[212]Eu confesso que minha conversa com Aph-Lin, e a extrema frieza com a qual ele declarou sua inabilidade para controlar o capricho perigoso de sua filha, e tratou da ideia de redução a uma cinza, à qual a chama amorosa dela poderia expor minha pessoa muito sedutora, diminuiu o prazer que, de outra maneira, eu deveria ter tido na contemplação da casa de campo de meu anfitrião, e a surpreendente perfeição da maquinaria pela qual as suas operações de cultivo eram conduzidas. A casa diferia em aparência do prédio massivo e sombrio que Aph-Lin habitava na cidade, e o qual parecia semelhante às rochas a partir das quais a cidade mesma fora talhada em forma. As paredes da casa de campo eram compostas por árvores posicionadas a uns poucos pés umas das outras, os interstícios sendo preenchidos [213]com a substância metálica transparente que serve aos propósitos do vidro entre os Ana. Essas árvores estavam todas em flor, e o efeito era muito prazeroso, se não do melhor gosto. Nós fomos recebidos na varanda por autômatos naturais, quem conduziram-nos a uma câmara, a semelhança da qual que nunca vi antes, mas frequentemente em dias de verão imaginei sonhadoramente. Era um caramanchão – meio sala, meio jardim. As paredes eram uma massa de flores trepadeiras. Os espaços abertos, os quais nós chamamos de janelas, e nos quais, aqui, as superfícies metálicas eram deslizadas para trás, comandavam várias vistas; algumas, da ampla paisagem com seus lagos e rochas; algumas, de pequenas extensões limitadas correspondendo a nossos conservatórios, cheios com camadas de flores. Ao longo dos lados da sala ficavam camas de flores, intercaladas com almofadas para repouso. No centro do chão ficava uma cisterna e uma fonte daquela luz líquida que eu presumi ser a nafta. Era luminosa e de um matiz rosado; era suficiente para, sem lâmpadas, iluminar a sala com um brilho moderado. Tudo em torno da fonte era carpetado com um macio líquen profundo, não verde (eu nunca vi aquela [214]cor na vegetação deste país), mas um castanho tranquilo, sobre o qual o olho repousa com a mesma sensação de alívio que aquela com a qual, no mundo de cima, ele repousa sobre o verde. Nas saídas sobre flores (as quais eu comparei a nossos conservatórios) havia inúmeros pássaros de canto, os quais, enquanto nós permanecemos na sala, cantaram naquelas harmonias de melodia nas quais eles são, nessas partes, tão maravilhosamente treinados. O teto era aberto. A cena inteira tinha encantos para cada sentido – música dos pássaros, fragrância das flores, e beleza variada para o olho e cada aspecto. Tudo em torno era um repouso voluptuoso. Que lugar, eu pensei, para uma lua de mel, se uma noiva Gy fosse um pouco menos formidavelmente armada não apenas com os direitos de mulher, mas com os poderes de homem! Apenas quando alguém pensa em uma Gy, tão instruída, tão alta, tão majestosa, tão muito acima do padrão da criatura que nós chamamos de mulher como Zee, não! Mesmo se eu não sentira nenhum temor de ser reduzido a uma cinza, não é com ela que eu deveria ter sonhado naquele caramanchão para sonhos de amor poético.
Os autômatos reapareceram, servindo um daqueles [215]deliciosos líquidos que formam os vinhos inocentes dos Vril-ya.
“Verdadeiramente,” disse eu, “esta é uma residência charmosa, e eu escassamente posso conceber por que você não se estabelece aqui em vez das casas mais sombrias da cidade.”
“Como o responsável para a comunidade pela administração da luz, eu estou obrigado a residir principalmente na cidade, e apenas posso vir aqui por intervalos curtos.”
“Mas, uma vez que eu entendo de você que nenhuma honra está vinculada a seu cargo, e ele envolve alguns problemas, por que você aceita-o?”
“Cada um de nós obedece sem questionar ao comando do Tur.” Ele disse, “‘Seja requerido que Aph-Lin deveria ser o Comissário da Luz’, assim eu não tive escolha; mas, tendo mantido o cargo agora por tanto tempo, as inquietações, que foram primeiramente desagradáveis, tornaram-se, se não prazerosas, pelo menos toleráveis. Todos nós somos formados pelo costume – até a diferença de nossa raça para o selvagem é apenas transmitida pela continuação do costume, o qual se torna, através de descendência hereditárias, parte e parcela de nossa natureza. Veja você que há Ana que até [216]se reconciliam com as responsabilidades de magistrado-chefe, mas nenhum o faria se os deveres não fossem tornados tão leves, ou houvesse quaisquer questões quanto à observância de suas solicitações.”
