A Raça Vindoura - Capítulo XX

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[186]Desde a data da expedição com Taë que eu narrei há pouco, a criança fez-me frequentes visitas. Ele desenvolveu um carinho por mim, o qual eu cordialmente retribuí. De fato, como ele ainda não tinha 12 anos de idade, e não começara o curso de estudos científicos com o qual a infância termina naquele país, meu intelecto era menos inferior ao dele do que àqueles dos membros mais velhos de sua raça, especialmente das Gy-ei e mais especialmente da talentosa Zee. As crianças dos Vril-ya, tendo sobre suas mentes o peso de tantos deveres ativos e responsabilidades graves, não são geralmente joviais; mas Taë, com toda sua sabedoria, tinha muito do bem-estar lúdico – humor que alguém frequentemente descobre ser a característica de homens idosos de gênio. Ele sentia aquele tipo de prazer em minha companhia que um menino de uma idade similar no mundo [187]de cima tem na companhia de um cão ou macaco de estimação. Divertia-lhe tentar ensinar-me as maneiras de seu povo, como diverte um sobrinho meu fazer seu poodle andar sobre suas patas traseiras ou pular através de um arco. Eu voluntariamente me emprestava a semelhantes experimentos, mas eu nunca alcancei o sucesso do poodle. Inicialmente, eu estava muito interessado na tentativa de usar as asas que os mais jovens dos Vril-ya usam tão ágil e facilmente como nós usamos nossas pernas e braços; mas meus esforços eram atendidos com contusões sérias o suficiente para me fazerem abandoná-los em desespero.

Essas asas, como eu disse antes, são muito grandes, alcançando o joelho, e em repouso ficavam jogadas para trás como a formar um manto muito gracioso. Elas são compostas pelas penas de um pássaro gigante que abunda nos montes rochosos da região – a cor principalmente branca, mas algumas vezes com listras avermelhadas. Elas são firmadas em volta dos ombros com leves mais fortes molas de aço; e, quando expandidas, os braços deslizam através de laços para esse propósito, formando, por assim dizer, uma robusta membrana central. Conforme os braços são erguidos, um forro tubular sob a veste ou túnica torna-se, por [188]artifício mecânico, inflado de ar, aumentado ou diminuído à vontade pelo movimento dos braços, e servindo para flutuar a forma inteira como sobre bexigas. As asas e o aparato semelhante a balões são altamente carregados de vril; e quando o corpo é dessa maneira flutuado para cima, ele parece tornar-se singularmente aliviado de seu peso. Eu achei suficientemente fácil elevar-me do solo; de fato, quando as asas eram estendidas era muito difícil não se elevar, mas então vinham a dificuldade e o perigo. Eu falhava completamente no poder de usar e dirigir as asas, embora eu fosse considerado em meio a minha própria raça incomumente alerta e apto a exercícios físicos, e eu sou um nadador muito experimentado. Eu apenas podia fazer os esforços mais confusos e desajeitados no voo. Eu era o servo das asas; as asas não eram minhas servas – elas estavam além de meu controle; e quando, por uma violenta tensão de músculo, e, eu preciso justamente confessar, naquela força anormal que é dada por medo excessivo, eu restringia seus giros e trazia-os para perto do corpo, parecia como se eu perdesse o poder de sustentação armazenado nele e nas bexigas conectadas, como quando o ar é deixado sair de um balão, e encontrava-me [189]precipitado novamente à terra; salvo, de fato, por algum bater de asas espasmódico, de ser colidido em pedaços, mas não salvo das contusões e do atordoo de uma queda pesada. Contudo, eu teria perseverado em minhas tentativas, apenas pelo conselho ou comandos da científica Zee, quem benevolentemente acompanhara meus bateres de asas, e de fato, na última ocasião, voara exatamente sob mim, recebeu minha forma como se ela caísse sobre suas próprias asas expandidas e preservou-me de quebrar minha cabeça no teto da pirâmide a partir da qual nos ascendêramos.

Eu entendo,ela disse,que suas tentativas são em vão, não devido à falta das asas e seus pertences, nem por causa de qualquer imperfeição ou malformação de seu próprio sistema corpuscular, mas por causa de defeito irremediável, porque orgânico, em seu poder de volição. Aprenda que a conexão entre a vontade e as atuações daquele fluido que foi subjeitado ao controle dos Vril-ya nunca fora estabelecida pelos primeiros descobridores, nunca alcançada por uma única geração; foi em incrementos, como outras propriedades da raça, em proporção conforme tem sido uniformemente [190]transmitida de pai para filho, de modo que, finalmente, tornou-se um instinto; e um infante An de nossa raça, deseja voar tão intuitiva e inconscientemente quanto ele deseja andar. Ele trabalha em suas asas inventadas ou artificiais com tanta segurança quanto um pássaro trabalha com aquelas com as quais nasceu. Eu não pensei suficientemente nisso quando permiti a você tentar um experimento que me encantou, pois eu ansiava por tem em você um companheiro. Eu agora deverei abandonar o experimento. Sua vida está tornando-se cara para mim.Com isso, a voz e face da Gy suavizaram-se, e eu senti-me mais seriamente agitado do que eu estivera em meus voos anteriores.

Agora que eu estou no tema nas asas, eu não devo omitir menção a um costume entre as Gy-ei que me parece muito bonito e tenro no sentimento que ele implica. Uma Gy usa as asas enquanto ainda virgem – ela junta-se aos Ana em seus esportes aéreos – ela aventura-se sozinha e longe em regiões selvagens do mundo sem sol: na ousadia e altura de suas subidas, não menos do que na graça de seus movimentos, ela ultrapassa o sexo oposto. Mas a partir do dia do casamento, ela não mais usa as asas, ela [191]suspende-as por sua própria vontade, entregues ao leito nupcial, nunca a serem retomadas a menos que o laço de casamento seja rompido por divórcio ou morte.

Agora, quando a voz e os olhos de Zee suavizaram-se dessa maneira – e diante dessa suavização eu profeticamente recuei e estremeci – Taë, quem nos acompanhara em nossos voos, mas quem, como criança, divertira-se muito mais com minha inabilidade do que simpatizara com meus medos ou conscientizara-se de meu perigo, pairou sobre nos, equilibrou-se em meio ao ainda radiante ar, sereno e imóvel em suas asas estendidas, e ouvindo as palavras cativantes da jovem Gy, riu alto. Ele disse, “Se o Tish não pode aprender o uso das asas, você ainda pode ser a companheira dele, Zee, pois você pode suspendê-lo por si própria.”


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.186-191. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/186/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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