A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental
Por James William Barlow
[113]Capítulo IX Do Desenvolvimento do Cansaço do Mundo em Hésperos
Do desenvolvimento do Cansaço do Mundo em Hésperos; e da segunda tentativa de atravessar o Tornado Equatorial – Como a Esperança Perdida teve sucesso e descobriu uma Cidade dos Mortos – Como o mistério terrível da Evanescência foi explicado; e como a tripulação partiu em seu retorno.
Mas, a despeito do sucesso notável que tinha acompanhado os seus labores, não pode haver nenhuma dúvida de que durante os próximos mil anos um sentimento geral de melancolia e desânimo gradualmente se assentou sobre a raça hesperiana. Que as descobertas brilhantes dos astrônomos tinham falhado em lançar a luz mais fraca sobre a questão das questões – Quem era o Criador deles? – era um fato que não poderia dissimulado. Uma resposta para isso estava tão longe quanto sempre esteve – mais longe ainda, de fato. Eles tinham [114]aprendido sobre a enorme extensão do universo, e, como uma consequência, que os hesperianos, tão longe de esgotarem os seus conteúdos, não eram nada mais mais do que pontos insignificantes em suas profundezas insondáveis. Na profusão vasta de mundos, eles sentiram-se perdidos. Se o Criador deles estivesse encarregado daquele vasto universo, ele bem poderia ter esquecido completamente deles. Então, porque eles não deveriam desistir da vida? A porta de saída estava sempre aberta. Uma queda do precipício mais próximo era sempre fácil, e a dissolução instantânea do corpo era um remédio infalível para todo mal.
Esse sentimento de descontentamento com a vida, ou de geral cansaço com o mundo, alcançou um clímax nos anos concludentes desse período; e a sua existência na mente de um pequeno bando de engenheiros práticos foi certamente a causa principal que levou à descoberta terrível de que posicionou uma linha indelével de distinção entre as histórias antiga e moderna de Hésperos.
Embora apenas o hemisfério norte [115]fosse acessível para exploração, por essa época era perfeitamente bem conhecido que o planeta é uma esfera. Consequentemente eles consideraram não absolutamente improvável que no sul uma condição similar às calmarias do norte poderia corresponder; e que o furacão crônico que até agora barrava a passagem para o oceano sul poderia provar-se estar confinado a uma zona não excedendo umas poucas centenas de milhas em largura. Devesse esse ser o caso, talvez ele pudesse ser ultrapassado, e um continente sul, descoberto. Isso desenvolveria grandemente a ciência astronômica; nada menos do que um hemisfério de estrelas não vistas poderia ser trazido à visão. Além disso, um trânsito de Mercúrio através da face do sol ocorreria em uns poucos anos; e, para utilizar isso, a colocação de um observatório no hemisfério sul era essencial.
Ocorreu para um desses engenheiros que, embora nenhuma embarcação que flutuasse sobre a superfície do oceano possivelmente pudesse sobreviver ao tornado equatorial, poderia ser víavel divisar uma [116]embarcação submarina que, ao afundar-se a uma profundidade muito grande abaixo da superfície, poderia atravessar as quatrocentas ou quinhentas milhas de cataratas furiosas e, então, emergindo a partir das profundezas, poderia encontrar um mar mais suave.
Contudo, era evidente que, quem quer que se aventurasse em tal serviço tinha de estar contente de incorrer no risco eminente de destruição completa. Ninguém poderia se aventurar a conjecturar quão profundamente o distúrbio aparentemente preternatural poderia alcançar; ou que horrores fatais para qualquer forma de vida poderiam ser encontrados naqueles abismos terríveis. Assim, exceto por aquele sentimento de cansaço com a vida que estava crescendo rapidamente através do mundo, não é absolutamente improvável que um corpo de voluntários, suficientemente numerosos, poderia ter sido encontrado para um serviço de perigo tão excessivo. De fato, em um aspecto, mas apenas em um, esse novo empreendimento não tinha um aspecto tão terrível quanto aquele que tinha sido empreendido pelos viajantes anteriores e não exitosos para o sul. Aqueles viajantes anteriores efetivamente tiveram de se aventurar no infinito, [117]pois eles não tiveram nenhuma pista para a forma ou extensão do mundo deles; mas, graças aos astrônomos, agora era bem conhecido que, em todo caso, o planeta é limitado em todas as direções.
O engenheiro comunicou o plano dele a alguns dos seus camaradas e, após tentar muitos experimentos em navegação submarina em pequena escala, eles tiveram sucesso na construção de um bote modelo, o qual prometia muito para sucesso. O próximo passo deles era reunir um número suficiente de voluntários; eles consideraram que cinquenta seriam suficientes. Devido ao sentimento desanimador então predominante, os cinquenta, uma esperança perdida, logo foram encontrados. Então eles requisitaram ao parlamento mundial os fundos necessários para a construção e o equipamento da embarcação, os quais seriam um empreendimento muito custoso, em consequência da enorme força que seria necessária para resistir à pressão da água nas grandes profundezas às quais eles estariam obrigados a descer. Mas, no interesse da descoberta científica, os fundos foram prontamente [118]fornecidos; os trabalhos foram começados sem nenhuma demora; e, em aproximadamente dois anos, a embarcação estava completa. Ela foi suprida prodigamente com reservas de comida e força, e cada necessidade que poderia ser concebida; e os cinquenta embarcaram e partiram para o sul, nenhum deles esperando, ou, de fato, desejando, alguma vez retornar.
