A História da Planície Cintilante - Capítulo XI O Sea-eagle renova sua Vida

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[90]Mas, enquanto eles assim conversavam juntos, saiu um homem do bosque: muito alto de estatura, de barba vermelha, de cabelo negro, bochechas coradas, membros saciados e muito alegre de aspecto; um homem aparentando vinte e cinco invernos. Ele andou a passos largos diretamente até Hallblithe, lançou os braços ao redor dele e beijou-o na bochecha, como se fosse um amigo velho e querido recém-chegado do exterior.

Hallblithe ponderou, riu e disse: “Quem és tu que me consideras tão querido?”

Disse o homem: “Curta é tua memória, Filho do Corvo, que tu em tão pequeno intervalo esqueceu de teu camarada de navio e teu companheiro de viajem; quem te deu comida, bebida e bom conselho no Salão dos Saqueadores.” Após o que ele riu alegremente, virou-se para as três donzelas, tomou-as pelas mãos e beijou os lábios delas, enquanto elas bajulavam-no amavelmente.

Em seguida disse Hallblithe: “Tu verdadeiramente adquiriste tua juventude novamente, a qual tu ordenaste-me desejar-te?”

[91]“Sim, em boa calma,” disse o homem de barba vermelha; “Eu sou o Sea-eagle dos velhos dias; recebi minha juventude, amor portanto e, além isso, algo para amar. Com isso, ele voltou-se para a mais bela das donzelas; ela era de pele branca, perfumada como o lírio, bochechas rosadas e esbelta. O vento brincava com os cachos comprimidos do cabelo dourado dela, os quais pendiam abaixo de seus joelhos. Então ele lançou os braços ao redor dela, abraçou-a contra seu seio e beijou a face dela muitas vezes e ela, nada relutante, mas acariciando-o com os lábios e a mão. Mas as outras duas donzelas ficaram paradas sorrindo e felizes: elas aplaudiram juntas e beijaram uma a outra de alegria do novo amante e, finalmente, começaram de pronto a dançar e saltar ao redor deles; como jovens cordeiros nos prados na época da Primavera. Mas, em meio a eles todos, estava de pé Hallblithe, inclinando-se sobre sua lança com lábios sorridentes e as sobrancelhas franzidas; pois ele estava ponderando em sua mente de que modo ele podia promover sua busca.”

Mas, depois que eles dançaram por um tempo, o Sea-eagle deixou o amor dele, que ele escolhera, tomou a mão de cada uma das duas outras donzelas e, levando-as saltitando até Hallblithe, exclamou: “Escolhe tu, bebê do Corvo, qual desta dupla tu terás para tua companheira; pois dificilmente tu deves ver melhor ou mais bela.”

[92]Mas Hallblithe olhou para eles orgulhosa e severamente. A donzela de cabelos negros balançou sua cabeça diante dele e disse suavemente: “Não, não, guerreiro do mar; este é muito amável para ser nosso companheiro. Amor mais doce aguarda-o e lábios mais desejados.”

Então agitou-se o coração de Hallblithe dentro dele e ele disse: “Oh Águia do Mar, tu tens a tua juventude outra vez: o que tu farás com ela em seguida? Não te fatigarás tu através do oceano enluarado junto com a lavagem das ondas, o ímpeto do aguaceiro e teus camaradas todos cintilando com a salmoura? Agora onde devem estar as praias estrangeiras diante de ti, o desembarque por fama e a partida pelo ganho de bens? Esquecerás tu do lado negro do navio e do gotejamento dos remos ao barlavento, conforme a borrasca cai quando o sol surgia, a vela é fortemente puxada sobre a escota, o navio deita-se e os rapazes gritam contra o assobio do vento? Caiu a lança de tua mão e enterraste tu a espada de teus pais na sepultura da qual teu corpo escapara? Quem és tu, Oh Guerreiro, na terra do estrangeiro e do Rei? Quem deve prestar atenção a ti ou contar a história de tua glória, a qual tu encobriste com a mão de uma leve mulher, que teus parentes não conhecem e que não nasceu em uma casa de onde foi [93]determinado-te desde antigamente o prazer de mulher? De quem tu és escravo agora, tu levantador de pilhagem, tu assustador do nascido livre? As ordens de que senhor ou Rei tu realizarás, Oh chefe, para que tu possas comer tua refeição pela manhã e deitar-se suavemente em tua cama a noite? Oh Guerreiro dos Saqueadores, aqui estou eu de pé, Hallblithe do Corvo, venho a uma terra estrangeira, atormentado por maravilhas, para buscar a minha própria e encontrar o que é mais caro a meu coração; a saber, minha donzela prometida, a Hostage da Rosa, a bela mulher que deve deitar em minha cama, nutrir meus filhos e ficar comigo no campo e na sociedade; próxima no banco dos remadores e na borda do navio, diante do arco e da lança, próxima da tremulação do fogo de cozinha, no meio do esplendor do salão abrasador e perto da pira funerária do guerreiro do Corvo. Oh Sea-eagle, meu anfitrião em meio aos inimigos, meu companheiro de viajem e de navio, diz agora, de uma vez por todas, se tu ajudar-me-á em minha busca, ou separar-te-á de mim como um covarde?”

Novamente, as donzelas retrocederam diante de sua voz clara e fortemente elevada; elas tremeram e empalideceram.

Mas o Sea-eagle riu com um semblante amável e disse: “Filho do Corvo, tuas palavras são boas e viris, mas não beneficiam em nada nesta terra e eu não tenho conhecimento de como tu [94]viajarás ou de porque tu foste enviado entre nos. O que tu farás? Tu falaste essas palavras ao de Longos cabelos grisalhos, o Avô, ontem, os ouvidos dele teriam estado surdos a elas; e agora que tu fala-as ao Sea-eagle, este homem feliz na Planície Cintilante, ele não pode agir de acordo com elas, pois não há outra terra senão esta que possa mantê-lo. Aqui ele é forte e rígido, cheio de alegria e amor; mas em outro lugar ele seria somente um fantasma tagarela à deriva no vento da noite. Assim sendo, em tudo quanto tu possas fazer no interior desta terra, eu ficarei ao teu lado e ajudar-te-ei; mas nenhuma polegada além pode meu pé ir; quer seja para baixo dentro da salmoura do mar, ou para dentro das fendas das montanhas, as quais são as muralhas desta terra magnífica.”

Tu foste meu camarada de navio e eu amo-te, sou teu amigo. Mas aqui nesta terra precisa existir o amor e a amizade. Pois nenhum fantasma pode amar-te, nenhum fantasma pode ajudar-te. E, como tu disseste sobre os dias passados e nossas alegrias sobre o mar desordenado, verdadeiro é que aqueles dias foram bons e amáveis; mas eles estão mortos e passados, como os rapazes que se sentaram nos bancos de remadores perto de nós e as donzelas que tomaram nossas mãos no salão para levar-nos aos aposentos. Outros dias chegaram ao lugar deles e outros [95]amigos devem cuidar de nós. Que então? Nós devemos ferir o vivo para aprazer o morto, quem não se acautela disso? Nós devemos amaldiçoar a Época do Natal e lançar água suja sobre o Sagrado Coração do banquete do inverno, porque o verão foi uma vez belo, os dias voaram e os tempos mudaram? Agora que nós sejamos gratos! Que a vida viva.”

Após o que, ele voltou-se para sua donzela e beijou-a na boca. Mas a face de Hallblithe tornou-se triste, severa e ele falou lenta e pesadamente: “Assim é, companheiro de navio, que, considerando que tu disseste que os dias passam rapidamente, para ti eles não devem voar mais; e o dia pode chegar para ti quando tu deveres estar cansado, souberes disto e ansiares pela perdição que tu esquecera. Mas, acerca disto, não se aproveita nada para mim falar algo mais, pois teus ouvidos estão surdos para essas palavras e tu não as ouvirá. Assim sendo, eu não digo mais nada, salvo que te agradeço por tua ajuda, seja o que for que ela possa ser, eu recebê-la-ei, pois o dia de trabalho jaz diante de mim e começo a pensar que ele possa ser pesado o suficiente.”

As mulheres ainda olharam abatidas, como se elas fossem sair do alcance da voz; mas o Sea-eagle riu como alguém que está bem contente e disse: “Tu mesmo torna-lo-á pesado para ti segundo o costume de tua raça orgulhosa e altiva. Mas para mim nada mais é pesado, não mais; nem teu desprezo [96]nem teus agouros de mal. Sê tu meu amigo tanto quando tu podeis e eu serei teu inteiramente. Agora vós mulheres, para onde vós nos levareis? Pois eu estou pronto para ver qualquer coisa nova que vós nos mostrareis.”

Disse a donzela: “Nós vos levaremos ao Rei, para que vossos corações sejam os mais satisfeitos. E quanto a teu amigo o Lanceiro, Oh Guerreiro do mar, que o coração dele não fique abatido. Quem sabe se esses dois desejos, o desejo do coração dele e o desejo de um coração por ele, não possam ser um e o mesmo desejo, de modo que ele seja integralmente satisfeito?” Enquanto ela falava, ela olhou de lado para Hallblithe, com olhos tímidos e lisonjeiros. Ele maravilhou-se mediante a palavra dela e uma nova esperança brotou no coração dele; de que em breve ele estava para ser trazido até a Hostage frente a frente, isso por causa daquele amor, mais doce do que o amor delas, o qual residia nele. Seu coração tornou-se mais leve e sua visão clareou.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.90-96. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/90/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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