[182]QUANDO o dia ficou claro, Walter levantou-se e encontrou a Donzela subindo do banco do rio, fresca e rosada da água. Ela empalideceu um pouco quando eles encontraram-se face a face, e encolheu-se diante dele timidamente. Mas ele tomou a mão dela e beijou-a francamente; e os dois ficaram felizes, e não tiveram nenhuma necessidade de contarem um ao outro de sua alegria, embora muito mais eles considerassem que tinham a dizer, pudessem eles ter encontrado palavras para isso.
Assim eles chegaram à fogueira e sentaram-se, e começaram a tomar café da manhã. Antes que eles tivessem terminado, a Donzela disse: “Meu Mestre, tu vês que nós chegamos a bem perto da região montanhosa e hoje, perto do pôr do sol, provavelmente, nós deveremos entrar na Terra do Povo-urso. E tanto é que há perigo de nós cairmos [183]nas mãos deles, e de que nós escassamente possamos deles escapar. Contudo, eu considero que nós podemos lidar com o perigo com sabedoria.”
‘Qual é o perigo?’ Disse Walter; ‘Quero dizer, qual é o pior dele?’
Disse a Donzela: ‘Ser oferecido como sacrifício ao Deus deles.’
‘Mas se nós escaparmos da morte nas mãos deles, o que então?’ disse Walter.
‘Uma de duas coisas,’ ela disse; ‘a primeira, que eles deverão conduzir-nos à consideração da tribo deles.’
‘E eles nos separarão nesse caso?’ Disse Walter.
‘Não,’ disse ela.
Walter riu e disse: ‘A esse respeito há pouco dano então. Mas qual é a outra possibilidade?’
Ela disse: ‘Que nós os deixemos com a boa vontade deles, e retornemos para uma das terras da Cristandade.’
Disse Walter: ‘Eu não estou inteiramente certo de que essa seja a melhor das duas opções, embora, verdadeiramente, tu pareças pensar assim. Mas conta-me agora, como é o Deus deles, para que ele devam oferecer recém-chegados a ele?’
‘O Deus deles é uma mulher,’ ela disse, ‘e a Mãe da nação e tribos deles (ou assim eles consideram) de antes dos dias quando eles tinham chefe e Senhores de batalha.’
[184]‘Isso será há muito tempo,’ ele disse; ‘então como ela pode estar viva agora?’
Disse a Donzela: ‘Sem dúvida aquela mulher de outrora está morta há muitos e muitos anos; mas constantemente eles tomam para si uma nova mulher, uma após a outra, que pode apresentar-se-lhes, para ficar no lugar da Mãe Antiga. E, para te contar a verdade mesma diretamente, aquela que jaz morta no Salão Colunado era mesma a última delas; e agora, se ele soubessem disso, eles carecem de um Deus. Isso nós deveremos contar-lhes.’
‘Sim, sim!’ Disse Walter, ‘uma considerável boa vinda nós deveremos ter deles então, se nós chegarmos entre eles com nossas mãos vermelhas com o sangue do Deus deles.’
Ela sorriu para ele e disse: ‘Se eu chegar entre eles com notícias de que eu a matei, e eles crerem nisso, sem dúvida eles deverão fazer-me Senhora e Deusa no lugar dela.’
‘Este é um mundo estranho,’ disse Walter; ‘mas se assim eles o fizerem, como isso deverão ajudar-nos a alcançar as pessoas do mundo, e o povo da Santa Igreja?’
Ela riu abertamente, tão alegre tornou-se, agora que sabia que a vida dele ainda devia ser uma parte da dela. ‘Amado’, ela [185]disse, ‘agora eu vejo que tu desejas completamente o que eu desejo; contudo, em qualquer caso, permanecer com eles seria viver e não morrer, até tu compreendeste agora mesmo. Mas, verdadeiramente, eles não impedirão nossa partida se eles me considerarem o Deus deles; eles não procuram isto, não desejam isto, que o Deus deles deva habitar com eles diariamente. Não tenhas medo.’ Em seguida, ela riu novamente e disse: ‘Que! Tu olhas para mim e consideras-me ser apenas uma triste imagem de uma deusa; e eu com meu escasso casaco e braços e pés nus! Mas aguarda! Eu sei bem como me arrumar quando o tempo chegar. Tu deverás ver! E agora, meu Mestre, não seria apropriado que nós tomemos a estrada?’
