A Grande Busca dos Imortais XII Das Grandes Mudanças Sociais que resultaram a partir da Descoberta da Indestrutibilidade da Vida

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


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[150]Capítulo XII Das Grandes Mudanças Sociais que resultaram a partir da Descoberta da Indestrutibilidade da Vida


Quando esse período de familiarização de todos com todos tinha sido alcançado, muito pouco tempo interveio antes que um sistema completamente socialista fosse estabelecido através do mundo todo. De fato, logo se tornou óbvio para todos que a propriedade privada agora tinha se tornado uma estorvo desajeitado. A substituição pelo socialismo foi grandemente facilitada pela extrema facilidade com o qual todas as necessidades, e a maioria dos luxos, da vida era adquiríveis. Isso era parcialmente devido às condições climáticas e outras do planeta, e parcialmente, ao progresso extraordinário que tinha sido realizado nas [151]ciências físicas no geral, e na química, em particular. A abundância universal da vida vegetal já tinha sido observada, e também a ausência de todos os tipos nocivos e destrutivos do reino animal. A comida, na forma de frutas comestíveis, crescia em todo lugar e em abundância supérflua; e, para todos que ficavam cansados dessas, um equivalente perfeito para a carne de animais estava perfeitamente disponível.

Muito antes disso, os químicos hesperianos tinham resolvido o problema, o qual ainda confunde seus irmãos terrestres, da formação artificial de compostos orgânicos a partir dos seus componentes últimos. Por exemplo, a carne assada aparente com a qual eu fui regalado em minha primeira manhã em Lucetta, há pouco tinha sido manufaturada a partir de um pouco de carbono, azoto e água, com uma pequena mistura de flúor e potássio, sem interferir com e perturbar qualquer animal que seja. Todos os fornecedores de provisões eram bons químicos. É verdadeiro que há alguns milhares de anos, os hesperianos foram [152]do hábito de comerem comida de origem animal, mas a prática tinha estado abandonada por eras e, agora, era considerada com repugnância. Leite e manteiga e ovos também eram manufaturados com facilidade igual, e de excelência singular, a partir de materiais similares.

É o bastante sobre o suprimento de comida. Quanto à vestimenta deles, ela é excessivamente simples, e é feita exclusivamente a partir de produtos vegetais. De fato, ela é usada meramente como uma proteção contra calor ou frio; pois a noção de haver alguma coisa indecorosa em aparecer em um estado de nudez não tem existência na mente hesperiana. Dessa maneira, duas das principais carências tinham sido facilmente supridas, a população sendo toda pessoalmente conhecida uns dos outros, e a uma consideração devida pelos desejos dos seus vizinhos sendo universalmente reconhecida como um fundamento de obrigação moral – enraizada como essa tinha sido na disposição de cada um através de eras de exercício – o estabelecimento de um sistema socialista perfeito foi facilmente alcançado.

[153]O estado da sociedade que, à época da minha visita, prevalecia sobre o planeta inteiro, era um que não poderia ter existido sob condições menos favoráveis de vida. Ele não era baseado na teoria quimérica de que todos deviam se sacrificar por todos; e, desse modo, unir em cada pessoa os caracteres incongruentes de um bebê ávido com um santo abnegado – egoista e inescrupulosamente tomando dos outros os frutos do labor deles, enquanto altruisticamente entregando seja o que ele tivesse obtido pelo seu próprio trabalho duro. Longe disso: o sistema hesperiano estava fundado sobre a doutrina justa e racional de dar e receber, honestamente levada a cabo. Ninguém estava afligido por um desejo inescrutável de empurrar uma “felicidade” sobre o seu vizinho, a qual ele, por si mesmo, repudiava com desprezo. Os dons da natureza eram tão liberais que uma pequeno montante do trabalho diário da parte de cada pessoa era suficiente para quitar o débito dela com a sociedade; e, por cada um, esse montante era considerado [154]como um débito rigoroso de honra, nunca a ser evitado ou evadido de qualquer maneira.

No apontamento dessa quantidade prescrita, foi uma máxima reconhecida na prática que, sempre que fosse possível, a inclinação do trabalhador deveria ser consultada. Comissários especiais confiados com essa tarefa eram nomeados de tempos em tempos em cada cidade e distrito. O trabalho prosseguia com grande suavidade. Cada um estava ansioso para fazer a sua parte honestamente. Não havia nenhum daqueles patifes ociosos cujo único objetivo é vadiar em ociosidade ao custo dos seus vizinhos, e cuja existência em outros lugares torna toda forma de socialismo uma impossibilidade, exceto sob um sistema de espionagem tão rigoroso quanto a tornar a vida um peso intolerável. Por essa época, todo mundo sendo bastante competente para o trabalho de cada tarefa ou profissão habilidosa, trocas de tarefas alocadas era facilmente efetuadas. Quanto mais penoso o trabalho, mas curto era o tempo requerido do [155]trabalhador. Às vezes aconteceria que um homem ou uma mulher desejaria, em vez de trabalhar por um curto período a cada dia, executar uma tarefa longa através de labor contínuo, de modo a ter tempo livre depois para alguma atividade especial: essa também era uma questão facilmente arranjada.

