A Floresta além do Mundo - Capítulo XV O Assassinato da Presa

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[107]Assim eles caminharam tranquilamente daquele lugar por aproximadamente meia milha. Constantemente a Senhora teria Walter a andar a seu lado e não a seguir um pouco atrás dela, como era adequado a um servo fazer. Ela tocava a mão dele às vezes, enquanto mostrava-lhe fera, ave doméstica e árvore; a doçura do corpo dela subjugava-lhe, de modo que por um tempo ele não pensava em nada exceto nela.

Agora, quando eles estavam para chegar ao lado do bosque, ela voltou-se para ele e disse: ‘Escudeiro, eu não sou silvícola indisposta, de modo que tu podes confiar-me que nós não devemos ser conduzidos à vergonha a segunda vez: eu deverei agir sabiamente. Então, coloca uma flecha em teu arco, aguarda-me aqui e não te movas daqui; pois eu deverei entrar neste bosque sem os cães de casa e provocar a presa para ti. Vê que tu sejas [108]rápido e de tiro limpo e assim tu deverás receber uma recompensa de mim.

Após o que ela novamente arrumou suas saias ao redor de seu cinto, tomou seu arco curvo na mão, retirou uma flecha da aljava e ligeiramente pôs o pé no matagal; deixando-o a ansiar pela visão dela, enquanto ele ouvia com atenção o pisar dos pés dela sobre as folhas secas e o farfalhar da mata enquanto ela atravessava-a.

Assim ele permaneceu por uns poucos minutos. Então ele ouviu um tipo de grito sem sentido e sem palavras, contudo como de uma mulher, vindo do bosque. Enquanto o coração dele ainda estava reunindo o pensamento de que algo tinha saído errado, ele deslizou velozmente, apenas com pouco tumulto, para dentro da mata.

Ele tinha ido apenas um pouco longe antes que ele visse a Senhora de pé, ali, em uma estreita clareira; o rosto dela pálido como a morte, seus joelhos apegados juntos, o corpo balançando e cambaleando, as mãos penduradas e o arco e a flecha caídos no solo. A dez jardas diante dela uma criatura amarela de cabeça grande, agachando-se plana sobre a terra e lentamente aproximando-se.

Ele parou de repente; uma flecha já estava encaixada na corda, bem como outra pendia [109]folgada dos dedos menores da mão da corda. Ele ergueu sua mão direita e puxou e atirou em um instante. A flecha voou por perto do lado da Senhora e imediatamente todo o bosque soou com um grande rugido, enquanto o leão amarelo virava de um lado para o outro para morder a flecha que afundara profundamente dentro dele, atrás do ombro, como se um relâmpago dos céus tivesse atingido-lhe. Mas imediatamente Walter atirara de novo e então, derrubando seu arco, ele correu para frente com sua espada desembainhada brilhando na mão, enquanto o leão agitava-se e rolava, mas não tinha força para mover-se para frente. Então Walter foi até ele cautelosamente, perfurou-lhe através do coração e saltou para trás, com receio de que a besta ainda tivesse vida em si para atingi-lo; mas ele desistiu de sua luta, sua voz imensa extinguiu-se e abate-se lá imóvel, diante do caçador.

Walter esperou um pouco, encarando-o e, em seguida, virou-se para a Senhora. Ela tinha baqueado em um monte [onde] estava de pé e assentava-se lá toda encolhida e sem voz. depois, ele ajoelhou-se próximo a ela, ergueu a cabeça dela e mandou-a erguer-se, pois o inimigo foi morto. E depois de um tempo ela esticou os membros e virou-se sobre a grama; parecia dormir, a cor voltou a seu rosto [110]novamente, suavizou-se e um pequeno sorriso. Assim ela permaneceu por algum tempo. Walter sentou-se próximo a ela observando-a, até que finalmente ela abriu os olhos, sentou-se, reconheceu-o e, sorrindo para ele, disse: ‘O que aconteceu, Escudeiro, que eu dormi e sonhei?’

Ele não respondeu nada, até que a memória dela voltasse a ela e, em seguida ela ergueu-se, trêmula, pálida e disse: ‘Deixemos este bosque, pois o Inimigo está neste lugar.’

E ela apressou-se para longe diante dele até que eles saíram no lado do bosque [onde] os cães de caça foram deixados; eles estavam de pé lá inquietos e ganindo. Então Walter reuni-os, ao passo que a Senhora não se demorou, mas foi embora rapidamente para casa, e Walter seguiu-a.

Finalmente ela parou os pés velozes, virou-se de volta para Walter e disse: ‘Escudeiro, venha aqui.’

Assim ele fez e ela disse: ‘Eu estou cansada novamente; que sentemos debaixo desta árvore jovem e descansemos.

Então eles sentaram-se e ela sentou-se olhando entre seus joelhos por um tempo. Finalmente ela disse: ‘Por que tu não trazes a pele do leão?’

Ele disse:Senhora, eu retornarei, esfolarei a besta e trarei a pele.

[111]E com isso ele ergueu-se, mas ela apanhou-o pela aba, abaixou-o e disse: ‘Não, tu não deves ir; permanece comigo. Senta-te novamente.’

Ele assim fez, e ela disse: Tu não deves ir-se de mim; pois eu estou assustada. Eu não estou acostumada a olhar no rosto da morte.

Ela empalideceu enquanto falava, colocou a mão sobre o seio e sentou-se assim por um tempo sem falar. Finalmente, ela voltou-se para ele sorrindo e disse: ‘Como estava o aspecto de mim quando eu fiquei diante do perigo do Inimigo?’ E ela colocou uma mão sobre a dele.

Oh graciosa,’ respondeu ele, ‘tu estavas, como sempre, completamente adorável, mas eu temi por ti.’

Ela não moveu a mão dela da dele e ela disse: ‘Bom e verdadeiro Escudeiro, eu disse antes que entrasse no bosque agora mesmo que te recompensaria se tu matasses a presa. Ele está morto, embora tu tiveste deixado a pele para trás sobre a carcaça. Peça agora tua recompensa, mas leve tempo para pensar no que deve ser.

Ele sentiu a mão calorosa dela sobre a sua e atraia o doce odor dela misturado com o perfume da floresta sob o sol quente da tarde. O coração dele foi nublado com desejo masculino por ela. E era uma coisa familiar mas ele falara; e desejava dela [112]o prêmio da liberdade da Donzela e, de tal maneira, que ele pudesse partir com ela para outras terras. Mas, enquanto a mente dele vacilava entre isto e aquilo, a Senhora, que estivera olhando-o profundamente, afastou a mão dele. Com isso, dúvida e medo fluíram para sua mente, e ele absteve-se de falar.

Então ela sorriu alegremente e disse: ‘O bom Escudeiro está envergonhado; ele teme uma senhora mais do que um leão. Será um prêmio para ti se eu te oferecer minha bochecha para beijar?’

Com isso, ela inclinou a face na direção dele. Ele beijou a bela face dela e então se sentou, olhando fixamente para ela, perguntando-se o que deveria acontecer-lhe no dia seguinte.

Depois ela ergueu-se e disse: ‘Venha, Escudeiro, e vamos para casa; não fiques envergonhado, deverá haver outras recompensas futuramente.

Em seguida, eles prosseguiram em seus caminhos silenciosamente; e era perto do pôr do sol [quando] eles entraram na casa novamente. Walter procurou em volta pela Donzela, mas não a viu. A Senhora disse-lhe: ‘Eu vou para meus aposentos, e agora teu serviço está terminado por este dia.’

Então, ela assentiu cordialmente para ele e seguiu em seus caminhos.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.107-112. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/107/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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