A Floresta além do Mundo - Capítulo XIII Agora é Caçar

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[89]Na próxima manhã, ele estava de pé cedo, mas estava deprimido e pesado de coração, não esperando por nada mais acontecer do que sucedera nesses últimos quatro dias. Mas, de outra forma seguiu-se; pois, quando ele desceu ao salão, lá estava a Senhora sentada no assento elevado sozinha, envolta somente em um casaco de linho branco. Ela virou a cabeça quando ouviu os passos dele, olhou para ele, cumprimentou-o e disse: ‘Venha aqui, hóspede.’

Então ele foi, pôs-se de pé diante dela e ela disse: Embora até agora tu não foste recebido aqui, e nem considerado, não entrou em teu coração fugir de nós. Para dizer a verdade, isso é bom para ti; pois, fugir para longe de nossa mão tu não pudeste, nem pudeste tu partir sem nosso apoio. [90]Meramente por isto nós podemos agradecer-te; que tu permaneceu aqui [sob] nosso comando, engoliu teu coração através do cansaço pesado de quatro dias e não se queixou. Todavia, eu não posso considerar-te um covarde; tu tão bem constituído e bem-proporcionado de corpo, de olhos tão brilhantes e ousado de rosto. Agora, portanto, eu pergunto-te; tu estás disposto a fazer-me serviço [e] assim merecer tua hospedagem?

Walter respondeu a ela, um pouco vacilante no começo, pois ele estava atônito diante da mudança que chegava sobre ela; pois agora ela falava-lhe de modo amigável, embora de fato como uma grande senhora falaria para um jovem pronto a servir a ela em toda honra. Disse ele: ‘Senhora, eu sou capaz de agradecer-te humilde e sinceramente por aquilo que tu esperas-me fazer-te serviço. Pois nesses dias passados eu detestei o vazio das horas, e nada melhor podia pedir que servir a uma Mestra tão gloriosa em toda honra.’

Ela franziu um pouco a testa e disse: ‘Tu não deves chamar-me de Mestra; há somente alguém que assim me chama, que é minha escrava e tu não és nada disso. Tu deves chamar-me de Senhora e eu deverei ficar bem contente que tu sejas meu escudeiro e, para este momento, tu deves servir-me na arte da caça. Então, pega teu equipamento; [91]teu arco e flechas, e põe tua espada no cinto em tua cintura. Pois, nesta bela terra, alguém pode encontrar feras mais perigosas do que são o pinote ou o veado. Eu vou agora para arrumar-me. Nós partiremos enquanto o dia ainda for jovem; pois assim nós faremos do dia de verão o mais belo.

Ele fez reverência a ela. Ela ergueu-se e foi a seus aposentos. Walter preparou a si mesmo e em seguida a aguardou na varanda. Em menos de uma hora ela saiu do salão e o coração de Walter bateu quando ele viu que a Donzela seguia-a bem atrás, além de que dificilmente pôde ele adestrar seus olhos para não olhar fixa e ansiosamente para sua querida amiga. Ela estava vestida igual a como estava antes, não mudara de nenhuma maneira, salvo [que] o amor perturbou o rosto dela, quando ela primeiro o viu, e ela teve muita dificuldade para dominar-se. No entanto, a Senhora não prestou atenção ao transtorno dela, ou não aparentou ter atentado para ele, até que a face da Donzela estivesse completamente segundo seu costume.

Mas isto Walter achou estranho; que após todo aquele desdém da escravidão da Donzela que ele ouviu da Senhora, e depois de todas as ameaças contra ela, agora a Senhora tornava-se suave e afável com ela; como uma boa senhora para sua boa moça. Quando Walter dobrou os joelhos para ela, ela virou-se [92]para a Donzela e disse:Olha tu, minha Criada, para este belo novo Escudeiro que eu consegui! Ele não será valente na floresta verde? E vê se ele não é bem formado ou não. Ele não toca teu coração, quando tu pensas em toda a aflição, medo e problema da Floresta além do Mundo, da qual ele escapou, para habitar pacificamente nesta pequena terra, bem-amado por ambas, a Senhora e a Criada? E tu, meu Escudeiro, olha um pouco para essa bela Donzela esbelta e diz se ela não te apraz. Tu não julgavas que nós tínhamos alguma coisa tão bela neste lugar solitário?’

