O Livro Vermelho das Fadas - O Flautista de Hamelin

O Livro Vermelho das Fadas


Editado por Andrew Lang


Prefácio e Conteúdos


[208]O Flautista de Hamelin


Há muito tempo, a cidade de Hamelin na Alemanha foi invadida por bandos de ratos, a semelhança dos quais nunca tinha sido vista antes, nem será alguma vez vista novamente.

Eles eram grandes criaturas negras que corriam audaciosamente à plena luz do dia através das ruas e abundavam por todas as casas, de modo que, por fim, as pessoas não poderiam baixar sua mão ou pé em qualquer lugar sem tocar um. Quando se vestindo às manhãs, elas encontravam-nos em seus calções e suas anáguas, nos seus bolsos e suas botas; e quando eles queriam um bocado para comer, a horda voraz tinha varrido tudo, desde do porão ao sótão. À noite era ainda pior. Tão logo as luzes estivessem apagadas, esses roedores incansáveis começam a trabalhar. E em toda parte, nos tetos, nos pisos, nos armários, às portas, havia uma perseguição e uma revista, e um barulho tão furioso de brocas, pinças e serrotes, que um surdo não poderia ter descansado por uma hora contínua.

Nem gatos nem cães, nem veneno nem armadilhas, nem preces nem velas queimadas para todos os santos – nada faria nenhuma coisa. Quanto mais eles matavam, mais apareciam. E os habitantes de Hamelin começavam a recorrer ao cães (não que eles fossem de muito uso), quando, em um sexta-feira, ali na cidade chegou um homem com um rosto estranho, quem tocava gaita de fole e cantava estes versos:


Qui vivra verra:

Le voilà,

Le preneur des rats.’


Ele era um grande camarada desajeitado, seco e bronzeado, com um nariz torto, um bigode de cauda de rato longa, dois grandes olhos amarelos penetrantes e zombadores, sob um grande chapéu caído encimado por uma pena escarlate de galo. Ele estava vestido em uma jaqueta verde com um cinto de couro e calças vermelhas, e, nos pés dele, haviam sandálias amaradas por tiras enroladas ao redor das pernas dele à moda cigana.

[209]Assim é como ele pode ser visto neste dia, pintado em uma janela da catedral de Hamelin.

Ele caminhou na grande praça de mercado diante da prefeitura, virou as costas para a igreja e seguiu com sua música, cantando:


Quem vive deverá ver:

Aqui está ele,

O rateiro.


O conselho da cidade há pouco tinha se reunido para considerar mais uma vez essa praga do Egito, a partir da qual ninguém poderia salvar a cidade.

O estranho notificou os conselheiros de que, se eles desejassem fazer o tempo dele valer a pena, ele os livraria de todos os ratos deles antes da noite, até o último.

Então ele é um feiticeiro!’ gritaram os cidadãos com uma voz; ‘nós temos de ter cuidado com ele.’

O Conselheiro da Cidade, quem era considerado esperto, tranquilizou-os.

Ele disse: Feiticeiro ou não, se esse gaiteiro fala a verdade, foi ele que nos enviou esses vermes horríveis dos quais ele quer nos livrar hoje por dinheiro. Bem, nós temos de aprender a pegar o diabo em suas próprias armadilhas. Deixem-no comigo, vocês.

Deixe isso para o Conselheiro da Cidade,disseram os cidadãos uns para os outros.

E o estranho foi trazido diante deles.

Antes da noite,’ disse ele, ‘eu deverei ter despachado todos os ratos em Hamelin, se vocês desejarem apenas me pagar um gros por cabeça.’

Um gros por cabeça!’ gritaram os cidadãos, ‘mas isso chegará a milhões de florins!

O Conselheiro da Cidade simplesmente deu de ombros e disse para o estrangeiro:

Uma barganha! Ao trabalho; os ratos serão pagos a um gros por cabeça como você diz.’

