[192]Por algum tempo eu observei na altamente informada e poderosamente proporcionada filha de meu anfitrião aquele sentimento amável e protetivo o qual, quer acima da terra ou abaixo dela, uma Providência onisciente conferiu à divisão feminina da raça humana. Mas, até muito recentemente, eu atribuíra-o àquela afeição por ‘animais domésticos’ que uma mulher de qualquer idade compartilha com uma criança humana. Agora eu tornei-me dolorosamente consciente de que o sentimento com o qual Zee dignou-se a me considerar era diferente daquele que eu inspirara em Taë. Mas essa convicção não me deu nenhuma daquela gratificação complacente que a vaidade de um homem ordinariamente imagina a partir da apreciação lisonjeira de seus méritos pessoais da parte do belo sexo; pelo contrário, ela inspirou-me medo. Contudo, de toda as Gy-ei na comunidade, se Zee fosse [193]talvez a mais sábia e mais forte, ela era, pela reputação comum, a mais gentil, e ela era certamente a mais popularmente amada. O desejo de ajudar, de socorrer, de proteger, de confortar, de abençoar, pareciam permear o ser inteiro dela. Embora as complicadas misérias que se originavam na penúria e culpa fossem desconhecidas ao sistema social dos Vril-ya, entretanto, nenhum sábio ainda descobrira no vril uma atuação que pudesse banir a tristeza da vida; e, aonde quer que em meio a seu povo a tristeza pudesse encontrar espaço, lá Zee seguia na missão de confortadora. Alguma irmã Gy falha em assegurar o amor pelo qual ela suspirava? Zee buscava-a e trazia todos os recursos de seu conhecimento, e todos os consolos de sua simpatia, para suportar uma dor que assim precisa do consolo de uma confidente. Nos raros casos, quando uma doença grave, apoderava-se de infância ou juventude, e os casos, menos raros, quando, na liberdade destemida e aventurosa de infantes, algum acidente, comparecido com dor e ferimento, Zee abandonava seus estudos e esportes, e tornava-se a curadora e a enfermeira. Os voos favoritos dela eram na direção das fronteiras extremas do domínio onde as crianças ficavam estacionadas [194]de guarda contra os surtos de forças hostis na natureza, ou as invasões de animais devoradores, de modo que ela poderia avisá-los de qualquer perigo que o conhecimento dela detectasse ou previsse, ou estar à mão se qualquer ferimento acontecesse. Não, mesmo no exercício de suas aquisições científicas havia uma benevolência concorrente de propósito e vontade. Ela aprendeu alguma novidade que seria útil ao praticante de alguma arte ou ofício? Ela apressava-se a comunicá-la e explicá-la. Estava algum sábio veterano dos Colégio perplexo e cansado com a labuta de um estudo obscuro? Ela pacientemente se devotaria a seu auxílio, calcularia os detalhes para ele, sustentaria seus espíritos com um sorriso esperançoso, estimularia a vontade dele com a luminosa sugestão dela, seria para ele, por assim dizer, seu bom gênio tornado visível como fortalecedora e inspiradora. A mesma ternura ela exibia para com as criaturas inferiores. Eu frequentemente conhecia que ela trazia para casa algum animal doente ou ferido, e cuidava e afagava como uma mãe cuidaria de e afagaria sua criança ferida. Muitas vezes, quando eu sentava-me no balcão, ou jardim suspenso, para o qual minha janela abria-se, eu via-a [195]erguendo-se no ar com suas asas radiantes e, em poucos momentos, grupos de infantes, vendo-a, planariam para cima com sons felizes de saudações; agrupando-se e divertindo-se em torno dela, de modo que ela parecia um centro mesmo de alegria inocente. Quando eu caminhava com ela em meio às rochas e aos vales do lado de fora da cidade, o servo farejá-la-ia ou vê-la-ia de longe, viria saltitando, ansioso pelo carinho da mão dela, ou seguiria os passos dela, até ser dispensado por algum sussurro musical que a criatura aprendera a compreender. É a moda entre as virgens Gy-ei usar em suas testas um diadema, ou grinalda, com gemas assemelhando-se a opalas, arranjadas em quatro pontos ou raios como estrelas. Essas eram sem brilho no uso ordinário, mas, se tocadas pela varinha de vril, ele assumiam uma chama clara e brilhante, que iluminava e, contudo, não queimava. Isso serve como um ornamento