A Grande Busca dos Imortais V Das Causas da Elevada Civilização em Hésperos

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


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[66]Capítulo V Das Causas da Elevada Civilização em Hésperos


Das causas da elevada civilização de Hésperos – Da relação dos sexos – Da propriedade pessoal privada – Da propriedade de Terra; e dos métodos de Evicção. – Dos Faz-tudo e Mestres de todos os Ofícios.


Quando nós temos em mente essas diferenças essenciais da via hesperiana, o desenvolvimento rápido da civilização que ocorreu no hemisfério norte depois da súbita introdução da vida racional não parecerá surpreendente. Até onde eu tenha sido capaz de formar uma estimativa, a partir da informação que me tenha sido livremente concedida, os recém-criados hesperianos estavam, tanto intelectual quanto moralmente, muito no mesmo nível a média dos seres humanos. Mas as condições sob as quais eles estavam posicionados tornaram o avanço deles em civilização incomparavelmente [67]mais rápido do que qualquer coisa que uma espécie similar, circunstanciada, como nós estamos, sobre a Terra, poderia ter esperança de alcançar.

A total exceção da paralisia crônica da raça humana, a qual está envolvida na sua passagem incessante através dos estágios de infância e meninice, por si mesma, seria suficiente para conceder aos hesperianos uma partida na corrida de modo a tornar inútil a competição. Conosco, o homem inteligente de sabedoria madura parte, levando consigo para o túmulo a maior parte das suas reservas acumuladas de conhecimento, e toda a sua habilidade; deixando seu sucessor, a criança, para as recuperar para nós tão bem quanto ele possa. O hesperiano não é frustrado por nenhuma dificuldadeo grande; o curso dele é um de avanço ininterrupto. Desse modo, veio a acontecer que, após a passagem de uns poucos milhares de anos, a condição do hemisfério norte estava, com respeito a cada forma de civilização avançada, um longo caminho à frente de qualquer coisa mesmo sonhada, muito menos realizada, sobre a Terra.

[68]É bastante necessário que aqui eu deva dizer umas poucas palavras sobre as relações entre os sexos nesse planeta estranho. Sobre esse assunto difícil, eu tomei uma abundância de notas a partir da informação que recebi; informação a qual, eu estou obrigado a dizer, foi concedida a mim com a mais leve reserva. [Eu suprimo todos os detalhes nessas notas, visto que a opinião pública, muito corretamente, não permite a discussão dessas questões.] Por si mesmo é óbvio que a permanência da vida individual torna uma impossibilidade o estabelecimento de um contrato de vida como o casamento. Portanto, a relação hesperiana que mais aproximadamente corresponde à instituição matrimonial sobre a Terra usualmente dura por um dos períodos cíclicos já descritos como uma das peculiaridades distintivas da vida hesperiana. Eu digo que esse é o procedimento costumeiro; mas a relação é terminável a qualquer momento, e à vontade de qualquer parte interessada. É claro, deveria ser lembrado que, visto que não há filhos, as consequências desastrosas [69]que seriam o resultado inevitável de um tal estado de coisas sobre a Terra não ocorrem.

Quanto à instituição da propriedade privada, a mesma permanência da vida individual concede a ela uma forma bastante diferente daquela que ela assume sob as condições de morte e sucessão. De fato, a propriedade pessoal, no nosso sentido estrito do termo, dificilmente pode ser dita existir de qualquer maneira. Não pode haver nenhuma vida familiar – pois a mera habitação junta de um homem e uma mulher sem filho escassamente pode ser chamado por um tal nome – uma unidade social diferente foi adotada. Três ou quatro pessoas de cada sexo usualmente vivem juntas, dessa forma, formando um domicílio incluindo seis ou oito, e “propriedade” comumente tem referência ao domicílio assim constituído. O leitor perceberá posteriormente que essa explicação da propriedade é apenas correto para a história antiga do planeta.

