[7]Com a manhã, os nervos de meu amigo estavam renovados e ele estava não menos excitado pela curiosidade do que eu mesmo. Talvez mais, pois ele evidentemente acreditava em sua própria história e eu sentia considerável dúvida dela. Não que ele teria intencionalmente contado-me uma mentira, mas que eu pensava que ele devia ter estado sob uma daquelas alucinações que se apoderam de nossa imaginação ou nervos em lugares solitários, desabituados, e nas quais nós damos forma ao informe e som ao mudo.
Nós selecionamos seis mineiros veteranos para vigiar nossa descida. Como a gaiola sustentava apenas um de uma vez, o engenheiro desceu primeiro e, quando ele alcançara a elevação na qual parara antes, a gaiola ergueu-se novamente para mim. Eu logo alcancei o lado dele. Nós provisionáramos a nós mesmos com uma forte bobina de corda.
[8]A luz atingiu minha visão como atingira, no dia anterior, a de meu amigo. A caverna através da qual ela chegava inclinava-se diagonalmente: parecia a mim uma luz atmosférica difusa, não como aquela do fogo, mas suave e prateada, como uma estrela do norte. Abandonando a gaiola, nós descemos um depois do outro bastante facilmente, estando em dívida com as saliências de lado, até que nós alcançamos o lugar no qual meu amigo parara anteriormente e onde existia uma projeção mal espaçosa o suficiente para permitir-nos ficar de pé lado a lado. A partir deste lugar o abismo alargava-se rapidamente, como a extremidade inferior de um vasto funil, e eu vi distintamente o vale, a estrada, as lâmpadas que meu companheiro descrevera. Ele não exagerara nada. Eu ouvi os sons que ele ouvira – um zum-zum vago e misturado como o de vozes e um ruido de passos pesado como de pés. Esforçando meu olho mais para baixo, eu claramente contemplei à distância o contorno de algum grande edifício. Não podia ser mera rocha natural, era simétrico demais, com imensas colunas pesadas semelhantes às egípcias, e o todo iluminado como que a partir de dentro. Eu tinha perto de mim um pequeno telescópio de bolso, e através do auxílio dele pude distinguir, [9]próximo ao prédio que mencionei, duas formas que pareciam humanas, embora eu não podia estar certo. Pelo menos elas estavam vivas, pois moveram-se e ambas desapareceram dentro do edifício. Nós agora procedemos a atar a extremidade da corda que trouxemos conosco à saliência na qual estávamos de pé, através do auxílio de braçadeiras e ganchos, com os quais, assim como as ferramentas necessárias, estávamos munidos.
Nós estávamos quase silenciosos em nosso trabalho. Nós labutamos como homens receosos de falar um com o outro. Uma extremidade da corda estando portanto aparentemente firmada na saliência, a outra, à qual nós prendemos um fragmento de rocha, descansava sobre o solo abaixo, a uma distância de cinquenta pés. Eu era um homem mais jovem e mais ativo do que meu companheiro, e servi a bordo de navio em minha juventude, este modo de transitar era mais familiar a mim do que a ele. Em um sussurro eu reivindiquei a precedência, de modo que, quando alcançasse o solo, pudesse servir para sustentar a corda mais firmemente para a descida dele. Eu cheguei em segurança ao chão abaixo e o engenheiro agora começou a descer a si mesmo. Mas ele dificilmente tinha efetuado dez pés de descida, [10]quando as fixações, as quais nós imaginávamos tão seguras, cederam, ou em vez [disso] a rocha mesma provou-se traiçoeira e desintegrou-se debaixo da tensão. O homem infeliz foi precipitado à superfície inferior, caindo exatamente a meus pés e derrubando com sua queda os fragmentos de rocha, um dos quais, felizmente apenas um pequeno, acertou-me e temporariamente me atordoou. Quando eu recobrei meus sentidos vi meu companheiro uma massa inanimada diante de mim, vida completamente extinta. Enquanto eu estava curvando-me sobre seu corpo em pesar e horror, ouvi bem próximo um som estranho entre um bufar e um silvo e, voltando-me instintivamente para a fonte de onde ele vinha, vi emergindo de uma fissura negra na rocha uma cabeça grande e terrível, com mandíbulas abertas e olhos estúpidos, medonhos e famintos – a cabeça de um reptil monstruoso assemelhando-se a do crocodilo ou jacaré, mas infinitamente maior do que a maior criatura daquele tipo que eu alguma vez contemplara em minhas viagens. Eu provoquei meus pés e fugi para baixo, para o vale, em velocidade máxima. Eu parei finalmente, envergonhado de meu pânico e de minha fuga, e retornei ao ponto no qual deixara o corpo do meu amigo. Desaparecera; [11]indubitavelmente o monstro já o puxara para dentro de sua toca e devorara-o. A corda e os ganchos ainda jaziam onde eles haviam caído, mas eles não me ofereciam nenhuma chance de retorno: era impossível atá-los novamente à rocha acima, e os lados da rocha eram muito puros e lisos para passos humanos escalarem. Eu estava sozinho neste mundo estranho, em meio às entranhas da terra.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 7-11. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/7/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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