A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental
Por James William Barlow
[74]Capítulo VI Da Linguagem Universal
Da Linguagem Universal – Do Império Universal e das primeiras medidas do Parlamento Mundial – Do grande progresso dos hesperianos em toda a Ciência Física; e do infrutífero anseio deles pelo Deus Desconhecido.
Já foi mencionado que a superfície terrestre de Hésperos consiste em um imenso continente polar, limitado por um número muito considerável de ilhas, as quais variam grandemente tanto em magnitude quanto em configuração. As populações das ilhas naturalmente viveram por um longo período em separação completa umas das outras, e as peculiaridades hesperográficas, tais como as extensas cadeias de montanhas intransponíveis, produziram um efeito similar no continente. Consequentemente, exatamente como na Terra, nacionalidades diferentes vieram à existência; e também, [75]como na Terra, cada uma delas tinha a sua própria linguagem especial. Mas, conforme o tempo passou, embarcações foram inventadas, e a comunicação entre as ilhas e o continente tornou-se frequente. Logo o comércio atingiu proporções extensas; pois em Hésperos, como na Terra, regiões diferentes abundam em produtos diferentes. Operações de engenharia também foram organizadas em uma grande escala, e essas requereram muito transporte de minérios e outros materiais de construção.
No sexto período milenar, contando a partir da criação racional, um avanço muito importante foi originado pelos hesperianos; um aperfeiçoamento que trouxe mudanças ainda mais notáveis em seu rastro. Esse foi a adoção de uma linguagem universal para o globo, no lugar das muitas que tinham surgido nos estados diferentes. Por essa altura, eles tinham compreendido completamente suas posições como habitantes permanentes do planeta, e a vantagens de um meio universal de [76]comunicação foram óbvias demais para necessitarem de discussão. Por essa razão, todos os governos independentes uniram-se em uma convenção internacional, e nomearam um grande comité dos mais eminentes filólogos para considerarem a questão toda. De acordo com o relatório desse comité, uma linguagem universal foi adotada; e o inteiro mundo hesperiano começou a trabalhar, resolutamente, no seu estudo. Em um tempo muito curto, o sistema poliglota chegou a um fim, e uma linguagem ainda falada através de todo o planeta foi de fato estabelecida.
A adoção dessa linguagem universal preparou o caminho para a união de todos os estados separados em um vasto império. Graças ao uso descuidado dos dois métodos de evanescência, na passagem das eras, a população original de cem milhões tinha diminuído para pouco mais de oitenta milhões, e oitenta milhões não foi considerado um número grande demais para uma única administração. É verdadeiro que eles estavam espalhados por uma área excessivamente ampla; [77]mas, mesmo na época da qual eu falo, um sistema admirável de comunicação tinha sido organizado. As ciências da mecânica e química tinham realizado progressos assombrosos, e as forças naturais tinham sido descobertas e utilizadas para o propósito de locomoção. Contudo, sobre essas, uma explicação mais completa será dada mais adiante.
Aqui será suficiente mencionar que, no ano de 5784, o inteiro hemisfério norte finalmente se unificou sob uma administração central, escolhida pelo sufrágio de toda a população hesperiana, masculina e feminina, igualmente. Pois deveria ser observado que, como uma consequência do sexo feminino estando isento dos cuidados da maternidade, elas tomam uma parte muito maior nas atividades do outro sexo do que seria de qualquer maneira desejável, ou mesmo possível, entre nós.
Duas medidas altamente importantes foram imediatamente acordadas pelo parlamento mundial – primeiro, a limitação da posse de terra ao período cíclico de vida, a qual já tinha sido [78]adotada pela maioria das nacionalidades, foi tornada uma lei universal; e, segundo, penalidades muito rigorosas foram anexadas ao crime de alcovitar a evanescência de qualquer um. Quer isso fosse efetuado diretamente quer indiretamente, não fazia nenhuma diferença na penalidade, a qual era a evanescência do perpetrador pelo processo da unidade de dez milhões aplicado a um gato de nove caudas.
Alguns anos depois, outra resolução foi aprovada para o efeito de que é inconveniente que qualquer cidade devesse ser permitida exceder o limite de mil habitantes. Isso foi promulgado antes como uma recomendação do que como um estatuto vinculante. O legislativo foi induzido a aprová-la em consequência da congestão da população em Lasondre, a qual tinha sido unanimamente selecionada como a metrópole e sede de governo. As vantagens naturais dessa situação, no início de um vasto recuo do [79]continente por uma baía do oceano central, o seu cenário magnifico e clima delicioso, tornaram-na uma residência tão desejável que, à época quando essa resolução foi aprovada, a população já tinha alcançado o número incrível de dois milhões; ela ainda estava aumentando, e as inconveniências resultantes eram tão múltiplas e severas, que foi adicionalmente resolvido emigrar os cidadãos em excesso através do auxílio da lei cíclica.