Com respeito à propriedade da terra, muitos problemas grandes ocorreram nos tempos primitivos; e muitas eras se passaram antes que uma [70]resolução satisfatória fosse alcançada. Em comparação com a Terra, Hésperos é muito esparsamente povoado. Cem milhões de habitantes para quarenta milhões de milhas quadradas de terra, dá apenas uma média de dois e meio para cada milha quadrada. Agora, se nós assumirmos que a área da Inglaterra é aproximadamente de 50.900 milhas quadradas – uma estimativa que não difere muito do fato – e que a população (1739 d.C.) é um pouco aproximadamente de sete milhões, nós temos mais de mil e trinta e sete para cada milha quadrada. Em uma ilha de dimensões similares em Hésperos – e uma que realmente existe não longe do continente – há apenas 127.250 habitantes.

Consequentemente, pareceria que o suprimento de terra está em grande excesso das necessidades da população. Mas há diferenças tão extraordinárias na elegibilidade de lugares particulares como lugares de residência, que grande competição invariavelmente surge por aqueles lugares que são especialmente favorecidos pela natureza. Essas disputas foram muito agravadas [71]pela convicção de que o candidato exitoso tinha adquirido uma perpetuidade real, bona fide e, de modo nenhum ficcional, na morada cobiçada. Desse modo, esses feudos amargos resultaram frequentemente demais na evicção do ocupante por um ou outro dos processos bem conhecidos através dos quais a evanescência foi causada; ou aquele de lesão mortal, a qual era comumente efetuada por alguém estando em espera do ocupante invejado em algum lugar solitário; ou pelo lento método do equilíbrio metronômico, levada a cabo pela imposição sobre a vítima de um tipo de ostracismo social, recusando-se a manter qualquer relação com ela, ou, de fato, fornecer as necessidades da vida a ela.

Por fim, questões prosseguiram a extremidades tão grandes, que os corpos governantes, em alarme diante do processo de despovoamento, passaram uma lei de terra muito rigorosa, limitando a posse de qualquer propriedade ao período do ciclo de vida, o qual, como já vimos, tem média de cem anos. Ao final desse [72]período, o estado fica dispõe dele por sorte, mas não há norma para impedir que o habitante que chega se entenda com o quê sai. Tem de ser distintamente entendido que, por mais que a extensão de cada propriedade fosse estritamente limitada pela lei, havia abundância de terra para todos, e os ocupantes despossuídos eram meramente transferidos para outra parte do país.

Novamente, a permanência da vida individual é a causa de uma diferença marcada em Hésperos, em relação à qualquer coisa sobre a Terra, com respeito aos tempos das várias ocupações, ofícios, ou profissões, pelas pessoas que os exercem. Conosco a vida é tão curta, e a arte tão longa, que, quando uma vez que um homem tenha adquirido a habilidade que é necessária para a sua vocação, ele tem apenas uma pequena oportunidade, após a ter exercido por um tempo, de alguma vez aprender outra. Mas alfaiataria ou sapataria eternas, ou mesmo escrita de poesia ou pintura eternas, ou tocar o violino, não poderiam ser consideradas. Qualquer tentativa de levar a cabo [73]uma permanência tão grande de ocupação rapidamente terminaria na evanescência do paciente através da operação da lei metronômica.

Assim, aqui novamente se adere ao ciclo de vida; e, na sua completude, o sujeito quase invariavelmente adota uma nova profissão. Consequentemente, um estranho estado de coisas agora em Hésperos – todo homem, e também toda mulher, não é apenas faz-tudo, mas mestre, ou mestra, de todos os ofícios. Um amigo contou-me que, durante os últimos sete séculos, ele tinha exitosamente ocupado as posições de mineiro, produtor de lâmpadas, organista de catedral, confeccionador, engenheiro marinho, barrister e produtor de retratos do sol.


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ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 66-73. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/66/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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