[215]RECLAMANDO dessa maneira, ele adormeceu de puro cansaço e, quando acordou, era pleno dia, calmo e brilhante e sem nuvens, com o perfume da terra revigorada subindo aos céus, e pássaros contando docemente nos arbustos em volta dele. Pois o vale ao qual ele agora chegava era um lugar belo e adorável em meio às encostas de inclinação acentuada das montanhas, um paraíso da região selvagem, e nada salvo coisas prazerosas e doces haviam ali para ser vistas, agora que a manhã estava tão clara e ensolarada.
Ele levantou-se e olhou em volta de si, e viu onde, uma centena de jardas à distância, ficava um matagal de árvores pequenas, como o espinheiro e o sabugueiro e mostajeiro-branco, todas enroladas em volta com os caules flexíveis de lantanas. O bosque escondia uma curva de um córrego, o qual virava de um lado a outro em torno da mata, e entre ele [216]e Walter ficava a grama curta e espessa, e doce, e tudo coberto com flores. Ele disse a si mesmo que era precisamente em um tal lugar onde os anjos estavam guiando o Abençoado, no coral da grande igreja em Langton na Várzea. Mas oh! Conforme olhava, ele chorou em voz alta de alegria, pois, de um matagal na grama florida, saiu alguém semelhante a um anjo da dita imagem, envolta em branco e de pé descalço, doce de corpo, com olhos brilhantes e bochechas vermelhas; pois era a Donzela mesma. Então ele correu para ela, e ela esperou-o, estendendo mãos amáveis para ele, e sorrindo, enquanto ela chorava de alegria pelo encontro. Ele jogou-se sobre ela, e não se privou de beijá-la, as bochechas dela e a boca dela, e os braços dela e os joelhos dela, e onde quer que ela permitisse. Até que finalmente ela retrocedeu um pouco, rindo dele por amor, e disse: ‘Abstém-te agora, amigo, pois é suficiente por esta vez, e conta-me como tu tens sucedido.’
‘Mal, mal,’ disse ele.
‘O que te afliges?’ ela disse.
‘Fome,’ ele disse, ‘e saudade de ti’
‘Bem,’ ela disse, ‘a mim tu tens; há alguém mal saciado; toma minha mão, e nós cuidaremos do outro.’
[217]Assim ele tomou a mão dela, e segurá-la parecia-lhe doce além dos limites. Apenas ele olhou para cima, e viu uma pequena fumaça azul subindo ao ar de além do matagal; e ele riu, pois ele estava fraco de fome e disse: ‘Quem está cozinhando acolá?’
‘Tu deverás ver,’ ela disse. Após o que, ela guiou-o até o dito matagal e através dele, e oh! Um belo pequeno local coberto de grama, cheio de flores, entre os arbustos e a curva do riacho; e sobre o pequeno [local] arenoso de antes, pouco fora do relvado, ficava uma fogueira de galhos secos, e ao lado dela duas trutas deitadas, gordas e avermelhadas.
‘Aqui está o café da manhã,’ ela disse. Quando era hora de lavar a noite de mim agora mesmo, eu desci à margem do rio na ondulação rasa, e vi um banco de areia sob ela, onde a água reunia-se lá e aprofundava-se, que parecia conter peixe; e, considerando que eu procurava encontrar-te logo, eu tateei o banco de areia por eles, indo suavemente; e oh tu! ‘Ajuda-me agora, para que nós cozinhemo-los.’
Assim, eles assaram-nos sobre brasas vermelhas e começaram a comer bem, e beberam da água do rio a partir das [218]mãos vazias um do outro; e aquele banquete pareceu glorioso a eles, tamanha alegria acompanhava-o.
Mas, quando eles terminaram com a comida, Walter disse para a Donzela:
‘E como tu sabias que devias ver-me logo?’
Ela disse, olhando para ele melancolicamente: ‘Não houve necessidade de feitiçaria. Eu deitei não muito distante de ti na última noite, somente que eu ouvi tua voz e conheci-a.’
Disse ele, ‘Por que tu não vieste para mim, então, uma vez que tu ouviste-me lamentando-te?’
Ela lançou os olhos para baixo, e arrancou flores e grama, e disse: ‘Foi caro ouvir-te elogiando-me. Eu não sabia que era tão extremamente desejada, ou que tu atentaras tanto para meu corpo, e considerava-o tão querido.’
Então ela ruborizou intensamente, e disse: ‘Eu não sabia que qualquer coisa de mim tinha tanta beleza quanto tu lamentavas.’
E ela chorou de alegria. Então olhou para ele e sorriu, e disse: ‘Desejas tu ter a verdade mesma quanto a isso? Eu aproximei-me de ti, e permaneci ali oculta pelos arbustos e a noite. E, em meio a teu lamento, eu sabia que tu logo adormecerias e, em verdade, eu estaria mais desperta do que ti.’
[219]Então houve silêncio novamente; e ele não falou, mas olhou para ela timidamente; e ela disse, ruborizando-se ainda mais: ‘Além disso, eu preciso contar-te que eu temi ir a ti durante a noite escura, e meu coração tão desejante de ti.’
