[113]Ele colocou-se de pé quando chegara a um final, como um homem pronto para a estrada. Mas eles abateram-se ali, desanimados e envergonhados, e não tinham palavras para responder-lhe. Pois o Sea-eagle estava triste de que seu companheiro de viajem estava infeliz e estava triste de que ele estava triste. Quanto à donzela, ela não sabia que somente estava conduzindo o vistoso Lanceiro ao cumprimento do desejo de seu coração. Não obstante, depois de um tempo, ela falou novamente e disse: “Caros amigos, o dia foi-se e a noite está à mão; agora à noite seria ruim o alojamento naquela casa e a próxima casa na estrada oposta está muito longe para gente desgastada pela viajem. Mas, difícil através do matagal, fica um belo pequeno gramado do bosque, através da beira de um poço no córrego no qual nós podemos banharmo-nos amanhã pela manhã; é gramíneo, florido e abrigado de todos os ventos que sopram, e eu tenho mantimentos o suficiente em minha mochila. Que nós ceemos e descansemos lá, sob o céu descoberto, como frequentemente é o nosso costume nesta terra. [114]Amanhã cedo nós nos ergueremos e voltaremos novamente ao fim do bosque, onde agora o Rei reside, e lá tu deverás falar com ele novamente, Oh Lanceiro.”
Disse Hallblithe: “Levai-me para onde vós desejais, mas agora nada adianta. Eu sou um cativo em uma terra de mentiras e aqui, muito provavelmente, deverei viver traído e morrer infeliz.” “Mantém-te calmo, querido amigo, pois palavras tão más como essas persistem,” disse ela, “ou eu devo fugir de ti, pois elas machucam-me intensamente. Agora, vem a este lugar agradável.”
Ela tomou-o pela mão e olhou-o gentilmente; e o Sea-eagle seguiu-o, murmurando uma antiga canção do campo de colheita. Eles foram juntos, por um caminho através da matagal de espinheiro-alvar, até que chegaram a um lugar coberto de grama. Lá, então, eles sentaram-se e comeram e beberam o que desejaram; sentados próximos à beira do poço até que uma lua minguante ficasse brilhante sobre suas cabeças. E Hallblithe não fez aparência de contentamento; mas o Sea-eagle e a donzela dele ficaram felizes novamente, conversaram e cantaram juntos como olhares de outono, com os beijos e as carícias de amantes.
Então, finalmente, aqueles dois deitaram-se em meio às flores e dormiram nos braços um do outro; mas Hallblithe recorreu ao matagal um pouco distante e deitou-se, mas não dormiu até que a manhã estivesse à mão, [115]quando torpor e sonhos confusos atingiram-no.
Ele foi acordado de seu sono pela donzela, que surgiu através do matagal, toda revigorada e rosada a partir do rio, despertou-o e disse: “Acorde agora, Lanceiro, para que nós possamos aproveitar o sol; pois ele está alto nos céus agora e toda a terra ri sob ele.”
Os olhos dela cintilavam enquanto ela falava e seus os membros moviam-se sobre as vestes como se logo ela fosse dançar de muita alegria. Mas Hallblithe levantou-se cansado e não lha deu nenhum sorriso de volta em resposta, mas empurrou-se através do matagal até a água, lavou a noite de si e assim voltou ao par, enquanto eles sentavam-se juntos, flertando sobre o seu café da manhã. Ele não se sentaria próximo a eles, mas comeu um pedaço de pão enquanto estava de pé e disse: “Contem-me como eu posso encontrar o Rei o mais cedo possível. Eu não convido vocês a guiarem-me para lá, mas deixem-me ir em meus caminhos sozinho. Pois comigo o tempo urge, e com vocês parece-me que o tempo é nada. Nem eu sou um companheiro adequado para o feliz.”