Essa organização de labor não foi um negócio quase tão complicado quanto uma tarefa similar seria se tentada na Terra, mesmo se nós devêssemos assumir que o caráter terrestre mediano fosse tão bem condicionado quanto aquele dos hesperianos. Pois é evidente que, sob as condições hesperianas de vida, o número de vocações e profissões separadas é comparativamente pequeno. Um mundo onde não há crianças não tem necessidade par ao vasto maquinário da educação; o grande exército de mestres-escola, tutores e professores não existe. A ausência da morte deixa nenhum lugar para o agente funerário e seus satélites medonhos. Não há clericato, pois não há Deus conhecido.

Como eu já observei, a ciência médica está [156]em uma condição muito estranha, ou antes não existe. A dissecação das partes vitais do corpo sendo impossível, o médico fica em dívida com a analogia dos animais inferiores para suas hipóteses quanto à estrutura do ser racional. Afortunadamente, doenças são desconhecidas.

Quanto à cirurgia, uma revolução singular nessa prática foi o resultado imediato da descoberta da natureza real da evanescência. Em épocas anteriores, antes que o cansaço da vida tivesse se assentado em qualquer grande extensão, a ocorrência de qualquer lesão grave, a qual, embora não fatal, fosse suficiente para envolver uma mutilação séria, ou a perda inteira de órgãos da percepção, era uma calamidade tão grande que os habitantes da Terra, confinados como eles estão a uma vida corporal curta, considerariam difícil, mesmo em imaginação, compreender a sua severidade. A despeito de todas precauções, tais acidentes ocorriam, e os sofredores infelizes, relutantes em renderem sua existência inteira, frequentemente consentiriam em [157]passar por operações que tinham o efeito de os deixarem para residirem para sempre como troncos sem esperança, mutilados. Assim, os cirurgiões hesperianos eram habilidosos amputadores de membros, e eles poderiam, e frequentemente o faziam, realizar outras operações sérias para o propósito e preservar o paciente da evanescência. Ainda assim, o sucesso deles era bastante pequeno, pois a condição miserável do sofredor usualmente levava à extinção da vida dele sob a lei metronômica da balança adversa – de fato, a evanescência era apenas postergada.

Mas, conforme o cansaço do mundo ganhava terreno, poucos foram descobertos que estavam dispostos a adquirir a vida a um preço tão pesado. E finalmente, quando a verdadeira natureza da evanescência foi entendida, todas as operações, exceto aquelas do caráter mais insignificante, cessaram imediatamente. Sempre que um acidente sério ocorre, um anestésico suficientemente poderoso para destruir a vida é administrado, e o paciente desperta imediatamente, com seu organismo restaurado, no polo sul.

[158]O estabelecimento completo do sistema comunista também contribuiu para a simplicidade dos arranjos sociais no planeta; na medida que todas as profissões multifárias que são acidentais à posse da propriedade privada colapsaram de uma vez. Não há mais necessidade para advogados, defensores, banqueiros, corretores de bolsa – ainda menos para corretores de ações – e a grande multidão anteriormente requerida para servir como policiais, guardas costeiros e fiscais, agora estava livre para ocupações mais diretamente úteis.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 150-158. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/150/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Grande Busca dos Imortais XI Aqui começa a História Moderna de Hésperos

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


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[135]Capítulo XI Aqui começa a História Moderna de Hésperos


Como os dois hemisférios foram amalgamados – Sobre o Telégrafo Simpático; e como o grande espanto dos hesperianos à primeira vista do Doutor foi completamente explicado.


Na manhã após o retorno da embarcação, o parlamento reuniu-se e imediatamente passou um voto para a construção de uma grande frota de embarcações submarinas, para serem construídas no padrão da original, cuja viagem tinha se provado tão exitosa. Era evidente que o intercurso em uma grande escala ocorreria entre os dois hemisférios. A jornada sul, como agora era bem conhecida, poderia ser efetuada de uma maneira bastante diferente; pois um golpe energético [136]sobre a cabeça propiciava ao viajante intencionado uma passagem rápida e gratuita para o polo sul. Mas havia muitas objeções a esse modo de transporte; e, em todo caso, a jornada de retorno estava estritamente confinada à rota submarina.

Assim a nova frota foi imediatamente colocada nos suportes, e todos os estaleiros foram providos com trabalho em abundância por vários anos. Entrementes a embarcação original foi mantida em trabalho duro. Em cada viagem, e em ambas direções, ela estava lotada com passageiros, alguns ansiosos para ver o novo mundo descoberto, outros ansiando para revisitar as cenas da sua vida antiga. Logo, como um dos resultados da descoberta, ali surgiu uma questão importante em direito internacional. Se aquelas pessoas, agora residindo no hemisfério sul, e sujeitas ao governo dele, mas cuja evanescência tinha ocorrido subsequentemente ao estabelecimento do império universal do norte, ainda estavam vinculadas pela sua aliança nortista, [137]ou, tinha o fato da evanescência exonerado-as dessa aliança, desse modo, deixando-as cidadãs legais do sul.

A questão envolvia alguns belos argumentos; mas afortunadamente nunca houve ocasião para a tornar um problema. Pois, as vantagens surgindo a partir do amalgamento de todos os governos nortistas em um império universal eram tão manifestas, e foram tão completamente apreciadas mesmo no sul, que a união dos dois hemisférios em um único império planetário universal ocorreu muito rapidamente. De fato, ela ocorreu imediatamente depois que a importante questão preliminar foi resolvida, Em qual hemisfério deveria ser fixado a sede do governo central? Muitas circunstâncias pareciam sugerir que ela deveria ficar no sul e no polo.

