A Floresta além do Mundo - Capítulo XXVIII O Novo Deus dos Ursos

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[201]Finalmente o ancião disse: ‘Minhas crianças, agora vós deveis vir comigo para o Anel de Julgamento de nosso povo, os Ursos dos Vales do Sul, e transmitir-lhes sua missão; e eu imploro-vos para terdes piedade de vossos próprios corpos, como eu tenho piedade deles; do teu especialmente, Donzela, uma criatura tão bela e brilhante tu és; pois assim é, que se vós lidardes conosco às escuras e lançando palavras à maneira de covardes, vós deveis perder a adoração e a glória de se irem embora em meio às chamas, um presente para o Deus e uma esperança para o povo, e deverão ser passados pelos cajados do povo, até que vós desmaieis e enfraqueçais em meio a eles, e então deveis vós ser jogados córrego abaixo na Extremidade do Vale, e uma barreira carregada de pedra jogada sobre vós, para que nós possamos daí em diante esquecer de vossa tolice.’

A Donzela agora olhou diretamente para os olhos dele, [202]e Walter considerou que o ancião encolhia diante dela; mas ela disse:Tu és grande é sábio, Oh grande homem dos Ursos, contudo, nada eu preciso aprender de ti. Conduze-nos em nosso caminho para o Local das Missões.

Então o ancião conduziu-os adiante para o Anel de Julgamento na extremidade oriental do Vale; e ele agora estava todo cheio de gente com aqueles homens imensos, armados segundo seu costume, e de pé, de modo que as pedras cinzas de lá mostravam-se apenas um pouco acima das cabeças deles. Mas no meio do dito Anel ficava uma grande pedra, moldada como uma cadeira, na qual se sentava um velho homem, de longos cabelos brancos e barba branca, e do outro lado dele ficava uma mulher de grandes membros envolta em equipamento de guerra, segurando em cada mão uma longa lança, e com uma faca de lâmina de sílex no cinto; e não havia outra mulher no Lugar de Reunião.

Então o ancião levou aqueles dois para dentro da parte central do Local de Encontro, e lá lhes ordenou subir em uma pedra ampla, de topo plano, seis pés acima do solo, exatamente diante do chefe ancião; e eles subiram nela através de uma escada grosseira, e lá colocaram-se diante daquele povo. Walter em sua vestimenta do mundo exterior, a qual fora bela o suficiente, de tecido carmesim e seda, e linho branco, mas agora estava manchada pela viagem [203]e gasta; e a Donzela, com nada sobre ela, salvo a bata na qual ela fugira da Casa Dourada da Floresta além do Mundo, enfeitada com flores murchas que ontem ela trabalhara em volta de si mesma. Não obstante, assim foi, que esses grandes homens olhavam para ela atentamente, e com um pouco de adoração.

Agora Walter, de acordo com a ordem dela, desceu aos seus próprios joelhos ao lado dela e, desembainhando a espada, segurou-a diante dela, como se para manter todos os intrusos à distância da Donzela. E houve silêncio no Local de Reunião, e todos os olhos fixaram-se naqueles dois.

Finalmente o ancião chefe levantou-se e falou:Vós homens, aqui chegam um homem e uma mulher, de onde nós não sabemos; visto que eles deram palavra a nosso povo, a quem primeiro os encontrara, que eles contariam sua missão para ninguém salvo o Lugar de Reunião do Povo; o que era sua obrigação fazer, se eles estivessem propensos a arriscá-lo. Pois, ou eles são estrangeiros sem uma missão aqui, salvo, pode ser, para nos iludir, caso no qual eles logo deverão morrer uma morte miserável; ou, eles chegaram em meio a nós para que nós possamos dá-los ao Deus com ponta de sílex e fogo; ou eles tem uma mensagem para nós de algum povo ou outro, sobre questão à qual pertence vida ou [204]morte. Agora vós deveis ouvir o que eles têm a dizer sobre si mesmos e sua viagem para cá. Mas, parece-me, deve ser a mulher que é a chefe e tem a palavra na boca dela; pois, oh vós! O homem ajoelha-se aos pés dela, como alguém que a serve e adora. Fala então, mulher, e que nossos guerreiros ouçam-te.