Todos eles eram excelentes engenheiros e astrônomos experimentados; de fato, a esperança de expandir o campo da segunda ciência certamente teve alguma influência em os mover à sua expedição. Eles continuaram sobre a superfície da água até que se aproximaram da região tempestuosa. Nessa eles penetraram, ainda se mantendo na superfície, até que a violência das ondas tornou-se tão grande que não era mais possível conduzir a embarcação. Então eles pararam os motores de propulsão e, abrindo as válvulas que admitiram água dentro dos tanques, afundaram-se lentamente nas profundezas. À profundidade de quinhentos pés, eles encontraram o mar bastante parado e ligaram novamente os propulsores. [119]Mas, uma poucas milhas adiante, eles tinham descido quinhentos pés. Conforme eles se aproximavam da linha do equador mesmo eles foram obrigados a gradualmente descerem mais e mais, até que, por um fim, uma imersão de dois mil pés foi alcançada; e, nessa profundidade, eles forçaram o seu caminho por aproximadamente duzentas milhas.
A embarcação comportou-se admiravelmente. A despeito de uma pressão excedendo mil libras por polegada quadrada, nem um traço de um vazamento pôde ser descoberto. Finalmente eles consideraram que poderiam se aventurar a erguer-se um pouco; assim, alterando a inclinação dos propulsores eles gradualmente ascenderam aproximadamente mil pés sem qualquer resultado desagradável. Nessa altura, sinais de distúrbio na água tornaram inconveniente continuar seu progresso para cima até que eles tivessem feito outras cinquenta milhas da sua viagem. Então eles ascenderam mais quinhentos pés; a essa profundidade a água estava agitada, mas viável. Cinquenta milhas adiante, eles aventuraram-se a forçar [120]a água para fora dos tanques e ascender à superfície. Isso eles fizeram muito lenta e cautelosamente e, ao emergirem, descobriram que a zona de tornados tinha passado. O mar ainda era excessivamente agitado; mas, olhando para trás na direção norte, era fácil ver, a partir da maior violência das ondas naquela região, que eles tinham deixado os furacões equatoriais para trás deles.
Agora eles estavam no hemisfério sul, e, até onde eles podiam computar, aproximadamente a duzentas e cinquenta milhas ao sul do equador. A largura total do cinturão de tempestades, no lugar onde eles o tinham cruzado, eles estimaram em quinhentas milhas. Conforme eles prosseguiram na direção sul, o mar tornava-se cada vez mais suave, até que eles alcançaram uma região de calma quase perfeita. Eles resolveram manter o curso, dirigido ao sul, até que eles tivessem alcançado a terra do polo sul mesma.
No quinto dia após a emersão deles, eles avistaram terra. A região era [121]evidentemente montanhosa; acima da cabeça, o bloqueio de nuvens continuava ininterrupto e, aparentemente, à mesma elevação que no norte. Logo a embarcação estava suficientemente próxima da costa para a embarcação ser capaz de discernir inequivocamente sinais de vida; e, ao rodearem um promontório, uma cidade de tamanho moderado veio à vista. O estilo dos prédios não era de maneira nenhuma diferente daquele que era familiar a eles em casa. Enquanto lançavam âncora umas poucas jardas da costa, eles puderam ver que o píer estava densamente amontoado por pessoas, quem, evidentemente, tinham sido atraídas pela embarcação de forma estranha.
Logo um da tripulação, tomando uma luneta, inclinou-se sobre o corrimão e deu uma olhada firme nas pessoas no píer. Ele não teve de encarar por mais do que uns poucos segundos quando, subitamente, tornou-se branco como uma folha de papel, cambaleou alguns passos para trás e ofegando por ar, entregou a luneta para o homem atrás dele. O capitão perguntou-lhe qual era o problema – “É a Cidade dos [122]Mortos,” ele gaguejou, em uma voz quase desarticulada por terror.
Uma expressão similar de horror surgiu sobre o rosto do segundo homem, enquanto ele também olhava através do telescópio. E nenhuma supressa nisso. As pessoas que estavam de pé no píer tinham vivido com eles no norte, e acreditava-se que tinham partido da vida para sempre. Um sentimento como aquele que surge na Terra na presença de uma visitante fantasmagórico surgiu sobre a tripulação. Evidentemente eles estavam cara a cara com algum mistério terrível, o qual agora devia ser esclarecido.
