A Floresta além do Mundo - Capítulo XIV A Caçada do Veado

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[99]Conforme iam, eles encontraram uma mudança na região, a qual se esvaziou de árvores largas e grandes e tornou-se mais ocupada por matagais. De um desses eles despertaram um veado e, depois disso, Walter deixou escapar seus cães de caça, bem como ele e a Senhora acompanharam correndo. Demasiadamente rápida ela era e de bom fôlego além disso, de modo que Walter maravilhou-se com ela. Ela estava tão ansiosa na perseguição quanto os próprios cães, não atentando para o arranhão dos espinheiros ou a batedura dos galhos rígidos enquanto corria. Mas, apesar da caçada ansiosa deles, a presa foi mais depressa que ambos, cães e gente, e entrou em um grande matagal, no meio do qual ficava uma larga poça de água. Dentro do matagal, eles seguiram-no, mas ele foi à água sob os olhos deles e alcançou a terra no outro lado e, por causa do emaranhado de vegetação rasteira, ele nadou de lado a lado muito mais rápido do que eles podiam [100]ter qualquer esperança de chegar em volta dele. Assim foi [que] os caçadores deixaram por fazer dessa vez.

Então a Senhora abaixou-se sobre a grama verde próxima à água, enquanto Walter convocava os cães de caça e agrupava-os. Em seguida, ele virou-se de volta para ela e, oh!, ela estava chorando pela desonra [com] que eles perderam a presa. Novamente Walter maravilha-se de que uma coisa tão pequena devesse provocar uma paixão de lágrimas nela. Ele não se atreveu a perguntar o que a afligia, ou oferecer-lha consolo, mas não ficou mau satisfeito ao contemplar a beleza dela enquanto ela deitava-se.

Logo ela levantou a cabeça, voltou-se para Walter, falou para ele iradamente e disse: ‘Escudeiro, por que tu estás de pé encarando-me como um tolo?’

De fato, Senhora,’ ele disse; ‘mas a visão de ti faz-me insensato para ver mais nada, exceto para olhar-te.’

Ela disse, em uma voz irritadiça: ‘Nádegas, Escudeiro, o dia está muito gasto para falas corteses e suaves; o que era bom lá não é tão bom aqui. Além disso, eu conheço mais de teu coração do que tu julgas.’

Walter pendeu sua cabeça e corou. Ela olhou para ele, o rosto dela mudou, ela sorriu e disse, gentilmente desta vez: Veja você, Escudeiro, eu estou quente, cansada e mal disposta. [101]Mas logo ficará melhor para mim; pois meus joelhos estiveram contando a meus ombros que a água fria deste pequeno lago será doce e agradável neste meio dia de verão, e que eu deverei esquecer minha frustração quando tiver tido meu prazer ali. Portanto, vai tu com teus cães de caça para fora do matagal e lá aguarda minha vinda. E eu ordeno-te; não olhes para trás enquanto tu vais, pois naquele lugar existem perigos para ti. Eu não deverei manter-te esperando sozinho por muito tempo.

Ele curvou a cabeça para ela, virou-se e prosseguiu em seus caminhos. E agora, quando ele estava a uma pequena distância dela, julgou-a verdadeira maravilha entre as mulheres, bem como quase esqueceu de todas as suas dúvidas e medos relativos a ela; quer ela fosse uma bela imagem formada a partir de mentiras e astúcia, ou podia ser somente uma coisa maligna na forma de uma mulher vistosa. Verdadeiramente, quando ele viu-a afagando a querida e amável Donzela, o coração dele voltou-se inteiramente contra ela, apesar do que os olhos e ouvidos dele contaram a sua mente, e ela parecia como se fosse uma serpente envolvendo a singeleza do corpo que ele amava.

Mas agora estava tudo mudado, ele deitou-se na grama e ansiava pela chegada dela, a qual foi atrasada por pouco mais [102]de uma hora. Então ela voltou a ele, sorrindo revigorada e alegre; o vestido verde dela abaixado até os calcanhares.

Ele ergueu-se para encontrá-la; ela aproximou-se dele e falou com um rosto sorridente: ‘Escudeiro, tu não tens comida em tua mochila? Pois, pareceu-me, eu alimentei-te quando tu estiveste faminto outro dia; agora, faz tu o mesmo por mim.

Ele sorriu e curvou-se respeitosamente para ela; pegou sua mochila e retirou daí pão, carne e vinho; espalhou-os todos diante dela na grama verde e, em seguida, ficou de pé perto humildemente diante dela. Mas ela disse: ‘Não, meu Escudeiro, senta-te próximo a mim e come comigo, pois hoje nós dois juntos somos caçadores.’

Então ele sentou-se próximo a ela tremendo, mas nem por admiração de sua grandeza, nem por medo e horror da astúcia e feitiçaria dela.

Por um tempo eles sentaram-se ali juntos, depois de terem acabado a refeição, e a Senhora começou a falar com Walter a respeito das partes da terra, das maneiras dos homens e das viagens para lá e para cá.

Finalmente ela disse: ‘Tu constate-me muito e respondeste todas as minhas questões sabiamente, assim como meu bom Escudeiro devia e isso me agradou. Mas agora, conta-me sobre a cidade na qual [103]tu nasceste e foste criado; uma cidade da qual tu até agora não me contaste nada.

Senhora,’ ele disse, ‘é uma bela e grande cidade e, para muitos, ela parece adorável. Mas eu deixei-a, e agora não é nada para mim.

Tu não tens parentes lá?’ Disse ela.

Sim’, disse ele, ‘e inimigos igualmente e uma mulher falsa enfadou minha vida lá.’

E quem era ela?’ disse a Senhora.

Disse Walter: ‘Ela era apenas minha esposa.’

Ela era bela?’ disse a Senhora.

Walter olhou para ela por um tempo, e então disse: ‘Eu estava para dizer que ela era quase tão bela quanto você; mas isso dificilmente pode ser. Contudo, ela era muito bela. Mas agora, Senhora graciosa e gentil, eu te direi esta palavra: admiro-me que tu perguntaste-me tantas coisas concernentes à cidade de Langton na Várzea, onde eu nasci e onde ainda estão meus parentes; pois pareceu-me que tu conhece-a por ti mesma.’

Eu conheço-a, eu?’ disse a Senhora.

O que, então! Tu não a conheces?’ disse Walter.

Falou a Senhora, e algo de seu antigo desdém estava em suas palavras: Tu julgas que eu vagueio ao redor do mundo e seus lugares de barganha como um dos mascates? Não, eu [104]habito na Floresta além do Mundo e em nenhum outro lugar. O que puseste esta palavra em tua boca?

Ele disse: ‘Perdoe-me, Senhora, se eu agi mal. Mas assim foi: meus próprios olhos contemplaram-te descendo o cais de nossa cidade, daí um bordo de navio e a embarcação navegou para fora do porto. E primeiramente passou um anão estranho, o qual eu vira aqui; em seguida, tua Criada e, então, avançou teu corpo adorável e gracioso.

O rosto da Senhora mudou enquanto ele falava; ela tornou-se vermelha, então pálida e firmou os dentes. Mas ela conteve-se e disse: ‘Escudeiro, eu vejo em ti que tu não és mentiroso, nem leviano de juízo, portanto eu suponho que tu verdadeiramente tenhas visto uma aparência de mim. Mas eu nunca estive em Langton, nem pensei nisso, nem sabia que havia um tal lugar até que tu nomeaste-o agora mesmo. Portanto, eu considero que um inimigo lançou a sombra de mim no ar daquela terra.’

Sim, minha Senhora,’ disse Walter; ‘e que inimigo tu podias ter para ter feito isso?

Ela demorou em responder, mas finalmente falou uma boca trêmula de raiva: ‘Não conheces tu o provérbio, que os inimigos de um homem estão [105]em sua própria casa? Se eu descobrisse a verdade de quem vez isto, o dito inimigo deveria ter uma má hora comigo.

Novamente ela silenciou, fechou as mãos e retesou os membros no calor de sua ira. De modo que Walter ficou com medo dela, todos os receios retornaram ao coração dele novamente e ele arrependeu-se de que contara demais a ela. Mas, em pouco tempo, todo aquele transtorno e ira pareceram fugir dela e, novamente, ela ficou de bom ânimo, amável e doce com ele. Ela disse: ‘Mas, em verdade, não obstante que possa ser, eu agradeço-te, meu Escudeiro e amigo, por contar-me acerca disto. E seguramente nenhuma culpa eu coloco em ti. E, além disso, não foi esta visão que te trouxera para cá? ’

Assim foi, Senhora,’ disse ela.

Então nós temos de agradecê-la,’ disse a Senhora, ‘e tu és bem-vindo à nossa terra.’

E com isso ela estendeu a mão a ele, e ele levou-a para seus joelhos e beijou-a. Em seguida foi como se um ferro quente vermelho transpassasse o coração dele; ele sentiu-se fraco e curvou a cabeça. Mas ele ainda segurou a mão dela e beijou-a muitas vezes, assim como o pulso e o braço, e não sabia onde ele estava.

[106]Mas ela afastou-se um pouco dele, levantou-se e disse:Agora o dia está esgotando-se, e se nós tivermos de trazer de volta alguma veação nós precisamos entregar-nos ao trabalho. Então erga-se, Escudeiro, tome os cães de caça e venha comigo; pois não muito distante fica uma pequena mata que, na maioria das vezes, abriga uma abundância de veados, grandes e pequenos. Percorramos nossos caminhos.’


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.99-106. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/99/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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