[200]Como o leitor viu, Aph-Lin não favorecera minhas relações gerais e irrestritas com sua concidadã. Embora confiante em minha promessa de me abster de dar qualquer informação quanto ao mundo que eu deixara, e ainda mais na promessa daqueles a quem fora colocado o mesmo pedido, não me questionar, o qual Zee exigira de Taë, contudo ele não tinha certeza de que, se eu fosse permitido a me misturar com estranhos de cuja curiosidade a visão de mim despertara, eu poderia suficientemente me guardar dessas interrogações. Quando eu saia, portanto, nunca era sozinho; sempre era acompanhado por alguém da família de meu anfitrião, ou por meu amigo-criança Taë. Bra, esposa de Aph-Lin, raramente se mexia além dos jardins que cercavam a casa, e era afeiçoada à leitura de literatura antiga, a qual continha [201]algo de romance e aventura não encontrados nos escritos das eras recentes, e apresentava imagens de uma vida estranha à experiência dela e interessante à imaginação dela; imagens, de fato, de uma vida assemelhando-se mais àquela que nós conduzimos diariamente acima do solo, coloridas por nossos sofrimentos, pecados e paixões, e muito para ela o que os Tales of the Genii ou as Arabian Nights eram para nós. Mas o amor dela à leitura não impedia Bra de quitar seus deveres como senhora da maior casa na cidade. Ela circulava diariamente pelos aposentos, e via se os autômatos e outras invenções mecânicas estavam em ordem, se as numerosas crianças empregadas por Aph-Lin, quer em sua capacidade privada ou pública, eram cuidadosamente cuidadas. Bra também inspecionava as contas da propriedade inteira, e era seu grande prazer auxiliar seu esposo no negócio conectado ao escritório dele como o administrador-chefe do Departamento de Iluminação, de modo que suas ocupações necessariamente a mantinham muito dentro de casa. Os dois filhos estavam ambos completando sua educação no Colégio dos Sábios; e o mais velho, quem tinha uma grande paixão por mecânica e, especialmente, pelos trabalhos [202]conectados à maquinaria de relógios e autômatas, decidira devotar-se a essas atividades, e agora se ocupara em construir uma loja, ou armazém, onde suas invenções poderiam ser exibidas e vendidas. O filho mais jovem preferia a agricultura e ocupações rurais e, quando não frequentando o Colégio, no qual ele principalmente estudava as teorias da agricultura, estava muito absorvido por suas aplicações práticas daquela ciência às terras de seu pai. Será visto relativamente a isso quão completamente a igualdade de posições sociais é estabelecida em meio a este povo – um comerciante sendo exatamente do mesmo grau de estima que um grande proprietário de terras. Aph-Lin era o membro mais rico da comunidade, e seu filho mais velho preferia manter uma loja a qualquer outra ocupação; nem foi essa escolha considerada para mostrar qualquer desejo de noções elevadas da parte dele.
O jovem estivera muito interessado em examinar meu relógio, as atividades do mesmo eram novas para ele, e ficou grandemente satisfeito quando eu dei-o de presente a ele. Um pouco depois, ele retornou com o presente com vantagem, com um relógio de sua própria construção, marcando tanto o tempo [203]como em meu relógio quanto o tempo como registrado entre os Vril-ya. Eu ainda tenho aquele relógio, e tem sido muito admirado por muitos entre os mais eminentes relojoeiros de Londres e Paris. É de ouro, com mãos de diamante e figuras, e toca uma melodia favorita em meio aos Vril-ya ao bater as horas: ele apenas requer ser dado corda a cada dez meses, e nunca errou desde que eu dei-a. Esses jovens irmãos estando dessa maneira ocupados, meus companheiros usuais naquela família, quando eu saía, eram meu anfitrião ou sua filha. Agora, agradavelmente com as conclusões honoráveis às quais eu cheguei, eu comecei a escusar-me dos convites de Zee para sair sozinho com ela, e aproveitei uma oportunidade, quando aquela instruída Gy estava apresentando uma palestra no Colégio de Sábios, para pedir a Aph-Lin que me mostrasse sua casa de campo. Como isso era de pouca distância, e como Aph-Lin não era afeiçoado a caminhar, enquanto eu discretamente renunciara a todas as tentativas de voo, nós prosseguimos para nosso destino em um dos botes aéreos pertencentes a meu anfitrião. Uma criança de oito anos, a seu serviço, foi nosso condutor. Meu anfitrião e eu mesmo, reclinados em almofadas, e [204]julguei o movimento muito agradável e luxuoso.
