[71]Como no Salão, assim na embarcação; Hallblithe observou que o povo estava feliz e de muitas palavras um com o outro, enquanto para ele nenhum homem lança uma palavra salvo o Avô. Quanto a Hallblithe, embora ele ponderasse muito sobre o que tudo isso pressagiava e para que terra ele estava se dirigindo, ele não era um homem de temer um perigo não predito; ele disse a si mesmo que, o quê mais acontecesse, ele deveria encontrar a Hostage na Planície Cintilante. Então seu coração ergueu-se e ele estava de bom ânimo e, conforme o Avô predissera, ele era uma alegre companheiro de viajem para ele. Muitas zombarias únicas o velho lançou sobre ele e, embora Hallblithe devolvesse-lhe tão bem quanto ele recebera e durante risse conforme o golpe ia para a origem e silenciava-o; ao passo que ele não entendesse nada do que o ancião dizia. Assim se consumiu o dia e o vento mantinha-se ainda bom, embora ele fosse leve. O sol pôs-se em um céu quase sem [72]nuvens e não havia em lugar algum qualquer previsão de perigo. Apenas quando a noite chegou, Hallblithe deitou-se numa boa cama, que foi preparada para ele na popa. Ele logo adormeceu e não sonhou, salvo esses sonhos que são feitos de memórias passadas, que nada indicam e não são lembrados.
Quando ele despertou, o dia colocou-se amplo sobre o mar, as ondas estavam baixas, o céu tinha somente poucas nuvens, o sol raiou brilhantemente e o ar estava quente e doce de respirar.
Ele olhou de lado e viu o ancião sentado cama dele, tão pavoroso como um homem-morto desenterrado novamente: suas sobrancelhas espessas estavam enrugadas sobre seus velhos olhos turvos, o longo cabelo branco balançava-se desamparado de sua cabeça magra. Contudo sua face estava sorrindo e ele parecia tão feliz quanto a alma dentro dele poderia fazer o corpo meio-morto. Ele virou-se agora para Hallblithe e disse: “Tu estás há pouco acordado: tiveste tu acordado mais cedo, o mais cedo teu coração estivera contente. Vai em frente agora, contempla tua satisfação e conta-me dela.”
“Tu estás feliz, Avô?” disse Hallblithe, “Que boas notícias a manhã trouxe-nos?”
“A terra! A terra” disse o de longo cabelo grisalho; “não há mais lágrimas neste corpo velho, senão eu deveria chorar de alegria.”
[73]Disse Hallblithe: “Tu estás para encontrar alguém que deverá fazer-te feliz antes que tu mesmo o faças, ancião?”
“Alguém?” disse o Ancião; “Que alguém? Não se foram todos? Queimados, afogados, assassinados e deitados mortos? Alguém, jovem? Sim, verdadeiramente alguém de fato! Sim, o grande guerreiro dos Destruidores da Costa; o Sea-eagle que carregou a espada, a tocha e o terror dos Destruidores através do mar azul carvão. Sou eu mesmo, EU MESMO que eu deverei encontrar na Terra da Planície Cintilante, oh jovem amante!”
Hallblithe olhou-lhe, ponderando, enquanto ele levantava os braços emaciados em direção aos arcos da embarcação, lançando para baixo o declive de mar iluminado pelo sol ou escalando-o. Depois novamente o velho caiu para trás sobre sua cama e resmungou “Que trabalho de louco é este! Para que tu desejas atrair-me para falar alto e desperdiçar meu corpo com falta de paciência. Eu não falarei mais contigo, com receio de que meu coração inche, quebre e extinga a pequena centelha de vida dentro de mim.”
Então Hallblithe põe-se de pé e permaneceu de pé olhando para ele, perguntando-se tanto sobre as palavras dele, que por um momento ele esqueceu a terra da qual eles estavam aproximando-se, embora ele houvesse capturado vislumbres dela, enquanto os arcos da Coca caiam dentro do vazio do mar. O vento estava [74]apenas leve, como fora dito, e as ondas pequenas sob ele, mas havia ainda um suave intumescimento de mar, que vinha de brisas agora sem vida, a embarcação chafurdou nele e navegou apenas lentamente.