O gaiteiro anunciou que ele operaria naquela noite mesmo quando a lua surgisse. Ele acrescentou que, a essa hora, os habitantes deveriam deixar as ruas livres, e contentarem-se em olhar das janelas para o quê estava acontecendo, e que isso seria um espetáculo agradável. Quando as pessoas de Hamelin ouviram da barganha, eles também exclamariam: ‘Um gros uma cabeça! Mas isso nos custará muito dinheiro!’

Deixe isso para o Conselheiro da Cidade,disse o conselho da cidade, com um ar malicioso. E as pessoas de Hamelin repetiram com seus conselheiros, ‘Deixe isso para o Conselheiro da Cidade.’

[210]Perto das nove da noite, o gaiteiro reapareceu na praça do mercado. Inicialmente, ele voltou suas costas para a igreja, e, no momento em que a lua subiu, ‘Trarira, trari!’ A gaita de foles ressoou.

Inicialmente foi um som lento, acariciante, então mais e mais vívido e urgente, e tão sonoro e penetrante que ele penetrava tão longe quanto os becos e retiros mais distantes da cidade.

Logo, a partir dos fundos dos porões, do topo dos sótãos, de debaixo de toda mobília, de todos os cantos e recantos das casas, saem os ratos, procuram pela porta, lançam-se à [211]rua, e trip, trip, trip, começaram a correr na direção da frente da prefeitura, tão apertados juntos que eles cobriam o pavimento como as ondas de torrente alagada.

Quando a praça estava bastante cheia, o gaiteiro encarou ao redor e, ainda tocando rapidamente, voltou-se na direção do rio que corre aos pés das muralhas de Hamelin.

Chegando lá, ele virou-se; os ratos estavam seguindo.

Hop! Hop!’ ele bradava, apontando com o dedo para o meio do córrego, onde a água rodopiava e era atraída como se através de um funil. E hop! Hop! sem hesitação, os ratos saltaram, amontoados diretamente para o túnel, mergulhando de cabeça e desapareceram.

O mergulho continuou dessa maneira, sem cessar, até meia-noite.

Finalmente, arrastando-se com dificuldade, veio um grande rato, branco de idade, e parou no banco de areia.

Ele era o rei do bando.

Eles estão todos , amigo Blanchet?’ perguntou o gaiteiro.

Eles estão todos lá,’ respondeu o amigo Blanchet.

E quantos eles eram?’

Novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove.’

Bem contados?’

Bem contados.’

Então vá e junte-se a eles, velho senhor, e au revoir.’

Então, por sua vez, o velho rato branco pulou dentro do rio, nadou para o redemoinho e desapareceu.

Quando o gaiteiro tinha concluído dessa maneira a sua tarefa, ele foi para a cama na sua estalagem. E, pela primeira vez durante três meses, o povo de Hamelin dormiu quietamente através da noite.

Na manhã seguinte, às nove horas, o gaiteiro dirigiu-se à prefeitura, onde o conselho da cidade esperava-o.

Todos os seus ratos pularam dentro do rio ontem,’ disse ele aos conselheiros, e eu garanto que nenhum deles retorna. Eles eram novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove, à um gros uma cabeça. Calculem!

Contemos as cabeças primeiro. Um gros por cabeça é uma cabeça o gros. Onde estão as cabeças?

O gaiteiro não esperava esse golpe traiçoeiro. Ele empalideceu com raiva e seus olhos brilharam com fogo.

As cabeças!’ gritou ele, ‘se vocês se importam com elas, vão e encontrem-nas no rio.’

[212]Então,respondeu o Conselheiro da Cidade, você recusa-se a sustentar os termos do nosso acordo? Nós mesmos poderíamos recusar a você todo o pagamento. Mas você foi de uso para nós, e nós não deixaremos você ir sem uma recompensa,e ele ofereceu-lhe cinquenta coroas.

Guarde a sua recompensa para si mesmo,respondeu orgulhosamente o rateiro. ‘Se você não me pagar, eu serei pago pelos seus herdeiros.’

Depois disso, ele baixou seu chapéu até os olhos, saiu apressadamente da prefeitura, e deixou a cidade sem falar com uma alma.

Quando o povo de Hamelin ouviu como o assunto tinha acabado, eles esfregaram as mãos, e com não mais escrúpulo do que o Conselheiro da Cidade, eles riram do gaiteiro, quem, eles disseram, foi pego na própria armadilha dele. Mas, acima de tudo, o que lhes fez rir foi a ameaça dele de conseguir ser pago pelos herdeiros deles. Há! Eles desejavam que eles apenas tivessem tais credores pelo resto das suas vidas.

No dia seguinte, o qual era um sábado, todos eles foram alegremente à igreja, pensando que, depois da Missa, eles finalmente seriam capazes de comer boa comida, coisa que os ratos não tivessem provado antes deles.

Eles nunca suspeitaram da terrível surpresa que lhes esperava em seu retorno para casa. Nenhuma criança em nenhum lugar, todas elas tinham desaparecido!

Nossas crianças! Onde estão as nossas pobres crianças?’ foi o grito que logo foi ouvido em todas as ruas.

Então, através da porta leste da cidade, chegaram três meninos pequenos, quem gritavam e choravam, e isto é o que eles contaram:

Enquanto os pais deles estavam na igreja, uma música maravilhosa tinha ressoado. Logo, todos os pequenos meninos e todas as pequenas meninas que tinham sido deixados em casa, saíram, atraídos pelos sons mágicos, e tinham se apressado pela grande praça de mercado. Ali eles encontraram o gaiteiro tocando sua gaita de foles no mesmo ponto que na noite anterior. Então, o estrangeiro tinha começado a caminhar rapidamente, e eles tinham seguido, correndo, cantando e dançando ao som da música, tão longe quanto o pé da montanha que alguém vê ao entrar em Hamelin. À aproximação deles, a montanha tinha se aberto um pouco, e o gaiteiro tinha entrado com eles, depois do quê, ela tinha se fechado novamente. Apenas os três pequeninos que contaram a aventura tinham permanecido fora, como se por um milagre. Um era de pernas tortas e não conseguiu correr suficientemente rápido; o outro, quem tinha deixado a casa com pressa, um pé calçado, o outro, nu, tinha machucado a si mesmo em uma pedra grande e não poderia caminhar sem dificuldade; o terceiro tinha chegado a tempo, mas, ao apressar-se para entrar com os outros, tinha colidido tão violentamente com a muralha da montanha, que ele caiu para trás no momento que ela se fechava sobre seus camaradas.

[213]Diante dessa história, os pais redobraram suas lamentações. Eles correram com piques e sachos para a montanha, e buscaram até a noite para encontrar a abertura através da qual os filhos deles tinham desaparecido, sem ser capaz de a encontrar. Finalmente, a noite caindo, eles retornaram desolados a Hamelin.

Mas o mais infeliz de todos era o Conselheiro da Cidade, pois ele perdeu três meninos pequenos e duas lindas meninas pequenas, e, para coroar tudo, as pessoas de Hamelin oprimiram-no com reclamações, esquecendo-se de que na noite anterior todos eles tinham concordado com ele.

O que tinha acontecido com todas aquelas crianças infelizes?

Os pais sempre esperaram que elas não estivessem mortas, e que o gaiteiro, quem, certamente, deve ter saído da montanha, teria levado-os com ele para o país dele. É por isso que, por vários anos, eles enviaram pessoas em busca delas para países diferentes, mas ninguém nunca voltou no rastro dos pobrezinhos.

Não foi até muito tempo depois que qualquer coisa foi ouvida delas.

Por volta de cento e cinquenta anos depois do evento, quando não mais havia nenhum restante dos seus pais, mães, irmãos ou irmãs daquele dia, ali chegaram em uma noite em Hamelin alguns mercadores de Bremen, retornando do Oriente, quem pediram para falar com os cidadãos. Eles disseram que, ao cruzarem a Hungria, eles tinham ficado [214]em uma região montanhosa chamada de Transilvânia, onde os habitantes falavam apenas alemão, enquanto todos ao redor deles nada falavam senão húngaro. Essas pessoas também declararam que elas tinham vindo da Alemanha, mas não sabiam como eles acontecerem de estar nessa região estranha. ‘Agora,’ disseram os mercadores de Bremen, ‘esses alemães não podem ser outros senão os descendentes dos filhos perdidos de Hamelin.’

O povo de Hamelin não duvidava disso; e desde aquele dia eles consideram como certo que os transilvanianos da Hungria são seus concidadãos, cujos ancestrais, como crianças, foram trazidos para lá pelo rateiro. Há coisas mais difíceis de acreditar do que está.1


ORIGINAL:

LANG, A. The Red Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and Lancelot Speed. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1890. p.208-214. Disponível em: <https://archive.org/details/redfairybook00langiala/redfairybook00langiala/page/208/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1Ch. Marelles.

O Livro Azul das Fadas - O Gato Mestre; ou, O Gato de Botas

O Livro Azul das Fadas


Editado por Andrew Lang


Dedicatória, Prefácio e Conteúdos


[141]O Gato Mestre; ou, O Gato de Botas


Havia um moleiro que nada mais deixou de propriedade para os três filhos que ele tinha do que o seu moinho, seu asno e seu gato. A partição logo foi feita. Nem escrivão nem advogado foi convocado. Logo eles tinham consumido todo o patrimônio do pobre. O mais velho recebeu o moinho; o segundo, o asno e o mais jovem, nada senão o gato.

O pobre rapaz estava bastante desconsolado diante do recebimento de um quinhão tão pobre.

Meu irmãos,’ disse ele, ‘podem obter de modo suficientemente generoso o seu sustento ao combinarem seus estoques; mas, pela minha parte, quando eu tiver comido meu gato e feito um regalo da pele dele, eu devo morrer de fome.’

O Gato, quem ouviu tudo isso, mas fez como se não tivesse ouvido, disse para ele com um ar sério e grave:

Não se aflija desse jeito, meu bom mestre; você não tem mais nada a fazer senão me dar uma sacola, e conseguir um par de botas para mim, que eu posso correr através do barro e dos espinheiros, e deverá ver que você não tem um quinhão tão ruim em mim como você imagina.’

O mestre do Gato não se baseou muito do quê ele disse; contudo, ele frequentemente o tinha visto jogar muitos truques astutos para capturar ratos e ratazanas; como quando ele costumava se suspender pelos tornozelos, ou se esconder na refeição, e fazer como se ele estivesse morto; de modo que ele não se desesperou completamente de lhe propiciar alguma ajuda em sua condição miserável. Quando o Gato recebeu o que tinha pedido, ele calçou-se com as botas muito galantemente, e, colocando sua sacola ao redor do pescoço, ele segurou as cordas dela em suas duas patas dianteiras e foi a uma madrigueira, onde havia grande abundância de coelhos. Ele colocou farelo e cardo de porca dentro da sua sacola e, esticando-se extensamente, como se estivesse morto, esperou por alguns jovens coelhos, não muito familiarizados com as trapaças do mundo, chegarem e remexerem a sua sacola pelo quê ele tinha colocado dentro.

[142]Escassamente ele tinha se deitado meramente que ele tinha recebido o que desejava: um jovem coelho precipitado e tolo pulou dentro da sua sacola, e Monsieur Gato, imediatamente fechando as cordas, pegou-o e matou-o sem piedade. Orgulhoso da sua presa, ele foi com ela para o palácio e pediu para falar com sua Majestade. Ele apresentou-se escadaria acima dentro do apartamento do rei e, fazendo uma reverência baixa, disse para ele:

Eu trouxe para você, senhor, um coelho da madrigueira, o qual meu nobre Senhor, o Mestre de Carabas(pois esse foi o título que Gato ficou satisfeito de conceder ao mestre dele) ‘ordenou-me a apresentar a vossa Majestade a partir dele.’

