A Floresta além do Mundo - Capítulo XI Walter depara-se com a Senhora

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[72]Era apenas um pouco depois de meio-dia quando Walter deixou a Donzela para trás. Ele dirigiu-se para o sul de acordo com o sol, como a Donzela mandara-lhe, e prosseguiu rapidamente; pois, como um bom cavaleiro dirigindo-se à batalha, o tempo parecia-lhe longo até que ele devesse encontrar o inimigo.

Então, uma hora antes do pôr do sol, ele viu algo branco e alegre brilhando através dos troncos de carvalhos e, em breve, havia claro diante dele uma casa muito magnífica construída de mármore branco, toda entalhada ao redor com laços e imagens. O povo cinzelado estava todo pintado de suas cores vivas, quer fosse a da vestimenta deles ou de sua carne, e as habitações nas quais eles estavam de pé todas trabalhadas com ouro e belos tons. Alegres eram as janelas da casa e havia um alpendre com colunas [73]na frente da porta grande, com imagens entre os pilares igualmente de homens e bestas. Quando Walter olhou para cima para o teto da casa, viu que o mesmo cintilava e brilhava; pois todos os azulejos eram de metal amarelo, o qual ele considerou ser de ouro mesmo.

Tudo isto ele via conforme ele passava e não se demorou ao contemplar aquilo; pois ele disse, ‘provavelmente haverá tempo para eu olhar para tudo isto antes de morrer’. Mas ele disse também que, embora a casa não fosse a maior [de todas], estava além de comparação com todas as casas do mundo.

Assim sendo, ele entrou na casa pela varanda e chegou a um salão de muitas colunas e abobadado por cima; as paredes pintadas com ouro e ultramarino, o piso escuro e coberto com lantejoulas de muitas cores, e as janelas esmaltadas com laços e retratos. Bem no centro dali ficava uma fonte de ouro, de onde a água corria por dois caminhos em arroios revestidos de ouro, prolongados duas vezes com pequenas pontes de prata. Comprido era aquele salão, e agora não muito claro, de modo que Walter passou a fonte antes que ele visse alguma pessoa ali. Em seguida, ele olhou para cima, na direção do assento elevado, e pareceu-lhe que uma grande luz brilhava de lá e ofuscava os olhos dele. Ele prosseguiu um pouco e então caiu sobre os joelhos; pois ali, diante dele, no [74]assento elevado, sentava-se aquela Senhora maravilhosa, cuja a imagem viva fora mostrada a ele três vezes antes, e ela estava envolta em ouro e joias; como ele primeiro a vira. Mas agora, ela não estava sozinha; pois ao lado dela sentava-se um jovem, vistoso o suficiente, até onde Walter podia vê-lo, e muito ricamente vestido, com uma espada cheia de joias a seu lado e uma coroa de gemas sobre cabeça dele. Eles seguravam um ao outro pela mão, e pareciam estar juntos em estimada conversa; mas falavam suavemente, de modo que Walter não podia ouvir o que diziam, até que finalmente o homem falou em voz alta com a Senhora: ‘Tu não vês que há um homem no salão?’

Sim,’ ela disse, ‘Eu vejo-o acolá, ajoelhando-se sobre os joelhos dele; deixe-o vir mais perto e dar algum relato de si mesmo.

Então Walter colocou-se de pé, aproximou-se e ficou de pé ali, todo envergonhado e confuso, olhando para aquele par, e maravilhando-se diante da beleza da Senhora. Quanto ao homem, que era magro, de cabelos negros e de aspecto ereto; por toda a grandiosidade dele Walter considerava-lhe pouco, e de maneira alguma o considerou parecer com um chefe.

Agora, a Senhora não falou para Walter algo mais do que antes; mas finalmente o homem disse: [75]‘Por que tu não te ajoelhas como tu fizeste um pouco antes?’

Walter estava a ponto de devolver-lhe uma resposta cruel, mas a Senhora falou e disse: ‘Não, amigo, não importa se ele ajoelha-se ou permanece de pé. Mas ele pode dizer, se ele quiser, o que ele teria de mim e porque ele veio aqui.’

Em seguida falou Walter, tão irado e envergonhado quanto ele estava: ‘Senhora, eu perdi-me nesta terra e cheguei a tua casa como suponho. Se não for bem-vindo, bem posso partir imediatamente, e procurar um caminho para fora de tua terra, se tu me conduzires daí, bem como para fora de tua casa.’

Depois disso, a Senhora virou-se e olhou para ele e, quando os olhos dela encontraram os dele, ele sentiu uma aflição de medo e desejo misturados disparar através de seu coração. Desta vez ela falou para ele; mas friamente, sem qualquer ira ou qualquer pensamento nele: ‘Recém-chegado,’ ela disse, ‘eu não te convidei para cá; mas aqui tu podes permanecer por um tempo, se tu desejares. Mesmo assim, fica atento que aqui não é Corte de Rei. Há, verdadeiramente, um povo que me serve (ou, pode ser, mais de um), de quem tu ficaste melhor de não saber nada. Quanto a outros, eu tenho somente dois servos, quem tu verás. Um é [76]uma criatura estranha; que te assustaria ou prejudicar-te-ia com uma boa vontade, mas de uma boa vontade que deverá servir a nada senão a mim. A outra é uma mulher, uma escrava, de pouco proveito, salvo que, sendo compelida, ela trabalhará em serviços de mulher para mim, mas quem ninguém mais deve compelir… Sim, mas o que é tudo isto para ti; ou para mim que eu deverei contá-lo a ti? Eu não te expulsarei; mas, se tua hospedagem não te agradar, não reclames dela para mim, mas parte segundo tua vontade. Agora, esta conversa entre nós está muito longa, já que, como tu vês, eu e este Filho de Rei estamos juntos a conversar. És tu um Filho de Rei?’

Não, Senhora,’ disse Walter, ‘eu sou somente o filho de mercadores.’

Não importa,’ ela disse: ‘segue teus caminhos para um dos aposentos.’

E imediatamente ela começou a falar ao homem que se sentava a seu lado sobre o canto dos pássaros sob a janela dela pela manhã e de como ela banhara-se, naquele dia, em um poço no bosque, quando tinha aquecido-se com caça, e assim por diante. Tudo como se não houvesse ninguém ali salvo ela e o Filho do Rei.

Mas Walter partiu todo envergonhado, como se ele fosse um homem pobre afastado da [77]porta de um parente rico. Ele disse a si mesmo que esta mulher era detestável, nada digna de amor e que era pouco provável que ela seduzi-o, apesar de todo a beleza do corpo dela.

Ninguém mais ele viu na casa aquela noite. Ele encontrou comida e bebida devidamente servidas sobre uma bela mesa e, depois disso, chegou a uma boa cama. Todas as coisas necessárias, mas nenhum filho de Adão para fazer-lhe serviço, dar-lhe boas vindas ou advertência. Mesmo assim, ele comeu, bebeu, dormiu e protelou o pensamento de todas essas coisas até o dia seguinte, tanto mais quanto ele esperava ver a amável donzela alguma vez entre o nascer e o pôr do sol naquele novo dia.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.72-77. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/72/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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