Franco e gentil era o sorriso no radiante rosto dela; nem ela pareceu notar qualquer partícula de transtorno no rosto de Walter, nem como ele esforçava-se para manter seus olhos longe da Donzela. Quanto a ela; ela dominara tão completamente sua fisionomia que quiça usava sua face maliciosamente, pois ficou de pé como alguém humilde mas feliz; com um sorriso no rosto, corando e com a cabeça pendida como se acanhada diante de um vistoso jovem, um estranho.

Mas a Senhora olhou para ela gentilmente e disse: ‘Venha aqui, criança, e não tema este jovem franco e livre, que provavelmente te teme [93]um pouco e muito certamente me teme; e contudo somente segundo a maneira dos homens.

E com isso ela tomou a Donzela pela mão e puxou-a para si, apertou-a contra o seu seio, beijou suas bochechas e seus lábios, desfez o laço de seu vestido, desnudou um ombro dela e tirou a saia do pé dela. Então virou-se para Walter e disse: ‘Oh tu, Escudeiro! Não é uma coisa adorável ter crescido entre nossos rudes troncos de carvalho? Que! Tu estás olhando para esse anel de ferro ai? Não é nada, exceto um símbolo de que ela é minha e de que eu não posso ser sem ela.’

Em seguida, ela tomou a Donzela pelos ombros, virou-a como em gracejo, e disse: ‘Agora vai tu e traz aqui os bons cinzentos; pois nós precisamos trazer para casa alguma veação hoje, já que este guerreiro robusto não pode alimentar-se de nada salvo fatias de excelente pão e mel.’

Então a Donzela seguiu seu caminho, cuidando, como Walter achava, para não dar nenhuma olhada lateral para ele. Mas ele ficou lá de pé, envergonhado, tão confuso com toda esta bondade de coração aberto da grande Senhora e com a visão recente da beleza querida da Donzela, que quase passou a pensar que tudo que ouviu desde [94]que chegou à varanda da casa naquela primeira vez foi somente um sonho do mal.

Mas, enquanto ele estava de pé ponderando sobre esses assuntos e encarando [algo] diante de si como alguém desorientado, a Senhora riu no rosto dele, tocou-o sobre o braço e disse: ‘Ah, nosso Escudeiro, é desta forma que agora [que] tu viste minha Criada tu desejavas com uma boa vontade permanecer para trás para falar com ela? Mas lembra-te de tua palavra empenhada a mim ainda agora! E, além disso, eu digo-te isto para teu benefício, agora que ela está fora do alcance da audição; que eu, acima de todas as coisas, levar-te-ei embora hoje. Pois há outros olhos, eles nada impróprios, que, ao mesmo tempo, olham para minha escrava de belo tornozelo e que sabem [que] somente as espadas podiam ficar de fora se eu não tomar o maior cuidado e não te conceder cada partícula de tua vontade.’

Enquanto ela falava e movia-se adiante, ele virou-se um pouco, de modo que agora a borda daquela talhadia de aveleiras estava dentro de seu campo de visão, e achou que uma vez mais viu a coisa marrom amarelada rastejando adiante a partir do matagal. Então, voltando-se subitamente para a Senhora, ele encontrou os olhos dela e pareceu, por um momento de tempo, encontrar um distante outro aspecto neles do que aquele de franqueza e bondade; embora num instante eles mudassem de volta novamente. Ela disse, alegre e docemente: [95]‘Então, Senhor Escudeiro, agora tu estás acordado novamente e podes por pouco tempo olhar para mim.’

Agora, veio-lhe subitamente o pensamento de que, com aquela aparência dela, todo aquele poder cairia sobre ele e a Donzela se ele não dominasse sua paixão, nem fizesse o que ele pudesse para dissimular. Então ele dobrou o joelho para ela e falou corajosamente para ela no estilo próprio dela e disse: ‘Não, mais graciosa das senhoras, de modo algum eu permaneceria para trás hoje visto que tu viajas fora de casa. Mas, se minha fala é embaraçada, ou meus olhos são dispersos, não é por que minha mente está confusa por tua beleza e pela doçura das tuas palavras gentis que fluem de tua boca?’

