A Raça Vindoura - Capítulo VII

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[38]Um aposento pessoal foi atribuído a mim neste vasto edifício. Era linda e fantasticamente arrumado, mas sem nenhum do esplendor da metalurgia ou das gemas que era ostentado nos aposentos mais públicos. As paredes estavam penduradas com um entrançamento variegado de talos e fibras de plantas e o piso acarpetado com o mesmo.

A cama era sem cortinas, seus suportes de ferro descansando sobre bolas de cristal e as cobertas, de uma fina substância branca semelhante à algodão. Havia várias estantes contendo livros. Um recesso separado com cortinas comunicava-se com um aviário cheio com pássaros cantantes, dos quais eu não reconheci nenhum semelhante aqueles eu vi sobre a terra, exceto uma bela espécie de pombo, embora ele fosse distinto de nossos pombos por uma alta crista de plumas [39]azuladas. Todos esses pássaros foram treinados para cantar em tons artificiosos e excediam grandemente o talento de nossos dom-fafes aflautados, os quais raramente alcançavam mais de dois tons, bem como não podiam, eu acredito, cantá-los em concerto. Alguém podia ter suposto a si mesmo em uma opera, ouvindo as vozes em meu aviário. Havia duetos e trios bem como quartetos e coros, todos arranjados com em uma única peça de música. Quis eu silenciar os pássaros? Eu somente tive de puxar a cortina sobre o aviário e a canção deles silenciou, conforme eles encontraram a si mesmos deixados no escuro. Outra abertura formava uma janela, não envidraçada, mas ao tocar uma mola, uma veneziana ascendeu do chão, formada por uma substância menos transparente do que o vidro, mas ainda suficientemente pelúcida para permitir uma visão amenizada da cena de fora. Nesta janela estava apensa uma varanda, ou melhor, um jardim suspenso, no qual cresciam muitas plantas graciosas e flores brilhantes. Portanto, o aposento e seus acessórios tinham um caráter, se estranho no detalhe, ainda familiar como um todo às modernas noções de luxo, e teria excitado a admiração, se encontrado em anexo aos aposentos de uma duquesa inglesa ou de um elegante [40]autor francês. Antes de eu chegar este era o quarto de Zee; ela, de modo hospitaleiro, atribuiu-o a mim.

Algumas horas depois do despertar que foi descrito no meu último capítulo, eu estava deitado sozinho em meu sofá, tentando arranjar meus pensamentos sobre conjecturas quanto à natureza e ao gênero do povo em meio ao qual fui jogado, quando meu anfitrião e sua filha Zee entraram no quarto. Meu anfitrião, ainda falando em sua língua nativa, inquiriu, com muita cortesia, se seria agradável para mim conversar ou se eu preferiria a solidão. Eu respondi que eu me sentiria muito honrado e obrigado pela oportunidade oferecida a mim para expressar minha gratidão, pela hospitalidade e cortesia que eu recebera em um país no qual eu era um estranho e [que] aprenderia o suficiente de seus costumes e maneiras para não ofender através da ignorância.

Enquanto eu falava, levantara-me de meu sofá, é claro; mas Zee, muito para minha confusão, secamente ordenou-me a deitar novamente e havia algo na voz e no olho dela, gentis como ambos eram, que me compeliu à obediência. Em seguida, ela sentou-se despreocupadamente ao pé de minha [41]cama, enquanto o pai dela tomou seu lugar num divã a alguns pés de distância.

Mas de que parte do mundo você veio,” perguntou meu anfitrião, “para que nós devêssemos parecer tão estranhos para você e você para nos? Eu vi espécimes individuais de quase todas as raças que diferem da nossa própria, exceto as selvagens primitivas que habitam nos recessos mais desolados e remotos de natureza não cultivada; não familiarizados com outra luz senão a que eles obtêm dos fogos vulcânicos e contentes ao tatear seu caminho no escuro, como fazem muitas coisas rastejantes, engatinhadoras e mesmo voadoras. Mas certamente você não pode ser um membro dessas tribos bárbaras, nem, por outro lado, parece pertencer a qualquer povo civilizado.”

Eu fiquei algo irritado diante desta última observação e respondi que eu tinha a honra de pertencer a uma das mais civilizadas nações da terra; e no que diz respeito à luz, embora eu admirasse a habilidade e a desconsideração da despesa com a qual meu anfitrião e seus companheiros cidadãos inventaram para iluminar as regiões não penetradas pelos raios de sol, contudo, eu não podia conceber [42]como qualquer um que alguma vez contemplara as esferas do céu podia comparar ao esplendor delas as luzes artificiais inventadas pelas necessidades dos homens. Mas, meu anfitrião disse que ele vira espécimes da maioria das raças diferentes da sua própria, salvo os bárbaros lamentáveis que ele mencionara. Agora, era possível que ele nunca estivera sobre a superfície da terra, ou podia ele somente estar referindo-se a comunidades ocultas dentro das entranhas dela?

Meu anfitrião ficou em silêncio por alguns momentos; seu semblante mostrava um grau de surpresa que o povo daquela raça muito raramente manifestava sob quaisquer circunstâncias, por mais que [fossem] extraordinárias. Mas Zee era mais inteligente e exclamou, “Então você vê, meu pai, que há verdade na antiga tradição; sempre há verdade em cada tradição geralmente acreditada em todos os tempos e por todas as tribos.”

Zee,” disse meu anfitrião levemente, “você pertence ao Colégio dos Sábios e deve ser mais sábia do que eu sou; mas, como chefe do Conselho de Preservação da Luz, é meu dever não tomar nada por certo até que seja provado à evidência de meus próprios sentidos.” Em seguida, voltando-se para mim, ele perguntou-me muitas questões [43]sobre a superfície da terra e os corpos celestes; sobre as quais, embora eu respondesse a ele de acordo com o melhor de meu conhecimento, minhas respostas pareciam não o satisfazer nem o convencer. Ele balançou a cabeça quietamente e, mudando de assunto bastante abruptamente, perguntou como eu desci, do que ele estava contente em chamar, de um mundo para o outro. Eu respondi que sob a superfície da terra havia minas contendo minerais, ou metais, essenciais para nossos desejos e nosso progresso em todas as artes e indústrias. Em seguida, expliquei brevemente a maneira pela qual, enquanto explorando uma dessas minas, eu e meu malfadado amigo obtivemos um vislumbre das regiões às quais nós descêramos e como a descida custou-lhe a vida dele; apelando à corda e aos ganchos que a criança trouxera à casa na qual primeiramente eu fora recebido, como uma testemunha da veracidade de minha história.

Em seguida, meu anfitrião continuou a questionar-me quanto aos hábitos e modos de vida entre as raças na terra de cima, mais especificamente entre essas consideradas serem as mais avançadas naquela civilização, a qual ele estava satisfeito em definir “A arte de [44]difusão através de uma comunidade da felicidade tranquila que pertence a uma família bem-ordenada e virtuosa.” Naturalmente, desejando representar nas cores mais favoráveis o mundo do qual eu vim, toquei apenas levemente, embora indulgentemente, nas antiquadas e decadentes instituições da Europa, a fim de discorrer sobre a grandeza e a preeminência futura daquela gloriosa república americana, na qual a Europa invejosamente busca seu modelo e trêmula prevê sua desgraça. Selecionando para um exemplo da vida social nos Estados Unidos aquela cidade na qual o progresso avança no ritmo mais rápido, eu satisfiz-me em uma descrição animada do hábitos morais de Nova Yorque. Mortificado de ver, pelas faces de meus ouvintes, que eu não obtive a impressão favorável que antecipara, elevei meu tema; alongando-me na excelência das instituições democráticas e na promoção, por parte delas, da felicidade tranquila do governo do partido, e o modo pelo qual elas difundiam tal felicidade através da comunidade ao preferir, para o exercício do poder e aquisição das honras, os mais baixos cidadãos na questão da propriedade, educação e caráter. [45]Felizmente, recordando a peroração da fala, sobre as influências purificadoras da democracia americana e a destinada propagação delas sobre o mundo, feita por um eloquente senador (pelo voto de quem no Senado, uma companhia Ferroviária, à qual meus dois irmãos pertenceram, há pouco pagara 20.000 dólares), eu encerrei repetindo as cintilantes predições dele sobre o futuro magnífico que sorria sobre a humanidade – quando a bandeira da liberdade deveria flutuar sobre um continente inteiro e duzentos milhões de cidadãos inteligentes, acostumados a partir da infância ao uso diário de revólveres, deveriam aplicar a um universo que se estreita a doutrina do Patriota Monroe.

Quando eu concluíra, meu anfitrião gentilmente sacudiu a cabeça e começou um estudo de reflexão, fazendo um sinal para mim e sua filha para permanecer em silêncio enquanto ele refletia. E depois de um tempo ele disse, em um tom muito sério e solene, “Se você acha, como diz, que, embora um estranho, recebeu gentileza das mãos de mim e dos meus, eu adjuro-te a não revelar nada para nenhum outro de nosso povo relativo ao mundo do qual você veio, a menos que, em consideração, eu dê a você [46]permissão para fazê-lo. Você concorda com este pedido?”

É claro que eu empenho minha palavra nisso,” eu disse, um pouco espantado, e eu estendi minha mão direita para apertar a dele. Mas ele pôs minha mão gentilmente sobre sua testa e sua própria mão direita sobre meu peito, que é o costume entre esta raça em todos os casos de promessa ou obrigações verbais. Em seguida, voltando-se para sua filha, ele disse, “E você, Zee, não repetirá para ninguém o que o estranho disse, ou possa dizer, para mim ou para você, sobre um outro mundo que não seja o nosso.” Zee levantou-se e beijou o pai nas têmporas, dizendo, com um sorriso, “A língua de uma Gy é atrevida, mas o amor pode acorrentá-la rapidamente. E se, meu pai, você teme que uma fortuita palavra minha ou de você mesmo exponha nossa comunidade ao perigo, por intermédio do desejo de explorar o mundo além de nós, uma onda de vril, propriamente impelida, não lavará a memória mesma do que nós ouvimos o estranho dizer das tabuinhas do cérebro?”

O que é vril?” eu perguntei.

Com isso, Zee começou a entrar em uma explicação da qual eu entendi muito pouco, pois não há [47]palavra em qualquer língua que eu conheça que seja um sinônimo exato para vril. Eu deveria chamá-lo eletricidade, exceto que ele compreende em suas múltiplas ramificações outras forças da natureza, para as quais, em nossa nomenclatura científica, nomes diferentes são atribuídos, tais como magnetismo, galvanismo, etc. Essas pessoas consideram que chegaram ao vril por meio da unidade das atuações energéticas naturais, a qual foi conjecturada por muitos filósofos acima do solo, e que Faraday assim insinua sob o termo mais cauteloso de correlação:-

Há muito eu tenho sustentado uma opinião,” diz aquele experimentador ilustre, “quase equivalendo a uma convicção, em comum, acredito, com muito outros amantes do conhecimento natural, que as várias formas sob as quais as forças da matéria são manifestas possuem uma origem comum: ou, em outras palavras, são tão diretamente relacionadas e mutuamente dependentes, que elas são convertíveis, como se fosse, uma na outra, e possuem equivalentes de poder na ação delas.”

Esses filósofos subterrâneos afirmam que, por uma operação de vril, a qual Faraday talvez chamasse de ‘magnetismo atmosférico,’ eles podem influenciar [48]as variações de temperatura – em palavras simples, o clima. Que, através de outras operações, aparentadas àquelas atribuídas ao mesmerismo, eletrobiologia, força odica, etc., mas cientificamente aplicadas através de condutores de vril, eles podem exercer influência sobre as mentes e corpos animais e vegetais, até um alcance não superado nos romances de nossos misticos. Para todas essas ações, eles dão o nome comum de vril. Zee perguntou-me se, em meu mundo, não era conhecido que todas as faculdades da mente podiam ser estimuladas a um grau desconhecido no estado de vigília, por transe ou visão; no qual os pensamentos de um cérebro podiam ser transmitidos a outro e assim conhecimento se rapidamente trocado. Eu respondi que entre nós havia histórias contadas de semelhante transe ou visão e que ouvira muito e visto algo do modo no qual eles eram artificialmente afetados, como em clarevidência mesmérica; mas que essas práticas caíram muito em desuso ou desprezo, parcialmente por causa das imposturas grosseiras às quais eles foram feitas subservientes e em parte porque, mesmo onde os efeitos sobre certas constituições anormais eram genuinamente [49]produzidos, os resultados, quando justamente examinados e analisados, eram muito insatisfatórios – para não serem confiados para qualquer veracidade sistemática ou qualquer objetivo prático, e tornados muito perniciosos para pessoas crédulas devido às superstições que eles tendem a produzir. Zee recebeu minhas respostas com atenção muito benigna e disse que instâncias similares de abusos e credulidade foram familiares à própria experiência científica deles, na infância de seu conhecimento científico e enquanto as propriedades do vril eram mal compreendidas, mas que ela reservaria discussão ulterior sobre este assunto até que eu estivesse mais apropriado para adentrá-la. Ela contentou-se com adicionar, que foi por meio da ação do vril, enquanto eu fora posto num estado de transe, que fora familiarizado com os rudimentos da linguagem deles; e que ela e seu pai, quem, únicos da família, tomaram as dores de assistir o experimento, adquiriram um conhecimento proporcional maior da minha linguagem do que eu da deles própria; em parte porque minha linguagem era muito mais simples do que a deles, abrangendo ideias muito menos complexas; e em parte porque o organismo deles era, por cultura [50]hereditária, muito mais flexível e mais prontamente capaz de adquirir conhecimento do que o meu. Nisto eu secretamente duvidei; e tendo, no curso de minha vida prática, de aguçar meus talentos, seja em casa ou em viajem, não podia admitir que meu organismo cerebral pudesse possivelmente ser mais estúpido do que o daquelas pessoas que viveram todas as suas vidas à luz de lâmpadas. Contudo, enquanto assim eu estava pensando, Zee quietamente apontou seu dedo indicador para minha testa e enviou-me para dormir.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 38-50. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/38/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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