A Raça Vindoura - Capítulo XVIII

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[167]Conforme Taë e eu mesmo, saindo da cidade e deixando à esquerda a estrada principal que a ela levava, penetramos nos campos, a estranha e solene beleza da paisagem, iluminada por lâmpadas inúmeras até a borda do horizonte, fascinava meu olhos, e tornaram-me por algum tempo um ouvinte inatento à conversa de meu acompanhante.

Ao longo de nosso caminho várias operações de agricultura estavam sendo conduzidas por maquinaria, as formas da qual eram novas para mim e, em sua maioria, muito graciosas; pois entre essas pessoas a arte sendo tão cultivada pelo bem da mera utilidade, exibe-se ao adornar ou refinar as formas de objetos úteis. Metais preciosos e gemas são tão abundantes entre eles, que eles são esbanjadores com as coisas dedicadas aos propósitos do lugar mais comum; e o amor deles pela utilidade leva-os a [168]embelezarem suas ferramentas, e estimularem suas imaginações de uma maneira desconhecida a si mesmos.

Em todo serviço, seja dentro ou fora de casa, eles fazem grande uso de figuras autômatas, as quais são tão engenhosas, e tão flexíveis às operações de vril, que elas realmente parecem dotadas de razão. É escassamente possível distinguir as figuras que eu contemplava, aparentemente guiando ou superintendendo os rápidos movimentos dos vastos motores, das formas humanas dotadas de pensamento.

Em graus, conforme nós continuávamos a caminhar, minha atenção tornou-se desperta pelas observações animadas e perspicazes de meu acompanhante. A inteligência das crianças entre os membros desta raça é maravilhosamente precoce, talvez por causa do hábito de ter confiado a elas, em uma idade tão inicial, as fadigas e responsabilidades da meia idade. De fato, ao conversar com Taë, eu senti como se estivesse falando com algum homem superior ou observador de meus próprios anos. Eu perguntei-lhe se ele poderia formar alguma estimativa do número de comunidades no qual a raça dos Vril-ya está subdividida.

Não exatamente,” ele disse, “porque elas multiplicam-se, é claro, a cada ano, conforme o excesso de cada [169]comunidade é emigrado. Mas eu ouvi meu pai dizer que, de acordo com o último relatório, havia um milhão e meio de comunidades falantes de nossa língua, e adotando nossas instituições e formas de vida e governo; mas, eu acredito, com algumas diferenças, sobre as quais você faria melhor de perguntar a Zee. Ela sabe mais do que a maioria dos Ana sabe. Um An importa-se menos com coisas que não lhe dizem respeito do uma Gy; as Gy-ei são criaturas inquisitivas.”

Cada comunidade restringe a si mesma ao mesmo número de famílias ou quantidade de população que vocês?”

Não; algumas têm populações muito menores, algumas maiores – variando de acordo com a extensão da região da qual eles apropriam-se, ou com o grau de excelência ao qual eles trouxeram o maquinário deles. Cada comunidade estabelece o seu próprio limite de acordo com as circunstâncias, sempre tomando cuidado para que nunca deva surgir qualquer classe de pobres pela pressão da população sobre os poderes produtivos do domínio; e que nenhum estado deva ser tão grande para uma governo assemelhando-se àquele de uma única bem-ordenada família. Eu imagino [170]que nenhuma comunidade Vril exceda trinta mil casas. Mas, como uma regra, quão menor a comunidade, desde que haja mãos suficientes para fazer justiça às capacidades do território que ela ocupa, mais rico cada indivíduo é, e maior a soma contribuída para o tesouro geral, - acima de tudo, o mais feliz e mais tranquilo é a totalidade do corpo político, e mais perfeitos são os produtos de sua indústria. O estado que todas as tribos dos Vril-ya reconhecem ser o mais elevado em civilização, e o qual a força do vril trouxe ao seu mais completo desenvolvimento é, talvez, o menor. Ele limita-se a quatro mil famílias; mas cada polegada de seu território é cultivada à perfeição máxima de terreno de jardim; sua maquinaria ultrapassa aquela de todas as outras tribos, não há produto de sua indústria que não seja procurado, a preços extraordinários, por comunidades de nossa raça. Todas as tribos fazem desse estado o seu modelo, considerando que nós deveríamos alcançar o mais elevado estado de civilização permitido aos mortais se nós pudéssemos unir o maior grau de felicidade ao maior grau de realização [171]intelectual; e é claro que, quão menor a sociedade, menos difícil isso será. A nossa é muito grande para isso.”

Essa resposta deixou-me pensando. Eu lembrei-me daquele pequeno estado de Atenas, com apenas vinte mil cidadãos livres, e o qual, em sua época, nossas mais poderosas nações consideram como o guia e modelo supremos em todos os departamentos do intelecto. Mas então Atenas permitiu rivalidade feroz e mudança perpétua, e [isso] certamente não foi feliz. Erguendo-me do devaneio no qual essas reflexões submergiram-me, eu trouxe de volta nossa conversa aos assuntos conectados à emigração.

Mas,” disse eu, “quando, eu suponho anualmente, um certo número entre vocês concorda em sair de casa e encontrar uma nova comunidade em outro lugar, eles necessariamente precisam ser muito poucos, e escassamente eficientes, mesmo com a ajuda das máquinas que eles levam com eles, para limpar o solo, e construir cidades, e formar um estado civilizado com os confortos e luxos do qual eles foram criados.

Você engana-se. Todas as tribos dos Vril-ya estão em constante comunicação umas com as outras, e estabelece-se entre si mesmas, a cada ano, que [172]proporção unir-se-á aos emigrantes de outra, de modo a formar um estado de tamanho suficiente; e o local para emigração é acordado pelo menos um ano antes, e os pioneiros enviados de cada estado para nivelar rochas, e represar água, e construir casas; de modo que, quando finalmente os emigrantes partem, eles encontram uma cidade já construída, e uma região ao redor dela pelo menos parcialmente limpa. Nossa vida intrépida como crianças faz-nos tomar alegremente viajem e aventura. Eu pretendo emigrar quando de idade [suficiente].

Os emigrantes sempre selecionam lugares até então desabitados e estéreis?”

Até agora, geralmente, porque é nossa regra nunca destruir exceto onde necessário para nosso bem-estar. É claro, nós não podemos estabelecer-nos em terras já ocupadas pelos Vril-ya; e se nós tomássemos as terras de outras raças de Ana, nós precisaríamos destruir completamente os habitantes anteriores. Algumas vezes, nas circunstâncias atuais, nós tomamos uma região erma, e descobrimos que uma problemática, briguenta, raça de Ana, especialmente se sob a administração de Koom-Posh ou Glek-Nas, ressente-se de nossa proximidade, e provoca uma briga conosco. Então, é claro, como ameaçando [173]nosso bem-estar, nós a destruímos: não há como chegar a termos de paz com uma raça tão estúpida que está sempre mudando a forma de governo que a representa. Koom-Posh,disse a criança, enfaticamente, “é ruim o suficiente, ainda tem cérebros, embora nas costas de sua cabeça, e não é sem coração; mas em Glek-Nas o cérebro e coração das criaturas desparecem, e elas tornam-se todas mandíbulas, garras e barriga.”

Você expressa-se fortemente. Permita-me informar a você que eu mesmo, e eu estou orgulhoso de o dizer, sou um cidadão de um Koom-Posh.”

Eu não mais,” respondeu Taë, maravilho-me de ver você aqui tão longe de seu lar. Qual era a condição de sua comunidade nativa antes que ela se tornasse um Koom-Posh?

Um assentamento de emigrantes – como esses assentamentos que sua tribo envia adiante – mas tão diferente de seus assentamentos, que era dependente do estado do qual ele proveio. Ele livrou-se desse jugo e, coroado com glória eterna, tornou-se um Koom-Posh.

Glória eterna! Por quanto tempo o Koom-Posh perdurou?”

[174]“Aproximadamente 100 anos.”

A extensão da vida de um An – uma comunidade muito jovem. Em muito menos do que outros 100 anos seu Koom-Posh será um Gle-Nas.”

Não, os estados mais antigos no mundo do qual eu venho têm tanta fé em sua duração que todos eles estão dando forma às suas instituições de modo a se dissolverem na nossa, e seus mais pensativos políticos dizem que, quer eles queiram ou não, a tendência inevitável desses estados antigos é na direção da condição de Koom-Posh.”

Os estados antigos?”

Sim, os estados antigos.”

Com populações muito pequenas em proporção da área produtiva?”

Pelo contrário, com populações muito grandes em proporção a essa área.”

Eu entendo! Estados antigos de fato! - Tão antigo como a se tornarem babosos se eles não mandarem embora a população excedente como nós fazemos com a nossa – estados muito antigos! - Muito, muito antigos! Ora, Tish, você acha que é sábio para homens muito velhos tentarem virar de ponta-cabeça como jovens crianças fazem? E se você lhes perguntasse por que eles tentaram semelhantes palhaçadas, não deveria você rir [175]se eles dissessem que, ao imitarem crianças muito jovens, eles mesmos poderiam se tornar crianças muito jovens? A história antiga abunda com exemplos desse tipo muitos milhares de anos atrás – e em cada exemplo de um estado muito velho que brincou de Koom-Posh logo tombou em Glek-Nas. Nesse tempo, em horror de si mesmo ele implorou por um mestre, como um homem tão velho em sua senilidade implora por um enfermeiro. E, após uma sucessão, mais ou menos longa, de mestres ou enfermeiros, esse velho estado extinguiu-se da história. Um estado muito velho tentando a condição de Koom-Posh é como um homem muito velho que derruba a casa com a qual ele estava acostumado, mas ele exauriu tanto seu vigor com a derrubada, que tudo que ele pode fazer no caminho de reconstrução é improvisar uma decrépita cabana, na qual ele mesmo e seus sucessores choramingam: ‘Como o vento sopra! Como as paredes tremem!’

Meu querido Taë, eu arrumo todas as desculpas para seus prejuízos ignorantes, os quais todos os garotos de escola educados em um Koom-Possh poderiam facilmente contestar, embora eles não poderiam ser tão precocemente aprendidos em história antiga como você parece ser.

Eu aprendi! Nenhum pouco sobre isso. Mas pediria um [176]garoto de escola, educado em seu Koom-Posh, a seu tataravô ou tataravó para se erguerem sobre a cabeça dele ou dela com os pés para cima? E se os pobres parentes velhos hesitassem – diria, ‘O que você teme? Veja como eu faço isso!’

Taë, eu desprezo argumentar com uma criança da sua idade. Eu repito, eu faço concessões para o seu desejo daquela cultura a qual apenas um Koom-Posh pode conceder.

Eu, por minha vez,respondeu Taë, com um ar da suave mas elevada boa criação que caracteriza sua raça, “não somente faço concessões a você como não educado em meio aos Vril-ya, mas eu suplico-te para me conceder seu perdão por respeito insuficiente aos hábitos e às opiniões de um tão amável – Tish!”

Eu devia antes ter observado que eu era comumente chamado de Tish por meu anfitrião e sua família, como sendo um cortês e de fato um nome de animal de estimação, literalmente significando pequeno bárbaro; as crianças aplicam-no carinhosamente às espécies domesticadas de Sapos que eles mantêm em seus jardins.

Nós agora alcançáramos os bancos de areia de um lago, e aqui Taë parou para apontar para mim as devastações feitas nos campos bordejando-o. “O inimigo certamente [177]repousa nessas águas,” disse Taë. “Observe que cardumes estão abarrotados na margem. Mesmo os grandes peixes com os pequenos, que são suas presas habituais e que geralmente os evitam, todos esqueceram seus instintos na presença de um destruidor comum. Esse réptil certamente deve pertencer à classe dos Krek-a, os quais são mais devoradores do que qualquer outro, e dize-se estarem entre as poucas espécies sobreviventes dos mais terríveis habitantes do mundo de antes que os Ana fossem criados. O apetite de um Krek é insaciável – ele alimenta-se igualmente de vida vegetal e animal; mas para as criaturas velozes da espécie do alce ele é muito lento em seus movimento. Sua guloseima favorita é um An quando ele pode pegá-lo inesperadamente; e consequentemente os Ana destroem-no implacavelmente sempre ele entra em seu domínio. Eu ouvi que, quando nossos antepassados primeiros limparam esta região, esses monstros e outros como eles, abundavam e, o vril sendo então não descoberto, muitos de nossa raça foram devorados. Era impossível exterminá-los inteiramente até essa descoberta, a qual constitui o poder e sustenta a civilização de nossa raça. Mas, depois que os usos do [178]vril tornaram-se familiares para nós, todas as criaturas inimigas logo foram aniquiladas. Entretanto, uma vez por ano ou aproximadamente, uma dessas criaturas enormes vagueia a partir dos distritos incultos e selvagens fora do alcance e, no interior de minha memória, um se apoderou de uma jovem Gy que estava banhando-se neste mesmo lago. Estivesse ela em terra e armada com o bastão dela, ele não teria atrevido-se mesma a se mostrar; pois, como todas as criaturas selvagens, o réptil tem um instinto maravilhoso, o qual o avisa do portador do bastão de vril. Como eles ensina a seus jovens como o evitar, embora visto pela primeira vez, é um dos mistérios que você pode pedir a Zee para explicar, por eu não posso.1 Enquanto eu estiver de pé aqui, o monstro não se agitará em seu esconderijo; mas nós agora precisamos atrai-lo com uma isca.

Isso não será difícil?

De jeito nenhum. Sente-se acolá naquele rochedo (a aproximadamente uma centena de jardas do banco de areia), enquanto eu afasto-me para uma distância. Em um tempo curto o [179]réptil capturará a visão ou o cheiro de você e, percebendo que você não é um portador de vril, avançará para te devorar. Assim que ele esteja relativamente fora da água, ele se torna minha presa.

Você quer dizer para mim que eu estou para ser a isca para aquele horrível monstro que poderia engolir-me em suas mandíbulas em um segundo! Eu imploro para declinar.

A criança riu.Nada tema,ele disse; “apenas se sente parado.”

Em vez de obedecer ao seu comando, eu confinei-me, e estava prestes a me aproveitar bastante de meus calcanhares, quando Taë tocou-me levemente no ombro e, fixando seus olhos firmemente nos meus, eu fiquei enraizado no lugar. Todo o poder da vontade deixou-me. Submisso ao gesto do infante, eu segui-o ao rochedo que ele indicara, e sentei-me lá em silêncio. A maioria dos leitores viram alguma coisa dos efeitos da eletrobiologia, quer genuínos ou espúrios. Nenhum professor daquela arte duvidosa alguma vez fora capaz de influenciar o meu pensamento ou movimento, mas eu era uma mera máquina sob a vontade dessa terrível criança. Enquanto isso eles expandia suas asas, planava para cima, e a pousava em meio a um bosquete à borda de uma colina a alguma distância.

[180]Eu fiquei sozinho e, virando os olhos, com uma indescritível sensação de horror, para o lago, eu mantive-os fixado em sua água, compelido. Poderiam ser dez ou quinze minutos, para mim pareciam eras, antes que a superfície parada, cintilando sobre a luz de lâmpadas, começasse a ser agitada em direção do centro. Ao mesmo tempo, os cardumes próximos a margem indicavam a sua sensação da abordagem do inimigo, ao esparrinharem e saltarem e borbulharem em círculo. Eu pude detectar a fuga apressada deles aqui e ali, alguns até se lançando em terra. Um sulco grande, escuro e onduloso veio movendo ao longo da água, mais e mais perto, até que a imensa cabeça do réptil emergiu – suas mandíbulas eriçadas com presas, e seus olhos aborrecidos fixos avidamente no ponto onde eu sentava-se imóvel. E agora seus pés dianteiros estavam na praia, escamado em cada lado como em armadura, no centro mostrando sua pele onduladas de um aborrecido amarelo venenoso; e agora seu comprimento inteiro estava em terra, uma centena de pés ou mais da mandíbula à calda. Outro passo largo daqueles pés medonhos teriam trazido-o ao lugar onde eu sentava-me. Havia apenas um momento entre mim [181]e sua sombria forma de morte, quando, o que pareceu um clarão de relâmpago disparado através do ar, atingiu e, por um espaço de tempo mais breve do que aquele no qual um homem pode tomar alento, envolveu o monstro; e em seguida, conforme o clarão desaparecia, lá jazia diante de mim uma massa escurecida, carbonizada e fumegante, algo gigante, mas do qual até os contornos foram queimados, e rapidamente se desfaziam em poeira e cinzas. Eu ainda permaneci sentado, ainda sem voz, gelado com uma nova sensação de pavor: o que fora horror era agora temor.

Eu senti a mão da criança sobre minha cabeçao medo deixou-me – o feitiço estava quebrado – eu levantei-me. “Você viu que é fácil para os Vril-ya destruírem seus inimigos,” disse Taë; e em seguida, movendo-se em direção do banco de areia, ele contemplou os restos mortais fumegantes do monstro, e disse quietamente, “Eu destruí criaturas maiores, mas nenhuma com tanto prazer. Sim, isso é um Krek; quanto sofrimento ele deve ter infligido enquanto vivia!” Em seguida, ele pegou os pobres peixes que se arremessaram à terra, e restauro-os misericordiosamente ao seu elemento nativo.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.167-181. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/167/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1O réptil neste instinto apenas assemelha-se a nosso pássaros e animais selvagens, os quais não virão ao alcance de um homem armado com uma arma de fogo. Quando os cabos elétricos foram colocados pela primeira vez perdizes colidiram-se contra eles em seus voos, e caíram machucados. Nenhuma geração mais jovens de perdizes conhece um acidente similar.

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