“Nem mesmo se vocês pensassem que as solicitações são insensatos ou injustos?”
“Nós não nos permitimos pensar assim, tudo procede como se cada um e todos nós governássemos a nós mesmos de acordo com um costume imemorial.”
“Quando o magistrado-chefe morre ou aposenta-se, como vocês providenciam o sucessor dele?”
“O An, quem foi desobrigado dos deveres de magistrado-chefe por muitos anos, é a melhor pessoa para escolher alguém por quem aqueles deveres podem ser entendidos, e ele geralmente nomeia o seu sucessor.”
“O filho dele, talvez?”
“Raramente isso; pois não é um cargo que qualquer um deseja ou busca, e um pai naturalmente hesita em constranger seu filho. Mas se o Tur mesmo declinar de fazer uma escolha, por medo de que poderia ser suposto que ele devesse ter algum rancor com a pessoa sobre a qual sua escolha estabelecer-se-ia, então há [217]três no Colégio dos Sábios que sorteiam entre eles mesmos quem deverá ter o poder para eleger o chefe. Nós consideramos que o julgamento de um An de capacidade ordinária é melhor do que o julgamento de três ou mais, por mais que sábios eles possam ser; pois entre três provavelmente haveriam disputas; e onde há disputas, nuvens de paixão obscurecem o julgamento. A pior escolha feita por alguém que não tem motivo para escolher errado, é melhor que a melhor escolha feita por muitos que tem muitos motivos para não escolher certo.”
“Você guarda em sua política as máximas adotadas em meu país.”
“Estão todos vocês, em seu país, satisfeitos com seus governantes?”
“Todos! Certamente não; os governantes que à maioria agradam são certos de ser aqueles que desagradam outros.”
“Então nosso sistema é melhor do que o de vocês.”
“Para vocês pode ser; mas, de acordo com nosso sistema, um Tish não poderia ser reduzido a uma cinza se uma mulher obrigasse-o a casar com ele; e como um Tish eu suspiro para retornar a meu mundo nativo.”
“Tome coragem, meu querido pequeno convidado; Zee não pode [218]obrigar-te a casar com ela. Ela somente pode seduzi-lo a fazê-lo. Não seja seduzido. Venha e olhe ao redor de meu domínio.”
Nós fomos a uma cerca, que fazia fronteira com galpões; pois, embora os Ana não mantivessem estoque para comida, há alguns animais que eles criam para ordenhar e outros para tosquiar. O primeiro não tem nenhuma semelhança com nossas vacas, nem o último com nossas ovelhas, nem eu acredito que semelhantes espécies existam em meio a eles. Eles usam o leite de três variedades de animal: um assemelha-se ao antílope, mas é muito maior, sendo tão alto quanto um camelo; os outros dois são menores e, embora diferindo um pouco um do outro, assemelham-se a nenhuma criatura que eu vi sobre a terra. Eles são muitos lustrosos e de proporções redondas; a cor deles é aquela de um veado malhado, com semblantes muito suaves e lindos olhos negros. O leite dessas três criaturas difere em riqueza e em sabor. É comumente diluído em água, e aromatizado com o suco de uma fruta peculiar e perfumada e, em si mesmo, é muito nutritivo e saboroso. O animal cuja a lã serve-lhes como roupa e muitos outros propósitos, é mais semelhante à cabra italiana do que [219]qualquer outra criatura, mas é consideravelmente maior, não tem chifres, e é livre do odor desagradável de nossas cabras. A lã dele não é grossa, mas muito longa e fina; ela varia em cor, mas nunca é branca, mais geralmente de um matiz semelhante à ardósia ou lavanda. Para roupa é comumente usada tingida, para se adaptar ao gosto do usuário. Esses animais são excessivamente domesticados, e eram tratados com extraordinário carinho e afeição pelas crianças (principalmente meninas) quem tomavam de conta deles.
