A História da Planície Cintilante - Capítulo X Eles conversam com o Povo da Planície Cintilante

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[83]Agora os remadores ergueram os remos cinzentos e começaram de pronto a remar em direção à praia. Quase com o primeiro dos golpes deles, o Sea-eagle lamentou-se:

Se nós estivéssemos lá, oh, se nós estivéssemos lá! O frio envelheceu junto a meu coração. Filho do Corvo, tu estás de pé; conta-me se tu podes ver o que essas pessoas em terra estão fazendo e se quaisquer outros vem para lá?”

Disse Hallblithe: “Não há outros a vir, somente vacas e cavalos estão comendo abaixo nos pastos. Quanto ao quê aqueles quatro estão fazendo, as mulheres estão descalçando seus sapatos e cingindo suas vestes, como se elas fossem caminhar na água em nossa direção; e o camponês, que estivera de pés descalços antes, foi diretamente em direção ao mar, e ali ele fica de pé, pois muito pequenas as ondas tornam-se.”

[84]O velho não respondeu nada; apenas gemeu devido à falta de paciência. Mas logo, quando a água estava ainda até a cintura, os remadores pararam o esquife; dois deles saltaram sobre a borda do bote para dentro do mar, e, entre todos eles, pegaram o chefe em sua cama, saíram com ele do bote e foram em direção à praia com ele. As pessoas em terra encontraram-nos onde a água era mais rasa, tomaram-no das mãos deles, carregaram-no adiante para a areia amarela e deitaram-no fora do alcance da ondulação rasteira da maré. Com isso, Hallblithe saltou ligeiramente para fora do bote e andou em meio à água atrás deles. Não obstante os marujos remavam de volta para a embarcação deles, e logo Hallblithe ouviu a força e o modo de fazer, conforme eles içavam a sua ancora.

Mas quando Hallblithe veio à terra firme, e aproximara-se do povo da terra, as mulheres olharam para ele desconfiadamente; elas riram e disseram: “Bem-vindo a ti também, oh jovem!” Ele contemplou-as e viu que elas eram da estatura das donzelas de sua própria terra; eram excessivamente claras de pele e bem-feitas de forma, de modo que a nudez de seus membros debaixo de seus vestidos cingidos, e tudo brilhando com o mar, era muito encantador e gracioso de contemplar. Mas Hallblithe [85]ajoelhou-se próximo do Sea-eagle observar como ele viajou, e disse: “Como está contigo, oh chefe?”

O velho não respondeu uma palavra e parecia estar adormecido. Hallblithe julgou que as bochechas dele estavam mais coradas e sua pele menos gasta e enrugada do que outrora. Então falou uma daquelas mulheres: “Não tema, jovem; ele está bem e logo ficará melhor.” A voz dela era tão doce com um pássaro de primavera pela manhã. Ela era de pele branca, cabelos negros, e completa e suavemente formada. Ela riu para Hallblithe, mas não ironicamente, e suas companheiras também riram, como se fosse estranho para ele estar ali. Em seguida elas ajeitaram seus calçados novamente, e, com o camponês, colocaram suas mãos sobre a cama onde o velho jaz, ergueram-no e carregaram-no a diante para a grama, virando suas faces na direção do bosque florido supracitado; eles prosseguiram um pouco e em seguida deitaram-no novamente e descansaram. E assim por diante, pouco a pouco, até que eles tinham trazido-o para a beira do bosque, e ainda ele parecia estar adormecido. Então a donzela que falara antes, ela com cabelo negro, disse a Hallblithe, “Embora nós tivéssemos encarado-te como se com admiração, não é porque nós não considerássemos encontrar-te, mas porque tu és um homem tão belo e vistoso! Então permanece tu aqui até que nós voltemos para ti do bosque.” [86]Após o que ela afagou a mão dele, e, com seus companheiros, ergueu o velho uma vez mais e carregaram-no para fora da vista dentro da mata.

Mas Hallblithe ia para lá e para cá, uma dúzia de passos do bosque, olhava através dos prados floridos e considerava que ele nunca vira algo tão belo. E de longe na direção das colinas ele viu um grande teto surgindo e achou que podia ver homens também. Mais próximo dele haviam vacas pastando e cavalos também, dos quais alguns aproximavam-se dele, esticavam os pescoços e encaravam-no; eles eram vistosos conforme a espécie deles. Uma bela corrente de água saía contínua do canto do bosque e descia os prados para o mar. Hallblithe foi para lá e pôde ver que havia apenas pouco fluxo e refluxo da maré sobre aquela costa; pois a água daquele córrego era clara como vidro e a grama e as flores cresciam bem abaixo de sua água. Então ele tirou seu elmo, bebeu da corrente e lavou a face e as mãos ali. Em seguida, ele arrumou seu elmo outra vez e voltou-se novamente na direção do bosque, sentindo-se muito forte e feliz. Ele olhou na direção do mar e viu a Embarcação da Ilha do resgate diminuindo rapidamente; pois um pequeno vento da terra surgira e eles esticaram suas velas para ele. Ele deitou-se sobre a grama até que as quatro pessoas da região saíram do bosque novamente, após eles terem estado fora por algo [87]menos que uma hora, mas o Sea-eagle não estava com eles. Hallblithe ergueu-se, voltou-se para eles e o camponês saudou-o e partiu, indo diretamente na direção daquele teto tão distante que ele vira. As mulheres foram deixadas com Hallblithe; elas olharam-lhe e ele para elas, enquanto permaneceu inclinado sobre sua lança.

