A Raça Vindoura - Capítulo I

 [1]Eu sou um nativo de --, nos Estados Unidos da América. Meus ancestrais emigraram da Inglaterra, no reino de Carlos II, e meu avô não foi medíocre na Guerra de Independência. Portanto, minha família gozava de uma posição social um pouco alta em direito de nascimento e, sendo também opulenta, eles foram considerados desqualificados para o serviço público. Uma vez, meu pai candidatou-se ao Congresso, mas foi notavelmente derrotado por seu alfaiate. Depois daquele evento, ele interferiu pouco em política e vivia muito em sua biblioteca. Eu era o mais velho de três filhos e fui enviado com a idade de dezesseis para o velho país, em parte para completar minha educação literária, em parte para começar meu treinamento [2]comercial em uma firma mercantil em Liverpool. Meu pai morreu bruscamente depois que eu completei vinte e um; e sendo deixado bem de vida, e tendo um gosto por viajem e aventura, renunciei, for um tempo, a toda a busca pelo todo-poderoso dólar e tornei-me um viajante inconstante sobre a face da terra.

No ano de 18--, acontecendo de estar em ----, eu fui convidado por um engenheiro profissional, com o qual eu travara conhecimento, para visitar os recessos da mina ----, na qual ele estava empregado.

O leitor entenderá, antes que ele encerre esta narrativa, minha razão para a dissimulação de todas as pistas para o distrito do qual eu escrevo, e talvez agradecer-me-á por abster-me de qualquer descrição que possa tender a sua descoberta.

Deixe-me dizer, então, tão brevemente quanto possível, que eu acompanhei o engenheiro para o interior da mina e tornei-me estranhamente fascinado por suas tenebrosas maravilhas. Tão interessado nas explorações de meu amigo que eu prolonguei minha estada na vizinhança e descia diariamente, por algumas semanas, para dentro das caves e galerias escavadas pela natureza e pela arte abaixo da superfície da [3]terra. O engenheiro estava persuadido de que depósitos mais opulentos de riqueza mineral do que os que foram descobertos, seriam encontrados em um novo acesso que fora iniciado durante suas operações. Perfurando este acesso nós chegamos um dia a um abismo irregular e aparentemente chamuscado em seus lados, como se explodido em pedaços em algum distante período por fogos vulcânicos. Debaixo deste abismo meu amigo fez com que ele mesmo fosse baixado em uma ‘gaiola’, tendo primeiramente testado a atmosfera por meio da lâmpada de segurança. Ele permaneceu por quase uma hora no abismo. Quando ele retornou, estava muito pálido e com uma expressão ansiosa e pensativa na face; muito diferente de seu temperamento ordinário, o qual era aberto, alegre e destemido.

Ele disse brevemente que a descida parecia-lhe insegura, levando a nenhum resultado e, suspendendo ulteriores operações no acesso, nós retornamos às partes mais familiares da mina.

Durante o resto daquele dia o engenheiro pareceu preocupado por algum pensamento absorvedor. Ele esteve incomumente taciturno e havia um aspecto assutado, desnorteado em seus olhos, como aquele de um homem que visse um fantasma. À noite, como nós dois [4]estávamos sentados sozinhos no alojamento que compartilhávamos juntos, próximo à entrada da mina, eu disse a meu amigo,-

Diga-me francamente o que você viu naquele abismo: eu estou certo de que foi algo estranho e terrível. Seja o que for, deixou sua mente em um estado de dúvida. Nesse caso duas cabeças são melhores do que uma. Confie em mim.”

O engenheiro longamente se esforçou para evadir-se de minhas perguntas. Mas como, enquanto falava, ele ajudou a si mesmo inconscientemente, fora de um frasco de conhaque, em um grau com o qual ele estava inteiramente desacostumado, pois ele era um homem muito moderado. Sua reserva gradualmente se dissipou. Ele, que queria manter-se para si mesmo, devia imitar os animais estúpidos e beber água. Finalmente ele disse, “Eu contarei tudo a você. Quando a gaiola parou, eu encontrei-me sobre um cume de rocha e, abaixo de mim, o abismo, tomando uma direção inclinada, abateu-se até uma profundidade considerável; as trevas das quais minha lâmpada não podia ter penetrado. Mas através dela, para minha surpresa infinita, fluía para cima um estável luz brilhante. Poderia isso ser algum fogo vulcânico? Nesse caso, certamente eu deveria ter sentido o [5]calor. Não obstante, se nisso havia dúvida, era da máxima importância para nossa segurança comum aclará-la. Eu examinei os lados da descida e descobri que eu podia arriscar-me a confiar-me às projeções irregulares ou bordas, pelo menos por um pouco do caminho. Eu deixei a gaiola e escalei para baixo. Conforme eu aproximava-me mais e mais da luz, o abismo tornava-se mais amplo e finalmente vi, para meu assombro indizível, uma ampla estrada lisa na base do abismo, iluminada tão longe quanto o olho podia alcançar pelo que pareciam ser lâmpadas de gás posicionadas a intervalos regulares, como se na avenida principal de uma grande cidade. Eu confusamente ouvi a uma distância um zum-zum como de vozes humanas. Eu sei, é claro, que nenhum mineiro rival estava trabalhando neste distrito. De quem podem ser aquelas vozes? Que mãos humanas podiam ter nivelado aquela estrada e ordenado aquelas lâmpadas?”

A crença supersticiosa, comum aos mineiros, de que gnomos ou demônios habitam dentro das entranhas da terra, começou a apoderar-se de mim. Eu estremeci diante do pensamento de descer mais e desafiar os habitantes deste vale inferior. Nem de fato poderia eu ter feito isso sem cordas, visto que, desde o [6]ponto que eu alcancei até o fundo do abismo, os lados da rocha afundavam-se abruptamente, lisos e finos. Eu revi meus passos com alguma dificuldade. Agora eu contei-te tudo.

Você descerá novamente?”

Eu devo, contudo eu sinto como se eu não me atrevesse.”

Um companheiro de confiança divide a jornada à metade e dobra a coragem. Eu irei com você. Nós proveremos a nos mesmos com cabos de comprimento e força apropriados – e – perdoe-me – você não deve beber mais hoje à noite. Nossas mãos e pés devem estar estáveis e firmes amanhã.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 1-6. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/1/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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