Daqui a pouco, o ancião abriu os olhos novamente e disse em uma fraca voz rabugenta: “Por que tu põe-se de pé encarando-me? Por que tu não foste adiante para considerar a terra? Verdade é que vós Corvos sois de inteligência curta.” Disse Hallblithe: “Não fique irado, chefe; eu estava considerando tuas palavras, as quais são muito maravilhosas; conte-me mais sobre esta terra da Planície Cintilante.”
Disse o avô: “Por que eu deveria contar isso a ti? Pergunta aos marinheiros. Eles todos sabem mais do que tu sabes.”
“Tu sabes,” disse Hallblithe, “que esses homens não falam comigo e não tem mais atenção a mim do que se eu fosse uma imagem que eles estivessem carregando para vender ao próximo homem poderoso com o qual eles pudessem topar. Ou conta-me, tu velho,” disse ele ferozmente, “é talvez um mercado de escravos para onde eles estão me conduzindo? Eles venderam ela lá e vender-me-ão eles lá também no mesmo lugar, mas para outras mãos?”
“Nádegas!” disse o Avô um pouco debilmente, “esta última palavra de ti é loucura; não há compra ou venda na terra para qual nós estamos compelidos. Quando à tua outra palavra, que esses homens não tem nenhuma [75]associação contigo, é verdade; tu és meu companheiro e camarada de ninguém mais abordo. Assim sendo, se eu sentir força em mim, talvez eu possa contar-te algo.”
Então ele ergue sua cabeça um pouco e disse: “O sol aquece-se, o vento falha-nos; lenta e vagarosamente nós estamos navegando.”
Precisamente enquanto ele falava, houve um rebuliço a meia-nau; Hallblithe olhou e observou os marinheiros manobrando as varreduras e acomodando a si mesmos sobre os bancos de remos. Disse o ancião: “Há barulho à meia-nau, o que eles estão fazendo?”
O ancião ergueu-se um pouco novamente e exclamou em sua voz estridente: “Bons rapazes! Bravos rapazes! Assim nos devíamos fazer nos velhos tempos, quando nós aproximávamo-nos de alguma praia e os faróis estavam enviando fumaça para cima durante o dia, chama a noite e os residentes da praia arranjavam-se em seus capacetes e tremiam. Empurrem-na completamente rapazes! Empurrem-na para frente!” Então ele caiu novamente para trás e disse numa voz fraca: “Não faça mais nenhum atraso, convidado; mas vá adiante, considere a terra, retorne e conte-me de lá, e depois o relato pode fluir de mim. Apresse-se, apresse-se!” Então Hallblithe desceu da popa e foi para dentro da cinta, onde agora os remadores estavam curvando-se sobre seus remos e gritando ferozmente conforme eles esforçavam-se sobre as cinzas agitadas. Ele subiu ao [76]castelo da proa, foi adiante, diretamente para a cabeça de dragão, e olhou longamente para a terra, enquanto a arrancada das lâminas dos remos fizeram a ilusão de uma tempestade ao redor dos lados negros da embarcação. Então ele voltou novamente ao Sea-eagle, que lhe disse: “Filho, o que tu viras?”
“Em frente jaz a terra e está ainda bem longe. Altas elevam-se as montanhas ali, mas aparentemente não há neve sobre elas e, embora elas sejam azuis, elas não são azuis como as montanhas na Ilha do Resgate. Também me pareceu como se belas encostas de bosque e prado descessem à beira mar. Mas ainda está muito distante.”
“Sim,” disse o ancião, “É assim? Então eu não vestirei a mim mesmo com palavras fabricadas para ti. Eu descancarei um pouco e reunirei força. Venha novamente quando uma hora tiver se passado e conte-me o que tu vês; pode acontecer que tu devas ter minha história!” E com isso ele deitou-se e pareceu ficar adormecido de uma vez. E Hallblithe não pôde corrigi-lo; deste modo ele esperou pacientemente até que a hora passara-se, então foi adiante novamente, olhou demorada e cuidadosamente, retornou e disse ao Sea-eagle, “A hora passou-se.”
O velho capitão de salteadores virou-se e disse: “O que tu viste?”