Então, disse a donzela de cabelos negros: “A verdade é, oh lanceiro, que se nós não soubéssemos de ti, nossa admiração seria grande que um homem tão jovem e com aparência afortunada teria buscado por aqui.”

Eu não sabia porque tu devias surpreender-se,” disse Hallblithe; “Eu te contarei em breve porque eu venho para cá. Mas diz-me, esta é a Terra da Planície Cintilante?”

Até então,” disse a donzela, “Tu não vês como o sol brilha sobre ela? Exatamente assim ele brilha na estação que outros povos chamam de inverno.”

Sobre uma tal maravilha eu pensei ter ouvido [falar],” disse ele; “pois contaram-me que a terra é maravilhosa e, bons como esses prados são, eles não são maravilhosos de olhar agora, são como outras terras, embora talvez, melhores.”

Isso pode ser,” ela disse; “nós não temos nada exceto rumores de outras terras. Se nós alguma vez as conhecêssemos, teríamos esquecido delas.”

Disse Hallblithe “Esta terra é também chamada de Acre do Imorredouro?”

Enquanto ele falava as palavras o sorriso extinguiu-se da [88]face da donzela. Ela e suas companheiras empalideceram e ela disse: “Mantém teu silêncio de tais palavras! Elas não lícitas para qualquer homem proferir aqui. Contudo, tu podes chamá-la a Terra dos Vivos.”

Ele disse: “Eu suplico perdão pela palavra imprudente.”

Em seguida, elas sorriram novamente, aproximaram-se dele, acariciaram-no com as mãos delas e olharam-no carinhosamente. Mas ele recuou um pouco delas e disse: “Eu venho para cá buscando algo que perdi, a falta do qual me aflige.”

Disse a donzela, aproximando-se dele novamente, “Possas tu encontrá-lo, tu homem amável e qualquer outra coisa que tu desejares.”

Então ele disse: “Uma mulher chamada de Hostage foi trazida para cá nos últimos dias? Uma bela mulher, de cabelos brilhantes e olhos acinzentados, gentil de semblante, suave de fala, contudo franca e nada tímida. Alta de acordo como nossa estatura, mas muito vistosa de aparência. Uma mulher da Casa da Rosa e minha donzela prometida.”

Elas olharam-se umas para as outras e sacudiram as cabeças e a donzela de cabelos negros falou: “Nós não sabemos de nenhuma mulher assim, nem da família que tu nomeias.”

Então o semblante dele abateu-se; tornou-se triste com desejo e pesar, e ele desviou suas sobrancelhas em direção a elas, pois pareciam-lhe inconstantes e descuidadas, embora elas fossem encantadoras.

[89]Mas elas retrocederam dele tremendo e recuaram; pois todas estiveram de pé próximas a ele, observando-lhe com amor e ela, que falara mais, estivera segurando sua mão esquerda afetuosamente. Mas agora ela disse: “Não, não nos olhe tão amargamente! Se a mulher não está na região, isto não resulta de nossa malícia. Contudo, talvez ela esteja aqui. Pois aquele que vem para cá não conserva seus nomes antigos e logo esqueceu o que eles eram. Tu deves ir conosco ao Rei e ele deve fazer por ti o que tu desejares; pois ele é excessivamente poderoso.”

Depois disso Hallblithe foi acalmado de algum modo e disse: “Há muitas mulheres na terra?”

Sim, muitas,” disse aquela donzela.

E muitas são tão belas quanto vós sois?” disse ele. Então elas riram e estavam felizes; aproximaram-se dele novamente e ele tomou as mãos delas e beijou-as. A donzela de cabelos negros disse: “Sim, sim, há muitas tão belas quanto nós somos e algumas ainda mais belas,” e ela riu.

E esse Rei de vocês,” disse ele, “como vós nomeai-o?”

Ele é o Rei,” disse a Donzela.

Não tem ele outro nome?” disse Hallblithe.

Nós não podemos proferi-lo,” ela disse; “Mas tu deves vê-lo em breve, que não há nada nele exceto bem e poder.”


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ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.83-89. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/83/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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