[145]Os Vril-ya, estando excluídos de toda visão dos corpos celestes, e não tendo nenhuma outra diferença entre noite e dia do que aquela que eles consideram conveniente para fazer para si próprios, - certamente não chegam às suas divisões de tempo pelo mesmo processo que nós chegamos. Mas eu considerei-as fáceis, pelo auxílio de meu relógio, o qual eu afortunadamente tinha perto de mim, para computar o tempo deles com grande exatidão. Eu reservo para um trabalho futuro sobre a ciência e literatura dos Vril-ya, deva eu viver para o completar, todos os detalhes quando à maneira pela qual eles chegam às suas rotações de tempo; e contenho-me aqui em dizer que, na questão da duração, o ano deles difere ligeiramente do nosso, mas que as divisões do tempo não são em hipótese alguma as mesmas. O dia deles (incluindo o que nós chamaríamos de noite) consiste em vinte horas de [146]nosso tempo, em vez de vinte e quatro horas, e é claro, o ano dele compreende o aumento correspondente no número de dias pelo qual ele é sumarizado. Eles subdividem as vinte horas do dia desta maneira – oito horas,1 chamadas de “Horas Silentes,” para repouso; oito horas, chamadas de “Tempo Diligente,” para as carreiras e ocupações da vida; e quatro horas, chamadas de “Tempo Ocioso” (com o qual, eu posso descrever, o dia deles termina), atribuído a festividades, esporte, recreação, ou conversa familiar, de acordo com seus vários gostos ou inclinações. Mas de verdade, fora de casa não há noite. Eles mantêm, igualmente nas ruas e na região circundante, até os limites de seu território, o mesmo grau de luz em todas as horas. Somente, dentro de casa, eles baixam-na a um crepúsculo suave durante as Horas Silentes. Eles têm um grande horror à escuridão perfeita, e as luzes deles nunca são inteiramente extintas. Em ocasiões de festividade eles continuam com a duração da luz total, mas igualmente tomam nota da distinção entre noite e [147]dia através de meios mecânicos, os quais respondem ao propósito de nossos relógios e cronômetros. Eles são muito afeiçoados à música; e é através da música que esses cronômetros chegam à principal divisão de tempo. Em cada uma de suas horas, durante o dia deles, os sons vindo de todos os relógios em seus prédios públicos e capturado, por assim dizer, por aqueles das casas ou aldeias espalhados em meio às paisagens no interior da cidade, têm um efeito singularmente doce, e contudo singularmente solene. Mas durante as Horas Silentes esses sons são suavizados como a serem fracamente ouvidos por um ouvido alerta. Eles não possuem mudança de temporadas e, ao menos no território desta tribo, a atmosfera parece ser muito uniforme, quente como aquela de um verão italiano, e úmida em vez de seca; na manhã comumente muito parada, mas às vezes invadida por fortes rajadas de vento das rochas que constituem as fronteiras de seu domínio. Mas o tempo é o mesmo para eles, [seja] para semeadura ou colheita, como nas Ilhas Douradas dos antigos poetas. Ao mesmo tempo você vê plantas mais jovens em folha ou broto, as mais velhas em espiga ou fruto. Todas as plantas frutíferas, contudo, após frutificarem, ou [148]caem ou mudam a cor de suas folhas. Mas o que me interessou mais na estima das divisões de tempo deles foi a determinação da duração média de vida entre eles. Eu descobri, em uma investigação de um minuto, que ela excedia muito consideravelmente o limite atribuído a nós no mundo de cima. O que setenta anos eram para nós, cem anos eram para eles. Nem é essa a única vantagem que eles têm sobre nós em longevidade, pois, assim como pouco entre nós alcançam a idade dos setenta, assim pelo contrário, poucos entre eles morrem antes da idade dos cem; e eles desfrutam de um grau geral de saúde e vigor que torna a vida mesma benção mesmo no mínimo [detalhe]. Várias causas contribuem para esse resultado: a ausência de todos os estimulantes alcoólicos; temperança na comida; mais especificamente, talvez, uma serenidade de mente não perturbada por ocupações ansiosas e paixões ardentes. Eles não são atormentados por nossa avareza ou nossa ambição; eles parecem perfeitamente indiferentes até ao desejo de fama; eles são capazes de grandes afeição, mas o amor deles mostra-se em uma complacência tenra e alegre, e, enquanto formando sua felicidade, parece raramente, se alguma vez, constituir sua aflição. [149]Como é certo que a Gy somente se case onde ela mesma fixe sua escolha, e como aqui, não mesmo do que no solo de cima, é da mulher que a felicidade do lar depende; assim a Gy, tendo escolhido entre todos os outros o companheiro que ela prefere, é clemente com as faltas dele, consulta seus humores, e faz seu melhor para assegurar seu afeto. É claro, a morte de uma [pessoa] amada é com eles, assim como para nós, a causa de tristeza; mas não somente é a morte com eles muito mais rara, antes daquela idade na qual ela esse torna uma libertação, mas, quando ela ocorre, o sobrevivente consola-se muito mais do que, eu temo, a generalidade de nós o faz, na certeza da reunião em outra e ainda mais feliz vida.
Todas essas causas, então, concorrem para sua longevidade saudável e agradável, embora, sem dúvida, também muito precisa ser devida à organização hereditária. De acordo com esses registros, porém, naqueles estados iniciais da sociedade deles, quando eles viviam em comunidades semelhantes às nossas, agitados por competição feroz, as vidas deles eram consideravelmente mais curtas, e as doenças mais numerosas e graves. Também eles mesmos dizem que a duração da vida aumentou, e ainda [150]aumenta, desde a descoberta das propriedades medicinais e revigorantes do vril por eles, aplicado para propósitos medicinais. Eles possuem poucos praticantes profissionais e regulares de medicina, e esses são principalmente Gy-ei, quem, especialmente se viúvas e sem filhos, encontram grande alegria na arte da cura, e mesmo empreendem operações cirúrgicas naqueles casos requeridos por acidente, ou, mais raramente, por doença.
Eles têm suas diversões e entretenimentos, e, durante o Tempo Ocioso de seu dia, eles são acostumados a se reunir em grandes números para aqueles esportes alados no ar que eu já descrevi. Eles também possuem salões públicos para música, e até teatros, nós quais são representadas peças que me pareceram assemelhar-se às peças dos chineses – dramas que retrocedem a tempos distantes para seus eventos e personagens, nos quais todas as unidades clássicas são escandalosamente violadas, e o herói, em uma cena é uma criança, na próxima é um homem velho, e assim por diante. Essas peças frequentemente são de composição antiga, e as histórias delas encenadas em tempos remotos. No todo, elas pareciam ser muito maçantes, [151]mas foram aliviadas por surpreendentes invenções mecânicas, e um tipo geral de humor farsesco, e destacadas passagens de grande vigor e poder expressas em linguagem altamente poética, mas um pouco sobrecarregada por metáfora e tropo. Bem, ela pareceram-me muito com o que as peças de Shakespeare pareciam a um parisiense no tempo de Louis XV, ou talvez a um inglês no reino de Charles II.
A audiência, da qual Gy-ei constituíam a porção principal, parecia apreciar grandemente a representação desses dramas, o que, para uma tão sedada e majestosa raça de mulheres, surpreendeu-me, até que eu observei que todos os atores estavam sob a idade da adolescência, e conjecturei que as mães e irmãs vinham para contentar seus filhos e irmãos.
Eu disse que esses dramas são de grande antiguidade. Nenhuma nova peça, de fato, nenhum trabalho imaginativo suficientemente importante para sobreviver a seu dia imediato, parece ter sido composto por várias gerações. De fato, embora não haja falta de novas publicações, e eles tenham até o que pode ser chamado de jornais, esses são principalmente [152]dedicados à ciência mecânica, relatórios de novas invenções, anúncios relativos a vários detalhes de negócios – para resumir, a assuntos práticos. Algumas vezes uma criança escreve um pequeno conto de aventura, ou uma jovem Gy desafoga suas esperanças ou temores amorosos em um poema; mas essas efusões são de pouco mérito, e são raramente lidas, exceto por crianças ou donzela Gy-ei. Os trabalhos mais interessantes de um temperamento puramente literário são aqueles de explorações de ou viagens a outras regiões deste mundo inferior, e são lidos com grande avidez pelas relações e amigos que eles deixaram para trás.
Eu não pude deixar de expressar a Aph-Lin minha surpresa de que uma comunidade na qual a ciência mecânica fizera um progresso tão maravilhoso, e na qual a civilização intelectual exibira a si mesma ao realizar esses objetos para a felicidade do povo, o que os filósofos políticos acima do solo, após eras de esforço, muito geralmente concordaram em considerar visões inatingíveis, deveria, mesmo assim, ficar tão inteiramente sem uma literatura contemporânea, a despeito da excelência à [153]qual a cultura trouxera a linguagem de uma vez rica e simples, vigorosa e musical.
Meu anfitrião respondeu - “Você não percebe que uma literatura tal como a que você pretende seria inteiramente incompatível com aquela perfeição de felicidade social ou politica que você honra-nos de pensar que nós alcançamos? Nós temos pelo menos, após séculos de luta, acomodado-nos em uma forma de governo com a qual nós estamos contentes, e na qual, como nós não permitimos diferenças de posição [social], e nem honras são concedidas aos administradores distinguindo-os dos outros, não há estímulo dado a ambição individual. Ninguém leria obras advogando teorias que envolvessem qualquer mudança social ou política, e portanto ninguém as escreve. Se de vez em quando um An sente-se dessatisfeito com nosso tranquilo modo de vida, ele não o ataca; ele vai embora. Dessa maneira toda aquela parte da literatura (e, a julgar pelos livros antigos em nossas bibliotecas públicas, ela uma vez foi uma grande parte), que se relaciona a teorias especulativas sobre a sociedade, torna-se completamente extinta. Novamente, antigamente era uma vasta questão escrever sobre os atributos e a essência do [154]Todo-Bom, e os argumentos a favor e contra um estado futuro; mas agora todos nós reconhecemos dois fatos, que há um Ser Divino, e que há um estado futuro, e todos nós acreditamos igualmente que [mesmo] se nós escrevêssemos com nosso dedos até os ossos, nós não poderíamos lançar qualquer luz sobre a natureza e condições desse estado futuro, ou acelerar nossas apreensões dos atributos e da essência daquele Ser Divino. Dessa maneira outra parte da literatura também se tornou extinta, felizmente para nossa raça; pois nós tempos quando tanto foi escrito sobre assuntos que ninguém poderia determinar, as pessoas pareciam viver em estado perpétuo de briga e disputa. Assim também, uma parte vasta de nossa literatura antiga consiste em registro históricos de guerras e revoluções durante os tempos quando os Ana viviam em sociedades grandes e turbulentas, cada um buscando engrandecimento às expensas do outro. Você vê o nosso sereno modo de vida agora; assim tem sido por eras. Nós não temos eventos a registrar em crônica. O que mais pode ser dito sobre nós do que ‘eles nasceram, eles foram felizes, eles morreram?’ Aproximando-se daquela parte da literatura que está mais sobre o controle da imaginação, tal como [155]a que chamamos de Glaubsila, ou coloquialmente ‘Glaubs,’ e você chama de poesia, as razões para seu declínio entre são abundantemente óbvias.”
“Nós encontramos, ao nos referir às grandes obras-primas no departamento de literatura que nós todos ainda lemos com prazer, mas das quais nenhum de nós toleraria imitações, porque elas consistem no retrato de paixões que nós não mais experienciamos – ambição, vingança, amor profano, a ânsia por renome guerreiro, e semelhantes. Os antigos poetas viveram em uma atmosfera impregnada por essas paixões, e sentiram verdadeiramente o que eles expressavam brilhantemente. Ninguém pode expressar semelhantes paixões agora, pois ninguém pode senti-las, ou encontrar qualquer simpatia em seus leitores se ele o fizer. Novamente, a poesia antiga tem uma clemência principal em sua dissecação daqueles complexos mistérios do carácter humano, os quais conduzem a vícios anormais e crimes, ou levam a virtudes notáveis e extraordinárias. Mas nossa sociedade, tendo livrado-se de tentações a quaisquer vícios e crimes proeminentes, necessariamente tornou a media moral tão igual que não há virtudes salientes. Sem sua antiga comida de fortes paixões, [156]vastos crimes, excelências heroicas, a poesia é portanto, se não atualmente faminta até a morte, reduzida a uma dieta muito escassa. Há ainda a poesia de descrição – descrição de rochas, e árvores, e águas, e da vida doméstica comum; e nossas jovens Gy-ei entrelaçam muito desse tipo insípido de poesia em seus versos de amor.”
“Semelhante poesia,” eu disse, “certamente poderia ser tornada muito charmosa; e nós temos críticos entre nós que a consideram uma tipo mais elevado do que aquela que retrata os crimes, ou analisas as paixões, do homem. Em todos os eventos, a poesia do tipo insípido que você mencionou é uma poesia que hoje em dia merece mais leitores do que qualquer outra em meio às pessoas que deixei acima do solo.”
“Possivelmente; mas então eu suponho que os escritores sofram muito com a linguagem que eles empregam, e dediquem eles mesmos à cultura e ao polimento das palavras e dos ritmos como uma arte?”
“Certamente eles fazem: todos os grandes poetas precisam fazer isso. Embora o dom da poesia possa ser inato, o dom requer tanto cuidado para o tornar disponível quanto um bloco de mármore para ser tornado em uma de suas máquinas.”
[157]“E sem dúvida seus poetas têm algum incentivo para conceder todas essas dores a semelhantes belezas verbais?”
“Bem, eu presumo que o instinto deles para a poesia fá-los-ia cantar como um pássaro faz; mas cultivar a poesia em beleza verbal ou artificial, provavelmente necessita de um incentivo do exterior, e nossos poetas encontram-no no amor pela fama – talvez, de vez em quando, no desejo por dinheiro.”
“Precisamente por isso. Mas em nossa sociedade nós não vinculamos fama a nada que o homem, naquele momento de sua duração que é chamado de ‘vida,’ possa realizar. Nós logo deveríamos perder aquela igualdade que constitui a essência feliz de nossa comunidade se nós selecionássemos qualquer indivíduo para elogio preeminente: elogio preeminente conferiria poder preeminente, e no momento em que fosse dado, paixões malignas, agora dormentes, despertariam; outros homens imediatamente cobiçariam o prêmio, então surgiria inveja, e com inveja ódio, e com ódio calúnia e perseguição. Nossa história conta-nos que a maioria dos poetas e dos escritores que, nos tempos antigos, foram [158]favorecidos, também foram assaltados pela maior vituperação, e até, no todo, tornaram-se muito infelizes, parcialmente pelos ataques de rivais invejosos, parcialmente pela constituição mental doente que uma adquiria sensitividade ao elogio e à censura tende a engendrar. Quanto ao estímulo ao desejo; em primeiro lugar, nenhum homem em nossa comunidade conhece o aguilhão da pobreza; e em segundo lugar, se ele conhecesse, quase qualquer ocupação seria mais lucrativa do que escrever.”
“Nossas bibliotecas contêm todos os livros do passado que o tempo preservou; aqueles livros, pelas razões expostas acima, são infinitamente melhores do que os escritos hoje em dia, e eles estão abertos a todos para os ler sem custo. Nós não somos semelhantes tolos para pagar por livros inferiores quando nós podemos ler livros superiores gratuitamente.”
“Conosco, novidade tem uma atração; e um livro novo, se ruim, é lido quando um livro antigo, embora bom, é negligenciado.”
“Novidade, para estados bárbaros de sociedade lutando em desespero por algo melhor, sem dúvida tem uma atração, negada a nós, que não vemos [159]nada a ganhar com novidades; mas, afinal, é observado por um de nossos grandes autores há quatro mil anos, que ‘ele que estuda livros antigos sempre encontrara neles algo novo, e ele que lê livros novos, sempre encontrará neles algo antigo.’ Mas para retornar à questão que você levantou, não tem havido entre nós estímulo a trabalho meticuloso, seja por desejo de fama ou em pressão de necessidade, tal como a ter o temperamento poético, sem dúvida, desafogado em canção, como você diz que pássaros cantam; mas por falta de cultura elaborada ele falha [em ter] uma audiência, e, falhando [em ter] uma audiência, morre, de si mesmo, em meio aos passatempos ordinários da vida.”
“Mas como é que esses desencorajamentos ao cultivo da literatura não operam contra aquele da ciência?”
“Sua questão maravilha-me. A causa da ciência é o amor à verdade além de toda consideração de fama, e a ciência conosco também é dedicada quase que unicamente a usos práticos, essenciais a nossa conservação social e aos confortos de nossa vida diária. Nenhuma fama é requerida pelo inventor, e nenhuma é dada a ele; ele desfruta de uma ocupação [160]conveniente a seus gostos, e sem necessidade do desgaste e romper das paixões. O homem precisa ter exercício para sua mente assim como para seu corpo; e exercício contínuo, em vez de violento, é o melhor para ambos. Nossos mais engenhosos cultivadores de ciência são, como uma regra geral, os de vida mais longa e mais livres de doença. A pintura é um entretenimento para muitos, mas a arte não é o que era nos tempos antigos, quando os grandes pintores em várias comunidades competiam um com o outro pelo prêmio de uma coroa dourada, a qual lhes dava uma posição social igual aquela dos reis sob os quais eles viviam. Você sem dúvida terá observado em nosso departamento arqueológico quão superiores em questão de arte as pinturas eram há vários milhares de anos. Talvez seja porque a música é, na realidade, mas aliada da ciência do que é a poesia, que, de todas as artes agradáveis, a música é aquela que mais floresce entre nós. Por outro lado, mesmo na música a ausência de estímulo no elogio ou fama serviu para prevenir qualquer grande superioridade de um indivíduo sobre outro; e nós preferencialmente nos notabilizamos em música coral, com o auxílio de nossos vastos instrumentos mecânicos, no qual nós fazemos grande [161]uso da ação de água,2 do que como artistas sozinhos. Nós escassamente temos tido qualquer compositor original por algumas eras. Nossas árias favoritas são muito antigas em substância, mas admitiram muitas variações complicadas por músicos inferiores, embora engenhosos.”
“Não há sociedades politicas entre os Ana que sejam animadas por aquelas paixões, subjugados por aqueles crimes, e admitindo aquelas disparidades em condição, em intelecto, e em moralidade, as quais o estado de sua tribo, ou de fato dos Vril-ya em geral, deixou para trás em seu progresso à perfeição? Se sim, em meio a essas sociedades talvez a Poesia e suas artes irmãs continuem a ser honradas e fazer progressos?”
“Há semelhantes sociedades em regiões remotas, mas nós não as admitimos no interior dos limites das comunidades civilizadas; nós escassamente mesmo damos o nome de Ana a elas, e certamente não o de Vril-ya. Eles são selvagens, vivendo principalmente naquele [162]estágio inferior de ser, Koom-Posh, tendendo necessariamente a sua própria dissolução em Glek-Nas. Sua existência miserável é passada em perpétua disputa e perpétua mudança. Quando eles não lutam com seus vizinhos, eles lutam entre si próprios. Eles estão divididos em seções, que abusam, pilham e algumas vezes assassinam um ao outro, e sobre os mais frívolos pontos de diferença que seriam inimagináveis para nós, se nós não tivéssemos lido história, e visto que nós também passamos através do mesmo estado primitivo de ignorância e barbarismo. Qualquer bagatela é suficiente para os fazer brigar. Eles pretendem ser todos iguais, e quanto mais eles esforçam-se para o ser, removendo todas as distinções e começando de novo, mas gritantes e intoleráveis as disparidades se tornam, porque nada nas afeições e associações hereditárias é deixado para atenuar a única distinção pura entre os muitos que nada têm e os poucos que têm muito. É claro, os muitos odeiam os poucos, mas sem os poucos eles não viveriam. Os muitos estão sempre atacando os poucos; algumas vezes eles exterminam os poucos; [163]mas assim que eles o tenham feito, novos poucos surgem dos muitos, e são mais difíceis de se lidar do que os antigos poucos. Pois onde as sociedades são grandes, a competição para ter alguma coisa é a febre predominante, há sempre muito perdedores e poucos ganhadores. Em resumo, eles são selvagens tateando seu caminho nas trevas em direção a algum vislumbre de luz, e demandariam nossa comiseração pelas enfermidades deles, se, como todos os selvagens, eles não provocassem sua própria destruição com sua arrogância e crueldade. Você pode imaginar que criaturas desse tipo, armadas somente com tais armas miseráveis como você pode ver em nosso museu de antiguidades, desajeitados tubos de ferro carregados com salitre, mais de uma vez ameaçaram com destruição uma tribo dos Vril-ya, a qual habita o mais perto deles, porque eles dizem que eles têm uma população de trinta milhões – e aquela tribo pode ter cinquenta mil – se a última não aceitasse as noções deles de Soe-See (ganhar dinheiro) sobre alguns princípios de comércio que eles têm a imprudência de chamar de uma ‘lei de civilização?’”
“Mas uma população de trinta milhões tem uma chance formidável contra cinquenta mil!”
[164]Meu anfitrião encarou-me surpreso. “Estranho,” disse ele “você não poderia ter-me ouvido dizer que essa ameaçou tribo pertence aos Vril-ya; e ela apenas espera que esses selvagens declararem guerra, para autorizar uma meia-dúzia de crianças a aniquilarem sua população inteira.”
Mediante essas palavras eu senti uma emoção de horror, reconhecendo muita mais afinidade com “os selvagens” do que eu tinha com os Vril-ya, e lembrando-me do que eu dissera em louvor das gloriosas instituições americanas, as quais Aph-Lin estigmatizou como Koom-Posh. Recuperando meu autodomínio, eu perguntei se havia modos de transporte pelos quais eu poderia, com segurança, visitar esse povo temerário e remoto.
“Você pode viajar com segurança, pela ação do vril, seja ao longo do solo ou em meio ao ar, por toda a variedade de comunidades das quais nós somos aliados e aparentados; mas eu não posso garantir sua segurança em nações bárbaras governadas por leis diferentes das nossas; nações, de fato, tão tenebrosas, que há em meio a eles um grande número que efetivamente vivem para roubar um do outro, e alguém não poderia com segurança, nas Horas [165]Silenciosas, até deixar as portar de sua própria casa aberta.”
Aqui nossa conversação foi interrompida pela entrada de Taë, quem veio para nos informar de que ele, tendo sido mandado a descobrir e destruir o enorme reptil que eu vira em minha primeira chegada, estivera de vigilância para isso desde sua visita a mim, e começara a suspeitar de que meus olhos enganaram-me, ou de que a criatura escapara através das cavidades no interior das rochas para as regiões selvagens nas quais habita sua raça de parentes, - quando dava evidências de seu paradeiro por uma grande devastação da relva que circundava os lagos. “E,” disse Taë, “eu tenho certeza de que no interior daquele lago ele agora está escondendo-se. Assim” (voltando-se para mim) “eu pensei que poderia entreter-te acompanhar-me para ver a maneira de destruir semelhantes visitantes desagradáveis.” Enquanto eu olhava para o rosto da jovem criança, e lembrava-me do tamanho enorme da criatura que ele propunha-se a exterminar, eu senti estremecimento com medo por ele, e talvez por mim mesmo, se eu o acompanhasse em uma semelhante caçada. Mas minha curiosidade para testemunhar os efeitos do alardeado vril, e minha [166]falta de vontade de rebaixar-me ao olhos de uma criança ao revelar apreensões de segurança pessoal, prevaleceram sobre meu primeiro impulso. Adequadamente, eu agradeci a Taë por sua consideração cortês por meu entretenimento, e declarei minha vontade de partir com ele em uma iniciativa tão divertida.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.145-166. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/145/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1Por uma questão de conveniência, eu adoto as palavras ‘horas’, ‘dias’, ‘anos’, etc, em qualquer referência geral às subdivisões do tempo entre os Vril-ya – aqueles termos, contudo, apenas vagamente correspondem a semelhantes subdivisões.
2Isso pode lembrar o estudante da invenção de Nero de uma máquina musical, pela qual a água era feita representar parte de uma orquestra, e na qual ele estava empregada quando a conspiração contra ele irrompeu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário