[71]A palavra ‘Ana’ (pronunciada amplamente Arna) corresponde ao nosso plural ‘homens’; ‘An’ (pronunciada Arn), ao singular, a ‘homem’. A palavra para mulher é Gy (pronunciada forte, como em ‘Guy’); forma a si mesma em Gy-ei para o plural, mas o G torna-se macio no plural, como Jy-ei. Eles tem um provérbio para o efeito; que essa diferença de pronuncia é simbólica, pois o sexo feminino é macio no concreto, mas difícil de lidar no indivíduo. As Gy-ei estão no mais completo gozo de todos os direitos da igualdade com os homens, pelo que certos filósofos acima do solo lutam.
Na infância, elas realizam imparcialmente as funções de ocupação e trabalho com os meninos; e, realmente, na mais tenra idade apropriada à destruição de animais irrecuperavelmente hostis, as [72]meninas são frequentemente preferidas, como sendo por constituição mais cruéis sob a influência do medo ou ódio. No intervalo entre a infância e a idade núbil, [a] relação familiar entre os sexos é suspensa. Na idade núbil é renovada, nunca com consequências piores do que aquelas que tratam do casamento. Todas as artes e vocações atribuídas a um sexo estão abertas ao outro, e as Gy-ei arrogam a si mesmas a superioridade em todas esses obscuros e místicos ramos do raciocínio, para os quais elas dizem que os Ana são inadequados por uma sobriedade enfadonha do entendimento, ou pela rotina de suas ocupações prosaicas; bem como as moças em nosso próprio mundo constituem a si mesmas autoridades nos pontos mais sutis da doutrina teológica, para a qual poucos homens, ativamente envolvidos em assuntos mundanos, tem suficiente aprendizagem ou refinamento de intelecto. Seja devendo ao treinamento precoce em exercícios ginásticos, ou à organização temperamental delas, as Gy-ei são usualmente superiores aos Ana em força física (um elemento importante na consideração e na manutenção dos direitos das mulheres). Elas atingem [73]estaturas mais elevadas e, em meio às suas proporções arredondadas, estão engastados tendões e músculos tão resistentes quanto aqueles do outro sexo. De fato, elas afirmam que, de acordo com as leis originais da natureza, as fêmeas foram projetadas para ser maiores do que os machos, e sustentam este dogma através de referência às formações iniciais da vida nos insetos e na mais antiga família de vertebrados – a saber, peixes – em ambas as quais as fêmeas são geralmente grandes o suficiente para fazer uma refeição de seus consortes se elas assim desejarem. Acima de tudo, as Gy-ei tem um poder mais concentrado e mais fácil sobre aquele misterioso fluido ou agente que contém o elemento de destruição, com uma porção maior daquela sagacidade que abrange dissimulação. Desse modo, elas podem não somente defenderem a si mesmas contra todas as agressões dos homens, mais poderiam, a qualquer momento quando ele menos suspeitasse de seu risco, acabar com a existência de esposo ofensor. Para o crédito das Gy-ei nenhuma instância de seu abuso desta superioridade impressionante na arte da destruição está registrado por vários séculos. O último que ocorreu na comunidade [da qual] eu falo parece (de acordo à cronologia deles) ter [74]sido há dois mil anos. Uma Gy, nessa ocasião, em um ataque de ciúmes, matou seu esposo; e este ato abominável inspirou terror tal entre os homens que eles emigraram em grupo e abandonaram todas as Gy-ei a si mesmas. A história prossegue de modo que as Gy-ei abandonadas, assim reduzidas ao desespero, caíram sobre a assassina quando ela dormia (e portanto desarmada), mataram-na e, em seguida, entraram em um compromisso solene entre elas mesmas de revogar para sempre o exercício de seus extremos poderes conjugais e de inculcar a mesma obrigação para sempre e sempre em suas filhas mulheres. Por meio deste processo conciliatório, uma delegação enviada aos consortes fugitivos sucedeu em persuadir muitos a retornar, mas esses que retornaram eram sobretudo os mais velhos. Os mais jovens, seja de muito acovardaram-se [de] uma dúvida das consortes deles, ou por uma estima muita elevada de seus próprios méritos, rejeitaram todas as propostas e, permanecendo em outras comunidades, lá foram pegos por outras companheiras, com os quais talvez eles não estivessem melhor. Mas a perda de uma porção tão grande da juventude masculina operou uma salutar admoestação nas Gy-ei, e confirmou-as na resolução [75]piedosa com a qual elas comprometeram a si mesmas. De fato, é agora considerado que, por meio de longo e hereditário desuso, as Gy-ei perderam ambas superioridades – defensiva e agressiva – sobre os Ana as quais elas uma vez possuíram, bem como nos animais inferiores acima da terra muitas peculiaridades em sua formação originária, planejadas pela natureza para sua proteção, gradualmente desvaneceram ou tornaram-se inoperantes quando não necessárias sob condições alteradas. Eu devia ficar triste, contudo, por qualquer An que induzisse uma Gy a fazer o experimento se ele ou ela fosse o mais forte.