Ela riu sinceramente com a palavra dele, mas não desdenhosamente, e disse: ‘Isto é bem dito, Escudeiro, e até o que um escudeiro devia dizer para sua senhora soberana, quando o sol está alto em uma bela manhã, e ela, ele e todo o mundo estão felizes.’

Ela ficou de pé bem perto dele enquanto falava, a mão dela estava sobre o ombro dele e os olhos dela brilhavam e cintilavam. Verdade é dizer que [para] escusar a confusão dele era suficiente a visão da verdade; pois certamente nenhuma criatura de modo algum foi moldada mais bela do que ela. Vestida ela estava para a floresta verde, como uma deusa da caça dos [96]gentios; com seu vestido verde reunido ao redor de seu cinto e sandálias nos pés; um arco na mão e uma aljava em suas costas. Ela era mais alta e maior de forma do que a cara Donzela, mais branca de corpo, mais gloriosa e mais brilhante de cabelo; como uma flor das flores devido a beleza e a fragrância.

Ela disse: ‘Tu és de fato um bom escudeiro antes da caça que está adiante e, se tu fores tão bom na arte da caça, tudo será melhor do que bem e o hóspede será bem-vindo. Mas Oh! Aqui vêm nossa Criada com os bons cinzentos. Vai encontrá-la e nós não nos demoraremos mais do que tua tomada da coleira na mão.’

Então Walter olhou e viu a Donzela vindo com dois pares de grandes cães de caça na coleira, esticando contra ela conforme ela chegava junto. Ele correu ligeiramente para encontrá-la, perguntando-se se ele devia ter uma olhada, ou um meio sussurro dela. Mas ela permitiu-o tomar as correias brancas da mão dela, com o mesmo meio sorriso de vergonha ainda posto na face dela, e, passando por ele, veio suavemente até a Senhora, bamboleante como um galho de salgueiro, e pôs-se de pé diante dela, com os braços pendurados de lado. Então a Senhora voltou-se para ela e disse: “Atenta para ti mesma, nossa Criada, enquanto nós estivermos longe. Este jovem tu de fato não necessitas [97]temer, pois ele é bom e leal; mas o que tu deves fazer com o Filho do Rei eu não tenho conhecimento. Ele é um amante verdadeiramente entusiasmado, mas um homem difícil e, ao mesmo tempo, mal é o humor dele e perigoso para ambas, tu e eu. E se tu fizeres a vontade dele, deverá ser ruim para ti; se tu não a fizeres, toma cuidado com ele, e deixe-me, a mim apenas, ficar entre a ira dele e a ti. Eu posso fazer alguma coisa por ti. Ontem mesmo, ele foi direto comigo para ter-te castigada segundo a maneira dos escravos. Mas eu mandei-o silenciar de tais palavras, zombei e escarneci dele, até que ele foi para longe de mim rabugento e com raiva. Assim, atenta para isso, para que tu não caias em nenhuma armadilha de invenção dele.”

Em seguida, a Donzela lançou-se aos pés da Senhora, beijou-os e abraçou-os. Enquanto ela erguia-se, a Senhora colocou a mão levemente sobre a cabeça dela e, em seguida, voltando-se para Walter, clamou: ‘Agora, Escudeiro, deixemos todos esses problemas, ardis e desejos atrás de nós e voemos através da agradável floresta verde, como os Gentios dos dias antigos.’

E com isso, ela levantou a bainha do vestido, até que a brancura dos joelhos dela fosse vista, e partiu rapidamente em direção do bosque que se estendia ao sul da casa, e Walter seguiu, maravilhando-se de sua excelência. Nem se atreveu ele [98]a olhar para a Donzela, pois sabia que ela desejava-o e era para ela somente que ele procurava para sua libertação desta casa de astúcia e mentiras.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.89-98. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/89/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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