Não deve ser suposto que, durante todas as eras que tinham passado antes do estabelecimento do parlamento mundial, a especulação não tivesse sido frequente entre os hesperianos quanto à natureza e significância do despertar súbito e misterioso para a vida que todos simultaneamente experienciaram. De fato, foi bastante o inverso. Desde o período mais inicial, mesmo desde a época quando pequenos grupos deles tinham inventado as primeiras formas rudes de linguagem, as questões de como eles tinham sido formados, como [80]eles foram convocados para a vida, de onde eles tinham vindo, e para onde eles estavam indo, tinham sido iniciadas, discutidas, resolvidas, as soluções rejeitadas, abandonadas por um tempo como sem esperança, novamente retomadas e, tão zelosamente quanto sempre, rediscutidas com os mesmos resultados que antes. Tudo que era concordado era que Algo os tinha criado, e tinha criado-os para algum propósito. Mas que esse Algo ou não pode ou não desejou falar com eles, ou manter qualquer tipo de comunicação com eles era um fato patente, e isso causava sofrimento indizível para o mente hesperiana.
Nas épocas antigas, todas as pessoas estavam tão ocupadas com as preocupações inevitáveis para o suprimento das necessidades da vida; e, além disso, estavam tão profundamente interessadas na investigação das leis físicas do mundo no qual elas foram posicionados, de modo que essa fonte crescente de tristeza e ansiedade não produzia tanto efeito sobre elas como ela fez em tempos posteriores. Mas, mesmo então, dificilmente havia uma pequena cidade a ser encontrada que não tivesse, [81]entre os seus prédios públicos, algum tipo de templo, com a inscrição, “Ao Deus Desconhecido,” a quem eles adoravam e por quem ansiavam ignorantemente, mas em vão.
E, não apenas eles estavam nesse estado de escuridão com respeito ao Criador deles, em consequência da ausência de qualquer forma de uma revelação direta, mas, estando absolutamente isolados de todo o conhecimento do restante do universo, pela estrutura física da atmosfera deles, eles também estavam impedidos de O alcançar através do meio das obras Dele. A barreira de nuvens, o qual os abriga dos ferozes raios do sol, é impenetrável pela visão, e, dessa maneira, até onde se diz respeito a qualquer conhecimento do sol, e dos planetas e das estrelas, eles poderiam tão bem ter sido uma raça de homens cegos. Como era que a cobertura sobre as cabeças deles passava regularmente, no curso de vinte e três horas e meia através das duas vazes de claridade e escuridão, era para eles um fenômeno inexplicável. Todos os tipos de conjecturas, [82]hipóteses, teoria, eram aventurados, mas nenhum era aceito. O fenômeno nem mesmo era universal. Em um lugar, perto do centro do continente e por uma distância considerável ao redor dele, a alternação entre luz e escuridão seguia uma lei bem diferente. Pois, em vez de a mudança ocorrer em intervalos de umas poucas horas, a luz brilhava firmemente por mais do que cento e vinte e um dias, e era seguida por um período quase tão longo de escuridão. Era um enigma inescrutável. Alguns diziam que em uma ou duas ocasiões uma corpo circular e brilhante tinha sido visto vagamente por uns poucos momentos através da névoa e que isso possivelmente poderia ter algum coisa a ver com a iluminação. Mas o fato foi desacreditado, e a aparição alegada atribuída ou a uma ilusão de óptica ou mentira deliberada. Portanto, os observadores sendo invariavelmente tratados ou com desdém ou violência pessoal, a teoria desapareceu.
Entrementes, grande progresso continuou a ser [83]realizado em todos os departamentos da ciência física. Os vários ramos da matemática foram extensa e exitosamente estudados, e os hesperianos tornaram-se geômetras muito especialistas. A arte da construção de embarcações logo foi levada a um alto grau de excelência, e vários métodos de propelir as embarcações foram inventados pelos engenheiros mecânicos. Uma propulsão tão artificial foi quase indispensável, visto que as calmas predominantes tornavam o uso de velas indisponível. Um dos primeiros princípios motores extensivamente empregados foi o uso expansivo do vapor de água, elevado a uma alta temperatura; e por muitas centenas de anos essas embarcações curiosas estiverem em uso efetivo. Eu vi várias delas que ainda são mantidas em um vasto museu marítimo em Lasondre. Os motores a vapor propeliam as embarcações ou através de grandes rodas dotadas de tábuas que giravam na água, ou através da ação de uma mais hélices na popa, as quais funcionavam muito como a cauda de um peixe faz ao [84]empurrar o animal adiante. Mas o uso do vapor de água como um motor foi considerado envolver um desperdício terrível de energia, e desde então há muito foi abandonado.
O progresso da ciência química levou à descoberta de um suprimento inesgotável de energia, a qual combina todas as vantagens de pouco custo, extrema portabilidade, força sem resistência, imunidade de risco e aplicabilidade universal. Tudo isso foi obtido pelo trabalho firme e perseverança indomável de três químicos que, contrários ao costume, dedicaram-se a esse único ramo da ciência por vários períodos cíclicos consecutivos da carreira deles. Não sendo habilidoso em conhecimento químico, eu fui incapaz de compreender a natureza da descoberta deles; mas foi-me dito que ela consistia na aplicação de certas leis de combinação entre vários gases, cada um dos quais é fácil de manufaturar e armazenar.
ORIGINAL:
BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 74-84. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/74/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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