A História da Planície Cintilante - Capítulo XIII Hallblithe contempla a Mulher que o ama

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[105]Mas, no dia seguinte, os homens levantaram-se e o Sea-eagle e sua donzela vieram a Hallblithe, pois as outras duas donzelas partiram. O Sea-eagle disse a ele: “Aqui estou eu, bem honrado e feliz sem medida, e tenho uma mensagem do Rei para ti.”

O que é?” disse Hallblithe; mas ele imaginava que sabia o que seria e ruborizou pela alegria de sua esperança certa.

Disse o Sea-eagle: “Alegria para ti, Oh companheiro de bordo! Eu estou para levar-te ao lugar onde tua amada reside e lá tu deves vê-la, mas não assim como ela possa ver-te. Depois disso tu deves ir ao Rei, para que tu possas contar-lhe se ela deve realizar teu desejo.”

Então Hallblithe ficou feliz além da medida e seu coração dançou dentro dele. Ele considerou isso simplesmente apropriado; que os outros devessem estar tão jubilosos e joviais com ele, pois eles conduziram-no adiante [106]sem qualquer demora e estavam contentes com seu regozijo. Palavras faltaram-lhe para contar de sua alegria.

Mas, enquanto ele ia, os pensamentos de sua conversa vindoura com sua amada enrolavam-se docemente em volta de seu coração, de modo que dificilmente coisa alguma parecera tão doce para ele antes. Ele começou a ponderar o que eles dois, ele e a Hostage, deveriam fazer quando eles se reunirem novamente; se deveriam residir na Planície Cintilante, ou retornar à Cleveland à Beira-mar e viver na Casa dos Parentes. Por sua parte, ele ansiava por contemplar o teto de seus antepassados e pisar no campo que sua foice limpara e nos acres onde seu gancho atingira o trigo. Mas ele disse a si mesmo, “Eu esperarei até que eu ouça o desejo dela aqui.”

Assim sendo eles entraram no bosque atrás do pavilhão do Rei, passaram por ele e então sobre a colina e, além dela, chegaram a uma terra de colinas e vales muito belos e encantadores. Um rio serpenteava em volta dos pequenos vales, envolvendo por sua vez os pés de um lado de colina ou outro e, em cada vale (pois eles passavam através de dois), ficava uma vistosa casa de homens com lavoura ao redor dela, vinhedos e pomares. Eles prosseguiram durante todo o dia, até que o sol estava próximo de se pôr, e não estavam cansados, pois foram às casas pelo caminho quando desejavam e tiveram boa acolhida, comida, bebida e [107]o que eles desejavam do povo que habitava ali. Deste modo, perto do pôr do sol, eles chegaram a um vale mais belo que qualquer um dos outros e, próximo ao fim de onde eles entraram, ficava uma casa excessivamente bela. Então disse a donzela:

Nós estamos quase no fim de nossa jornada. Que nos sentemos sobre a grama, próximo a este lado do rio, enquanto eu conto-te a história que o Rei mandar-te-ia saber.”

Então, eles sentaram-se sobre a grama ao lado do rio transbordante, à distância de dois tiros de arco daquela bela casa, e a donzela disse, lendo de um rolo de pergaminho que ela retirou de seu seio:

Oh Lanceiro, naquela casa habita a mulher predestinada a amar-te. Se tu desejas vê-la, vai naquela direção, seguindo o caminho que vira a partir do lado do rio próximo àquele carvalho, e tu logo deverás chegar a uma mata de louros, na borda de um pomar de maçãs, cujas árvores estão florescendo. Aguarda tu oculto pelas folhas de louro e deverás ver donzelas vindo ao pomar e, finalmente, uma mais bela que todas as outras. Essa deverá ser teu amor predestinado e nenhuma outra. Tu deverás conhecê-la por esse sinal; que, quando ela tiver sentado-se sobre a grama junto aos louros, deverá dizer às criadas dela: ‘Agora trazei-me o livro onde está a imagem de meu amado, para que eu possa confortar [108]a mim mesma, contemplando-a antes que o sol se ponha e a noite chegue.’”

Neste momento, Hallblithe ficou perturbado, quando ela leu aquelas palavras, e disse: “O que é este conto sobre um livro? Eu não sei de nenhum livro que jaza entre mim e minha amada.”

Oh Lanceiro,” disse a donzela, “eu não posso contar-te mais nada, poque não sei mais nada. Mas segue teu coração! Pois, tu sabes algo mais do que eu sobre o que acontecera à tua amada desde que tu foste separado dela? E por que não devia este assunto do livro ser uma das coisas que aconteceram a ela? Vai agora, com alegria, e volta novamente nos abençoando.”

Sim, vá, companheiro de viajem,” disse o Sea-eagle, “e volte contente, para que nós todos possamos ficar felizes juntos. E nós te aguardaremos aqui.”

Hallblithe pressentiu o mal, mas manteve sua calma e desceu seu caminho junto aos carvalhos. Eles permaneceram ali, próximos à água, e estavam muito felizes conversando isso e aquilo (mas nem traço de Hallblithe), beijando e acariciando um ao outro; de modo que pareceu a eles apenas pouco tempo até que vissem Hallblithe retornando junto aos carvalhos. Ele vinha lentamente, pendendo a cabeça como um homem sobrecarregado com pesar. Assim ele veio a eles e ficou de pé ali, acima deles, enquanto eles deitavam-se sobre a grama perfumada. [109]Ele não dizendo nenhuma palava e parecendo tão triste, desolado e, sobretudo, tão terrível, que eles temeram sua dor e sua raiva, e desejariam de bom grado ter estado longe dele. De modo que eles não se atreveram a perguntar-lhe uma só questão por um longo tempo e o sol mergulhou sob a colina enquanto eles permaneceram deste modo.