Diz a teu mestre,’ disse o Rei, ‘que eu lhe agradeço, e que ele me causou grande prazer.’

Outra vez ele foi e ocultou-se entre alguns milhos de pé, segurando parada sua grande sacola aberta; e quando um par de perdizes correu para dentro dela, ele puxou as cordas e assim capturou ambos. Ele foi e fez desses um presente para o Rei, como antes ele tinha feito do coelho que ele pegou na madrigueira. De uma maneira similar, o Rei [143]recebeu as perdizes com grande prazer, e arranjou-lhe algum dinheiro, para beber.

O gato continuou por dois ou três meses, dessa maneira, a levar para sua Majestade, de tempos em tempos, caça de captura do mestre dele. Um dia em particular, quando ele sabia por certo que ele devia tomar ar ao longo do lado do rio, com a filha dele, a mais bela princesa no mundo, ele disse para o mestre dele:

Se você desejar seguir meu conselho, a sua fortuna está feita. Você nada mais tem a fazer senão ir e lavar-se no rio, nessa parte eu deverei mostrar a você, e deixe o resto comigo.’

O Marquês de Carabas fez o quê o Gato aconselhou-o a fazer, sem conhecer o motivo ou a razão. Enquanto ele estava lavando-se, o Rei passou por perto, e o Gato começou a gritar:

Ajuda! Ajuda! Meu Senhor Marquês de Carabas vai afogar-se.’

Diante desse barulho o Rei colocou sua cabeça para fora da janela da carruagem e, descobrindo que era o Gato quem tão frequentemente tinha trazido caça tão boa para ele, ele ordenou aos seus guardas para correrem imediatamente para auxiliarem sua Senhoria, o Marquês de Carabas. Enquanto eles estavam arrastando o pobre Marquês para fora do rio, o Gato subiu à carruagem e disse ao Rei que, enquanto o mestre dele estava banhando-se, chegaram alguns bandidos ali, quem levaram as roupas dele, embora ele tivesse gritado: ‘Ladrões! Ladrões!’ várias vezes, tão alto quanto ele conseguiu.

Esse gato astuto tinha escondido-as debaixo de uma grande pedra. O Rei imediatamente ordenou aos oficiais do seu guarda-roupa a correrem e buscarem uma da suas melhores vestimentas para o Lorde Marquês de Carabas.

O Rei acariciou-o de uma maneira muito extraordinária, e as roupas finas que ele tinha dado a ele enfatizaram seu bom semblante (pois ele era muito bem constituído e muito belo em sua pessoa), a filha do Rei sentiu uma inclinação secreta por ele, e antes que o Marquês de Carabas tivesse lançado duas ou três olhadas respeitosas e um pouca tenras, ela apenas apaixonou-se por ele excessivamente. O Rei desejou que ele entrasse na carruagem e tomasse parte no arejamento. O Gato, bastante muito alegre de ver o projeto dele começar a ter sucesso, marchou adiante, e, encontrando-se com alguns camponeses, quem estavam segando uma campina, ele disse para eles:

Boa gente, vocês que estão segando, se não disserem ao Rei que a campina que vocês segam pertence ao meu Senhor Marquês de Carabas, vocês deverão ser cortados tão pequenos quanto as ervas para a panela.’

O Rei não falhou em perguntar aos segadores a quem a campina que eles estavam segando pertencia.

[144]Ao meu Senhor Marquês de Carabas,responderam eles no todo, pois as ameaças do Gato tinham-nos tornado terrivelmente assustados.

Você vê, senhor,’ disse o Marquês, ‘está é uma campina que nunca falha em produzir uma colheita abundante todo ano.’