A explicação da significância real da evanescência, a qual, por fim, revolucionou a vida hesperiana, não foi a única peça de informação surpreendente importada para [138]Lasondre pela embarcação submarina na sua primeira viagem de retorno. Mesmo em meio à estupefação geral ocasionada pelo retorno dos mortos, o anúncio de outra descoberta extraordinária excitou a atenção dos cidadãos. Essa não foi menos do que um método através do qual comunicação instantânea poderia ocorrer entre duas pessoas, não importa quão amplamente separadas elas pudessem estar na superfície do planeta.

A descoberta foi feita desta maneira. Aproximadamente mil anos antes, um homem quem era um estudante sério da ciência química, esteve engajado em tentar alguns experimentos em Lucetta. Esses experimentos eram de um caráter muito perigoso; e um dia, a despeito de todas as precauções, uma explosão terrível ocorreu. Tão violenta ela foi, e a tão minúsculos foram os fragmentos aos quais o corpo do experimentador foi reduzido, que escassamente houve necessidade da primeira lei de evanescência operar para remover os restos da [139]terra dos vivos. É claro, ela operou, e o químico foi devidamente reintegrado no polo sul. Como usual, ele foi recebido pelo comité de vigilância, quem explicaram para ele, como eles estavam obrigados por dever para o fazer, as circunstâncias da sua nova vida.

O químico, nada intimidado, propôs continuar seus experimentos; e as autoridades sulistas, ouvindo sobre a natureza deles, e suspeitando que uma série considerável de desintegrações e reintegrações súbitas do corpo dele eram prováveis de resultar, gentilmente atribuíram a ele um laboratório bastante perto do polo – um fato que materialmente facilitou a descoberta memorável que logo recompensou os labores dele.

A uma distância de umas poucas milhas para o leste há uma colina que é principalmente composta por um mineral de aparência singular, o qual, até agora, não foi encontrado em nenhum outro lugar no planeta. Esse mineral ocorre em uma profundidade muito abaixo da superfície, em massas separadas, [140]nenhuma delas excedendo dez libras em peso, é de uma cor verde brilhante, e possui a propriedade notável de muito facilmente se dividir em bastões excessivamente finos, não mais espessos do que uma agulha ordinária.

Desejando fazer uma análise desse mineral, o qual os sulistas chamavam de molygdon, o químico adquiriu uma grande quantidade desses bastões, cortou-os em comprimentos de umas poucas polegadas, e amarrou-se apertado em pacotes que ele deixou por alguns dias em uma prateleira no seu laboratório até que ele estivesse pronto para os examinar. Quando ele estava com tempo livre, ele tomou um desses pacotes, desamarrou-o, e jogou os pequenos bastões em um recipiente chato cheio de água, no qual eles flutuaram, a gravidade específica deles sendo pequena. Para a grande surpresa dele, os bastões rapidamente assumiram posições paralelas umas às outras. Ele torceu um deles um pouco fora da sua direção, então todos os outros viraram através do mesmo ângulo, de modo que o paralelismo permaneceu.

Finalmente, após uma série longa e cuidadosa de [141]experimentos, ele sucedeu em estabelecer a seguinte lei importante: - Duas agulhas de molygdon que tinham sido mantidas em contato próximo por não menos do que trinta e seis horas em qualquer ponto não excedendo trezentas jardas de distância do polo sul, possuem a propriedade de sempre permanecerem em paralelo umas às outras, elas sempre ficam livremente suspensas em planos paralelos, não importa como elas estejam situadas com respeito umas às outras na superfície do planeta.

Essa descoberta propiciou um modo fácil de comunicação imediata entre quaisquer dois lugares no hemisfério sul. Tudo o que era necessário era suspender duas agulhas, tornadas simpáticas pelo processo acima, em eixos nos centros de dois cartões circulares. Um código de sinais foi facilmente concebido para propósitos ordinários; e, posicionando as letras do alfabeto ao redor das bordas dos cartões, comunicação verbal poderia ser levada a cabo.

Logo após essa descoberta dessa importante [142]lei da natureza, o parlamento sulista resolveu utilizá-la em uma vasta escala ao fundar uma instituição que possibilitaria a quaisquer duas pessoas, mesmo sem estarem de posse de duas agulhas diretamente simpatizantes, comunicarem-se uma com a outra. Era estimado que a população do sul não ficasse muito abaixo de vinte e cinco milhões. Portanto, vinte e cinco milhões de pares dessas agulhas simpáticas foram manufaturadas, e cada agulha foi montada em uma caixa circular adequada. Isso foi feito à despesa nacional; a intenção sendo que uma caixa devesse ser dada a cada habitante do sul, a caixa correspondente sendo depositada em um prédio a ser erigido na metrópole para o propósito especial da custódia segura das duplicatas. Como cada caixa era um pequeno cilindro, não excedendo três polegadas de diâmetro e uma polegada de altura, nenhum espaço muito grande foi requerido para a acomodação delas. Essas duplicatas foram todas arranjadas em ordem e numeradas; [143]o número correspondente sendo estampado em cada caixa simpática.