Em seguida, nós atravessamos vastos celeiros cheios de grãos e frutas. Aqui eu posso observar que o principal tipo de comida entre essas pessoas consiste – primeiramente, em um tipo de milho muito maior em espiga do que nosso trigo, e o qual, por cultura, está sendo perpetuamente trazido a novas variedades de sabor; e, secundariamente, em uma fruta de aproximadamente o tamanho de uma pequena laranja, a qual, quando colhida é dura e amarga. Ela é guardada por muitos meses em seus depósitos, e então torna-se suculenta e macia. Seu suco, o qual é de cor escura, entra na maioria dos molhos deles. Eles têm muitos tipos de fruta da natureza da oliva, a partir das quais óleos deliciosos são extraídos. [220]Eles têm uma planta um pouco semelhante à cana-de-açúcar, mas seus sucos são menos doces e de um perfume delicado. Eles não têm nem abelhas nem insetos que amassam mel, mas eles fazem muito uso de uma goma doce que exsuda de uma planta conífera, não diferente da araucária. O solo deles também abunda com raízes comestíveis e vegetais, os quais é o objetivo de sua cultura melhorar e variar ao máximo. E eu nunca lembrei de qualquer refeição entre esse povo, por mais que pudesse estar confinada à casa familiar, na qual alguma novidade delicada em semelhantes artigos de comida não fosse introduzida. Bem, como eu observei antes, a culinária deles é esquisita, tão diversa e nutritiva que ninguém sente falta de comida animal; e as próprias formas físicas deles são suficientes para mostrar que com eles, pelo menos, a carne não é necessária para produção superior de fibra muscular. Eles não têm uvas – as bebidas extraídas das frutas deles são inocentes e refrescantes. A principal bebida deles, contudo, é água, na escolha da qual eles são muito fastidiosos, distinguindo imediatamente as mais leves impurezas.
“Meu filho mais novo tem grande prazer em [221]aumentar nossa produção,” disse Aph-Lin conforme nós atravessávamos os celeiros, “e portanto herdará essas terras, as quais constituem a parte principal de minha riqueza. Para meu filho mais velho, tal riqueza seria um grande problema e aflição.”
“Há muitos filhos entre vocês que pensam que a herança de vasta riqueza seria uma grande problema e aflição?”
“Certamente; de fato há muitos poucos Vril-ya que não consideram que uma fortuna muito acima da média seja um fardo pesado. Nós somos um povo bastante preguiçoso após a idade da infância, e não gostamos de passar por mais inquietações do que nós podemos remediar, e grande riqueza dá a seu proprietário muitas inquietações. Por exemplo, distingue-nos para cargos públicos, os quais nenhum de nós gosta e nenhum de nós pode recusar. Ela necessita de nosso interesse continuado nos assuntos de nossos mais pobres compatriotas, de modo que nós possamos antecipar seus desejos e ver se nenhum caia na pobreza. Há um velho provérbio entre nós que diz, ‘a necessidade do homem pobre é a vergonha do homem rico ----’”
“Perdoe-me, se eu interrompo-te por um momento. [222]Vocês permitem que alguém, mesmo dos Vril-ya, conheçam necessidade e necessitem de socorro.”
“Se por necessidade você quer dizer a penúria que prevalece em um Koom-Posh, que é impossível conosco, a menos que um An tenha, por algum processo extraordinário, perdido todos os seus recursos, não possa ou não queira emigra, e ou tenha exaurido o auxílio afetuoso de suas relações ou amigos pessoas, ou recusado-se a aceitá-los.”
“Bem, então, ele não supre o lugar de uma criança ou autômato, e torna-se um trabalhador – um servo?”
“Não; então nós consideramo-lo como uma pessoa infeliz de razão doente, e colocamo-lo à custa do estado, em um prédio público, onde cada conforto e cada luxo que possam mitigar sua aflição são esbanjados sobre ele. Mas um An não gosta de ser considerado descontrolado, e portanto semelhantes casos ocorrem tão raramente que o prédio público do qual eu falei é agora uma ruína deserta, e o último interno de lá foi um An quem eu recordo de ter visto em minha infância. Ele não parecia consciente da perda de razão, e escrevia glaubs (poesia). Quando eu falei de carências, [223]eu quis dizer carências como um An com desejos maiores do que seus recursos algumas vezes envolvem – de caros pássaros cantores, ou casas maiores, ou casas de campo e a maneira óbvia de satisfazer semelhantes carências é comprar dele alguma coisa que ele vende. Consequentemente, Ana como eu mesmo, quem são muito ricos, são obrigados a comprar um grande número de coisas das quais eles não necessitam, e vivem em uma grande escala quando eles poderiam preferir viver em uma menor. Por exemplo, o grande tamanho de minha casa na cidade é uma fonte de muito problema para minha esposa, e até para mim mesmo; mas eu sou compelido a tê-la dessa maneira tão incomodamente grande, porque, como o An mais rico da comunidade, eu sou apontado para entreter estrangeiros de outras comunidades quando eles visitam-nos, o que eles fazem em grandes grupos duas vezes ao ano, com certos entretenimentos periódicos realizados, e quando relações dispersas ao longo de todos os reinos dos Vril-ya alegremente se reúnem por um tempo. Essa hospitalidade, em uma escala tão extensa, não é do meu gosto, e portanto eu deveria ter sido mais feliz se eu fosse menos rico. Mas todos nós precisamos suportar o quinhão atribuído a nós nesta curta passagem através do tempo que nós [224]chamamos de vida, afinal, o que são cem anos, mais ou menos, diante das eras através das quais nós devemos passar na outra vida? Afortunadamente, eu tenho um filho que gosta de grande riqueza. É uma extraordinária exceção à regra, e eu próprio não posso entender isso.”