O Mestre Gato, quem ainda seguia adiante, encontrou-se com alguns ceifadores e disse-lhes:

Boa gente, vocês quem estão ceifando, se não disserem ao Rei que todos esse milho pertence ao Marquês de Carabas, vocês deverão ser cortados tão pequenos quanto ervas para a panela.’

O rei, quem passou perto um momento depois, desejou saber a quem todo aquele milho, o qual ele então via, pertencia.

Ao meu Senhor Marquês de Carabas,responderam os ceifadores, e o Rei ficou muito satisfeito com isso, assim como o Marquês, a quem ele congratulou por isso. O Mestre Gato, quem ia sempre à frente, dizia as mesmas palavras para todos que ele encontrava, e o Rei ficou assombrado diante das vastas propriedades do meu Senhor Marquês de Carabas.

Finalmente, o monsieur Gato chegou a um castelo majestático, o mestre do qual era um ogro, o mais rico que alguma vez tinha sido conhecido; pois todas as terras pelas quais o Rei tinha passado pertenciam a esse castelo. O Gato, quem tinha tomado o cuidado de informar a si mesmo de quem o ogro era e do quê ele podia fazer, pediu para falar com ele, dizendo que não poderia passar tão perto do castelo dele sem ter a honra de render seus respeito a ele.

[145]O ogro recebeu-o tão civilmente quanto um ogro poderia fazê-lo, e fê-lo sentar-se.

Foi-me assegurado,’ disse o Gato, ‘que você tem o dom de ser capaz de mudar a si mesmo em todos os tipos de criaturas para as quais você tenha uma intenção; por exemplo, você pode transformar a si mesmo em um leão, ou elefante, e semelhantes.’

Isso é verdadeiro,respondeu o ogro muito energeticamente; ‘e para convencer você, você deverá ver-me agora me tornar um leão.’

O Gato ficou tão tristemente aterrorizado diante de um leão tão perto dele que imediatamente entrou na calha, não sem abundância de problema e perigo, por causa das botas dele, as quais não eram absolutamente de nenhum uso para ele caminhando sobre as telhas. Um pouco depois, quando o Gato viu que o ogro tinha reassumido a sua forma natural, ele desceu e admitiu que ele tinha ficado muito assustado.

Além disso, eu fui informado,disse o Gato,mas eu não sei como acreditar nisso, que você também tem o poder de assumir a forma dos menores animais; por exemplo, de mudar [146]a si mesmo em um rato ou um camundongo; mas eu admito a você que eu considero isso ser impossível.

Impossível!bradou o ogro; ‘você deverá ver isso imediatamente.’

E, ao mesmo tempo, ele mudou a si mesmo em um rato, e começou a correr de um lado para o outro no chão. Tão logo o Gato percebeu isso apenas ele caiu sobre ele e comeu-o.

Entrementes, o Rei, quem viu, enquanto ele passava, esse belo castelo do ogro, teve uma intenção de entrar nele. O Gato, quem ouviu o barulho da carruagem de sua Majestade correndo sobre a ponte levadiça, correu para fora e disse ao Rei:

Você Majestade é bem-vinda neste castelo do meu Senhor Marquês de Carabas.’

O quê! Meu Senhor Marquês,’ bradou o Rei,e este castelo também pertence a você? Não pode haver nada mais fino do que esta corte e todas essas construções majestáticas que a circundam; entremos nele, se agradar-lhe.

O Marquês deu a sua mão à Princesa, e seguiu o Rei, quem foi na frente. Eles passaram para um salão espaçoso, onde encontraram uma refeição magnífica, a qual o ogro tinha preparado para os amigos deles, quem deviam visitá-lo naquele mesmo dia, mas não se atreveram de entrar, sabendo que o Rei estava lá. Sua Majestade ficou perfeitamente [147]encantado com as boas qualidades do meu Senhor Marquês de Carabas, como ficou a filha dele, quem tinha se apaixonado violentamente por ele, e, vendo as vastas propriedades que ele possuía, disse para ele, após ter bebido cinco ou seis taças:

Será devido apenas a você, meu Senhor Marquês, se você não se tornar meu genro.’