Dessa maneira, o processo de conversação tornou-se muito simples. Por exemplo, o nº 23.482.657 deseja dizer umas poucas palavras para o nº 10.334, que está em algum lugar, mas onde, ele não sabe, no hemisfério sul. Ele envia a sua mensagem para o entreposto central. O movimento da agulha ali ressoa um pequeno sino e exibe uma marca banca na fronte da caixa. O atendente de plantão baixa-a, lê a mensagem; então, pegando a caixa nº 10.334, ele repete-a para o correspondente requerido. É claro, quaisquer dois amigos particulares que possam ter ocasião para conversação frequente, podem ter, adicionalmente, duas agulhas especiais com as quais eles podem comunicar-se diretamente.

Todos os passageiros na embarcação submarina foram munidos dessas caixas, e, à sua chegada em Lasondre, a questão de se a influência simpática estendia-se ao hemisfério norte foi imediatamente [144]decidida no afirmativo. A comunicação com o polo sul era exatamente tão fácil a partir do lado norte quanto a partir do lado sul do equador.

Dessa maneira, o polo sul sendo o centro mais conveniente para a comunicação com a inteira superfície do planeta, evidentemente tinha fortes reivindicações como o local da metrópole universal. E antes de dois anos, datando-se depois do retorno da embarcação, estava feito, o planeta inteiro estava unido em um vasto império, e a sede do governo fixada em Australis, como nós podemos chamar a cidade do polo sul.

O governo unido imediatamente estendeu a todo o mundo o sistema de sinalização que tinha sido tão exitosamente realizado no sul; é claro, isso envolveu uma adição enorme ao depósito em Australis. E agora, pela primeira vez, o número exato da criação primeva dos habitantes racionais estava definitivamente determinado. Foi descoberto que, na época da [145]embarcação, havia 70.589.347 pessoas no hemisfério norte e, no hemisfério sul, 29.410.653; desse modo, a população total, a qual nunca tinha aumentado, nem, como nós há pouco aprendemos, diminuído, era, como antes afirmado, de exatamente cem milhões de habitantes, e esses estavam igualmente divididos entre os sexos masculino e feminino.

Vários anos tinham se passado depois do retorno da embarcação antes que a mudança estupenda que tinha sido operada na condição dos hesperianos, pelo conhecimento que eles tinham adquirido da indestrutibilidade da vida, começasse a produzir os efeitos que posteriormente se tornaram conspícuos. Eles eram essencialmente uma raça amante de viagens, e o grande estímulo dado a essa propensão pela descoberta de um novo hemisfério parece ter absorvido uma grande parte das energias deles por um tempo. Além disso, a época foi imediatamente marcada pela completa cessação da evanescência involuntária – em outras palavras, do suicídio, o qual, sob a influência do cansaço do mundo amplamente [146]difundido, tinha se tornado comum demais durante a última época. Quando foi claramente entendido que a evanescência apenas significava mudança de lugar, o costume ignóbil chegou a um fim.

É bom notar que, na época da união, o império sul, embora numericamente muito inferior ao norte, tinha alcançado um estágio muito mais elevado de desenvolvimento tanto moral quanto político. Essa superioridade é facilmente explicada. Por milhares de anos os sulistas tinham estado familiarizados com as verdadeiras condições de vida; quer dizer, eles tinham conhecido que cada indivíduo é uma unidade permanente, de nenhuma maneira para ser obliterada; e portanto, que é conveniente para a sociedade fazer o melhor dele. Esse mesmo conhecimento também reagiu sobre o indivíduo, por disposto que ele pudesse ter sido por natureza. Ele sabia perfeitamente bem que não poderia se livrar da sociedade do que a sociedade poderia livrar-se dele; de fato, que a sociedade era de longe o mais forte dos dois, e, por [147]essa razão, era evidentemente do interesse dele comportar-se, pelo menos, de uma maneira inofensiva. Foi invariavelmente descoberto que um tal curso de comportamento, firmemente mantido por um período estendido, reagia tão fortemente até sobre um caráter maligno que, em um século ou dois, o sujeito tornava-se um membro digno da sociedade.

O império norte, por outro lado, como era acreditado e, de fato com verdade, que um vizinho indesejável e problemático poderia ser suprimido a qualquer momento, ou pelo enforcamento ou algum método equivalente, a legislação criminal parece ter antes visado à extirpação do que à reforma do ofensor. Mas, depois da era da embarcação, e a união subsequente do planeta inteiro, tudo isso foi muito rapidamente mudado.

Através do inteiro período de dez mil anos que, na época da minha chegada, tinham passado desde o começo da história moderna, nenhuma descoberta revolucionária tinha ocorrido. Mas, lenta e silenciosamente, uma [148]mudança ocorreu nos caráteres dos hesperianos, a qual, por fim, levou à remodelação completa da maior parte das suas instituições sociais. A evanescência, exceto como o resultado de acidente, desapareceu inteiramente, pois a época de violência tinha passado, a punição capital era uma impossibilidade, e o suicídio, uma ebulição infrutífera de temperamento. A tolerância forçada de cada um por cada um, produziu, no curso das eras, como o seu resultado inevitável, uma gentileza grandemente intensificada de disposição e semblante; e isso ainda foi adicionalmente ajudado quando o progresso do tempo, combinado com a fixidez absoluta da população, causou o estranho estado de coisas de que cada indivíduo estava pessoalmente familiarizado com cada outro membro da multidão hesperiana. O número desses conhecidos era 99.999.999.

