A História da Planície Cintilante - Capítulo XVI Aqueles Três seguem em seus Caminhos até a Borda da Planície Cintilante

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[128]Assim a noite consumiu-se animadamente. Eles fizeram Hallblithe deitar-se em um canto da tenda sobre uma boa cama; ele estava cansado e ai dormiu como uma criança. Mas cedo pela manhã eles despertaram-no e, enquanto eles estavam tomando café, começaram a falar com ele sobre sua partida e perguntaram-lhe se ele tinha alguma vaga ideia do caminho através do qual ele devia ir-se embora. Ele disse: “Se eu escapar precisa ser através do caminho das montanhas que muram a terra de um lado para o outro até que elas descem ao mar. Pois, no mar não há embarcação e nem porto; e, bem, eu não tenho conhecimento de nenhum homem da região que se atreva a ou possa levar-me de barco para a terra de meus parentes, ou outro lugar fora da Planície Cintilante. Dizei-me portanto (e eu não peço nada mais de vós); há algum rumor ou memória de uma passagem que abra caminho, através daquela poderosa parede de rocha, para outras terras?”

Disse a donzela: “Há mais do que uma memória ou um rumor: há uma estrada através [129]das montanhas conhecida de todos os homens. Visto que, às vezes, peregrinos terrestres entram na Planície Cintilante por esse meio e, contudo, apenas raramente, [pois] muitos são as aflições e os perigos que atormentam os viajantes naquela estrada. Dos quais tu tinhas muito melhor de reconsideras-te em tempo, permanecer aqui e ser feliz conosco e outros que anseiam extremamente para fazer-te feliz.”

Não,” disse Hallblithe, “não há nada a fazer senão dizer me o caminho e eu partirei imediatamente, abençoando vocês.”

Disse o Sea-eagle: “Mais do que isso nós faremos, ao menos. Possa eu perder a felicidade que alcancei, se eu não for contigo à borda mesma da terra da Planície cintilante. Não deve ser assim, querida?”

Sim, ao menos isso nós podemos fazer,” disse a donzela. Ela pendeu a cabeça como se estivesse envergonhada e disse: “E isso é tudo que tu conseguirás de nos, no máximo.”

Disse Hallblithe: “É suficiente, e eu não pedi tanto.”

Então a donzela ocupou a si mesma; colocou comida e bebida em duas mochilas, tomou uma ela mesma, deu a outro ao Sea-eagle, e disse: “Nós seremos teus carregadores, Oh Lanceiro, e dar-te-emos uma mochila cheia a partir da última casa perto do Deserto do Pavor, pois, quando tu entraste [130]naquele lugar, bem podes achar mantimentos difíceis de obter. Agora, que não demoremos mais, visto que a estrada é cara a ti.”

Então eles partiram a pé, pois naquela terra os homens eram lentos para sentir cansaço e, virando na colina ao final do bosque, passaram por uma região irregular e chegaram mesmo a uma casa na entrada de um longo vale, com lados altos e de declinação acentuada, os quais pareciam, por assim dizer, fender a região do pequeno vale na qual outrora eles tinham viajado. Naquela casa eles dormiram bem hospedados por sua gente. Na próxima manhã, eles tomaram seu caminho no vale abaixo e a gente da casa ficou à porta para assistir a partida deles, pois eles contaram aos viajantes que eles viajaram apenas um pouco do caminho naquela direção e não sabiam de ninguém que usara aquela estrada.

Então aqueles três desceram o vale na direção sul o dia todo, sempre escalando mais alto conforme iam. O caminho estava agradável e fácil, pois eles passavam por relvados belos, lisos e cobertas de grama entre as encostas das colinas, ao lado de um claro córrego ruidoso que corria em direção ao norte. Às vezes havia pequenas matas de árvores altas, carvalho pela maior parte, e às vezes matas de espinheiros, madressilvas e outras árvores semelhantes: de modo que eles podiam descansar bem sombreados onde quisessem.

Eles não passaram por nenhuma casa de homens, nem chegaram a nada semelhante à noite, mas deitaram-se para dormir em [131]uma mata de espinheiros e madressilvas, descansaram bem e, no dia seguinte, eles levantaram-se cedo e seguiram em seus caminhos.

Neste segundo dia, conforme eles iam, as encostas em cada mão tornavam-se mais baixas, até que finalmente elas extinguiram-se em uma ampla planície, além da qual no alto-mar sul as montanhas erguiam-se imensas e descobertas. Esta planície também era coberta por grama e tomada por árvores e matas aqui e ali. Aqui eles veem bastante animais selvagens, como veado e pinote, cabrito-montês e suíno. Além disso, um leão saiu de um matagal próximo a eles, enquanto eles iam, e ficou encarando-os; de modo que Hallblithe olhou para suas armas e o Sea-eagle pegou uma grande pedra com a qual lutar, estando desarmado; mas a donzela riu e saltitou levemente em seu caminho com seu vestido preso à cintura, e a fera não lhes deu mais atenção.

Fácil e suave foi o caminho deles através desta agradável vastidão, e claro de ver, embora apenas pouco usado e, antes do cair da noite, após eles terem ido por um longo percurso, eles chegaram a uma casa. Não era grande nem alta, mas era construída muito forte e razoavelmente de bom silhar: sua porta estava fechada e da jamba dali pendia uma corneta. A donzela, que parecia saber o que fazer, colocou sua boca na corneta e soprou. Em pouco tempo, a porta foi aberta e um grande homem vestido em vermelho escarlate pôs-se de pé ali; ele não tinha [132]armas, mas era um tanto ríspido de aspecto. Ele não falou, mas permaneceu aguardando a palavra; então a donzela aproveitou e disse: “Não és tu o Guardião da Casa Mais Distante?” Ele disse: “Eu sou.”

Disse a donzela: “Nós podemos ser hóspedes aqui esta noite?”

Ela disse: “A casa está aberta para vós, com tudo que têm de provisões e equipamento. Tomai o que vós desejais e usai o que vós desejais.”

Eles agradeceram-lhe; mas ele não atentou para os agradecimentos deles e afastou-se. Assim eles entraram e encontraram a mesa posta em um belo salão de pedra entalhada e pintado muito vistosamente. Então eles comeram e beberam ali, Hallblithe ficou de bom coração e o Sea-eagle e sua mulher estavam felizes, embora eles olhassem suave e timidamente para Hallblithe por causa da separação próxima. Eles não viram homem, na casa salvo o homem em escarlate, que ia e vinha ocupado com seus afazeres, não prestando atenção a eles. Desta forma, quando a noite estava escura, eles deitaram-se nas camas fechadas fora do salão, dormiram e as horas foram sem notícias para eles até que eles despertaram pela manhã.

No dia seguinte, eles levantaram-se, tomaram o café da manhã e depois disso a donzela falou ao homem em escarlate e disse: “Nós podemos encher nossas mochilas com os mantimentos para o caminho?”

Disse o Guardião: “Lá fica a comida.”

[133]Então eles encheram suas mochilas, enquanto o homem olhava. Eles vieram à porta quando estavam prontos e ele abriu-a para eles, não dizendo nenhuma palavra. Mas, quando eles voltaram seus rostos na direção das montanhas, ele finalmente falou, e impediu-os ao primeiro passo. Ele disse: “Para onde? Vós tomais a estrada errada!”

Disse Hallblithe: “Não, pois nós vamos em direção às montanhas e à borda da Planície Cintilante.”

Vós deveis fazer mal de ir para lá,” disse o Guardião, “e eu ordeno-vos desistir.”

Oh Guardião da Casa Mais Distante, por que nós devemos desistir?” disse o Sea-eagle.

Disse o homem escarlate: “Porque meu dever é ajudar aqueles que vão para dentro [em direção] ao Rei, e obstar aqueles que iriam para fora para longe do Rei.”

E se nós fossemos para fora apesar de tua ordem?” disse o Sea-eagle, “tu nos impediria forçosamente?”

Como eu posso,” disse o homem, “já que teu camarada tem armas?”

Vamos em frente, então,” disse o Sea-eagle.

Sim,” disse a donzela, “nós iremos em frente. E saiba, Oh Guardião, que apenas este homem armado tem a intenção de viajar através da borda da Planície Cintilante; mas nós dois devemos voltar para cá novamente e viajar para dentro.”

Disse o Guardião: “Nada é para mim o que [134]vós fareis quando vós estiverdes passado desta casa. Nem deve qualquer homem que saia deste pátio na direção das montanhas jamais voltar para dentro, salvo se ele vier na companhia de recém-chegados à Planície Cintilante.”

Quem deve impedi-lo?” disse o Sea-eagle.

O REI,” disse o Guardião.

Em seguida, houve silêncio por um momento e o homem disse: “Agora, fazei como vós desejais.” E com isso ele voltou-se para trás, entrou na casa e fechou a porta.

Mas o Sea-eagle e a donzela ficaram olhando um para o outro, assim como para Hallblithe. A donzela estava desanimada e pálida, mas o Sea-eagle exclamou: “À frente agora, Oh Hallblithe, já que tu desejas isso, e nós iremos contigo e compartilharemos o que quer que possa acontecer contigo. Sim, até a borda mesma da Planície Cintilante. E tu, Oh amada, por que tu tardas? Por que tu ficas de pé como se teus belos pés tivessem crescido [a partir] da grama?”

Mas a donzela soltou um clamor lamentável, jogou-se no chão, ajoelhou-se diante do Sea-eagle, segurou-o pelos joelhos e disse entre soluçando e chorando: “Oh meu marido e amor, eu suplico-te para desistir, e o Lanceiro, nosso amigo, deve perdoar-nos. Pois se tu fores, eu nunca mais deverei ver-te, visto que meu coração não servirá para ir contigo. Oh desiste! Eu suplico-te!”

[135]E ela arrastou-se sobre o solo diante dele. O Sea-eagle ruborizou e teria falado; mas Hallblithe interrompeu sua fala e disse: “Amigos, fiquem em paz! Pois este é o momento que nos separa. Retornai-vos imediatamente ao coração da Planície Cintilante, vivei lá e sede felizes. Levai minha benção e obrigado pelo amor e ajuda que vós deste-me. Pois, vossa ida adiante comigo deve destruir-vos e beneficiar-me em nada. Seria somente como se o anfitrião trouxesse seus convidados a um campo além de seu pátio, quando o objetivo deles é o fim da terra; e se houvesse um leão no caminho, por que deveria ele perecer pelo bem de sua cortesia?”

Com isso, ele abaixou-se até a donzela, levantou-a e beijou o rosto dela, assim como lançou seus braços ao redor do Sea-eagle e disse-lhe: “Adeus, camarada de bordo!”

Em seguida, a donzela deu-lhe a mochila de mantimentos e desejou-o adeus, chorando intensamente. Ele olhou-os gentilmente por um momento de tempo e, em seguida, afastou-se deles e partiu em direção às montanhas, transpondo com passos largos, mantendo a cabeça erguida. Mas eles não olharam mais para ele, não tendo vontade aumentar seu sofrimento, mas novamente retornaram em seus caminhos sem demora.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.128-135. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/128/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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