[122]Assim se consumiram os dias e as luas. Agora eram aproximadamente seis luas passadas desde que ele primeiro chegara à Planície Cintilante e, novamente, chegava ao limite do bosque; ouvia e sabia que mais uma vez o Rei estava sentado à porta do pavilhão dele para ouvir com atenção as palavras de seu povo. Ele disse a si mesmo: “Eu falarei ainda de novo com este homem, se de fato ele for um homem; sim, embora ele me transforme em pedra.”
E ele prosseguiu em direção do pavilhão e, a caminho, veio à mente dele o que os homens de seu próprio sangue estavam fazendo aquela manhã. Ele teve uma visão deles, por assim dizer, e viu-os subjugando os bois ao arado e lentamente descendo os acres; como o ferro brilhante desenhava o longo sulco para baixo na terra coberta por restolho; a neblina luminosa pendurada sobre os olmos na calma manhã e a fumaça subia diretamente para o ar, a partir dos telhados dos parentes. E ele disse: “O que é isso? Eu estou condenado à morte esta manhã para que [123]esta visão chegue tão claramente sobre mim, em meio à falsidade desta terra imutável?”
Deste modo, ele chegou ao pavilhão e o povo recuou para a direita e para a esquerda diante dele. Ele pôs-se de pé diante do Rei e disse-lhe: “Eu não posso encontrá-la; ela não está em tua terra.”
Então falou o Rei, sorrindo para ele, como outrora: “O que desejas tu, então? Não é tempo de descansar?”
Ele disse: “Sim, Oh Rei, mas não nesta terra.”
Disse o Rei: “Onde mais senão nesta terra tu encontrarás descanso? Fora ficam batalha e fome, ânsia insatisfeita, inveja e medo; dentro dela é abundância, paz, boa vontade e prazer sem cessar. Tua palavra não tem significado para mim.”
Disse Hallblithe: “Dá-me permissão para partir e eu te exaltarei.”
“Não há nada mais a fazer?” disse o Rei.
“Nada mais,” disse Hallblithe.
Com isso, ele sentiu que a face do Rei mudou, embora ele ainda lhe sorrisse e, novamente, ele sentiu seu coração gelar diante do Rei.
Mas o Rei falou e disse: “Eu não impeço tua partida, nem irá qualquer um do meu povo. Nenhuma mão será erguida contra ti; não há arma em toda a região, salvo a espada inativa ao meu lado e as armas que tu carregas.” Disse [124]Hallblithe: “Tu não me deves uma alegria em troca de meu engano?”
“Sim,” disse o Rei, “estende tua mão para recebê-la.”
“Apenas uma coisa eu posso receber de ti,” disse Hallblithe; “minha donzela prometida ou senão a aceleração de minha partida.”
Então disse o Rei e a voz dele era terrível, embora ele ainda sorrisse: “Eu não impedirei; eu não ajudarei. Parte em paz!”
Então Hallblithe afastou-se atordoado, quase se esvaindo e perdeu-se no campo abaixo, dificilmente sabendo onde estava. Enquanto ele prosseguia, sentiu sua manga puxada, virou-se e oh!, estava cara a cara com o Sea-eagle, não menos feliz do que outrora. Ele tomou Hallblithe em seus braços, abraçou-o, beijou-o e disse: “Bem cumprido, companheiro de viajem! Para onde?”
“Para fora desta terra de mentiras,” disse Hallblithe.
O Sea-eagle sacudiu sua cabeça e disse-lhe: “Ainda estás buscando por um sonho? E tu tão belo que puseste todos os outros homens a se envergonharem.”
“Eu não busco sonho,” disse Hallblithe, “mas sim o fim dos sonhos.”
“Bem,” disse o Sea-eagle, “nós não discutiremos sobre isso. Mas ouve com atenção. Próximo, em um recanto agradável dos prados, eu levantei minha tenda e, embora ela não seja tão grande quanto o pavilhão [125]do Rei, contudo é boa o suficiente. Tu não virás para lá comigo, darás descanso a ti está noite e amanhã nós falaremos deste assunto?”
Agora Hallblithe estava cansado, confuso e desanimado além de seu costume; as palavras amigáveis do Sea-eagle amoleceram seu coração, ele sorriu e disse: “Eu agradeço-te; chegarei a ti. Tu és amável e não fez nada para mim senão o bem, desde o tempo em que primeiro te vi deitado em tua cama, no Salão dos Saqueadores. Tu lembra-te do dia?”
O Sea-eagle franziu a sobrancelha, como alguém lutando com uma memória perturbadora, e disse: “Apenas vagamente, amigo, como se ocorresse em um sonho desagradável. Parece-me que minha amizade contigo começou quando eu vim a ti a partir do bosque, e vi-te de pé com aquelas três donzelas, das quais eu lembro-me completamente bem; vós éreis belos de olhar.”
Hallblithe pensou sobre as palavras dele, mas não disse nada mais sobre isso. Eles caminharam juntos para um recanto florido, próximo a um córrego de água cristalina, onde se levantava uma tenda sedosa, verde como a grama sobre a qual ela erguia-se e salpicada com ouro e cores vistosas. Próxima a ela, sobre a grama, punha-se a donzela do Sea-eagle, de bochechas vermelhas e de lábios doces, tão bela quanto outrora. Ela voltou-se quando ouviu homens [126]chegando e, quando viu Hallblithe, um sorriso veio à face dela, como o sol saindo de uma bela mais nublada manhã. Ela foi até ele, tomou-o pelas mãos, beijou sua bochecha e disse: “Bem-vindo, Lanceiro! Bem-vindo de volta! Nós temos ouvido de ti em muitos lugares e temos estado tristes de que tu não estás feliz. Agora nós estamos felizes com teu retorno. Não deverá a vida doce começar para ti daqui para frente?”
Novamente Hallblithe foi movido pelas amáveis boas-vindas dela. Ele apenas sacudiu a cabeça e falou: “Tu és amável, irmã! Contudo, se tu desejasses ser mais amável, tu me mostraria um caminho por meio do qual eu poderia escapar desta terra. Pois, a permanência aqui se tornou penosa para mim e parece-me que a esperança ainda está viva fora da Planície Cintilante.” A face dela abateu-se enquanto ela respondia: “Sim, medo também e pior, se alguma coisa puder ser pior. Mas vem, comamos e bebamos neste belo lugar. Reunamos um pouco de alegria para ti antes que tu partas, se tu necessitas partir.”
Ele sorriu para ela, como alguém não mau disposto, e deitou-se sobre a grama, enquanto os dois ocupavam a si mesmos; traziam adiante belas almofadas, uma mesa dourada e preparavam delicados alimentos em cima e bom vinho.
Então eles comeram e beberam juntos e o Sea-eagle e seu camarada tornaram-se muito felizes novamente. [127]Hallblithe animou a si mesmo para não ser um estraga festa, pois ele disse dentro de si mesmo: “Eu estou partindo e depois desta vez não deverei vê-los novamente. Eles são amáveis e alegres comigo assim com foram outrora; eu não farei tristes seus corações alegres. Pois quando, eu for embora deverei lembrar deles somente por um tempo.”
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.122-127. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/122/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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