E agora nós temos a explicação da grande intensidade do espantos que o meu aparecimento súbito em Lucetta excitou naquela cidade. Embora não diferindo muito [149]ou em pessoa ou em vestimenta de muitos deles mesmos, contudo, o mero fato de ser um estrangeiro para eles foi evidência suficiente para que eu fosse uma nova criação no planeta, ou tivesse vindo de outro mundo. Em qualquer caos, a minha chegada deu esperança para eles de que alguma luz estava prestes a ser lançada sobre a grande questão, a qual os tinha vexado por tanto tempo – Quem era o Criador do Universo?


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ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 135-149. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/135/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Grande Busca dos Imortais X O Habitante Mais Velho do Sul relata a sua História

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


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[128]Capítulo X O Habitante Mais Velho do Sul relata a sua História


O habitante mais velho do Sul relata sua história – Como a informação terrível foi recebida no Norte.


Como a viagem de retorno ocupou vários dias, os engenheiros tiveram uma boa oportunidade para obter dos passageiros muita informação interessante relativa à história passada e condição presente do hemisfério sul. Tanto na estrutura física quanto na configuração as porções norte e sul do planeta era muito similares; um grande continente polar, com muitas ilhas fora da costa, sendo uma característica comum de ambo. O polo sul mesmo é situado no meio de um vale muito amplo e fértil, cercado por colinas inclinando-se gentilmente. O clima é delicioso, especialmente [129]na primavera e no outono; e essa atração, combinada com o fato de que o polo, até agora, tinha sido a única porta de acesso para o hemisfério, levou à seleção dele como o lugar da metrópole sul.

O habitante mais velho se provou inestimável como um historiador. O relato dele da origem e do crescimento gradual da cidade foi como se segue: - “Quando me encontrei estendido no terreno do polo, eu não tinha concepção do que tinha acontecido, ou até que tinha sido movido de um lugar para o outro. Eu lembrei-me distintamente da luta na qual tinha estado engajado, da minha própria exasperação, e dos gestos furiosos do meu antagonista. Mas ele tinha desaparecido completamente, e o lugar onde eu agora me encontrava era bastante diferente da cena do combate. Eu levantei-me e olhei ao redor. A região era similar ao meu antigo local de morada; a mesma abundância de árvores frutíferas; os mesmos córregos puros de água; mas as colinas e montanhas eram bastante diferentemente [130]formadas e combinadas. Eu não pude ver nenhum sinal de vida racional; o silêncio foi quebrado apenas pelo canto doce dos pássaros, dos quais, como antes, havia muitos tipos.”

Enquanto eu ainda estava perdido em assombro diante do que tinha ocorrido, ali subitamente apareceu, no ponto exato do terreno onde, há uns poucos minutos, eu tinha despertado para nova vida, outro homem estendido sobre a grama. Há um instante, nenhum traço dele era visível. Por um momento, eu imaginei que ele devia ser o meu antagonista recente e, instintivamente, eu preparei-me para renovar a batalha. Mas ele revelou-se ser um homem que eu nunca tinha encontrado antes; a fala dele era ininteligível para mim, como a minha para ele. Separamo-nos; ele caminhou para buscar sua fortuna em outro lugar, enquanto eu permaneci na vizinhança do ponto estranhamente habitado que agora é conhecido como polo norte.”

Logo muitas chegadas ocorreram da mesma maneira misteriosa. Eu necessariamente [131]tenho de omitir os detalhes; será suficiente dizer que antes que muitos anos tivessem expirado, uma população equivalendo a vários milhares cercou o polo. Como a maioria desse homens, e mulheres também, chegou em consequência de lesões mortais recebidas em lutas, revelou-se que eles eram, como uma regra, de disposições desordeira e briguenta, e, dessa maneira, por muitos séculos, a região amável foi pouco melhor do que um pandemônio.”

Mas gradualmente as coisas começaram a melhorar. Em meio às importações, sempre havia uma minoria respeitável de pessoas ordeiras, cuja evanescência tinha sido causada ou por acidente e quando honestamente lutando em autodefesa. A ordem sempre teve uma tendência a prevalecer sobre a violência desordenada. O partido da ordem combinou-se e formou um corpo compacto do lado do governo regular. Um tipo de comité de vigilância foi estabelecido para manter guarda no polo mesmo. A função especial desse comité foi encarregar-se de todas as novas [132]chegadas, para explicar para eles o estado atual de coisas no sul, e para os recrutar para o lado correto.”

Dessa maneira, finalmente, o período anárquico chegou a um fim. Depois do estabelecimento do império universal no norte, e a consequente cessação de guerra internacional, a imigração para o polo sul diminuiu enormemente. Não mais se ouviu de coisas tais como lotes de várias centenas chegando no curso de uns poucos minutos de um campo de batalha. Os desordeiros mesmos mostravam sinais de reforma; eles nunca foram intrinsecamente maus, e agora eles se comportavam tão bem quanto qualquer um no sul.”

Os comparativamente poucos que continuavam a cair do norte provaram-se serviço inestimável. Como vocês estão cientes, eles ensinaram-nos a linguagem universal, e eles sempre nos tem mantido bem informados da história e das descobertas do mundo maior. Devido à grande congestão de população na metrópole que naturalmente [133]resultou a partir das condições de imigração, foi considerado necessário, há aproximadamente dois mil anos, adotar medidas muito rigorosas para o seu abatimento, e grandes números dos habitantes foram removidos para outras partes da região. Uma vez que o tempo do limite norte de cem mil tinha sido rigidamente observado.

Essa foi a parte principal da informação dada à tripulação de engenheiros, enquanto eles seguiam o seu curso norte através das águas suaves do mar do sul. Quando a zona equatorial foi alcançada, eles desceram uma vez mais baixo das ondas e, através do mesmo processo e com menos dificuldade do que antes, eles efetuaram a sua passagem. No vigésimo segundo dia, depois da ausência total de cinquenta e três dias, eles chegaram em segurança no porto de Lasodre.

Por essa altura, o retorno deles era esperado na metrópole norte, e a ansiedade do povo tinha subido a grande intensidade. Enquanto a embarcação estava entrando no porto, a [134]população inteira aglomerou-se no cais. A cidade estava coberta com todo sinal de regozijo, e o estrondo de tons doces dos grandes sinos nas torres da vasta catedral mundial, erigida em honra do Desconhecido, encheram o ar com a música deles. Mas, quando os engenheiros desembarcaram com a sua companhia que tinha retornado dos mortos, e quando o conhecimento do que tinha sido descoberto se espalhou para a cidade, tudo foi silenciado. Não obstante, houve alegria diante da segurança da tripulação, e da visão inesperada dos amigos; mas o temor era o sentimento predominante. A certeza da vida eterna e do fechamento para sempre da única porta de saída não foram levemente recebidos. A informação terrível foi imediatamente comunicada ao mundo, e a história moderna de Héspero começou.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 128-134. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/128/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Grande Busca dos Imortais IX Do Desenvolvimento do Cansaço do Mundo em Hésperos

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


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[113]Capítulo IX Do Desenvolvimento do Cansaço do Mundo em Hésperos


Do desenvolvimento do Cansaço do Mundo em Hésperos; e da segunda tentativa de atravessar o Tornado Equatorial – Como a Esperança Perdida teve sucesso e descobriu uma Cidade dos Mortos – Como o mistério terrível da Evanescência foi explicado; e como a tripulação partiu em seu retorno.


Mas, a despeito do sucesso notável que tinha acompanhado os seus labores, não pode haver nenhuma dúvida de que durante os próximos mil anos um sentimento geral de melancolia e desânimo gradualmente se assentou sobre a raça hesperiana. Que as descobertas brilhantes dos astrônomos tinham falhado em lançar a luz mais fraca sobre a questão das questões – Quem era o Criador deles? – era um fato que não poderia dissimulado. Uma resposta para isso estava tão longe quanto sempre esteve – mais longe ainda, de fato. Eles tinham [114]aprendido sobre a enorme extensão do universo, e, como uma consequência, que os hesperianos, tão longe de esgotarem os seus conteúdos, não eram nada mais mais do que pontos insignificantes em suas profundezas insondáveis. Na profusão vasta de mundos, eles sentiram-se perdidos. Se o Criador deles estivesse encarregado daquele vasto universo, ele bem poderia ter esquecido completamente deles. Então, porque eles não deveriam desistir da vida? A porta de saída estava sempre aberta. Uma queda do precipício mais próximo era sempre fácil, e a dissolução instantânea do corpo era um remédio infalível para todo mal.

Esse sentimento de descontentamento com a vida, ou de geral cansaço com o mundo, alcançou um clímax nos anos concludentes desse período; e a sua existência na mente de um pequeno bando de engenheiros práticos foi certamente a causa principal que levou à descoberta terrível de que posicionou uma linha indelével de distinção entre as histórias antiga e moderna de Hésperos.

Embora apenas o hemisfério norte [115]fosse acessível para exploração, por essa época era perfeitamente bem conhecido que o planeta é uma esfera. Consequentemente eles consideraram não absolutamente improvável que no sul uma condição similar às calmarias do norte poderia corresponder; e que o furacão crônico que até agora barrava a passagem para o oceano sul poderia provar-se estar confinado a uma zona não excedendo umas poucas centenas de milhas em largura. Devesse esse ser o caso, talvez ele pudesse ser ultrapassado, e um continente sul, descoberto. Isso desenvolveria grandemente a ciência astronômica; nada menos do que um hemisfério de estrelas não vistas poderia ser trazido à visão. Além disso, um trânsito de Mercúrio através da face do sol ocorreria em uns poucos anos; e, para utilizar isso, a colocação de um observatório no hemisfério sul era essencial.

Ocorreu para um desses engenheiros que, embora nenhuma embarcação que flutuasse sobre a superfície do oceano possivelmente pudesse sobreviver ao tornado equatorial, poderia ser víavel divisar uma [116]embarcação submarina que, ao afundar-se a uma profundidade muito grande abaixo da superfície, poderia atravessar as quatrocentas ou quinhentas milhas de cataratas furiosas e, então, emergindo a partir das profundezas, poderia encontrar um mar mais suave.

Contudo, era evidente que, quem quer que se aventurasse em tal serviço tinha de estar contente de incorrer no risco eminente de destruição completa. Ninguém poderia se aventurar a conjecturar quão profundamente o distúrbio aparentemente preternatural poderia alcançar; ou que horrores fatais para qualquer forma de vida poderiam ser encontrados naqueles abismos terríveis. Assim, exceto por aquele sentimento de cansaço com a vida que estava crescendo rapidamente através do mundo, não é absolutamente improvável que um corpo de voluntários, suficientemente numerosos, poderia ter sido encontrado para um serviço de perigo tão excessivo. De fato, em um aspecto, mas apenas em um, esse novo empreendimento não tinha um aspecto tão terrível quanto aquele que tinha sido empreendido pelos viajantes anteriores e não exitosos para o sul. Aqueles viajantes anteriores efetivamente tiveram de se aventurar no infinito, [117]pois eles não tiveram nenhuma pista para a forma ou extensão do mundo deles; mas, graças aos astrônomos, agora era bem conhecido que, em todo caso, o planeta é limitado em todas as direções.

O engenheiro comunicou o plano dele a alguns dos seus camaradas e, após tentar muitos experimentos em navegação submarina em pequena escala, eles tiveram sucesso na construção de um bote modelo, o qual prometia muito para sucesso. O próximo passo deles era reunir um número suficiente de voluntários; eles consideraram que cinquenta seriam suficientes. Devido ao sentimento desanimador então predominante, os cinquenta, uma esperança perdida, logo foram encontrados. Então eles requisitaram ao parlamento mundial os fundos necessários para a construção e o equipamento da embarcação, os quais seriam um empreendimento muito custoso, em consequência da enorme força que seria necessária para resistir à pressão da água nas grandes profundezas às quais eles estariam obrigados a descer. Mas, no interesse da descoberta científica, os fundos foram prontamente [118]fornecidos; os trabalhos foram começados sem nenhuma demora; e, em aproximadamente dois anos, a embarcação estava completa. Ela foi suprida prodigamente com reservas de comida e força, e cada necessidade que poderia ser concebida; e os cinquenta embarcaram e partiram para o sul, nenhum deles esperando, ou, de fato, desejando, alguma vez retornar.

Todos eles eram excelentes engenheiros e astrônomos experimentados; de fato, a esperança de expandir o campo da segunda ciência certamente teve alguma influência em os mover à sua expedição. Eles continuaram sobre a superfície da água até que se aproximaram da região tempestuosa. Nessa eles penetraram, ainda se mantendo na superfície, até que a violência das ondas tornou-se tão grande que não era mais possível conduzir a embarcação. Então eles pararam os motores de propulsão e, abrindo as válvulas que admitiram água dentro dos tanques, afundaram-se lentamente nas profundezas. À profundidade de quinhentos pés, eles encontraram o mar bastante parado e ligaram novamente os propulsores. [119]Mas, uma poucas milhas adiante, eles tinham descido quinhentos pés. Conforme eles se aproximavam da linha do equador mesmo eles foram obrigados a gradualmente descerem mais e mais, até que, por um fim, uma imersão de dois mil pés foi alcançada; e, nessa profundidade, eles forçaram o seu caminho por aproximadamente duzentas milhas.

A embarcação comportou-se admiravelmente. A despeito de uma pressão excedendo mil libras por polegada quadrada, nem um traço de um vazamento pôde ser descoberto. Finalmente eles consideraram que poderiam se aventurar a erguer-se um pouco; assim, alterando a inclinação dos propulsores eles gradualmente ascenderam aproximadamente mil pés sem qualquer resultado desagradável. Nessa altura, sinais de distúrbio na água tornaram inconveniente continuar seu progresso para cima até que eles tivessem feito outras cinquenta milhas da sua viagem. Então eles ascenderam mais quinhentos pés; a essa profundidade a água estava agitada, mas viável. Cinquenta milhas adiante, eles aventuraram-se a forçar [120]a água para fora dos tanques e ascender à superfície. Isso eles fizeram muito lenta e cautelosamente e, ao emergirem, descobriram que a zona de tornados tinha passado. O mar ainda era excessivamente agitado; mas, olhando para trás na direção norte, era fácil ver, a partir da maior violência das ondas naquela região, que eles tinham deixado os furacões equatoriais para trás deles.

Agora eles estavam no hemisfério sul, e, até onde eles podiam computar, aproximadamente a duzentas e cinquenta milhas ao sul do equador. A largura total do cinturão de tempestades, no lugar onde eles o tinham cruzado, eles estimaram em quinhentas milhas. Conforme eles prosseguiram na direção sul, o mar tornava-se cada vez mais suave, até que eles alcançaram uma região de calma quase perfeita. Eles resolveram manter o curso, dirigido ao sul, até que eles tivessem alcançado a terra do polo sul mesma.

No quinto dia após a emersão deles, eles avistaram terra. A região era [121]evidentemente montanhosa; acima da cabeça, o bloqueio de nuvens continuava ininterrupto e, aparentemente, à mesma elevação que no norte. Logo a embarcação estava suficientemente próxima da costa para a embarcação ser capaz de discernir inequivocamente sinais de vida; e, ao rodearem um promontório, uma cidade de tamanho moderado veio à vista. O estilo dos prédios não era de maneira nenhuma diferente daquele que era familiar a eles em casa. Enquanto lançavam âncora umas poucas jardas da costa, eles puderam ver que o píer estava densamente amontoado por pessoas, quem, evidentemente, tinham sido atraídas pela embarcação de forma estranha.

Logo um da tripulação, tomando uma luneta, inclinou-se sobre o corrimão e deu uma olhada firme nas pessoas no píer. Ele não teve de encarar por mais do que uns poucos segundos quando, subitamente, tornou-se branco como uma folha de papel, cambaleou alguns passos para trás e ofegando por ar, entregou a luneta para o homem atrás dele. O capitão perguntou-lhe qual era o problema – “É a Cidade dos [122]Mortos,” ele gaguejou, em uma voz quase desarticulada por terror.

Uma expressão similar de horror surgiu sobre o rosto do segundo homem, enquanto ele também olhava através do telescópio. E nenhuma supressa nisso. As pessoas que estavam de pé no píer tinham vivido com eles no norte, e acreditava-se que tinham partido da vida para sempre. Um sentimento como aquele que surge na Terra na presença de uma visitante fantasmagórico surgiu sobre a tripulação. Evidentemente eles estavam cara a cara com algum mistério terrível, o qual agora devia ser esclarecido.

Entrementes, um bote com vários remadores impulsionava-se a partir do píer e vinha velozmente na direção da embarcação. Conforme ele se aproximava, vários dos engenheiros reconheceram no timoneiro o homem que tinha perecido no terrível precipício que levou ao grande observatório do norte. Quando o bote chegou dentro de alcance de saudação, esse homem gritou, “Nós estivemos esperando vocês por algum tempo, e nós congratulamos vocês pela sua passagem submarina.” [123]Assim, era evidente que essas pessoas misteriosas sabiam tudo sobre a expedição. Eles viram a consternação dos engenheiros, mas, evidentemente, não retribuíram a confusão deles. Por outro lado, todos pareciam intensamente felizes diante da chegada dos seus antigos amigos. Mais botes saíram na direção da embarcação, e a tripulação foi velozmente desembarcada. Os cidadãos receberam-lhes com grande gentileza; levaram-nos hospitaleiramente para dentro suas casas, e, quando os convidados surpresos tinham descansado, e recuperaram-se do seu estado de estupefação completa, os supostos fantasmas comunicaram-lhes a história das suas aventuras no hemisfério sul.

A substância do que eles aprenderam foi a seguinte: - O fenômeno da evanescência, até agora suposto ser a destruição final do sujeito no qual ela ocorre, é apenas o primeiro passo em um processo mais complicado. A evanescência em si mesma consiste em uma desintegração súbita das moléculas [124]que compõem o corpo. Mas essas moléculas desintegradas e, portanto, invisíveis, são realmente dotadas de uma afinidade ou atração que tende para o polo sul do planeta. Exatamente como na Terra, a agulha magnética volta-se para o meridiano magnético, assim, em Hésperos, aquelas moléculas organizadas que entram na estrutura de um animal racional, quando libertas por desintegração, instantaneamente procuram o polo sul, a transmissão ocorrendo com a exata velocidade da luz. Ao alcançarem o polo, a reintegração é igualmente instantânea; de modo que, em Hésperos, nós podemos dizer que morte, decomposição e ressurreição do corpo formam os três passos consecutivos em uma série conectada de eventos, o todo da qual é realizado em um único instante.

Portanto, a evanescência, no hemisfério norte e, de fato, também no hemisfério sul, não é nada mais nem menos do que transferência instantânea para o polo sul. A reintegração do corpo é, com uma exceção muito importante, [125]uma reprodução exata do corpo original desintegrado. A exceção é esta: qualquer órgão corporal que tenha sofrido uma lesão de qualquer tipo é restaurado à sua primitiva condição saudável. Não tivesse esse sido o caso, muitos homens teriam estado condenados ao destino chocante de definhamento em um estado aleijado e mutilado para sempre. As duas leis da evanescência que tinham sido observadas no norte são igualmente válidas no sul; mas deve ser lembrado que a transferência é sempre para o polo sul, não importa em qual hemisfério a evanescência ocorra.

Consequentemente, é óbvio que antes da chegada do bote submarino, as condições da população no norte e no sul, respectivamente, eram diretamente contrastadas. No primeiro, havia um número diminuindo constantemente que não poderia se aumentada; no segundo, um número constantemente crescente que não poderia ser diminuído. Mas era bastante evidente que, assumindo que a viagem de retorno [126]da embarcação submarina fosse praticável, o equilíbrio logo seria restaurado.

Tais foram os fatos principais comunicados naquela noite ao engenheiros espantados. Todos eles se retiraram para descansar os seus novos aposentos meio petrificados com assombro e horror. O portão para a saída da vida estava fechado e barrado – ou melhor, nada similar nunca tinha existido. O que se supunha ser um não tinha nenhuma significância real; e se houvesse algum em qualquer lugar, ele ainda tinha de ser encontrado.

À questão deles, Como os sulistas tinham ficado cientes da sua projetada viagem de submarino? Os anfitriões deles responderam que um dos nortistas que tinha evanescido por um acidente enquanto a embarcação estava sendo construída tinha comunicado o plano na chegada dele ao polo. De fato, dessa maneira, pelas chegadas frequentes do norte, os sulistas foram mantidos bem informados de tudo que ocorria no outro lado do equador, e tinham conhecido todos os resultados grandiosos da nova astronomia.

[127]Os engenheiros resolveram não perder nenhum tempo na viagem de retorno; e eles ofereceram-se para levar com eles, como passageiros, quaisquer uns, até o número de cinquenta, que escolhessem revisitar suas antigas habitações; mais do que cinquenta eles não poderiam acomodar facilmente. A oferta foi alegremente aceita. Entre aqueles que retornaram, eles trouxeram o habitante mais velho do sul, a vítima do Caim hesperiano, cuja extinção imprevista, exatamente a 9997 anos atrás, tinha levado à descoberta da primeira lei da evanescência. Ele agora estava, em toda aparência, no ano vinte e um da sua idade. Também três daquela embarcação mal fadada que pereceu na tentativa abortada para cruzar a superfície do mar equatorial acompanharam-nos.


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ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 113-127. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/113/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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