Entrementes, um bote com vários remadores impulsionava-se a partir do píer e vinha velozmente na direção da embarcação. Conforme ele se aproximava, vários dos engenheiros reconheceram no timoneiro o homem que tinha perecido no terrível precipício que levou ao grande observatório do norte. Quando o bote chegou dentro de alcance de saudação, esse homem gritou, “Nós estivemos esperando vocês por algum tempo, e nós congratulamos vocês pela sua passagem submarina.” [123]Assim, era evidente que essas pessoas misteriosas sabiam tudo sobre a expedição. Eles viram a consternação dos engenheiros, mas, evidentemente, não retribuíram a confusão deles. Por outro lado, todos pareciam intensamente felizes diante da chegada dos seus antigos amigos. Mais botes saíram na direção da embarcação, e a tripulação foi velozmente desembarcada. Os cidadãos receberam-lhes com grande gentileza; levaram-nos hospitaleiramente para dentro suas casas, e, quando os convidados surpresos tinham descansado, e recuperaram-se do seu estado de estupefação completa, os supostos fantasmas comunicaram-lhes a história das suas aventuras no hemisfério sul.
A substância do que eles aprenderam foi a seguinte: - O fenômeno da evanescência, até agora suposto ser a destruição final do sujeito no qual ela ocorre, é apenas o primeiro passo em um processo mais complicado. A evanescência em si mesma consiste em uma desintegração súbita das moléculas [124]que compõem o corpo. Mas essas moléculas desintegradas e, portanto, invisíveis, são realmente dotadas de uma afinidade ou atração que tende para o polo sul do planeta. Exatamente como na Terra, a agulha magnética volta-se para o meridiano magnético, assim, em Hésperos, aquelas moléculas organizadas que entram na estrutura de um animal racional, quando libertas por desintegração, instantaneamente procuram o polo sul, a transmissão ocorrendo com a exata velocidade da luz. Ao alcançarem o polo, a reintegração é igualmente instantânea; de modo que, em Hésperos, nós podemos dizer que morte, decomposição e ressurreição do corpo formam os três passos consecutivos em uma série conectada de eventos, o todo da qual é realizado em um único instante.
Portanto, a evanescência, no hemisfério norte e, de fato, também no hemisfério sul, não é nada mais nem menos do que transferência instantânea para o polo sul. A reintegração do corpo é, com uma exceção muito importante, [125]uma reprodução exata do corpo original desintegrado. A exceção é esta: qualquer órgão corporal que tenha sofrido uma lesão de qualquer tipo é restaurado à sua primitiva condição saudável. Não tivesse esse sido o caso, muitos homens teriam estado condenados ao destino chocante de definhamento em um estado aleijado e mutilado para sempre. As duas leis da evanescência que tinham sido observadas no norte são igualmente válidas no sul; mas deve ser lembrado que a transferência é sempre para o polo sul, não importa em qual hemisfério a evanescência ocorra.
Consequentemente, é óbvio que antes da chegada do bote submarino, as condições da população no norte e no sul, respectivamente, eram diretamente contrastadas. No primeiro, havia um número diminuindo constantemente que não poderia se aumentada; no segundo, um número constantemente crescente que não poderia ser diminuído. Mas era bastante evidente que, assumindo que a viagem de retorno [126]da embarcação submarina fosse praticável, o equilíbrio logo seria restaurado.
Tais foram os fatos principais comunicados naquela noite ao engenheiros espantados. Todos eles se retiraram para descansar os seus novos aposentos meio petrificados com assombro e horror. O portão para a saída da vida estava fechado e barrado – ou melhor, nada similar nunca tinha existido. O que se supunha ser um não tinha nenhuma significância real; e se houvesse algum em qualquer lugar, ele ainda tinha de ser encontrado.
À questão deles, Como os sulistas tinham ficado cientes da sua projetada viagem de submarino? Os anfitriões deles responderam que um dos nortistas que tinha evanescido por um acidente enquanto a embarcação estava sendo construída tinha comunicado o plano na chegada dele ao polo. De fato, dessa maneira, pelas chegadas frequentes do norte, os sulistas foram mantidos bem informados de tudo que ocorria no outro lado do equador, e tinham conhecido todos os resultados grandiosos da nova astronomia.
[127]Os engenheiros resolveram não perder nenhum tempo na viagem de retorno; e eles ofereceram-se para levar com eles, como passageiros, quaisquer uns, até o número de cinquenta, que escolhessem revisitar suas antigas habitações; mais do que cinquenta eles não poderiam acomodar facilmente. A oferta foi alegremente aceita. Entre aqueles que retornaram, eles trouxeram o habitante mais velho do sul, a vítima do Caim hesperiano, cuja extinção imprevista, exatamente a 9997 anos atrás, tinha levado à descoberta da primeira lei da evanescência. Ele agora estava, em toda aparência, no ano vinte e um da sua idade. Também três daquela embarcação mal fadada que pereceu na tentativa abortada para cruzar a superfície do mar equatorial acompanharam-nos.
ORIGINAL:
BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 113-127. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/113/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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