Disse Hallblithe: “As montanhas são pálidas e [77]altas, abaixo delas ficam colinas escuras com bosques e entre elas e o mar um bom espaço de terreno de prado, o qual pareceu-me que era extenso.”
Disse o velho: “Viste tu um recife rochoso elevando-se alto para fora do mar perto da costa?”
“Não,” disse Hallblithe, “se há, ele está inteiramente misturado com os prados e as colinas.” Disse o Sea-eagle: “Aguarde a passagem de outra hora, venha, conte-me novamente e então eu posso ter uma palavra valiosa para ti.” E ele adormeceu novamente. Meramente Hallblithe aguardou e, quando a hora passou-se, ele foi adiante e pôs-se de pé sobre o castelo da proa. E esta era a terceira substituição dos remadores; os homens mais robustos na embarcação agora seguravam os remos em suas mãos e o navio sacudia-se através de todo seu comprimento e largura, conforme eles guiavam-no sobre das águas.
Assim Hallblithe veio à popa, ao velho e encontrou-o adormecido; deste modo ele tomou-o pelo ombro, sacudiu-o e disse: “Desperte, companheiro de viajem, pois a terra está perto.”
Então o velho sentou-se e disse: “O que tu viste?”
Disse Hallblithe: “Eu vi os picos e os penhascos de montanhas remotas; abaixo deles ficavam verdes colinas com grama e escura com bosques e de lá estendem-se abaixo suaves campos verdes até a costa do mar, a qual é bela, lisa e amarela.”
[78]“Viste tu o recife?” disse o Sea-eagle.
“Sim, eu vi-o,” disse Hallblithe, “e ele eleva-se completo a partir do mar a cerca de uma milha da costa amarelada; apenas rocha dele é negra, como as rochas da Ilha do Resgate.”
“Filho,” disse o ancião, “dá-me tuas mãos e levanta-me um pouco.” Então Hallblithe tomou-o e elevou-o, de modo que ele sentou-se encostando-se sobre os travesseiros. E ele não olhou para Hallblithe, mas para os arcos da embarcação, os quais agora se lançavam só um pouco para cima e para baixo, pois o mar deitara-se calmo agora. Então ele gritou em sua voz sibilante e estridente: “É a terra! É a terra!”
Não obstante, após um momento, ele voltou-se para Hallblithe e falou: “Curta é a história a contar: tu desejara-me juventude e teu desejo prosperou; pois hoje, até que o sol desça, tu deves ver-me como eu era nos dias em que eu ceifava a safra do mar com espada afiada e coração ousado. Pois esta é a terra do Rei Imorredouro; o qual é nosso senhor e doador de dádivas e, para alguns, ele dá o presente de juventude renovada e de vida que deve habitar aqui a Tristeza dos Deuses. Mas nenhum de nós todos pode vir à Planície Cintilante e ao Rei Imorredouro sem dar as costas pela última vez à Ilha do Resgate. Nem podem quaisquer homens da Ilha vir para cá, salvo aqueles que são da Casa do Sea-eagle e poucos dentre [79]esses, exceto os chefes da Casa, tais como são eles que se sentaram próximos a ti no alto assento naquele anoitecer. Destes, de vez em quando, é escolhido um de nós; que é velho, gasto e de batalhas passadas e é trazido para esta terra e para o presente do Imorredouro. Em verdade, alguns de nós não têm vontade nenhuma de receber o presente, pois eles dizem que eles estão mais dispostos a ir para onde eles devem encontrar mais de nossos parentes do que a residir na Planície Cintilante e no Acre do Imorredouro. Mas quanto a mim eu sempre fui um homem arrogante, dominador e parece-me que está bem que eu encontre tão poucos de nosso povo quanto possa ser: pois eles são raça conflituosa.”
Por causa disso Hallblithe admirou-se muito e disse: “E o que sou eu em toda esta história? Por que eu venho para cá com teu auxílio?” Disse o Sea-eagle: “Nós tínhamos uma incumbência do Rei Imorredouro a respeito de ti; que nós deveríamos trazer-te para cá vivo e bem se tu chegasses à Ilha do Resgate. Por qual causa nós tínhamos a tarefa, eu não sei, nem eu dou muita atenção.”