Mas o Sea-eagle surgiu subitamente e jurou com uma grande imprecação que ele sabiamente não deixaria seu companheiro de bordo no abandono. E a donzela disse: “Bom homem, eu tinha de ir contigo. Eu não deverei embaraçar-te, [116]mas ajudar-te bastante; de modo que tu deverás fazer em um dia a jornada de dois.”
E ela estendeu-lhe a mão, afagou-o sorrindo e bajulou-o. Ele prestou-a pouca atenção, mas não se inclinou para trás para longe deles, uma vez que eles estavam pronto para a estrada. Então, eles partem todos os três juntos.
Eles percorreram a estrada oposta [com] tanta diligência que o sol não se pusera [quando] eles chegaram ao fim do bosque; e ali estava o Rei sentando-se à porta de seu pavilhão. Hallblithe foi diretamente para lá, empurrou através da multidão e colocou-se de pé diante do Rei; que o cumprimentou gentilmente e não foi de face menos amável que no outro dia.
Hallblithe não o saudou, mas disse: “Rei, vê minha angústia, e se tu és outro que um rei de sonhos e mentiras, não brinques comigo, mas diz-me diretamente se tu sabes de minha donzela prometida, se ela está nesta terra ou não.”
Em seguida, o rei sorriu para ele e disse: “É verdadeiro que eu sei dela; contudo eu não sei se ela está nesta terra ou não.”
“Rei,” disse Hallblithe, “tu nos reunirás e cessarás o sangramento de meu coração?”
Disse o Rei: “Eu não posso, uma vez que eu não sei onde ela está.”
[117]“Por que tu mentiste para mim no outro dia?” disse Hallblithe.
“Eu não menti,” disse o Rei; “Eu ordenei conduzirem-te à mulher que te ama e quem tu devias amar; e ela é minha filha. E vê tu! Assim como eu não posso conduzir-te a teu amor mundano, também tu não pudeste fazer a ti mesmo manifesto diante de minha filha e tornar-te o seu amor imortal. Não é suficiente?”
Ele falou severamente apesar de que sorria e Hallblithe disse: “Oh Rei, tenha piedade de mim!”
“Sim,” disse o Rei; “Eu compadeço-me de ti, mas eu viverei apesar de teu sofrimento; minha piedade de ti não deverá matar-me, ou fazer-te feliz. De igual maneira apieda-te tu de minha filha.”
Disse Hallblithe: “Tu és poderoso, Oh Rei, e talvez o mais poderoso. Tu não me ajudarás?”
“Como eu posso ajudar-te?” disse o Rei; “Tu não ajudarás a ti mesmo. Tu viste o quê deveste fazer: faze-o e sê ajudado.”
Então disse Hallblithe: “Tu não me matarás, Oh Rei, uma vez que tu não farás nada mais?”
“Não,” disse o Rei, “tua execução não servirá a mim ou aos meus. Eu nem ajudarei nem impedirei. Tu és livre para procurar por teu amor onde quer que tu desejares neste meu reino. Parte em paz!”
Hallblithe viu que o Rei estava irritado, embora [118]ele sorrisse para ele; contudo tão friamente que a face dele gelou a própria medula dos ossos de Hallblithe e ele disse dentro de si mesmo: “Este Rei de mentiras não deve matar-me, embora minha angústia seja difícil de suportar: pois eu estou vivo e pode ser que meu amor esteja nesta terra e possa encontrá-la aqui. Como alcançar outra terra eu não sei.” Então, ele virou-se diante da face do Rei enquanto o sol estava pondo-se, e desceu a terra em direção ao sul, entre as montanhas e o mar, não prestando atenção se fosse noite ou dia. Ele prosseguiu até que há muito a meia-noite passara e então, de mero cansaço, deitou-se sob uma árvore, não sabendo onde estava, e adormeceu.
E pela manhã ele acordou, sob o sol brilhante, e encontrou pessoas de pé em volta perto dele; ambos homens e mulheres e as suas ovelhas estavam perto deles, pois eles eram um povo de pastores. Então, quando eles viram que ele estava desperto, cumprimentaram-no, ficaram alegres com ele e fizeram muito por ele. Eles levaram-no diretamente à casa deles, deram-lhe de comer e de beber, e perguntaram-lhe o que ele desejava que eles pudessem servi-lo. Eles pareciam-lhe ser gente simples e gentil e, embora ele detestasse dizer as palavras, tão doente de coração estava, contudo, contou-lhes como estava buscando por sua donzela prometida – seu [119]amor mundano – e pediu-lhes para dizer se eles viram alguma mulher como ela.
Eles ouviram-no gentilmente, apiedaram-se dele e contaram-lhe como ouviram [falar] de uma mulher na região, que buscava por seu amado assim como ele buscava por sua. E, quando ele ouviu isso, o coração dele deu um pulo e ele pediu-lhes para dizer-lhe mais quanto a esta mulher. Então eles disseram que ela morava na região montanhosa em uma casa vistosa; [que] fixara o coração dela em um homem amável, cuja a imagem ela vira em um livro; e que nenhum homem, somente este um, contentá-la-ia. Isto, eles disseram, era um assunto triste e lamentável, tal como era desconhecido até agora nesta terra.
Então, quando Hallblithe ouviu isso, tão pesadamente quanto o coração dele abateu-se novamente, ele não mudou de fisionomia, mas agradeceu ao povo gentil e partiu. Ele continuou descendo a terra entre as montanhas e o mar e, antes que anoitecesse, estivera em mais três casas do povo e perguntara lá, a todos os que chegavam, sobre uma mulher que foi separada de seu amado. De nenhum deles ele conseguiu qualquer resposta para fazê-lo menos triste do que ontem. Na última das três casas, ele dormiu e cedo no dia seguinte havia o trabalho de começar novamente; e o próximo dia foi o mesmo que o último, e o dia depois não diferiu dele. Assim, ele prosseguia, procurando por sua amada entre [120]as montanhas e a planície, até que a grande parede rochosa desmoronou para o lado do mar e bloqueou a Planície Cintilante naquele lado. Em seguida, ele virou-se e retornou pelo caminho através do qual veio, subiu à região entre as montanhas e a planície em direção ao norte, até que estivera em cada casa do povo naquelas partes e perguntara sua questão.
Então, ele subiu àquele belo campo dos vales, e mesmo perto de onde morava a Filha do Rei, e a outro lugar na terra e por toda parte, esquartelando o reino da Planície Cintilante como a garça esquartela o campo inundado, quando as águas recuam para o rio. De modo que todas as pessoas conheciam-no quando ele vinha e especulavam sobre ele. Mas, quando ele chegava a qualquer casa pela terceira ou quarta vez, eles fatigavam-se dele e ficavam felizes quando ele partia.
Sempre era uma de duas respostas que ele tinha: “Não há tal mulher; esta terra é feliz e nada senão pessoas felizes vivem neste lugar;” ou, senão, eles contavam-lhe de uma mulher que vivia em tristeza, e estava sempre olhando em um livro, que ela podia trazer para si o homem que ela desejava.
Por vezes ele cansava-se e ansiava por morte, mas não morreria até que houvesse recanto da região não buscado. De quando em quando ele sacudia o cansaço [121]e começava sua busca, como um artesão começava seu trabalho pela manhã. Ocasionalmente o aborrecia ver o povo feliz e brando da terra, que não tinha a destreza para ajudá-lo, e ele ansiava pela casa de seus pais e pelos homens da lança e do arado; e pensava, “Oh, se eu pudesse somente voltar, se fosse apenas por uma hora e para morrer lá, para os prados do Corvo e os acres sob as montanhas de Cleveland à beira-mar. Então, ao menos, eu deveria aprender algum conto sobre o que é ou o que fora, por mais que as notícias fossem más, e não ser atirado de um lado para outro por mentiras, para sempre.”
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.113-121. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/113/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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