[97]Então agora as mulheres levaram-nos para cima, ao longo do córrego, e Hallblithe foi lado a lado com o Sea-eagle. Mas, de modo geral, as mulheres tornaram-se felizes novamente; brincavam e corriam ao redor deles tão brincalhonas quanto jovens cabras. Elas patinharam pelo raso do claro córrego brilhante, de pés descalços para lavar os membros delas da salmoura do mar, e extraviaram-se ao redor dos prados, colhendo as flores e fazendo delas grinaldas e coroas, as quais elas arranjaram sobre elas mesmas e sobre o Sea-eagle; mas Hallblithe elas não tocaram, pois elas ainda o temiam. Eles prosseguiram conforme o córrego conduzia-os acima na direção das colinas e os campos ao redor deles eram sempre tão belos e floridos quanto podiam ser. Pessoas eles viram longe, mas não se encontraram com nenhuma por um bom tempo, exceto um homem e uma moça – vestidos levemente como para os dias do solstício de verão – os quais estavam vagando juntos, amorosa e felizmente, ao lado do córrego e que olharam pensativamente para o forte Sea-eagle e para [98]Hallblithe com sua lança cintilante. A donzela de cabelos negros cumprimentou esses dois e falou alguma coisa com eles. Eles riram alegremente; o homem curvou-se em meio à grama e às flores da ribanceira, sacou uma cesta, espalhou alimentos saborosos sobre a grama debaixo de um salgueiro e convidou-os para serem seus convivas aquela bela tarde. Então eles sentaram-se ali, acima do córrego brilhante, comeram, beberam e ficaram felizes. Depois disso, os recém-chegados e seus guias de caminho partiram com gentis palavras e calmamente firmaram suas faces na direção das colinas.
Finalmente eles viram diante deles uma pequena colina arborizada e abaixo dela algo vermelho, brilhando, e coisas de outras cores cintilando sob o sol ao redor. Então disse o Sea-eagle: “O que temos nós acolá?” Disse a donzela: “Aquele é o pavilhão do Rei e ao redor dele estão as tendas e toldos de nosso povo, que são a companhia dele; pois frequentemente ele habita nos campos com eles, embora ele tenha casas e salões tão belos quanto o coração homem pode conceber.” “Não tem ele nenhum inimigo a temer?” disse o Sea-eagle. “Como isso poderia ser?” disse a donzela. “Se, por acaso, quaisquer [inimigos] chegassem a esta terra para trazer guerra sobre ele, a cólera de batalha deles deveria deixá-los, uma vez que a felicidade da Planície Cintilante entrasse em suas almas, e eles não pediriam por nada somente deixar [99]ficar para residir aqui e ser felizes. Contudo, eu acredito que, se ele tivesse inimigos, poderia esmagá-los tão facilmente quanto eu ponho meu pé sobre esta margarida.”
Então, conforme eles continuavam, encontraram-se com muitas pessoas, homens e mulheres, exercitando-se e brincando nos campos. Não havia nenhuma semelhança de velhice em qualquer um deles e nem cicatriz, deformidade ou fraqueza de corpo ou tristeza de semblante; nem qualquer um portava uma arma ou qualquer parte de armadura. Imediatamente, alguns deles reuniram-se ao redor dos recém-chegados e maravilharam-se diante de Hallblithe, sua longa lança, seu elmo brilhante e cota de malha cinza escura; mas ninguém perguntou a respeito eles, pois todos sabiam que eles eram gente recém-chegada à felicidade da Planície Cintilante. Então eles passaram no meio desse belo povo, pouco impedidos por eles, e passou pelos pensamentos de Hallblithe quão feliz a sociedade de tais [pessoas] seria e como o coração dele seria elevado pela visão deles, se somente sua donzela prometida estivesse a seu lado.
Deste modo, em seguida, eles chegaram ao pavilhão do Rei, onde ele levantava-se em uma angra da campina ao pé da colina, com o bosque ao redor dele por três lados. Hallblithe considerou que nunca vira uma casa tão bela; pois era trabalhada por toda a parte com histórias e flores, com bordas costuradas com ouro e com bordaduras de ouro, pérola e gemas.
[100]Lá, à porta do pavilhão, sentava-se o Rei da Terra em uma cadeira de marfim; ele estava envolto em uma toga dourada, circundado à cintura com um cinto de gemas e tinha a coroa em sua cabeça e a espada a seu lado. Visto que esta era a hora na qual ele ouvia o que qualquer um de seu povo diria a ele e, para esse mesmo fim, sentava-se à porta de sua tenda. As pessoas ficavam de pé diante dele, sentando-se ou deitando-se sobre a grama em volta aqui e ali; e agora uma, agora outra, vinha a ele e falava diante dele.
A face dele brilhava como uma estrela; era excessivamente bela e tão gentil quanto a noite de Maio nos jardins do ditoso, quando o perfume da madressilva preenche todo o ar. Quando ele falou, sua voz era tão doce que todos os corações foram arrebatados e ninguém podia contradizer-lhe.