Em seguida, toda trêmula, a Donzela falou ao Sea-eagle: “Fale com ele, querido amigo, senão eu devo fugir, pois eu temo o silêncio dele.”

Falou o Sea-eagle: “Companheiro de bordo e amigo, o que aconteceu? Como estás você? Podemos nós ouvir com atenção e talvez melhorar?”

Então Hallblithe abaixou-se sobre a grama e disse: “Eu fui amaldiçoado e enganado: perambulo em voltas e voltas em um enredo do qual não posso escapar. Eu não estou distante de considerar que esta é uma terra de sonhos feitos para minha sedução. Ou a terra tornou-se tão cheia de mentiras que não há espaço em meio a elas para um homem verdadeiro ficar de pé e seguir seus caminhos?”

Disse o Sea-eagle: “Tu deves contar-nos sobre o que sucedeu e, assim, aliviar o sofrimento de tua alma se tu desejares. Ou, se tu desejares, tu deves cuidar de teu sofrimento em teu coração e não contar a nenhum homem. Faze o que tu desejares; eu não venho a ser teu amigo?”

Disse Hallblithe: “Eu contarei a vocês dois as notícias e depois disso não me perguntem nada mais sobre elas. Ouvi com atenção. Eu fui como vós mandaste-me [110]e escondi-me na mata de louros. Ali chegaram as donzelas ao pomar que florescia, fizeram um lugar de descanso com almofadas de seda próximo a onde eu estava à espreita e puseram-se de pé em volta como se elas estivessem esperando alguém chegar. Em pouco tempo chegaram mais duas donzelas e entre elas uma tão mais bela que qualquer uma ali, de modo que meu coração afundou dentro de mim: já que eu considerei, por causa da beleza dela, que ela seria o amor predestinado do qual vós falastes. Oh, ela não era em nada semelhante à minha donzela prometida, salvo que era excessivamente bela. Mesmo assim, infeliz como eu estava, eu decidi-me a aguardar o sinal do qual vós constastes a mim. Então, ela deitou-se em meio àquelas almofadas e eu observei que ela estava triste de semblante. Ela estava tão próxima de mim que eu pude ver as lágrimas brotando de seus olhos e escorrendo por suas bochechas; de modo que eu deveria ter entristecido seriamente por ela [se] não estivesse eu entristecendo tão seriamente por mim mesmo. Pois logo ela sentou-se e disse: ‘Oh donzela, traga-me aqui o livro no qual está a imagem de meu amado, para que eu possa contemplá-la neste período de pôr do sol, no qual primeiro vi-o e para que possa encher meu coração com a visão dela antes que o sol se vá e a escura noite venha.’ Então, de fato, meu coração morreu dentro de mim quando eu soube que ela era o amor do qual o Rei [111]falou, que ele daria para mim, e não [era] minha própria amada. Todavia, eu não pude escolher senão permanecer e contemplar por um tempo, com ela sendo alguém que qualquer homem podia amar além da medida. Agora uma donzela foi à casa e retornou com um livro coberto com ouro adornado com gemas. A bela mulher tomou-o e abriu-o e eu estava tão perto dela que vi cada folha claramente conforme ela virava as páginas. E naquele livro ficavam retratos de muitas coisas, como montanhas flamejantes, castelos de guerra, embarcações sobre o mar, mas, principalmente, de belas mulheres e rainhas, guerreiros e reis; e era fabricado em ouro, índigo, cinabre e chumbo vermelho. Então, ela virou as páginas, até que chegou a uma onde estava retratado ninguém menos que eu mesmo e acima, defronte de mim, estava a imagem de minha própria amada, a Hostage da Rosa, como se ela estivesse viva, de modo que o coração dentro de mim cresceu com o soluço que eu tive de conter e que me afligiu como um golpe de espada. Vergonha também tomou posse de mim enquanto a bela mulher falava com minha imagem pintada e eu deitado bem perto ao alcance de tocar a mão dela. Mas ela disse: ‘Oh meu amado, por que tu tardas a vir a mim? Pois eu considerava que esta noite finalmente tu chegarias, tantas e tão fortes como são as malhas do amor que nós lançamos ao redor de teus pés. Oh, [112]venha amanhã pelo menos e tardio, ou o que eu devo fazer? Com o que eu devo extinguir a dor de meu coração? Ou senão, por que eu sou a filha do Rei Imorredouro, o Senhor do Tesouro do Mar? Por que ele forjaram novas maravilhas para mim assim como obrigaram os Devastadores das Costas a servir-me e enviaram falsos sonhos voando sobre as asas da noite? Sim, por que a terra é bela e fecunda, bem como os céus gentis acima, se tu não vens esta noite, nem amanhã, nem no dia depois? E eu, a filha do Imorredouro, sobre quem os dias devem crescer e crescer como os grãos de areia que o vento amontoa acima da praia do mar. E a vida deve crescer imensa e mais terrível em volta perto do solitário, como o verme deitado sobre o ouro que assim cresce, até que ele repouse completamente em volta junto a da casa da rainha aprisionada; o imóvel anel sem fim dos anos que não mudam.’ Assim ela falou até que o pranto terminou suas palavras e eu estava todo embaraçado de vergonha e pálido de angustia. Eu arrastei-me quietamente de meu covil, despercebido por todas, salvo por uma donzela que disse que um coelho correu para a cerca viva e por outra [para quem] um melro mexeu-se na mata. Contemplai-me, então, que minha busca começa novamente em meio ao emaranhado de mentiras onde eu fora apanhado.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.105-112. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/105/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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