“Aph-Lin,” eu disse, “você não ficara descontente comigo, eu confio, se eu pedir sua permissão para viajar por um breve período, e visitar outras tribos ou comunidades de sua raça ilustre. Eu também tenho um forte desejo de ver essas outras nações que não adotam suas instituições, e que você considera como selvagens. Interessar-me-ia grandemente notar o que são essas distinções entre elas e as raças que nós consideramos civilizadas no mundo que eu deixei.”
“É completamente impossível que você deva partir daqui sozinho,” disse Aph-Lin. “Mesmo em meio aos Vril-ya você estaria exposto a grandes perigos. Certas peculiaridades de sua formação e cor, e o fenômeno extraordinário de tufos peludos em suas bochechas e seu queixo, denotando em você uma espécie de An distinta de nossa raça e de qualquer outra raça de bárbaros ainda existente, atrairia, é claro, a atenção especial do Colégio dos Sábios em qualquer comunidade de Vril-ya que você visitasse, e dependeria do temperamento individual de algum sábio individual se [205]você seria recebido, como tem sido aqui, de modo hospitaleiro, ou se você não seria dissecado imediatamente para propósito científico. Saiba que quando o Tur primeiro o levou à casa dele, e enquanto você estava lá colocado para dormir por Taë a fim de se recuperar de dor e fatiga anteriores, os sábios convocados pelo Tur estavam divididos quanto à opinião de se você era um animal ofensivo ou inofensivo. Durante o seu estado inconsciente, seus dentes foram examinados, eles mostraram claramente que você não era somente herbívoro, mas carnívoro. Animais carnívoros de seu tamanho são sempre destruídos, como sendo de natureza perigosa e selvagem. Nossos dentes, como você, sem dúvida, observou,1 não são daqueles de criaturas que devoram carne. De fato, é sustentado por Zee e outros filósofos que, como, em era remotas, os Ana atacavam seres das espécies brutas, os dentes deles tinham de ser adequadas àquele propósito. Mas, mesmo assim, eles foram modificados por transmissão hereditária, e adequados à comida que agora existe; [206]nem mesmo os bárbaros, que adotam as instituições turbulentas e ferozes do Glek-Nas, são devoradores de carne como animais de rapina.”
“No curso dessa disputa foi proposto dissecar você; mas Taë livrou-o, e o Tur sendo, por ofício, averso a todos experimentos novos em variação de nosso costume de poupar vida, exceto onde estive claramente provado ser para o bem da comunidade tomá-la, convocou-me, cujo negócio é, como o homem mais rico do estado, conceder hospitalidade a estranhos de uma distância. Estava sob minha opção decidir se você era ou não um estranho a quem eu poderia admitir com segurança. Houvesse eu declinado de o receber, você teria sido entregue ao Colégio dos Sábios, e o que poderia ter ocorrido a você eu não gosto de conjecturar. Aparte desse perigo, você poderia acontecer de encontrar alguma criança de quatro anos de idade, recém-colocada em posse de seu bastão de vril; e quem, em alarme por sua estranha aparência, poderia reduzi-lo a uma cinza. Taë mesmo estava prestes a fazer isso, não houvesse o pai dele contido a mão dele. Portanto, eu digo que você não pode [207]viajar sozinho, mas com Zee você estaria a salvo; e eu não tenho dúvida de que ela o acompanharia em um passeio em volta das comunidades vizinhas dos Virl-ya (aos estados selvagens, não!): eu pedirei a ela.”
Agora, como meu objetivo principal ao propor a viajem era escapar de Zee, eu apressadamente exclamei, “Não, suplico que não! Eu abandono meu projeto. Você disse o suficiente quanto aos perigos para me desencorajar dele; e eu escassamente posso considerar certo que uma jovem Gy, das atrações pessoais de sua amável filha, deveria viajar para outras regiões sem um protetor melhor do que um Tish de minha força e estatura insignificantes.”