nas festividades deles, e como uma lâmpada, se, em suas andanças além das luzes artificiais, elas tinham de atravessar o escuro. Há ocasiões, quando eu via a majestade pensativa de Zee de face iluminada por esse halo coroante, que eu escassamente poderia acreditá-la ser uma criatura de nascimento [196]mortal, e inclinava minha cabeça diante dela como a visão de um ser em meio às ordens celestes. Mas nenhuma vez meu coração sentiu por esse tipo elevado da nobre feminilidade um sentimento de amor humano. É que, em meio à raça a qual eu pertenço, o orgulho de homem influencia tanto suas paixões que a mulher perde para ele seu charme especial de mulher se ele sentia-se ser em todas as coisas eminentemente superior a ele mesmo? Mas que paixão estranha poderia ter essa filha inigualável de uma raça que, na supremacia de seus poderes e na felicidade de suas condições posiciona todas as outras raças na categoria de bárbaros, condescendeu a me honrar com sua preferência? Em qualificações pessoais, embora eu passasse por ter boa aparência em meio às pessoas de onde eu venho, o mais belo de meus compatriotas poderia ter parecido insignificante e desajeitado ao lado do tipo imponente e sereno de beleza que caracterizava o aspecto dos Vril-ya.
Essa novidade, a própria diferença entre eu mesmo e aqueles a quem Zee estava acostumada, poderia servir para influenciar a imaginação dela era provável o suficiente, e como o leitor verá depois, uma [197]causa semelhante poderia ser suficiente para explicar a predileção com a qual eu era distinguido por uma jovem Gy escassamente saída da infância, e muito inferior em todos os aspectos a Zee. Mas, quem quer que considerará aquelas características tenras que eu há pouco atribui à filha de Aph-Lin, pode prontamente conceber que a principal causa de minha atração a ela estava em seu desejo instintivo de cuidar, de confortar, de proteger e, ao proteger, sustentar e exaltar. Dessa maneira, quando eu olho para trás, eu considero [isso] como a única fraqueza indigna de sua natureza elevada, a qual curvava a filha dos Vril-ya à afeição de uma mulher por alguém tão inferior a ela mesma como era o hóspede de seu pai. Mas, seja a causa o que possa ser, a consciência de que eu tinha inspirado semelhante afeição excitou-me com admiração – uma admiração moral das perfeições mesmas dela, de seus poderes misteriosos, das distinções inseparáveis entre a raça dela e a minha própria; e com essa admiração, eu preciso confessar para minha vergonha, aqui se combinavam o pavor mas material e ignóbil dos perigos aos quais a preferência dela expor-me-ia.
Poderia ser suposto por um momento que os [198]pais e amigos desse ser exaltado poderiam ver sem indignação e desgosto a possibilidade de uma aliança entre ela mesma e um Tish? Ela eles não poderiam punir, ela eles não poderiam confinar nem conter. Nem na vida doméstica nem na política eles reconhecem qualquer lei de força entre eles mesmos; mas eles poderiam efetivamente colocar um fim no afeto dela por meio de um lampejo de vril infligido sobre mim.
Sob essas circunstâncias ansiosas, afortunadamente, minha consciência e senso de honra estavam livres de censura. Meu dever tornou-se claro, se a preferência de Zee continuasse a manifestar-se, para a indicar a meu anfitrião, com, é claro, toda delicadeza a qual deve sempre ser preservada por um homem bem-educado, ao confidenciar a outro qualquer grau de favor pelo qual alguém do belo sexo condescendia em o distinguir. Desse modo, em todos os eventos, eu deveria ser liberto da responsabilidade ou suspeição de participação voluntária nos sentimentos de Zee; e a sabedoria superior de meu anfitrião provavelmente poderia sugerir algum desenredamento sábio de meu perigoso dilema. A esse respeito, eu obedeci o instinto [199]ordinário de homem civilizado e moral, quem, contudo errante ele seja, geralmente ainda prefere o curso direito nesses casos onde é obviamente contra suas inclinações, seus interesses, e sua segurança eleger o errado.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.192-199. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/192/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário