pode transmitir descrição adequada. Tão esplêndido era, contudo tão sombrio; tão amável, porém tão terrível.

Mas minha atenção logo foi desviada dessas paisagens inferiores. Subitamente ali surgiu, a partir das ruas abaixo, uma explosão de música alegre. Em seguida, uma forma alada elevou-se no espaço; outra, como em perseguição à primeira, outra e outra; outras depois de outras, até que a multidão tornou-se espessa e o número sem conta. Mas, como descrever a graça fantástica dessa formas em seu movimentos ondulados! Elas pareciam ocupadas com algum esporte ou entretenimento: agora formando esquadrões opostos; agora se espalhando; agora cada grupo atravessando o outro, subindo, descendo, entrelaçando-se, separando. Tudo em tempo medido pela [33]música abaixo, como se na dança do lendário Peri.

Eu virei meu olhar para meu anfitrião em uma admiração febril. Eu ousei por minha mão sobre as longas asas que se deitavam dobradas sobre o peito dele e, ao fazê-lo, um choque leve como de eletricidade atravessou-se. Eu recuei de medo. Meu anfitrião sorriu, e, como se cortesmente para gratificar minha curiosidade, lentamente expandiu as pontas de suas asas. Eu observei que o traje abaixo então tornou-se dilatado como uma bexiga que se enche com ar. Os braços pareceram deslizar para dentro das asas e, em outro momento, ele lançara-se à atmosfera luminosa; pairou lá, calmo e com asas estendidas, como uma águia que se aquece ao sol. Em seguida, rapidamente como uma águia arrebata, ele apressou-se para baixo em meio a um dos grupos, roçando através do meio e, tão subitamente, outra vez voando alto. Nisso, três formas, em uma das quais eu pensei reconhecer a filha de meu anfitrião, destacaram-se do resto, e seguiram-no como um pássaro esportivamente segue um pássaro. Meus olhos, deslumbrados com as luzes e aturdidos pelas multidões, pararam para distinguir [34]as rotações e evoluções desses companheiros de brincadeira, até que logo meu anfitrião ressurgiu da multidão e pousou ao meu lado.

A estranheza de tudo que eu vira começava agora a operar rápido sobre meus sentidos; minha mente mesma começou a passear. Embora não inclinado a ser supersticioso, nem até agora a acreditar que o homem pudesse ser trazido à comunicação física com demônios, eu senti terror e excitação selvagem com o que, nas idades Góticas, um viajante podia ter persuadido a si mesmo que ele testemunhara um sabá de demônios e bruxas. Eu tenho uma lembrança vaga de ter tentado, com gesticulação veemente, formas de exorcismo e incoerente palavras em voz alta, repelir meu anfitrião cortês e indulgente; de seus moderados esforços para acalmar-me e abrandar-me; de sua conjectura inteligente de que meu susto e perplexidade foram ocasionados pela diferença de forma e movimento entre nós, a qual as asas, que excitaram minha curiosidade maravilhosa, tinham, em exercício, tornado ainda mais fortemente perceptível; do sorriso gentil com o qual ele buscou dissipar meu alarme ao soltar as asas no chão e esforçando-se para mostrar-me [35]que elas eram somente uma invenção mecânica. Aquela transformação súbita somente aumentou meu horror e, como susto extremo as vezes mostra-se por intermédio de extrema ousadia, eu pulei em seu pescoço como uma besta selvagem. Em um instante, eu fui derrubado no chão como por um choque elétrico, e as últimas imagens confusas flutuante diante da minha visão, até que me tornei inteiramente inconsciente, foram a forma de meu anfitrião ajoelhando-se diante de mim, com uma mão em minha testa, e a face bela e calma da filha dele, com olhos inescrutáveis, profundos, grandes e fixados sobre mim.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 18-35. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/18/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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