Então a Donzela ergueu a voz, e falou clara e agudamente, como para uma flauta do melhor dos menestréis: ‘A vós homens dos Filhos do Urso, eu perguntaria uma questão, e que o chefe que se senta diante de mim responda-a.’

O ancião acenou com a cabeça, e ela prosseguiu:Contai-me, Filhos do Urso, quanto tempo passou-se desde que vós vistes o Deus de sua adoração tornado manifesto no corpo de uma mulher!

Disse o ancião:Muitos invernos consumiram-se desde que o pai de meu pai era uma criança, e viu o Deus mesmo na forma corporal de uma mulher.

Então ela disse novamente:Rejubilaste-vos com a vinda dela, e rejubilaríeis uma vez mais se ela viesse em meio a vós?

Sim,disse o velho chefe,pois ela deu-nos presentes, e ensinou-nos sabedoria, e veio a nós em [205]uma forma não terrível, mas como uma jovem mulher tão graciosa como tu.

Então disse a Donzela:Agora, então, é o dia de vossa alegria chegar; pois o corpo antigo está morto, e eu sou o novo corpo de vosso Deus, vindo diante de vós para vosso bem-estar.

Em seguida caiu um grande silêncio no Local de Encontro, até que o ancião falou e disse:O que deverei eu dizer e viver? Pois, se tu fores verdadeiramente o Deus, e eu ameaçar-te, tu não me destruíras? Mas tu falaste uma grande palavra com uma doce boca, e tomaste o fardo do sangue em tuas mãos imaculadas; e se os Filhos do Urso forem feitos de tolos por leves mentiras, como deverão eles tirar a vergonha de si mesmos? Portanto eu digo, mostra-nos um sinal; e, se tu for o Deus, isso deverá ser fácil para ti? E se tu não o mostrar, então é tua falsidade manifesta, e tu deverás suportar o fatídico. Pois nós deveremos entregar-te nas mãos dessas mulheres aqui, quem deverão arremessar-te córrego abaixo aqui perto, após elas terem cansado a si mesmas com o chicotear de ti. Mas teu homem que se ajoelha a teus pés deverá ser dado ao verdadeiro Deus, e ele deverá ir a ele pela estrada do sílex e do fogo. Tu ouviste? Então dá-nos o sinal e o símbolo.

[206]Ela não mudou o semblante nem um pouco diante dessa palavra; mas os olhos dela ficaram os mais brilhantes, e a bochecha a mais fresca; e os pés dela moveram-se um pouco, como se eles tivessem ficado felizes antes de uma dança; e ele olhou através do Lugar de Encontro, e falou em sua voz clara: ‘Ancião, tu não precisas temer por tuas palavras. Verdadeiramente não sou eu quem tu ameaças com barras e uma morte abominável, mas algum tolo leviano e mentiroso quem não está aqui. Mas ouve com atenção! Eu sei bem que vós receberíeis alguma coisa de mim, a saber, que eu deveria enviar-vos chuva para findar esta seca, a qual de outro modo parece como a estender por muito tempo sobre vos: mas, para essa chuva, eu preciso entrar nas montanhas do sul para a trazer-vos; portanto, deverá certo chefe de vossos guerreiros levar-me em meu caminho, com esse meu homem, até a grande passagem das ditas montanhas, e nós deveremos colocá-la nesta direção neste mesmo dia.

Ela ficou em silêncio por um tempo, mas ninguém falou ou moveu-se, de modo que eles pareciam imagens de pedra em meio às pedras.