Aph-Lin emitiu aquele som suave sibilante que é a abordagem mais próxima do riso que um An inteiramente crescido permite a si mesmo, antes que ele respondesse: “Perdoe minha indulgência de alegria descortês mas momentânea diante de qualquer observação seriamente feita por meu hóspede. Eu apenas pude ficar entretido diante da ideia de que Zee, que é tão afeiçoada a proteger os outros que as crianças chamam-na de ‘A GUARDIÃ’, necessitaria de um protetor ela mesma contra quaisquer perigos surgindo da admiração audaciosa de homens. Saiba que [208]nossas Gy-ei, enquanto solteiras, estão acostumadas a viajarem sozinhas entre outras tribos, para ver se elas encontram algum An que lhas agrade mais do que os Ana que elas encontram em casa. Zee já fez três de semelhantes viagens, mas até agora o coração dela tem estado intocado.”
Aqui a oportunidade que eu buscava foi concedida a mim, e eu disse, olhando para baixo, e com voz vacilante, “Meu gentil anfitrião, você prometeria perdoar-me, se o que eu estou para dizer ofende você?”
“Diga apenas a verdade, e eu não posso ficar ofendido; ou, eu poderia ficar, isso não seria para mim, mas para você perdoar.”
“Bem, então, ajude-me a deixar você e, por mais que eu devesse ter gostado de testemunhar mais das maravilhas, e desfrutado de mais da felicidade, as quais pertencem ao seu povo, permita-me retornar ao meu próprio.”
“Eu temo que haja razões pelas quais eu não posso fazer isso; em todo o caso, não sem a permissão do Tur, e ele, provavelmente, não a concederia. Você não é destituído de inteligência; você pode (embora eu não pense assim) ter escondido a magnitude dos poderes destrutivos possuídos pelo seu povo; [209]você poderia, em resumo, trazer sobre nós algum perigo; e se o Tur entretém essa ideia, seria claramente o dever dele ou dar um fim a você, ou encerrar-te em uma cela pelo resto de sua existência. Mas por que você desejaria deixar uma sociedade que você tão educadamente concede ser mais feliz do que a sua própria?”
“Oh, Aph-Lin! Minha resposta é simples. Para que em nada, e involuntariamente, eu deva trair sua hospitalidade; para que, no capricho de vontade que em nosso mundo é proverbial entre o outro sexo, e do qual mesmo uma Gy não está livre, sua filha adorável não deva condescender a me considerar, embora um Tish, como eu fosse um An civilizado, e – e – e -”
“Cortejar você como esposo dela,” colocou Aphi-Lin, gravemente, e sem qualquer sinal visível de surpresa ou desprazer.
“Você disse isso.”
“Isso seria um infortúnio,” continuou meu anfitrião, após uma pausa, “e eu sinto como se você tivesse agido como se você devesse ter alertado-me. Como você insinua, não é incomum para uma Gy solteira conceber gostos que parecem extravagantes para outros [210]quanto ao objeto que ela cobiça; mas não há poder para compelir uma jovem Gy a qualquer curso oposto àquele que ela escolha perseguir. Tudo que nós podemos fazer é argumentar com ela, e a experiência mostra-nos que o inteiro Colégio dos Sábios consideraria vão argumentar com uma Gy em matéria que diz respeito a sua escolha no amor. Eu lamento por ti, porque semelhante casamento seria contra a A-glauran, ou o bem da comunidade, pois as crianças de semelhantes casamento adulterariam a raça: elas até poderiam vir ao mundo com os dentes de animais carnívoros; isso não poderia ser permitido: Zee, como uma Gy, não pode ser controlada; mas você, como um Tish, pode ser destruído. Eu aconselho-te, então, a resistir aos avanços dela, para contar a ela claramente que você nunca pode retornar seu amor. Isso acontece constantemente. Muitos An, por mais que ardentemente cortejados por uma Gy, rejeitam-na, e colocam um fim a perseguição delas casando com outra. O mesmo curso está aberto a você.”
“Não; pois eu não posso casar outra Gy sem igualmente ferir a comunidade, e expô-la à mudança da criação de crianças carnívoras.”
“Isso é verdadeiro. Tudo que eu posso dizer, e eu digo-o [211]com a ternura devida a um Tish, e o respeito devido a um hóspede, é francamente isto – se você conceder, você tornar-se-á uma cinza. Eu preciso deixar para você adotar a melhor maneira que você pode para se defender. Talvez você faria melhor contar a Zee que ela é feia. Essa arrogância nos lábios daquele que ela corteja geralmente basta para desanimar a mais ardente Gy. Aqui, nós estamos em minha casa de campo.”
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.200-211. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/200/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1Eu nunca tinha observado isso; e, se observei, eu não sou fisiologista o suficiente para ter distinguido a diferença.
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