Mas, quando Hallblithe pôs os olhos nele, soube imediatamente que este era aquele de quem a imagem ele vira no salão dos Saqueadores; seu coração bateu rápido e disse a si mesmo: “Levanta tua cabeça, Oh Filho do Corvo, fortalece teu coração e não permitas que nenhum homem ou deus intimide-te. Pois agora pode teu coração mudar, o qual te ordenou a ir à casa de onde era devido a ti tomar o prazer de uma mulher e, naquele lugar, empenhar tua confiança e sinceridade àquela que te ama mais e anseia por ti dia a dia e hora por hora, tão grande é o amor que nós dois fortalecemos.”
[101]Agora eles aproximaram-se, pois as pessoas retrocederam diante deles para a direita e para a esquerda, como diante de homens que são recém-chegados e têm muito a fazer; de modo que não havia nada entre eles a face do Rei. Ele apenas sorriu para eles, de modo que alegrou seus corações com a esperança de realização dos desejos deles e disse: “Bem-vindo, filhos! Quem são esses que vós trouxestes aqui para aumentar nossa alegria? Quem é este homem alto, de face corada e alegre, tão adequado para a felicidade da Planície Cintilante? E quem é este jovem vistoso e adorável, que carrega armas no meio de nossa paz, e de quem a face está triste e severa debaixo do brilho do elmo dele?”
Disse a donzela de cabelos negros: “Oh Rei! Oh Doador de dádivas e assegurador de júbilo! Este alto é ele que esteve uma vez oprimido pela velhice e que veio aqui para ti da Ilha do Resgate, de acordo com o costume da ilha.” Disse o Rei: “Homem alto, bom é que você tenha chegado. Agora teus dias estão mudados e tu ainda vivo. Para ti, a batalha está terminada, e com isso o prêmio da batalha, que o guerreiro não se lembre em meio aos golpes árduos. A paz começou, e tu não necessitas ser cuidadoso pelo sofrimento [da batalha]; pois, nesta terra, nenhum homem tem uma carência a qual ele não pode satisfazer sem tomar [102]algo de algum outro. Eu não considero que teu coração possa conceber um desejo que eu não deverei realizar para ti, ou almejar um dom o qual eu não deverei dar a ti.”
Em seguida, o Sea-eagle riu de alegria e virou a cabeça por aqui e por ali, de modo que podia aproveitar melhor para ele os sorrisos de todos os que estavam de pé ao redor.
Em seguida, o Rei disse a Hallblithe: “Tu também és bem-vindo. Eu conheço-te quem tu és, afigurou-se grande alegria esperar-te e eu realizarei teu desejo ao máximo.”
Disse Hallblithe: “Oh grande Rei de uma terra feliz, eu não te peço nada salvo aquilo que ninguém deve retirar de mim sem ser amaldiçoado.”
“Eu o darei a ti,” disse o Rei, “e tu deves exaltar-me. Mas o que é essa coisa que tu desejavas? O que mais tu podes ter do que os Dons da terra?”
Disse Hallblithe: “Eu vim aqui não buscando dons, mas ter o meu próprio novamente; e esse é o amor em pessoa de minha donzela prometida. Eles roubaram-na de mim e a mim dela; pois ela amava-me. Eu desci ao mar e não a encontrei, nem a embarcação em que a carregaram para longe. Eu velejei daí para a Ilha do Resgate, pois ele contaram-me que ali eu devia comprá-la por um preço; tampouco estava o corpo dela ali. [103]Mas a imagem dela chegou a mim em um sonho da noite e ordenou-me procurá-la aqui. Portanto, Oh Rei, se ela está na região, mostre-me como eu posso encontrá-la; e se ela não está aqui, mostre-me como eu posso partir para procurá-la em outro lugar. Esta é toda minha solicitação.”
Disse o Rei: “Teu desejo deve ser satisfeito; tu deves ter a mulher que te teria e a quem tu deves ter.”
Hallblithe foi satisfeito além da medida por aquela palavra e agora o Rei parece-lhe um conforto e um consolo para todo coração; igualmente como ele considerara sua imagem entalhada no Salão dos Saqueadores; ele agradeceu-lhe e exaltou-o.
Mas o Rei ordenou-lhe permanecer próximo a ele aquela noite e festejar com ele. “E no dia seguinte,” disse ele, “tu deves seguir teus caminhos para contemplar aquela quem tu deves amar.”
Com isso chegou o anoitecer e o começo da noite; quente, perfumado e brilhante com a cintilação das estrelas. Eles entraram no pavilhão do Rei e lá estava o banquete tão belo e saboroso quanto podia ser. Hallblithe recebeu a carne do próprio prato do Rei e bebeu do copo dele; mas a carne não tinha sabor para ele e a bebida não tinha deleite, por causa do anseio que o possuía.
[104]E, quando o banquete estava terminado, as donzelas levaram Hallblithe para a cama dele, em uma bela tenda, semeada com ouro ao redor de sua cabeça como a noite estrelada, e ele deitou-se e dormiu por puro cansaço de corpo.
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.97-104. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/97/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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