Após essa conversa eu busquei retornar ao assunto que continuava a pesar sobre meu coração – a saber, as chances de escapar de Zee. Mas meu anfitrião polidamente declinou de renovar esse tópico e convocou nosso bote de ar. Durante nosso caminho de volta nós encontramos Zee, tendo descoberto que nós saímos, quando de seu retorno do Colégios dos Sábios, desfraldara suas asas e voara em busca de nós.
O semblante imponente, mas para mim pouco atraente, dela brilhou conforme ela contemplava-me, e sustentando-se ao lado do bote em suas longas plumas estendidas, ela disse reprovadoramente a Aph-Lin – “Oh, pai, era direito para você arriscar a vida de nosso convidado em um veículo com o qual ele está tão desacostumado? Ele poderia, em um movimento descuidado, cair para o lado; e, ai de mim! Ele não é como nós, ele não tem asas. Seria a morte para ele cair. Querido!” (ela acrescentou, abordando meu eu encolhido [225]em uma voz mais suave), “você não pensou em mim, para que desse modo você colocasse em perigo uma vida que quase se tornou uma parte de mim? Nunca mais seja assim precipitado, a menos que eu seja tua companhia. Que terror atingiu-me!”
Eu relanceei furtivamente para Aph-Lin, esperando, pelo menos, que ele indignadamente reprovaria sua filha por expressões de ansiedade e afeição que, sobre todas as circunstâncias, no mundo acima do solo, seriam consideradas imodestas nos lábios de uma jovem mulher, endereçadas a um homem não prometido a ela, mesmo se na mesma posição social que ela.
Mas tão confirmados estão os direitos das mulheres naquela região, e tão absolutamente em primeiro lugar entre esses direitos as mulheres clamam o privilégio de cortejar, que Aph-Lin não tem mais o pensamento de reprovar sua virgem filha, do que ele teria o pensamento de desobedecer ao Tur. Naquela região, costume, como ele implicava, é tudo e todos.
Ele respondeu suavemente, ‘Zee, o Tish não estava em perigo, e é minha crença que ele pode muito bem tomar cuidado de si mesmo.’
[226]“Eu preferiria que ele deixe-me responsabilizar-me por seu cuidado. Oh, coração de meu coração, foi no pensamento de teu perigo que primeiro senti quanto eu amo-te!”
Nunca um homem sentiu-se em uma posição tão bastarda como eu senti-me. Essas palavras foram faladas em voz altas nos ouvidos do pai de Zee – nos ouvidos da criança que conduzia [o bote]. Eu ruborizei de vergonha por elas, e por ela, eu não ajudar respondendo iradamente: “Zee, ou você zomba de mim, o que, como convidado de seu pai, não convém a você, ou as palavras que você profere são impróprias para uma donzela Gy endereçar mesmo a um An de sua própria raça, se ele não a corteja com o consentimento dos pais dela. Quão muito mais impróprias endereçá-las a um Tish, quem nunca ousou solicitar suas afeições, e quem nunca considerou você com outros sentimentos que não os de reverência e admiração!”
Aph-Lin fez um sinal dissimulado de aprovação, mas não disse nada.
“Não seja tão cruel!” exclamou Zee, ainda em expressões sonoras. “Pode o amor controlar-se onde é verdadeiramente sentido? Você supõe que uma donzela Gy ocultaria um sentimento que a [227]eleva sentir? De que pais você deve ter vindo!”
Aqui Aph-Lin gentilmente se intrometeu, dizendo, “Entre os Tish-a os direitos do seu sexo não parecem estar estabelecidos e, em todo o caso, meu convidado pode conversar com você mais livremente se não contido pela presença de outros.”
A essa observação Zee não respondeu, mas, lançando-me uma tenra olhadela de reprovação, agitou suas asas e voou em direção à casa.
“Eu considerara, pelo menos, algum auxílio de meio anfitrião,” disse eu, amargamente, “nos perigos aos quais a sua filha expõe-me.”
“Eu dei-te o melhor auxílio que eu pude. Contradizer uma Gy em seus assuntos é confirmar o propósito dela. Ela não permite nenhum conselho intrometer-se entre ela e suas afeições.”
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.212-227. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/212/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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