E ela pendeu a cabeça para baixo. Mas ele disse: ‘É assim que de fato tu temes-me? Então isto deixa-me com medo … medo da tua negativa. Pois eu estava para te suplicar, e dizer para ti: “Amada, nós agora passamos por muitos problemas; tomemos agora uma boa recompensa de uma vez só, e casemo-nos aqui, em meio a essa casa doce e agradável das montanhas, antes que nós prossigamos em nosso caminho, se de fato nós prosseguirmos em absoluto. Pois onde nós deveremos encontrar algum lugar mais doce ou feliz do que este?”’
Mas ela colocou-se de pé num salto, e permaneceu de pé tremendo diante dele, por causa do amor dela; e ela disse: ‘Amado, eu considerei que seria bom para nós irmos buscar a humanidade conforme eles vivem no mundo, e viver entre eles. E quanto a mim, eu te contarei o verdadeiro, a saber, que eu anseio por isso intensamente. Pois eu sinto-me assustada nas regiões selvagens, e como eu necessitasse de proteção contra a Senhora, embora ela esteja morta; e eu preciso [220]do conforto de muitas pessoas, e das multidões das cidades. Eu não consigo esquecê-la: foi apenas na última noite (eu suponho, conforme a madrugada esfriava) que sonhei que estava sob a mão dela, e ela estava despindo-me para a tortura; de modo que eu despertei arquejando e chorando. Eu suplico-te, não fiques com raiva de mim por te contar meus desejos; pois se tu não desejares ter isso assim, então aqui eu residirei contigo como tua companheira, e esforçar-me-ei para reunir coragem.’
Ele levantou-se e beijou a face dela, e disse: ‘Não, em verdade eu não tinha em mente habitar aqui para sempre; eu quis dizer apenas que nós deveríamos festejar um pouco aqui e, em seguida, partir. Verdadeiro é que, se temes a região selvagem, de alguma maneira eu temo a cidade.’
Ela empalideceu e disse: ‘Tu deve ter tua vontade, meu amigo, se isso precisa ser assim. Mas reconsidera! Nós ainda não estamos no final de nossa jornada, e pode haver muitas coisas e muito contenda para suportar, antes que nós possamos estar em paz e em bem-estar. Agora eu deverei contar-te … não contei antes? … que enquanto eu for uma donzela intocada, minha sabedoria, e algo de poder, reside comigo, e somente por enquanto. Portanto, eu suplico-te, vamos agora, lado a lado, para fora deste belo vale, mesmo como nós estamos, de modo que minha sabedoria e poder possam ajudar-te [221]na necessidade. Pois, meu amigo, eu não gostaria de que nossas vidas fossem breves, tanto de alegria como agora para chegou a elas.’
‘Sim, amada,’ ele disse, ‘vamos imediatamente então, e encurtemos o tempo que nos separa.’
‘Amor,’ ela disse, ‘tu deverás perdoar-me de uma vez por todas. Mas isto deve ser dito, que eu conheço um pouco das venturas que se estendem um pouco mais adiante de nós; em parte por minha sabedoria, em parte, o que eu aprendi desta terra com o povo selvagem enquanto tu jazias dormindo naquela manhã.’
Assim eles deixaram aquele lugar agradável pelo lado da água, e entraram no vale aberto, e seguiram em seus caminhos através da passagem; e logo ela tonou-se pedregosa novamente, conforme eles escalavam a inclinação que subia para fora do vale. E quando eles chegaram à borda da dita inclinação, eles tiveram um sinal da região aberta estendendo-se bela e alegre sob o brilho do sol e, meio a ela, diante das colinas azuis, as muralhas e torres de uma grande cidade.
Então disse a Donzela: ‘Oh, querido amigo, oh você! Não é aquela nossa morada que jaz acolá, e é tão bela? Não habitam nossos amigos lá, e nossa proteção contra criaturas rudes, e meras coisas más em formas astutas? Oh cidade, eu desejo-te saudações!’
[222]Mas Walter olhou para ela, e sorriu um pouco; e disse: ‘Eu rejubilo-me com tua alegria. Mas também há coisas malignas naquela cidade acolá, embora elas não sejam nem fadas nem demônios, ou ela não é como nenhuma cidade da qual eu tenho conhecimento. E em cada cidade inimigos cresceram contra nós sem rima ou razão, e a vida lá deverá ficar complicada para nós.’
‘Sim,’ disse ela; ‘mas na região selvagem, em meio aos demônios, o que devia ser feito por poder e valentia varonis? Lá tu terias de retroceder à astucia e à feitiçaria que eu roubara dos meus próprios inimigos. Mas, quando nós descermos acolá, então tua valentia deverá prevalecer em abrir caminho na complicação para nós. Ou, pelo menos, ela deverá deixar um conto de ti para trás, e eu deverei adorar-te.’
Ele sorriu e sua face iluminou-se: ‘A destreza corta o prado,’ respondeu ele, ‘e um homem é de pouco poder contra muitos. Mas eu prometo-te que não deverei ser indolente diante de ti.’
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.215-222. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/215/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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