Disse Hallblithe: “E deverei eu também ter aquele dom de juventude imorredoura e de vida, enquanto o mundo dos homens e dos deuses durar?”
“Eu tenho de considerar assim,” disse o Sea-eagle, “desde que tu habites na Planície Cintilante; e eu não vejo como tu poderias alguma vez escapar de lá.”
[80]Agora que Hallblithe ouviu-o, da maneira que ele disse “escapar,” e com isso ele ficou um pouco constrangido, ficou de pé e ponderou um pouco. Finalmente ele disse: “Então, é isso tudo o que tu tens a contar-me sobre a Planície Cintilante?”
“Pelo Tesouro do Mar!” disse o Ancião, “eu não sei mais nada disso. O vivo deve aprender. Mas eu suponho que tu podes procurar tua donzela prometida lá completamente como tu desejares. Ou tu podes solicitar ao Rei Imorredouro para mandá-la de lá para ti. Que sei eu? Pelo menos é possível que não deva haver falta de boas mulheres lá; ou senão a promessa de juventude renovada é nada e vã. Não deve isto ser suficiente para ti?”
“Não,” disse Hallblithe.
“O que,” disse o ancião, “deve ser uma mulher apenas?”
“Uma apenas,” disse Hallblithe.
O ancião riu, seu esguio riso de zombaria, e disse: “Eu não te assegurarei; somente que a terra da Planície Cintilante deverá mudar tudo isso para ti, tão logo ela toque as solas de teus pés.”
Hallblithe olhou-lhe constantemente, sorriu e disse: “É bom então que eu deverei encontrar a Hostage lá; pois depois nós deveremos ser uma só mente, ou para separar ou para abrir caminho juntos. Está bom para mim este dia.”
[81]“E comigo ele deve ser bom há muito tempo,” disse Sea-eagle.
Mas agora os remadores cessaram de remar e deitaram seus remos. Os marujos lançaram a ancora; pois eles estavam a uma flechada de distância da costa, e a embarcação balançava com a maré e colocava-se de lado para a costa. Então disse o Sea-eagle: “Olhe adiante, companheiro de bordo, e conte-me da terra.”
E Hallblithe olhou e disse: “A praia amarelada é arenosa e cheia de conchas, como eu considero. Não há grande espaço nela entre o mar e a grama florida; e, a uma flechada de distância da costa, eu vejo um pequeno bosque, em meio ao qual estão belas árvores florescendo.”
“Vês tu alguma pessoa na praia?” disse o velho. “Sim,” disse Hallblithe, “próximos da beira do mar vão quatro e, por aparência, três são mulheres, pois seus longos vestidos tremulam ao vento. Uma delas esta envolta em cor de açafrão, outra em branco e outra em um pálido tom de azul; porém o camponês esta vestido de vermelho-escuro; e as vestes deles estão todas brilhando como com ouro e gemas; e aparentemente eles estão olhando para nossa embarcação como se eles esperassem algo.”
Disse o Sea-eagle: “Por que agora os marujos demoram-se e não aprontaram o esquife? Refugos e glutões eles são, porcos preguiçosos que esqueceram o chefe deles.”
[82]Mas enquanto ele falava, chegaram quatro dos marujos e, sem maior barulho, apanharam-no, cama e tudo, e trouxeram-no para baixo, para dentro da cintura do navio; embaixo da qual fica o barco leve com quatro fortes remadores situados em seus remos. Estes homens não fizeram nenhum sinal para Hallblithe, nem tomaram nenhum cuidado por causa dele; mas ele apanhou rapidamente sua lança, seguiu-os e pôs-se de pé próximo, conforme eles baixaram o velho no bote. Depois disso, ele pôs seu pé na amurada da embarcação e saltou para baixo levemente, para dentro do bote, e ninguém impediu-o ou ajudou-o. Ele ficou de pé no bote, uma vistosa imagem de batalha com o sol cintilando para trás a partir de seu elmo brilhante, sua lança em sua mão, seu escudo branco em suas costas e sobre ele a imagem do Corvo; somente se ele fosse apenas um camponês fervendo em sal do lado do mar ninguém lhe prestaria menos atenção.
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.71-82. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/71/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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