O Marquês, fazendo várias reverências baixas, aceitou a honra que sua Majestade conferiu a ele, e sem demora, naquele mesmo dia, casou-se com a Princesa.

O Gato tornou-se um grande senhor e nunca mais correu atrás de ratos, senão apenas para a sua diversão.1


ORIGINAL:

LANG, A. The Blue Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and G. P. Jacomb Hood. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1889. p.141-147. Disponível em: <https://archive.org/details/bluefairybook00langiala/page/141/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[147]Charles Perrault.

Os Ses da História VI Se a Filarmonia não tivesse realizado Concertos em Vicenza

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


Capítulo anterior


[56]Capítulo VI Se a Filarmonia não tivesse realizado Concertos em Vicenza


Em consideração à variedade, talvez à diversão, no meio de especulações mais sérias, tenhamos um “se” de história musical – e um que, sem dúvida, os músicos podem considerar como puramente fantasioso, totalmente absurdo. Deveria ser afirmado desde o começo que este capítulo é escrito por alguém que não tem conhecimento de música, mas é capaz de uma apreciação muito aguda dela e, em sua época, ouviu muita música profissional – muitos concertos, óperas e oratórios – e também muito da música espontânea, não treinada, do povo, incluindo antigas baladas da Nova Inglaterra [57]agora esquecidas; as canções de camponeses alemães à fogueira e à roda de fiar; as canções nativas de milho, “wails” e “shouts” dos negros sulistas nas plantações; e as canções de medicina, canções de escalpo, cânticos cerimoniais e cançõezinhas de amor de índios americanos.

A contingência que será apresentada aqui é esta: Se um certo grupo de cantores e músicos não profissionais na cidade italiana altamente cultivada de Vicenza, por volta do meio do século XVI, não tivesse se reunido em uma sociedade chamada de Filarmonia e, pela primeira vez na Europa, concedido entretenimento musical para o qual o público era admitido, a instituição musical chamada de o concerto nunca poderia ter existido, e, nesse caso, a música teria permanecido uma expressão espontânea da emoção humana, não contaminada pelo quê agora é chamada de virtuosidade – quer dizer, o conflito e esforço em busca de maestria técnica, o qual afeta o [58]caráter inteiro da música, e afasta-o do seu propósito original de agradar o sentido e confortar o coração.

Música profissional especializada foi uma coisa de crescimento muito lento. É claro, os antigos mestres de capela ou mestres de corais eram profissionais, em um sentido, uma vez que eles viviam na igreja. Mas eles também tinham um caráter sacerdotal. No começo eles eram sempre sacerdotes. Para criar uma classe de músicos profissionais, competindo uns com os outros por mera maestria, o concerto público, com músicos pagos, tinha de ser desenvolvido.

Embora a Filarmonia realizasse concertos públicos em Vicenza, como nós dissemos, no meio do século XVI, música de concerto e música de ópera não tiveram existência geral por tanto quanto um século depois. A primeira ópera alguma vez apresentada foi “Eurydice” de Peri, escrita por volta de 1600. Mesmo isso foi meramente a expressão de um grupo de entusiastas, um tipo de tentativa presente para encarnar uma [59]teoria própria sobre o quê a música deveria ser. Não foi até o ano de 1672 que o primeiro concerto, com um preço para admissão, foi realizado em Londres. O preço então cobrado foi de um xelim, e o concerto foi em uma casa privada.

Por aquele momento, o começo já tinha sido feito. Outros concertos foram realizados logo depois. Eles tornaram-se populares. Houve uma demanda por músicos e solistas habilidosos. Músicos começaram praticando pelo bem da excelência em realização técnica. Através de passos rápidos e súbitos um prêmio foi colocado sobre a perfeição mecânica no manejo de instrumentos. Os antigos métodos espontâneos de expressão gradualmente tornaram-se desacreditados.

