A Floresta além do Mundo - Capítulo XXVI Eles vão ao Povo dos Ursos

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[189]Eles prosseguiram e, antes que se passasse muito tempo, chegaram a uma região baixa, onde escassamente havia uma árvore, salvo arbustos espinhosos retorcidos e nodosos aqui e ali, mas nada mais alto do que o tojo. E aqui nessas terras superiores eles viram que as pastagens estavam muito queimadas com a seca, embora o verão não estivesse gasto. Agora eles prosseguiram para o sul, fazendo o necessário, em direção às montanhas, cujas picos eles viam de tempos em tempos erguendo-se em azul profundo sobre o cinza sem vida dos cristas das encostas. E assim eles prosseguiram, até que, finalmente, perto do pôr do sol, após eles terem escalado longamente sobre um alto declive, eles chegaram ao pico de lá e, olhando para baixo, contemplaram novas notícias.

Havia um amplo vale abaixo deles, mais verde do que os baixos que eles atravessaram, e ainda mais verde no meio, a partir [190]da água de um córrego, o qual, todo cercado de salgueiros, serpenteava aqui e ali na terra baixa. Ovelha e rês estava pastando de um lado para o outro do vale e, além deles, uma longa linha de fumaça estava subindo direto para os céus sem vento a partir do meio de um círculo de pequenas casas redondas construídas de turfa e com teto de junco. E além disso, em direção da esquina voltada para o oeste do vale, eles podiam ver o que parecia ser como um anel de julgamento de grandes pedras, embora não houvesse locais rochosos naquela terra. Em torno do fogo de cozinha em meio às casas, e aqui e ali em outros lugares, eles viram, de pé ou indo e vindo, grandes figuras de homens e mulheres, com crianças brincando entre eles.

Eles ficaram de pé e olharam fixamente para baixo por um minuto ou dois, e embora tudo estivesse em paz ali, contudo para Walter, pelo menos, parecia estranho e horrível. Ele falou suavemente, como se ele não desejasse ter sua voz alcançando aqueles homens, embora eles estivessem, verdadeiramente, fora do alcance audição de tudo salvo de um grito: ‘Então, são esses os filhos do Urso? O que nós devemos fazer agora?’

Ela disse: ‘Sim, do Urso eles são, embora haja outros povos deles muito longe para o norte e para o leste, perto das [191]bordas do mar. E quanto ao que nós devemos fazer, desçamos de uma vez, e pacificamente. De fato, por agora não haverá escapatória deles; pois oh você! Eles viram-nos.’

Verdadeiramente, uns três ou quatro dos homens viraram-se em direção ao declive onde os dois estavam de pé, e estavam saudando-os com vocês imensas, rudes, nas quais, seja o que for, parecia não haver nem raiva ou ameça. Assim a Donzela tomou Walter pela mão, e desse modo eles desceram quietamente, e o Povo do Urso, vendo-os, permaneceu todo junto, encarando-os e aguardando sua chegada. Walter via-os, que embora eles fossem muito altos e grandemente constituídos, eles não eram tão muito acima da estatura dos homens para serem prodígios. Os rapazes eram de cabelos longos, e de barba desgrenhada, e seus cabelos inteiramente vermelhos ou amarelo acastanhado; suas peles, onde a carne nua mostrava-se, era amorenada com o sol e o clima, mas a um belo e prazeroso tom de moreno, não como os negros. As moças eram graciosas e belas de se olhar; nem havia nada de feroz ou maligno de se olhar ou sobre os rapazes ou sobre as moças, mas de aspecto um pouco grave e solene eles eram. Vestidos estavam todos eles, mas um pouco escassamente, e em nada exceto peles de ovelhas ou veados.

[192]Para armas eles viram entre eles clavas, e lanças encabeçadas com osso ou sílex, e feios machados de grandes sílices montados em punhos de madeira; nem havia, até onde eles podiam ver, seja agora ou depois, qualquer arco entre eles. Mas alguns dos jovens pareciam ter fundas arrumadas em volta de seus ombros.

Agora quando eles chegaram a apenas três braças deles, a Donzela ergueu a voz, e falou clara e docemente: Saúdo-vos, povo dos Ursos! Nós chegamos em meio a vós, e isso para vosso bem e não para vosso dano; por isso nós gostaríamos de saber se somos bem-vindos.

Havia um velho homem quem se colocava de pé à frente, no centro, envolto em um manto de pele de veado trabalhado muito vistosamente, e com um anel de ouro em seu braço, e uma coroa de pedras azuis em sua cabeça, e ele falou:Pequenos sois vós, mas tão vistosos, que se vós fôsseis apenas maiores, nós deveríamos considerar que vós viésseis da Casa de Deus. Contudo, eu ouvi que, por mais poderosos que os Deuses sejam, e principalmente nosso Deus, eles são às vezes não tão grandemente constituídos quanto nós dos Ursos. Como isso pode ser, eu não sei. Mas, se vós não sois dos Deuses ou de seu parentesco, então sois meros estrangeiros; e nós não sabemos o que fazer com estrangeiros, salvo [193]encontrá-los em batalha, ou dá-los ao Deus, ou salvo fazê-los filhos dos Urso. Contudo novamente, vós podeis ser mensageiros de algum povo que nos vincularia em amizade e aliar-se-ia conosco: caso no qual vós deveis pelo menos partir em paz, e enquanto vós estiverdes conosco deverão ser nossos convidados em completo bom ânimo. Agora, portanto, nós ordenamo-vos declarar o assunto para nós.

Então falou a Donzela:Pai, seria fácil para nós declarar para que estamos aqui presentes. Mas, parece-me, vós que estais reunidos em volta do fogo aqui nesta noite são menos do que o total dos filhos do Urso.

Assim é, Donzela,disse o ancião, ‘que o Urso têm muito mais filhos.’

Isto então eu ordeno-vos,’ disse a Donzela,que vós envieis os símbolos de mão em mão e reunais vosso povo para vós e, quando eles estiverem reunidos no Anel de Julgamento, então nós deveremos expor nossa incumbência diante de vós: e, de acordo com isso, vós devereis lidar conosco.

Tu falaste bem,disse o ancião;e assim mesmo nós oferecemo-vos nós mesmos. Amanhã, antes do meio-dia, vós devereis colocar-se de pé no Anel de Julgamento neste Vale, e falar com os filhos do Urso.

[194]Após o que ele virou-se para seu próprio povo e gritou algo, do que os dois não conheciam o significado; e ali vieram a ele, uma após o outro, seis jovens, a cada um dos quais ele deu uma coisa de sua bolsa, mas o que era Walter não pôde ver, salvo que era pequeno e de pouca importância. Para cada um, também, ele falou uma palavra ou duas, e imediatamente eles começaram a correr, um após o outro, virando na direção da campina que ficava diante daquela através da qual a dupla chegou ao Vale, e logo ficaram fora da visão no crepúsculo.

Em seguida o ancião voltou-se novamente para Walter e a Donzela, e falou:Homem e mulher, seja o que for que vós podeis ser, ou, seja o que for que vos aguarda amanhã, vós sois convidados bem-vindos para nós; assim, nós convidamo-vos para vir comer e beber junto a nossa fogueira.

Então eles sentaram-se juntos em volta das brasas do fogo, e comeram coalhadas e queijos, e beberam leite em abundância; e, conforme a noite crescia sobre eles, eles animaram o fogo, para que eles pudessem tem luz. Esse povo selvagem conversava alegremente entre eles mesmos, com riso suficiente e gracejos amigáveis, mas para os recém-chegados eles eram de poucas palavras, contudo, como os dois julgavam, por nenhuma [195]inimizade que eles trouxeram-lhes. Mas isto considerou Walter, que os mais jovens, ambos homens e mulheres, pareceriam achar uma questão difícil manterem seus olhos longe deles; e pareciam, além disso, encarar-lhes com um pouco de dúvida, ou, podia ser, de medo.

Então, quando a noite estava consumindo-se um pouco, o ancião levantou-se e ordenou aos dois que viessem com ele, e guio-os a uma pequena casa ou tenda, a qual ficava no meio de todas, e um pouco maior do que as outras, e ele arrumou-os para saber que eles deveriam descansar ali naquela noite, e desejou-lhes dormir em paz e sem medo até a manhã. Assim eles entraram, e lá encontraram camas de urze e maruca. Eles deitaram-se docemente, como irmão e irmã, quando tinham beijado um ao outro. Mas eles notaram que quatro homens vigorosos assentavam-se fora da tenda, e através da porta, com suas armas ao lado deles, de modo que eles precisavam ver a si mesmos como cativos.

Então Walter não pode deter-se, mas falou:Doce e querida amiga eu vim um longo caminho desde o cais em Langton, e da visão do Anão, da Donzela e da Senhora; e por esse beijo com o qual eu beijei-te mesmo agora, e pela bondade de [196]teus olhos, isso foi digno de tempo e labuta árdua. Mas amanhã, parece-me, eu não deverei ir mais além neste mundo, embora minha jornada seja muito mais longa do que de Langton para cá. E agora possam Deus e Todos os Santos guardar-te em meio a este povo selvagem, quando eu dever ter-me ido de ti.

Ela riu baixa e docemente, e disse:Querido amigo, tu falas para mim assim pesarosamente para me incitar a te amar melhor? Então teu labor está perdido; pois não posso amar-te melhor do que eu agora faço e isto é com meu inteiro coração. Mas mantém uma boa coragem, eu ordeno-te; pois nós ainda não fomos separados, nem deveremos ser. Nem eu considero que nós devamos ser mortos aqui, ou amanhã; mas muitos anos a contar deste momento, após nós termos conhecido toda a doçura da vida. Entrementes, eu desejo-te boa noite, bom amigo!


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.189-196. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/189/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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