Desde o incidente que eu narrei, os Ana datam certas alterações nos costumes de casamento, tratando de, talvez, algo para a vantagem do homem. Eles agora vinculam a si mesmos em matrimônio somente por três anos; ao fim de cada terceiro ano seja homem ou mulher pode divorciar-se do outro e ficar livre para casar novamente. Ao fim de dez anos o An têm o privilegio de tomar uma segunda esposa, permitindo à primeira afastar-se se ela assim desejar. Esses regulamentos são pela maior parte uma letra morta; divórcios e poligamia são extremamente raros, assim como o estado de casamento agora parece singularmente feliz [76]e sereno em meio a este povo surpreendente: as Gy-ei, a despeito de sua orgulhosa superioridade em força física e habilidades intelectuais, estando muito restringidas a maneiras gentis pelo medo de separação ou de uma segunda esposa, e os Ana sendo muito criaturas de costume e não, exceto sobre grande irritação, gostando de trocar por perigosas novidades faces e maneiras com as quais eles estão harmonizados por hábito. Mas há um privilégio que as Gy-ei cuidadosamente retém, junto com o desejo pelo qual talvez se forme o motivo secreto da maioria das senhoras afirmadoras dos direitos da mulher acima do solo. Elas clamam o privilégio, aqui usurpado pelos homens, de proclamar o seu amor e urgir o seu pedido de casamento; em outras palavras, de serem a parte que cortejante ao invés da cortejada. Um fenômeno tal como de uma solteirona não existe entre as Gy-ei. De fato é muito raro que uma Gy não assegure qualquer An sobre quem ele ponha seu coração, se as afeições dele não estiverem fortemente engajadas em outro lugar. Por mais tímido, relutante e puritano, o homem que ela corteja possa provar-se inicialmente; contudo, a perseverança dela, seu ardor, seus poderes persuasivos, seu comando sobre os místicos agentes do vril, estão [77]muito seguros de colocar pescoço dele no que nós chamamos de “o laço fatal.” O argumento deles para inversão daquela relação dos sexos, que a cega tirania dos homens estabeleceu na superfície da terra, parece persuasivo, e é desenvolvido com uma franqueza que bem podia recomendar consideração imparcial. Eles dizem que dos dois a mulher é por natureza de uma disposição mais amorosa do que o homem – que o amor ocupa um espaço mais largo nos pensamentos dela, bem como é mais essencial à felicidade dela e que por isso ela deve ser a parte que corteja; que outro modo o homem é uma criatura duvidosa e tímida – que frequentemente tem uma predileção pela condição de solteiro – que frequentemente finge entender mal olhadelas tenras e insinuações delicadas – que, em resumo, precisa ser resolutamente persuadido e capturado. Eles acrescentam, além disso, que a menos que a Gy possa assegurar o An de sua escolha, e alguém que ela não selecionasse dentre todo mundo tornasse-se seu companheiro, ela não seria apenas menos feliz do que seria de outro modo, mas que não seria um ser tão bom, que suas qualidades de coração não seriam suficientemente desenvolvidas; enquanto que o An [78]é uma criatura que menos permanentemente concentra suas afeições sobre um único objeto; que, se não poder conseguir a Gy que prefere, facilmente reconcilia a si mesmo com outra Gy e, finalmente, que no pior [caso], se é amado e cuidado, é menos necessário para o bem-estar de sua existência que ele deva amar assim como é amado: ele cresce contente com seu bem-estar de ser humano e as muitas ocupações de pensamento que ele cria para si mesmo.
Tudo que possa ser dito quanto a este raciocínio, o sistema trabalha bem para o homem; pois sendo deste modo claro que ele é verdadeiro e ardentemente amado, e que mais recatado e relutante ele mostre a si mesmo, mais a determinação para assegurá-lo aumenta. Ele geralmente inventa fazer o consentimento dele dependente de condições tão boas como ele pensa o melhor calculado para assegurar, se não uma feliz, ao menos uma vida pacifica. Cada An individual tem seus próprios passatempos, seus próprios modos, suas próprias predileções e, qualquer que elas possam ser, ele exige uma promessa de completa e irrestrita concessão a eles. Isto, na busca por seu objeto, a Gy prontamente promete; e como a característica deste povo extraordinário [79]é uma implícita veneração pela verdade, e a palavra dela uma vez dada nunca é quebrada mesmo pela mais frívola Gy, as condições estipuladas são religiosamente observadas. De fato, a despeito de todos os seus direitos abstratos e poderes, as Gy-ei são as esposas mais amáveis, conciliatórias e submissas que eu alguma vez vi mesmo na casa mais feliz acima do solo. É um aforismo entre eles que “onde a Gy ama está o prazer dela de obedecer.” Será observado que na relação entre os sexos eu falei somente de casamento, pois tal é a perfeição moral à qual esta comunidade atingira, que qualquer conexão ilícita é tão pouco possível em meio a eles como seria para um casal de pintarroxos durante o tempo que eles concordassem em viver em pares.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 71-79. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/71/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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