Como uma consequência do novo desenvolvimento, dois tipos de música surgiram no mundo. No lado de uma, estava a música de concerto, música profissional, música virtuosa. Essa era difícil e complicada, e era impossível para o povo ordinário cantá-la [60]ou tocá-la. No lado da outra, ficava a música popular – música folclórica, a música da rua, do berçário, do estábulo e da taberna. Como a música popular agora foi regularmente abandonada em favor da escola de concerto por aqueles que possuíam o maior talento musical, ela começou a degenerar até que ela finalmente alcançou a degradação de “Grandfather’s Clock,” “Ta-ra-ra-boom-de-ay,” “Waiting at the Church” e o grafofone.

Por outro lado, a música de concerto moveu-se mais e mais longe dos corações e da compreensão do povo, até que ela se tornou uma coisa separada das vidas deles, a ser apreciada tanto com o olho quanto com o ouvido, o interesse estando principalmente na produção, na sucessão, de mestres individuais, cada um dos quais visivelmente supera as realizações mecânicas do seu predecessor imediato.

Se aqueles concertos não tivessem sido realizados pela Filarmonia em Vicenza, [61]e a ideia não tivesse ondulado lentamente para longe a partir dai, como círculos se espalhando a partir de uma pedra jogada dentro da água, até que ela alcançasse Viena, Paris e Londres, qual teria sido o estado da música hoje em dia?

Manifestamente o desenvolvimento da música de igreja teria prosseguido. Sem dúvida as pessoas teriam estado tomando parte em corais magníficos. As massas da Igreja Católica teriam sua característica correspondente nos anátemas e hinos cantados nas igrejas protestantes pelas congregações. Todo instrumento que existia no século XVI teria sido aperfeiçoado, mas nenhum teria seguido o desenvolvimento intrincado que o mecanismo musical exige.

Em outras palavras, o cravo nunca teria se tornado um piano, e nunca se teria ouvido falar do órgão elétrico de igreja. Todos nós deveríamos tocar algum instrumento como a harpa, o violino, a viola da gamba, a flauta, [62]a pipe ou o saltério. Todos poderiam ser compositores, como os negros e os índios são hoje, mas em um plano mais elevado.

Que música popular poderia existir agora apenas por aquela sem sorte descoberta da Filarmonia é sugerida por um extrato dos escritos de Thomas Morley, um inglês que se tornou um grande amador e introdutor dos madrigais italianos em seu próprio país. No ano de 1597 ele escreveu que, em uma certa noite, na Inglaterra, -


ceia estando terminada, e livros de música, de acordo com o costume, sendo trazidos à mesa, a senhora da casa apresentou-me com um papel, seriamente me requisitando a cantar. Mas quando, após muitas desculpas, eu protestei sem motivo que eu não poderia, todos começaram a ficar curiosos. Sim, alguns sussurram uns para os outros, perguntando como eu fui trazido. De modo que, em consequência de vergonha da minha ignorância, eu agora procuro meu antigo amigo, mestre Gnorimus, para tornar a mim mesmo seu estudante.


Naqueles dias, uma pessoa que não poderia cantar, e cantar bem, era considerada uma aberração, e era requerido que ela se ajustasse para se juntar à diversão universal. [63]Se nós não tivéssemos aberto mão da nossa produção de música, seria assim agora. Em vez de irem ao concerto ou à ópera depois de uma refeição noturna, ou jogando bridge ou fofocando, as pessoas teriam participado no cântico de madrigais, canções ou seja qual for o outro tipo de música popular espontânea que tivesse se desenvolvido, e tudo teria sido sustentado e elevado pela alegria exaltada que surge a partir de se juntar com outros na produção de boa música.

As pessoas teriam sido musicais, alegremente e de coração. O gosto delas não teria sido degradado ao ponto onde ele é gratificado, como no grafofone, com uma sucessão complicada de sons chatos e estridentes, não musicais em si mesmos.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 56-63. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/56/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...