Então eles levantaram-se, e encontraram um vau no rio que apanhou a Donzela apenas até o joelho. Assim eles subiram ao relvado das encostas onde havia apenas poucas árvores; dessa forma eles prosseguiram na direção da região de colinas.
Finalmente eles chegaram aos pés das montanhas mesmas, e nos vazios entre os suportes delas cresciam aveleiras e árvores de baga, e o relvado ao redor delas era igualmente espesso e muito florido. Lá eles permaneceram e jantaram, visto que Walter atirara em uma lebre pelo caminho, e [186]encontraram uma fonte borbulhante sob uma pedra cinzenta na esquina do bosquete, onde agora os pássaros estavam cantando o seu melhor.
Quando eles comeram e descansaram um pouco, a Donzela ficou de pé e disse: ‘Agora deve a Rainha arrumar-se, e parecer-se como uma deusa mesma.’
Então ela começou imediatamente a trabalhar, enquanto Walter olhava. Ela fez uma coroa de madressilvas para a cabeça onde as rosas eras as mais belas; e com as flores misturadas do verão ela engrinaldou a cintura, e deixou a grinalda formada por elas pender abaixo dos joelhos; e os nós das flores ela arrumou firmes nas bordas de seu casaco, e arrumou-os como braceletes em torno de seus braços, e como tornozeleiras e sandálias para seus pés. Então ela colocou uma guirlanda em volta da cabeça de Walter e, em seguida, ficou de pé a pouca distância dele; colocou os pés juntos, ergueu os braços, e disse: ‘Oh agora! Não sou eu como a Mãe do Verão como se eu estivesse envolta em seda e ouro? E assim mesmo deverei eu ser considerada pelo povo do Urso. Agora vem, tu deverás ver como tudo deverá ficar bem.’
Ela riu alegremente; mas ele escassamente pôde rir por piedade de seu amor. Em seguida, eles partiram novamente, e começaram a escalar as colinas, [187]e as horas consumiram-se enquanto eles caminhavam em doce conversa; até que finalmente Walter olhou para a Donzela, e sorriu para ela, e disse: ‘Uma coisa eu te diria, amável amiga, a saber: estivesse tu envolta em seda e ouro, teu traje imponente bem poderia sofrer umas poucas máculas, ou aqui e ali um buraco talvez; mas imponente ainda seria quando o povo do Urso devesse vir diante de ti. Mas quanto a esse arranjo florido de ti, em poucas horas ele deverá ter desaparecido e ser nada. Não, mesmo agora, enquanto eu olho para ti, a ulmeira que pende de teu cinto tornou-se amorfa e debruada; e as eufrásias florescentes, que são como uma bainha de teu pequeno casaco branco, já se esqueceram de como ser brilhante e azul. Que dizes tu então?’
Ela riu diante dessa informação, e permaneceu parada, e olhou para trás sobre o ombro, enquanto os dedos dela lidavam com as flores em torno de seu lado como um pássaro alisando suas penas. Então ela disse: “É verdadeiramente como tu dizes? Olha novamente!”
Então ele olhou, e maravilhou-se; pois oh! Sob seus olhos os pináculos da ulmeira tornaram-se frescos e claros novamente, as eufrásias brilharam uma vez mais sobre a brancura das pernas dela; as rosas de madressilva [188]abriram-se, e todos ficaram tão frescos e brilhantes como se ainda estivessem crescendo em suas próprias raízes.
Ele maravilhou-se, e até ficou um pouco horrorizado; mas ela disse: ‘Querido amigo, não te inquietes! Eu não te contei que sou sábia em conhecimento oculto? Mas minha sabedoria não deverá mais ser qualquer infortúnio para homem algum. E novamente, esta minha sabedoria, como eu contei-te outrora, deverá acabar no dia no qual eu ter feito todos felizes. E é tu que deverá manejar tudo, meu Mestre. Contudo, minha sabedoria precisa durar por uma pequena temporada, ainda. Prossigamos, então, ousada e alegremente.’
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.182-188. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/182/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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