Então ela falou novamente e disse:Alguns diriam, filhos do Urso, que esse foi um sinal e um símbolo grande o suficiente? Mas eu conheço-vos, e quão obstinados e perversos de coração [207]vós sois; e como aquele presente não ainda no interior de vossa mão não é presente para vós; e a maravilha que vós não vedes, vossos corações não credes. Portanto, olhai vós para mim conforme eu estou de pé aqui, eu quem vim do país mais belo e o bosque em folha das terras, e vedes se eu não trago o verão comigo, e o coração que faz o crescimento e a mão que dá.

Oh então! Conforme ela falava, as flores murchas que pendiam em volta dela adquiriam vida e tornaram-se frescas novamente; a lonicera em torno do pescoço dela e dos ombros elegantes dela entreteceram-se e abraçaram-na frescamente, e lançaram seu perfume em torno do rosto dela. Os lírios que envolviam seus quadris ergueram as cabeças, e o ouro de seus pendões caiu sobre ela; as eufrásias clarearam-se azuis novamente sobre sua bata; a madressilva encontrou suas flores novamente, e então começou a derramar suas folhas dali sobre os pés dela; a ulmeira enrolada sobre elas tornou clara a doçura das pernas dela, e a orelha de rato decorou sua vestimenta como com gemas. Ali ela erguia-se em meio às flores, como uma grande pérola oriental contra a ornamentação de ourives, e a briza que subia de trás do vale transportava a doçura da fragrância dela por todo o Local de Encontro do Homem.

Em seguida, de fato, os Ursos colocaram-se de pé, e [208]bradaram e clamaram, e atingiram seus escudos, e jogaram suas lanças para o alto. Então o ancião ergueu-se de seu assento, e veio humildemente para onde ela estava de pé, e suplicou-a para dizer o que ela teria feito; enquanto os outros aproximaram-se em grupos, mas não se atreveram a chegar muito perto dela. Ela respondeu ao chefe ancião, e disse que ela logo deveria partir em direção às montanhas, de onde ela poderia mandar-lhes a chuva da qual eles careciam, e que de lá ela iria para longe na direção do sul por um tempo; mas que eles deveriam ouvir dela, ou, poderia ser, vê-la, antes que aqueles que agora estavam em meia idade devessem ter-se ido para junto dos pais deles.

Então o ancião implorou a ela que ele, poderiam criar para ela uma liteira de galhos verdes perfumados, e assim a transportar para longe na direção da passagem da montanha em meio ao triunfo do povo inteiro. Mas ela pulou levemente para baixo da pedra, e andou para lá e para cá sobre o relvado, enquanto parecia que os pés dela escassamente tocavam a grama; e ela falou ao chefe ancião onde ele ainda estava ajoelhado em adoração a ela, e disse: ‘Não; consideras tu de mim que eu necessito de condução pelas mãos de homens, ou que eu deveria cansar-me em absoluto quando estou fazendo minha vontade, e eu, o coração mesmo do crescimento anual? Assim é, que indo com meus pés [209]sobre vossos pastos deverá fazê-los florescer, tanto neste ano quando nos anos vindouros: certamente eu irei a pé.

Assim ele adoraram-na mais, e exaltaram-na; e o primeiro de todos eles trouxeram comida, a mais saborosa que eles puderam, tanto para ela quanto para Walter. Mas eles não olharam para a Donzela enquanto ela comia, ou sofrer com Walter por contemplá-la por um tempo. Mais tarde, quando eles tinham comido, uns vinte homens, armados segundo sua maneira, aprontaram-se para ir com a Donzela para as montanhas, e sem demora eles partiram para lá todos juntos. No entanto, os imensos homens mantiveram-se sempre um pouco distantes da Donzela; e quando eles chegaram ao lugar de descanso para aquela noite, onde não havia casa, pois ficava em meio aos contrafortes diante das montanhas, então foi uma maravilha ver como cuidadosamente eles construíram um lugar de dormir para ela, e inclinaram-no com seus mantos de pele, e como eles observaram durante toda a noite em torno dela. Mas Walter eles deixaram dormir pacificamente na grama, um pouco distante dos vigias em torno da Donzela.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.201-209. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/201/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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