O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem


Por Mary Shelley


Volume I


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[121]Capítulo IV-II


Há um sentimento tal como amor à primeira vista? E se há, no que a natureza dele difere do amor fundado em longa observação e crescimento lento? Talvez os efeitos dele não sejam permanentes; mas, enquanto duram, eles são tão violentos e intensos. Nós caminhamos pelos labirintos sem caminhos da sociedade, vazios de alegria, até que agarramos essa pista, levando-nos através daquele labirinto para o paraíso. A nossa natureza sombria, como a de uma tocha apagada, dorme em vazio sem forma até que o fogo a atinja; essa vida de vida, essa luz para a lua, e glória para o sol. O que importa se o [122]fogo for acesso a partir de pedra e aço, nutrido com cuidado em uma chama, lentamente transmitido ao pavio negro, ou se rapidamente o radiante poder de luz e calor passa de um poder aparentado, e brilham de uma vez o farol e a esperança. Na fonte mais profunda de meu coração os pulsos foram mexidos; ao redor, acima, abaixo, a memória pegajosa, como um manto, envolvia-me. Em nenhum momento do tempo vindouro eu senti-me como tinha sentido no tempo passado. O espírito de Idris pairava no ar que eu respirava; os olhos dela estavam sempre e para sempre curvados sobre os meus; o seu sorriso lembrado cegava meu olhar fraco, e levava-me a caminhar como alguém, não em eclipse, não em escuridão e vazio – mas sob uma luz nova e brilhante, nova demais, deslumbrante demais, para meus sentidos. Em cada folha, em cada pequena divisão do universo, (como está gravado no jacinto ας) estava impresso o talismã da minha existência – Ela vive! Ela existe! – contudo, eu não tinha tempo ara analisar o sentimento, para me levar à tarefa e [123]restringir a paixão indomada; tudo era uma ideia, um sentimento, um conhecimento – era minha vida!

Mas o dado foi lançado – Raymond casar-se-ia com Idris. Os sinos alegres de casamento ressoavam em meus ouvidos; eu ouvia os parabéns da nação que se seguiam à união; a ambição nobre ascendia com veloz voo de águia, do chão inferior à supremacia régia – e ao amor de Idris. Contudo, não é bem assim! Ela não o amava; ela tinha me chamado de amigo dela; ela tinha sorrido para mim; a mim ela tinha confiado a esperança mais cara do seu coração, o bem-estar de Adrian. Essa reflexão descongelou meu sangue que se congelava, e novamente a maré de vida e amor fluiu impetuosamente para frente, novamente para baixar, conforme meus pensamentos ocupados mudaram.

O debate tinha terminado às três da manhã. Minha alma estava em tumultos; eu atravessava as ruas com rapidez ansiosa. Verdadeiramente, eu estava louco naquela noite – o amor – o qual eu denominava de um gigante desde o seu nascimento, lutava com o desespero. Meu coração, o campo de combate, estava ferido pelo salto de ferro de [124]um, irrigado pelas lágrimas jorrantes do outro. O dia, odioso para mim, amanheceu; eu retirei-me para meus aposentos – eu joguei sobre um sofá – eu dormi – foi sono? – pois o pensamento ainda estava vivo – o amor e o desespero ainda lutavam, e eu contorcia-me com dor insuportável.

Eu despertei meio estupefato; eu senti uma opressão pesada sobre mim, mas não conhecia a razão; eu entrei, por assim dizer, na câmara do conselho do meu cérebro, e questionei os vários ministros de pensamento reunidos ali; cedo demais eu lembrei tudo; cedo demais, meus membros tremeram debaixo do seu poder atormentador; cedo, cedo demais, eu reconheci a mim mesmo um escravo!

Subitamente, sem ser anunciado, lorde Raymond entrou no meu apartamento. Ele entrou alegremente, cantando a canção tirolesa da liberdade; percebeu-me com um gracioso aceno de cabeça, e jogou-se sobre um sofá do lado oposto a uma cópia de um busto de Apolo Belvidere. Depois de uma ou duas observações triviais, às quais eu respondi mal-humorado, ele subitamente bradou, olhando para o busto, “Eu sou chamado como aquele [125]vencedor! Não é uma ideia ruim; a cabeça servirá para minha nova cunhagem, e será um presságio, para todos os súditos obedientes, dos meus futuros sucessos.”

Ele disso isso em sua maneira mais alegre, contudo benevolente, e sorriu, não desdenhosamente, mas em zombaria jocosa de si mesmo. Em seguida, o seu semblante subitamente obscureceu, e, naquele tom agudo peculiar a si mesmo, ele bradou, “Eu lutei uma boa batalha na última noite; conquista mais elevada as planícies da Grécia nunca viram. Agora eu sou o primeiro homem no estado, refrão de cada balada, e objeto das devoções murmuradas de velhas mulheres. Quais são as suas meditações? Você, quem fantasia que pode ler a alma humana, como o seu lago nativo lê cada fenda e dobra das colinas que o circundam – diga o que você pensa de mim; rei expectante, anjo ou demônio, o quê?

O tom irônico era discordante para o meu coração cheio, excessivamente fervente; eu fiquei irritado pela insolência dele e respondi com mordacidade; “Há um espírito, nem anjo nem demônio, meramente condenado ao limbo.” Eu vi as bochechas dele tornarem-se pálidas, [126]e os lábios dele branquearem e tremerem; a ira dele serviu apenas para inflamar a minha, e eu respondi com um olhar determinado para os olhos dele que brilhavam sobre mim; subitamente, eles foram retirados, abaixados, uma lágrima, eu pensei, molhou os cílios negros; eu fui suavizado e, com emoção involuntária, acrescentei, ‘Não que você seja tal, meu caro lorde.’

Eu parei, mesmo impressionado pela agitação que ele evidenciava;Sim,ele finalmente disse, erguendo-se e mordendo o lábio, como se ele se esforçasse para refrear sua paixão; “Este sou eu! Você não me conhece, Verney; nem você, nem a nossa audiência da última noite, nem a Inglaterra no geral conhece nada de mim. Ergo-me aqui, pareceria, um rei eleito; esta mão está prestes a agarrar o cetro; estas sobrancelhas sentem em cada nervo o diadema vindouro. Eu pareço ter força, poder, vitória; levantando-me como uma coluna suportadora de domo levanta-se; e eu sou – um junco! Eu tenho ambição, e ela alcança o seu objetivo; meus poderosos sonhos estão realizados, minhas esperanças despertas, satisfeitas; um reino espera a minha [127]aceitação, meus inimigos estão derrotados. Mas aqui,” e ele atingiu seu coração com violência, “aqui está o rebelde, aqui, a pedra no caminho; este coração dominador, o qual eu posso drenar do seu sangue vivo; mas, enquanto uma pulsação trêmula restar, eu sou escravo dele.

Ele falou com uma voz quebrada, então curvou a cabeça, e, escondendo o rosto com suas mãos, chorou. Eu ainda dolorido a partir do meu próprio desapontamento; contudo, essa cena oprimiu-me mesmo ao terror, nem pude eu interromper seu acesso de paixão. Finalmente diminuiu; e, jogando-se sobre o sofá, ele permaneceu silente e imóvel, exceto que as suas feições mudadas revelavam um forte conflito interno. Finalmente, ele ergueu-se e disse em seu tom de voz usual, “O tempo passa para nós, Verney, eu tenho de ir. Que eu não me esqueça da minha tarefa principal aqui. Você me acompanhará a Windsor amanhã? Você não será desonrado pela minha companhia, e, uma vez que este é provavelmente o último serviço, ou [128]desserviço que você pode fazer por mim, você me concederá meu pedido?”

Ele ergueu a mão com um ar quase envergonhado. Rapidamente eu pensei – Sim, eu testemunharei a última cena do drama. Além do que, o semblante dele me conquistou, e um sentimento afeiçoado em relação a ele novamente encheu meu coração – eu aconselhei que ele me comandasse. “Sim, isso eu desejo,” disse ele alegremente, “esta é a minha disposição agora; esteja comigo amanhã de manhã, por volta das sete; seja secreto e fiel; e logo você deverá ser meu servo privado.”

Assim falando, ele saiu apressado, arqueado sobre o seu cavalo e, com um gesto como se ele tivesse me dado sua mão para beijar, desejou-me outro adeus sorridente. Deixado comigo mesmo, eu esforcei-me com intensidade dolorosa para adivinhar o motivo do pedido dele e prever os eventos do dia vindouro. As horas passavam-se não percebidas; minha cabeça doía com pensamento, os nervos pareciam fervilhantes cheios de preocupações – eu agarrei minha testa ardente, como se minha mão febril pudesse medicar sua dor.

[129]Eu fui pontual para a hora marcada no dia seguinte, e encontrei lorde Raymond esperando por mim. Nós entramos na carruagem dele e prosseguimos na direção de Windsor. Eu instrui a mim mesmo, e resolvi não revelar minha agitação interna por nenhum sinal externo.

Que equívoco Ryland cometeu,” disse Raymond, “guando ele pensou em me sobrepujar na última noite. Ele falou bem, muito bem; uma alocução pública tão grande teria sucedido melhor dirigida a mim singularmente, do que aos tolos e cortesãos lá reunidos. Tivesse estado sozinho, eu deveria ter ouvido a ele com um desejo para escutar a razão, mas, quando ele tentou me fazer desaparecer em meu próprio território, com minhas próprias armas, ele fez-me esforçar-me, e o evento foi tal poderia ter sido esperado.

Eu sorri incredulamente e respondi: “Eu compartilho do modo de pensar de Ryland e, se lhe agradar, repetirei todos os argumentos dele; nós devemos ver até onde você será induzido por eles para mudar o estilo régio pelo patriótico.”

[130]“A repetição seria inútil,” disse Raymond, “uma vez que eu os lembro bem, e tenho muitos outros, autossugeridos, que falam com persuasão incontestável.

Ele não se explicou, nem eu fiz qualquer comentário sobre a resposta dele. Nosso silêncio durou por algumas milhas, até que a região com campos abertos, ou bosques e parques sombreados, apresentou objetos agradáveis para a nossa visão. Após algumas observações sobre o cenário e assentos, Raymond disse: “Os filósofos têm chamado o homem de um microcosmo da natureza, e encontram um reflexo na mente interna para todo esse maquinário visível em ação à nossa volta. Essa teoria frequentemente tem sido uma fonte de entretenimento para mim; e muitas horas ociosas eu despendi exercitando minha ingenuidade para encontrar semelhanças. Lorde Bacon não diz que, ‘a falha de uma discórdia para uma concórdia, a qual produz grande doçura em música, tinha um acordo com os afetos, os quais são reintegrados para o melhor após alguns desgostos?’ Que mar é a maré da paixão, cujas fontes estão em sua própria natureza! [131]Nossas virtudes são as areias movediças, que se mostram em calma e água baixa; mas deixe que as ondas subam e os ventos esbofeteiem-nas, e o pobre-diabo cuja esperança estava em sua durabilidade, descobre elas afundando debaixo dele. As modas do mundo, suas exigências, educações e buscas, são ventos para mover nossas vontades, como nuvens, todas em uma direção; mas uma tempestade surge na forma de amor, ódio ou ambição, e a névoa vai para trás, deslocando em sentido contrário o ar oposto em triunfo.

Contudo,” eu respondi, “a natureza sempre se apresenta aos nossos olhos com a aparência de um paciente: enquanto há um princípio ativo no homem que é capaz de governar a fortuna e, pelo menos, de enfrentar o vendaval, até que, de algum modo, ele o conquiste.”

Há mais do que é ilusório do que verdadeiro em sua distinção,” disse a minha companhia. “Nós não formamos a nós mesmos, escolhendo as nossas disposições, e os nossos poderes? Para começar, eu descubro a mim mesmo como um instrumento de cordas com cordas [132]e intervalos mas eu não tenho poder para virar as cavilhas, ou cravar meus pensamentos para uma chave mais alta ou mais baixa.

Outros homens,” eu observei, “podem ser melhores músicos.”

Eu não falo de outros, mas de mim mesmo,” respondeu Raymond,e eu sou um exemplo tão bom a seguir quanto qualquer outro. Eu não posso colocar meu coração em um tom particular, ou realizar mudanças voluntárias em minha vontade. Nós somos nascidos; nós não escolhemos nem nossos pais, nem nossas posições sociais; nós somos educados por outros, ou pela circunstância do mundo, e esse cultivo, misturado com a nossa disposição inata, é o solo no qual os nossos desejos, paixões e motivos crescem.

Há muita verdade no que você diz,” eu disse, “e contudo nunca nenhum homem age segundo essa teoria. Quem, quando ele faz uma escolha, disse, Dessa forma eu escolho, pois eu sou obrigado? Pelo contrário, ele não sente uma liberdade de vontade dentro dele, a qual, embora você possa chamá-la de falaciosa, ainda atua nele enquanto ele decide?

[133]“Exatamente isso,respondeu Raymond,outro elo da cadeia inquebrável. Estivesse eu agora para cometer um ato que aniquilaria minhas esperanças e arrancaria a vestimenta régia dos meus membros mortais, para os vestir em roupas ordinárias, você consideraria que isso seria um ato de livre-arbítrio da minha parte?”

Enquanto nós conversávamos dessa maneira, eu percebi que nós não estávamos indo pela estrada ordinária para Windsor, mas através de Englefield Green, na direção de Bishopgate Heath. Eu comecei a adivinhar que Idris não era o objetivo da nossa jornada, mas que eu era trazido para testemunhar a cena que devia decidir o destino de Raymond – e de Perdita. Raymond tinha vacilado evidentemente durante a jornada dele, e irresolução estava marcada em cada gesto enquanto nós entrávamos na cabana de Perdita. Eu observei-o curiosamente e determinei que, se essa hesitação devesse continuar, eu auxiliaria Perdita a superar a si mesma, e ensinaria a ela a desprezar o amor vacilante dele, quem oscilava entre a posse de uma coroa e a dela, cuja excelência [134]e afeição transcendiam o valor de um reino.

Nós a encontramos em sua alcova adornada por flores; ela estava lendo o relato de jornal do debate no Parlamento, o qual, aparentemente, condenou-a à desesperança. Aquele sentimento de partir o coração estava pintado nos olhos fundos e atitude sem espírito dela; uma nuvem estava sobre a beleza dela, e suspiros frequentes eram sinais do distúrbio dela. Essa visão teve um efeito instantâneo sobre Raymond; os olhos dele brilharam com ternura, e o remorso vestiu as maneiras dele com ansiedade e verdade. Ele sentou-se ao lado dela; e, tomando o papel da mão dela, disse, “Nem mais uma palavra desta disputa de loucos e tolos minha doce Perdita deverá ler. Eu não devo permitir a você ficar familiarizada com a extensão da minha ilusão, com receio de que você me despreze; embora, acredite-me, um desejo de aparecer diante de você, não desaparecido, mas como um conquistador, inspirou-me durante minha guerra de palavras.”

Perdita olhou para ele como alguém maravilhada; [135]o semblante expressivo dela brilhou com ternura por um momento; apenas olhar para ele era felicidade. Mas um pensamento amargo rapidamente obscureceu a alegria dela; ela inclinou os olhos para baixo, tentando dominar a paixão das lágrimas que ameaçava a dominar. Raymond continuou, “Eu não interpretarei um papel com você, querida garota, ou parecer outro do que eu sou, fraco e indigno, mas adequado a excitar o seu desdenho do que seu amor. Contudo, você me ama; eu sinto e sei que você o faz, e daí eu tiro minhas esperanças mais queridas. Se orgulho guiasse você, ou mesmo razão, você bem poderia rejeitar-me. Faça-o; se o seu elevado coração, incapaz de fraqueza de propósito, recusa-se a inclinar-se à baixeza do meu. Afaste-se de mim, se você desejar, - você pode. Se a sua alma inteira não urge você a perdoar-me – se o seu coração inteiro não se abre para me admitir no seu próprio centro, esqueça-me, nunca fale comigo novamente. Eu, embora pecando contra você quase além de arrependimento, eu também [136]sou orgulhoso; não deve haver reserva no seu perdão – nenhuma desvantagem para o presente da sua afeição.”

Perdita olhou para baixo, confusa, contudo, satisfeita. A minha presença envergonhava-a; de modo que ela não se atrevia a virar-se para encontrar o olhar do amante, ou a confiar na voz dela para o assegurar da afeição dela; enquanto um rubor envolvia a bochecha dela, e o ar desconsolado dela foi trocado por um expressivo de alegria profundamente sentida. Raymond cingia a cintura dela com o braço dele, e continuava, “Eu não nego que eu tenha balançado entre você e a mais alta esperança que homem mortal pode conceber; mas eu não mais faço isso. Tome-me – molde-me para a sua vontade, possua meu coração e alma para toda eternidade. Se você recusar-se a contribuir para minha felicidade, eu deixo a Inglaterra hoje à noite e nunca mais colocarei o pé nela novamente.”

Lionel, você me ouve: persuada a sua irmã a perdoar a injúria que eu fiz a ela; persuada-a ser minha.

Não há necessidade de persuasão,” disse a ruborizante [137]Perdita, “exceto as sua próprias promessas queridas, e o meu próprio coração pronto, o qual sussurra para mim que elas são verdadeiras.”

Naquela mesma tarde todos nós três caminhamos juntos na floresta, e, com a garrulice que a felicidade inspira, eles detalharam para mim a história dos seus amores. Foi agradável ver o altivo Raymond e a reservada Perdita mudarem-se através de amor feliz em crianças tagarelantes, brincalhonas, ambos perdendo sua dignidade características na plenitude de contentamento mútuo. Há uma ou duas noites, lorde Raymond, com uma fronte de cuidado, e um coração oprimido com pensamento, curvava todas as suas energias para silenciar ou persuadir os legisladores da Inglaterra de que um cetro não era tão pesado para a mão dele, enquanto visões de domínio, guerra e triunfo pairavam diante dele; agora, brincalhão como um garoto vívido divertindo-se sob olhar aprovador da mãe dele, as esperanças da ambição dele estavam completas, quando ele pressionava a pequena bela mão de Perdita em seus lábios; enquanto ela, radiante com deleite, olhava sobre o poço parado, não verdadeiramente admirando [138]a si mesma, mas bebendo nele, com enlevo, o reflexo ali produzido da forma dela mesma e do amante dela, revelado pela primeira vez em querida conjunção.

Eu vagueei para longe deles. Se o êxtase da simpatia assegurada era deles, eu desfrutava daquele da esperança restaurada. Eu olhava para as torres régias de Windsor. Alta é a muralha e forte a barreira que me separam da minha Estrela de Beleza. Mas não intransponível. Ela não será dele. Mais alguns anos habita no teu jardim nativo, doce flor, até que eu, por labor e tempo, adquira um direito a colher-te. Não se desespere, nem me deseje desespero. O que eu devo fazer fazer agora? Primeiro, eu tenho de procurar Adrian e restaurá-lo a ela. Paciência, gentileza, e afeição incansável, deverão fazê-lo lembrar-se, se for verdadeiro, como Raymond diz, que ele está louco; energia e coragem deverão resgatá-lo, se ele estiver injustamente aprisionado.

Depois dos amantes novamente terem se juntado a mim, nós ceamos na alcova. Verdadeiramente foi uma ceia de fadas; pois, embora o ar estivesse perfumado pelo aroma de frutas e vinho, nenhum de nós [139]nem comeu nem bebeu – até a beleza da noite foi despercebida; o êxtase deles não poderia ser intensificado por objetos exteriores, e eu estava embrulhado em devaneio. Aproximadamente por volta da meia-noite, Raymond e eu nos separamos da minha irmã e retornarmos à cidade. Ele era todo alegria; restos de canções caiam dos lábios dele; cada pensamento da mente dele – cada objeto ao nosso redor, brilhava sob a luz do sol da alegria dele. Ele acusava-me de melancolia, de mau humor e inveja.

Nem tanto,” eu disse, “embora eu confesse que meus pensamentos não estão ocupados tão agradavelmente quanto os de vocês estão. Você prometeu facilitar a minha visita a Adrian; eu imploro a você para cumprir sua promessa. Eu não posso permanecer aqui; anseio por aliviar – talvez para curar o mal do meu primeiro e maior amigo. Eu deverei partir imediatamente para Dunkeld.”

Tu, pássaro noturno,” respondeu Raymond, “que eclipse você lança através dos meus pensamentos brilhantes, forçando-me a convocar à mente essa ruína de melancolia, a qual está em desolação mental, mais irreparável do que um fragmento de uma coluna entalhada [140]em um campo de erva daninha crescida. Você sonha que pode restaurá-lo? Dédalo nunca enredou um erro tão inextricável ao redor do Minotauro, enquanto a loucura enredava a sua razão aprisionada. Nem você, nem nenhum outro Teseu, pode seguir o fio do labirinto, para qual, talvez, alguma Ariadne cruel tem a pista.

Você alude a Evadne Zaimi: mas ela não está na Inglaterra.”

E estivesse ela,” disse Raymond, “eu não aconselharia que ela o visse. Melhor decair no delírio absoluto do que ser vítima da insensatez do amor mal concedido. Provavelmente a longa duração da enfermidade dele apagou da mente dele todo vestígio dela; e era bom que nunca devesse ser impresso novamente. Você o encontrará em Dunkeld; gentil e tratável, ele perambula pelas colinas e através do bosque, ou senta-se ao lado da cachoeira escutando. Você pode vê-lo – o cabelo dele preso com flores selvagens – os olhos dele cheios de significado indetectável – a voz dele quebrada – a pessoa dele desperdiçada a uma sombra. [141]Ele colhe flores e ervas, e entrelaça terços com elas, ou embarca folhas amarelas e pedaços de tronco no riacho, regozijando-se com a segurança deles ou chorando diante do naufrágio dele. A própria memória meio que me deprime. Pelos céus! As primeiras lágrimas que eu derramei desde a meninice escaldando apressadas dentro de meus olhos quando eu o vi.

Não foi necessário este último relato para me induzir a visitá-lo. Eu apenas duvidava de se eu deveria ou não tentar ver Idris novamente, antes que eu partisse. Essa dúvida foi decidida no dia seguinte. Cedo na manhã seguinte, Raymond veio a mim; informação tinha chegada de que Adrian estava perigosamente doente, e parecia impossível que sua força deficiente devesse superar a desordem. “Amanhã,” disse Raymond, “a mãe e irmã dele partem para Escócia para o ver uma vez mais.”

E eu vou hoje,” eu bradei;nesta hora mesmo eu contratarei um balão de navegação; eu deverei estar lá em quarenta e oito horas no máximo, talvez em menos tempo, se o vento estiver bom. Adeus, [142]Raymond; fique feliz em ter escolhido a melhor parte na vida. Essa reviravolta da fortuna revive-me. Eu temo loucura, não doença – eu tenho um pressentimento de que Adrian não morrerá; talvez essa doença seja uma crise, ele pode recuperar-se.”

Tudo favoreceu minha jornada. O balão elevou-se a aproximadamente meia milha da terra e, com um vento favorável, ele apressou-se através do ar, suas asas emplumadas abrindo caminho através da atmosfera desobstruída. A despeito do objeto melancólico da minha jornada, meus espíritos estavam eufóricos pela esperança revivente, pelo movimento veloz do pináculo arejado, e a visita balsâmica do ar ensolarado. O piloto dificilmente movia a direção emplumada, e o esguio mecanismo das asas, amplamente desfraldado emitia um barulho murmurante, suavizante para o sentido. Planície e colina, córrego e campo de trigo, eram discerníveis abaixo, enquanto nós desimpedidos acelerávamos velozes e seguros, como um cisne selvagem em seu voo de maré primaveril. A máquina obedecia ao mais leve movimento do leme, e o vento soprando firmemente, não havia nenhum impedimento [143]ou obstáculo ao nosso curso. Tão grande era o poder do homem sobre os elementos; um poder há muito buscado, e recentemente conquistado; contudo, previsto em tempo antigo pelo príncipe dos poetas, cujos versos eu citei para a admiração do meu piloto, quando eu lhe contei há quantas centenas de anos eles tinham sido escritos.


Oh! Inteligência humana, tu não podes inventar muito mal,

Tu procuras por artes estranhas: quem consideraria por habilidade,

Um homem pesado, como um pássaro leve, deveria perder-se,

E, através de céus vazios, encontrar um caminho?


Eu pousei em Perth; e, embora muito fatigado por uma exposição constante ao ar por muitas horas, não desejei descansar, mas, meramente alterando meu modo de transporte, fui por terra em vez de ar, para Dunkeld. O sol estava subindo enquanto eu entrava na abertura das colinas. Após a revolução de eras, a colina Birnan estava novamente coberta por uma jovem floresta, enquanto pinheiros mais idosos, plantados no começo mesmo do século XIX pelo então duque de Athol, concediam solenidade e beleza à cena. O [144]sol ascendente primeiro tingia os topos dos pinheiros; e minha mente, através da minha educação montanhesa, tornada profundamente suscetível às graças da natureza, e agora às vésperas de novamente contemplar o meu amigo amado e talvez moribundo, foi estranhamente influenciada pela visão daqueles distantes raios de luz: certamente eles eram muito ominosos, e, como tal, eu considerei-os, bons presságios para Adrian, da vida do qual a minha felicidade dependia.

Pobre rapaz! Ele deitava-se esticado sobre uma cama de doença, suas bochechas brilhando com tons de febre, seus olhos meio fechados, sua respiração irregular e difícil. Contudo, foi menos doloroso vê-lo dessa maneira do que o encontrar satisfazendo as funções animais ininterruptamente, a mente dele doente enquanto isso. Eu estabeleci a mim mesmo à beira da cama dele. Eu nunca a deixei, dia ou noite. Tarefa amarga era aquela, observar o espírito oscilar entre morte e vida: ver sua bochecha quente, e saber que o fogo mesmo que queimava tão ferozmente ali estava consumindo o combustível vital; ouvir sua voz gemendo, a qual poderia nunca mais articular palavras [145]de amor e sabedoria; testemunhar os movimentos inefetivos dos seus membros, logo a serem envoltos em sua coberta mortal. Por três dias e noites, tal parecia a consumação que o destino tinha decretado para meus labores, e eu tornei-me abatido e semelhante a espectro, através de ansiedade e observação. Finalmente, os olhos dele abriram-se fracamente, contudo, com uma aparência de retorno à vida; ele tornou-se pálido e fraco; mas a rigidez dos seus traços foi suavizada pela convalescênça que se aproximava. Ele reconheceu-me. Que copo sombrio de agonia alegre isso foi, quando o rosto dele primeiro cintilou com o brilho de reconhecimento – quando ele pressionou minha mão, agora mais febril do que a dele própria, e quando ele pronunciou meu nome! Nenhum traço da sua insanidade passada permaneceu, para manchar a minha alegria com tristeza.

Nessa mesma noite, a mãe e irmã dele chegaram. Por natureza, a condessa de Windsor era cheia de sentimento energético; mas raramente na vida dela ela permitia às emoções concentradas do coração dela revelarem a si mesmas em seus traços. A imobilidade estudada do [146]seu semblante; a maneira lenta, uniforme, e a voz suave, mas não melodiosa, eram uma máscara, ocultando suas paixões ardentes e a impaciência da sua disposição. Ela não se assemelhava minimante aos seus filhos; o olho negro e brilhante dela, acesso por orgulho, era totalmente diferente da expressão benigna, de brilho azul e franca de Adrian ou de Idris. Havia alguma coisa grande e majestosa nas emoções dela, mas nada persuasivo, nada amigável. Alta, magra e severa, sua face ainda linda, seu cabelo de corvo, dificilmente tingido com cinza, sua testa arqueada e linda, não tivessem suas sobrancelhas ficado um pouco espalhadas – era impossível não ficar impressionado por ela, quase ter medo dela. Idris parecia ser o único ser que poderia resistir à mãe dela, a despeito da suavidade extrema do caráter dela. Apenas havia uma ferocidade e franqueza sobre ela, as quais diziam que ela não invadiria a liberdade de outra, mas considerava a dela própria sagrada e inatacável.

A condessa não lançou olhar de gentileza sobre o meu [147]corpo cansado, embora depois ela me agradecesse friamente por minhas atenções. Não foi assim Idris; o primeiro olhar dela foi para o irmão dela; ela tomou a mão dele, ela beijou suas pálpebras, e suspendeu-se sobre ele com olhares de compaixão e amor. Os olhos dela brilhavam com lágrimas quando ela me agradeceu, e a graça das expressões dela era intensificada, não diminuída, pelo fervor, o qual quase a levava a gaguejar enquanto ela falava. A mãe dela, toda olhos e ouvidos, logo nos interrompia; e eu via que ela desejava dispensar-me quietamente, como alguém cujos serviços, agora que as parentes dele tinham chegado, não era de nenhum uso para o filho dela. Eu fiquei incomodado e mal, resolvido a não desistir da minha posição, contudo duvidando de que maneira eu devia afirmá-la; quando Adrian chamou-me e, agarrando minha mão, ordenou-me a não o deixar. A mãe dele, aparentemente desatenta, imediatamente entendeu o que foi significado e, vendo o domínio que nós tínhamos sobre ela, rendeu o argumento a nós.

Os dias que se seguiram foram cheios de dor para mim; que modo que eu às vezes me arrependia de que eu tenha [148]me rendido de uma vez para a dama altiva, quem observava todos os meus movimentos, e tornava a minha tarefa amada de cuidar do meu amigo em um trabalho de dor e irritação. Nunca nenhuma mulher parecia tão inteiramente feita de mente, como a condessa de Windsor. As paixões dela tinham subjugado os seus apetites, até suas carências naturais; ela dormia pouco, e dificilmente comia de qualquer maneira; evidentemente o corpo dela era considerado por ela como uma mera máquina, cuja saúde era necessária para a realização dos seus esquemas, mas cujos sentidos não formavam nenhuma parte do seu deleite. Há alguma coisa terrível em alguém que pode conquistar dessa maneira a parte animal da nossa natureza, se a vitória não for o efeito de virtude consumada; nem fosse estivesse ela sem a mistura desse sentimento, que eu observava a condessa desperta quando os outros dormiam, banqueteando-se quando eu, naturalmente abstêmio, e tornado assim pela febre que me assediava, era forçado a restabelecer-me com comida. Ela resolveu evitar ou diminuir minhas oportunidades de adquirir influência sobre os filhos dela e [149]contornava meu planos com uma resolução dura, quieta e teimosa que parecia não pertencer à carne e ao sangue. Guerra foi finalmente tacitamente reconhecida entre nós. Nós tivemos muitas batalhas armadas, durante as quais nenhuma palavra ela dita, dificilmente um olhar era trocado, mas, nas quais, cada um resolvia não se submeter ao outro. A condessa tinha a vantagem da posição; assim, eu era banido, embora eu não me rendesse.

Eu fiquei de coração doente. Meu semblante estava pintado com os tons de saúde ruim e vexação. Adrian e Idris viram isso; eles atribuíram isso a minha longa vigília e ansiedade; eles insistiram que eu descansasse e cuidasse de mim mesmo, enquanto que eu muito verdadeiramente lhes assegurava que o meu melhor remédio era os bons desejos deles; aqueles, e a assegurada convalescênça do meu amigo, agora diariamente mais aparente. O rosa fraco novamente ruborizava na bochecha dele; a sua sobrancelha e lábios perderam a palidez cinzenta da dissolução ameaçada; tal foi a recompensa querida de minha atenção incessante – e o paraíso abundante [150]acrescentou recompensa exuberante quando também me concedeu os obrigados e sorrisos de Idris.

Após um lapso de umas poucas semanas, nós abandonamos Dunkeld. Idris e a mãe dela retornaram imediatamente a Windsor, enquanto Adrian e eu seguimos por jornadas lentas e paradas frequentes, ocasionadas pela fraqueza contínua dele. Conforme nós atravessávamos os vários condados da fértil Inglaterra, tudo usava uma aparência emocionante para o meu companheiro, quem tinha estado tanto tempo isolado pela doença dos prazeres do clima e cenário. Nós atravessamos várias cidades movimentadas e planícies cultivadas. Os agricultores estavam colhendo suas colheitas abundantes, e as mulheres e crianças, ocupadas em leves labores rústicos, formavam grupos de pessoas felizes, saudáveis, a própria visão de quem transportava alegria para o coração. Uma noite, saindo do nossa hospedaria, nós passeamos descendo uma alameda sombreada, então subimos uma encosta gramada, até que chegamos a uma elevação que dominava uma visão extensa de colina e vale, rios sinuosos, [151]bosques escuros e vilas brilhantes. O sol estava pondo-se; e as nuvens, espalhando-se, como ovelhas recém-tosquiadas, através de vastos campos de céu, recebiam a cor dourada dos seus raios de luz que partiam; as distantes terra elevadas brilhavam, e o zumbido ocupado da noite chegava, harmonizado pela distância, ao nosso ouvido. Adrian, quem sentia todo o espírito fresco infundido por saúde retornante, apertou as mãos em deleite e exclamou com êxtase:

Oh feliz terra, e felizes habitantes da terra! Um palácio majestoso Deus construiu para você, Oh homem! E dignos são vocês da sua habitação! Contemple o carpete verde espalhado aos nossos pés, e o dossel azure acima; os campos de terra que geram e nutrem todas as coisas, e o trecho de céu que contém e abraça todas as coisas. Agora, nesta hora da noite, neste período de repouso e refeição, parece-me de todo coração respira um hino de amor e ação de graças, e nós, como sacerdotes de antigamente sobre os topos de montanhas, dar uma voz ao seu sentimento.

Seguramente um poder muito benigno construiu [152]a estrutura majestosa na qual nós habitamos e estruturou as leis pelas quais ela perdura. Se mera existência, e não felicidade, tivesse sido o objetivo final do nosso ser, que necessidade das luxos abundantes dos quais nós desfrutamos? Por que deveria o nosso lugar de habitação ser tão amável, e por que deveriam os instintos da natureza ministrar sensações prazerosas? O sustento mesmo da máquina animal é tornado delicioso; e o nosso sustento, os frutos do campo, é pintado com tons transcendentes, dotado de odores gratos e saborosos ao nosso paladar. Por que deveria isso existir, se Ele não fosse bom? Nós necessitamos de casas para nos proteger das estações, e contemple, os materiais com os quais nós somos providos; o crescimento de árvores com o seu adorno de folhas, enquanto que rochas de pedras empilham-se acima das planícies, variando a perspectiva com sua irregularidade agradável.”

Nem são apenas os objetos exteriores os receptáculos do Espírito do Bem. Olhe dentro da mente do homem, onde a sabedoria reina entronada; [153]onde a imaginação, o pintor, senta-se, com seu pincel mergulhado em tonalidades mais amáveis do que aquelas do pôr do sol, adornando a vida familiar com tons brilhantes. Que dádiva nobre, digna do doador, é a imaginação! Ele toma da realidade o seu tom de chumbo: ela envelopa todo pensamento e sensação em um véu radiante, e com um mão de beleza move-nos dos mares estéreis da vida para os seus jardins, caramanchões e clareiras de bênção. E não é o amor um dom da divindade? O Amor e a filha dele, a Esperança, a qual pode conceder riqueza sobre a pobreza, força sobre o fraco e felicidade sobre o triste.

Meu quinhão não tem sido afortunado. Há muito eu me consorciei por muito com o sofrimento, entrei no labirinto sombrio da loucura, e emergi, mas meio vivo. Contudo, eu agradeço a Deus que eu vivi! Eu agradeço a Deus que eu contemplei o trono dele, os céus e a terra, o seu escabelo. Eu estou satisfeito que vi as mudanças do dia dele; contemplei o sol, fonte de luz, e a gentil lua peregrina; vi o fogo [154]portando flores do céu, e as estrelas floridas da terra; testemunhei a semeadura e colheita. Eu estou feliz de que tenha amado e tenha experienciado alegria e sofrimento simpáticos com minhas criaturas companheiras. Eu agora estou feliz de sentir o corrente fluxo de pensamento através da minha mente, como o sangue através das articulações do meu corpo; mera existência é prazer; e eu agradeço a Deus que eu vivo!”

E todos vós, felizes lactantes da mãe terra, vós não ecoais minhas palavras? Vós quem estais ligados por vínculos afeiçoados de natureza; companheiros, amigos, amantes! Pais, quem laboram com alegria pela sua descendência; mulheres, quem, enquanto encarando as formas vivas dos seus filhos, esquecessem das dores da maternidade; crianças, quem nem laboram nem fiam, mas amam e são amadas!”

Oh, que morte e doença fossem banidas da nossa casa terrena! Que ódio, tirania e medo não pudessem fazer seu covil no coração humano! Que cada homem pudesse encontrar um irmão em seu camarada, e um ninho de repouso [155]em meio às amplas planícies da sua herança! Que a fonte de lágrimas devesse secar, e que os lábios não mais formassem expressões de sofrimento. Dormindo dessa maneira sob o olho beneficente do céu, pode o mal visitar-te, oh Terra, ou a tristeza embalar teus filhos sem sorte para os túmulos deles? Não sussurres, com receito de que demônios ouçam e regozijem-se! A escolha está conosco; desejemo-la, e nossa habitação torna-se um paraíso. Pois a vontade do homem é onipotente, cegando as flechas da morte, suavizando o leito da doença, e esgotando as lágrimas da agonia. E qual é o valor de cada ser humano, se ele não oferece sua força para auxiliar suas criaturas companheiras? Minha alma é uma centelha desaparecente, minha natureza, frágil como uma onda gasta; mas eu dedico tudo do intelecto e da força que resta em mim para essa única obra, e assumo a tarefa, tanto quanto eu for capaz, de conceder bençãos sobre meus companheiros!

A voz dele tremeu, seus olhos baixaram, [156]suas mãos agarraram-se, e sua pessoa frágil ficou inclinada, por assim dizer, com excesso de emoção. O espírito de vida parecia demora-se na forma dele, como uma chama moribunda sobre um altar brilha sobre as cinzas de um sacrifício aceito.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SHELLEY, M. W. The Last Man. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1826. p.121-156. Disponível em:<https://archive.org/details/lastman01shel/page/121/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

O Imperador da Lua - Argumento, Fonte, História Teatral, Dedicatória & Conteúdos

O Imperador da Lua


Por Aphra Behn


[385]Argumento


Doutor Baliardo, um filósofo napolitano, aplicou-se tanto ao estudo da Lua, e ficou extasiado a uma tal extensão pelos mistérios daquele orbe, que ele veio firmemente a acreditar em um mundo lunar, povoado, governado e regulado como a Terra. Isso enche e absorve inteiramente cada pensamento desperto dele, e, em consequência, ele nega sua filha Elaria e sua sobrinha Bellemante aos seus respectivos amantes, os dois sobrinhos do vice-rei, dom Cinthio e dom Charmante, enquanto sendo homens de homens de mera natureza terrestre. Todavia, as garotas são secretamente auxiliadas em suas aventuras amorosas por Scaramouch, o homem do doutor, quem é ele mesmo um rival do Harlequin, criado de Cinthio, pela mão de Mopsophil, ama das jovens damas. Harlequin, esperando encontrar seu caminho para sua amante, chega aos aposentos de Bellemante, mas, quando ela aparece, ele oculta a si mesmo. Contudo, o doutor, quem tinha sido convocado apresadamente para a cabeceira do seu irmão, relatado morrendo, retorna por um momento após ele ter saído em busca de uma chave, a qual ele acidentalmente derrubou do seu monte e encontra Cinthio e Elaria. O galante apenas consegue escapar fingindo ser um lunático trazido para a casa para tratamento médico e cura. Mas, durante a ausência subsequente do doutor, enquanto os dois amantes estão, como eles supõem, seguramente entretendo suas amantes, subitamente ouvem o pai retornar. Pelo momento, eles escapam dele simulando serem figuras em uma rica tapeçaria (seus hábitos de se mascararem ajudando no truque), a qual Scaramouch declara que há pouco tinha comprado. Mas, esse logro sendo descoberto, Scaramouch corre com a velas e todos escapolem na escuridão e confusão, deixando-o para retornar em sua camisa, visto que recém-erguido da cama. O doutor fica berrando por ajuda quando o servo astuto cambaleia bocejando e esfregando seus olhos para explicar todo o caso como como uma ilusão ou uma visão produzida por ação lunar, declarando que tinha havido uma visita do rei do Mundo Lunar e do príncipe da Terra do Trovão, quem tinham descido para cortejarem Elaria e Bellemante. Isso é confirmado pela garotas, quem anteriormente tinham sido instruídas por Mopsophil. Após alguma intriga entre Harlequin e Scaramouch pela mão da ama, no curso da qual o primeiro disfarça a si mesmo em vestimenta feminina e novamente como um rapaz de interior, o segundo como um apotecário instruído, Charmante visita o doutor e, simulando ser um cabalista profundo em conhecimento oculto, recomenda-o preparar aquela noite para receber Irednozor, monarca da Lua, e o princípio da Terra do Trovão, quem aparecerão para se casarem com sua filha e sobrinha. Pouco depois, Harlequin faz sua entrada como um embaixador das esferas celestes para confirmar essas notícias, e enquanto Baliardo, super alegre, está conversando com ele, distensões de música são ouvidas anunciarem a chegada dos potentados lunares. Todos recorrem a uma antiga galeria, há muito sem uso, a partir de onde procede o som, e aqui, de fato, um cortejo suntuoso tinha sido secretamente arranjado. O aposento é descoberto estar ricamente adornado com cortinas e pinturas, flamejante com luzes, e logo, após vários mascarados terem aparecido vestidos como os astrônomos Keplair e [386]Galileus, como diferentes signos do zodíaco, e em outros trajes fantásticos, Cinthio e Charmante são vistos em uma carruagem de prata como uma meia-lua, acompanhados por um séquito de heróis e cúpidos. Não há demora, os amantes são unidos em matrimônio, Baliardo ficando sobrecarregado diante da honra realizada na casa dele. Mas, quando Scaramouch e Harlequin lutam um duelo ridículo, no qual o primeiro vence, através do favor de Mopsophil, o doutor descobre o truque todo, a saber, que os cortesões lunares são na realidade seus próprios amigos e vizinhos. Contudo, ele logo se rende às persuasões dos amantes e ao senso comum do seu médico, quem tinha tomado parte na mascarada, e, compreendendo a loucura das fábulas nas quais por tanto tempo ele tinha implicitamente acreditado, condena seus livros ao fogo e junta-se aos júbilos nupciais com um coração feliz.


Fonte


A farsa da senhora Behn é derivada de Arlequin Empereur dans la Lune, a qual foi representada em Paris por Guiseppe-Domenico Biancolelli, um famoso Arlequim (Harlequin) e o membro líder do teatro italiano ali entre 1660 e 1688. As cenas italianas originais a partir das quais a farsa francesa é tomada pertenceram àquela comédia improvisada, ‘Commedia dell’Arte all’improviso,’ a qual, tão longe de ser impressa, foi apenas raramente até registrada em escrita. ‘O desenvolvimento da intriga através do diálogo e da ação era deixado à inteligência nativa dos vários atores,’ escreve J. A. Symonds em sua introdução excelente e muito erudita prefaciando às Memoirs de Carlo Gozzi. No caso de uma nova peça, ou antes de um novo tema, o corego ou gerente reuniria a companhia, leria o enredo, esboçaria o cenário, explicaria todo o assunto, e deixaria o diálogo para o humor e a esperteza do ator individual. A aptidão deles era surpreendente. Em Spanish Tragedy, por Kyd, nós encontramos Heironymo, quem deseja ter um assunto montado com pressa, dizendo:-


As tragédias italianas eram de inteligência tão afiada

Que, em meditação de uma hora,

Elas representariam qualquer coisa em ação.


E Lorenzo ajunta:-


Eu vi coisa semelhante,

Em Paris, entre os tragediógrafos franceses.


É claro, muito estava destinado a tornar-se estereotipado e fixo, mas muito estava sempre flutuando e novo.

Quando Biancolelli morreu em 2 de agosto de 1688 de pneumonia, contraída através de negligência para mudar roupas úmidas, a perda para o teatro italiano parecia irreparável, mas, no ano seguinte, um arlequim igualmente celebrado, mas fino e mais espirituoso, senão mais popular, do que ele, apareceu na pessoa de Evariste Gherardi. Gherardi era um homem de cultura, e ele coletou e editou um número de cenas, escritas em francês, as quais, nos palcos, foram misturadas e representadas com farsas italianas para elevar o tom de, e dar alguma coisa mais sólida e durável a, esses entretenimentos. Em 1695 três volumes dessas cenas foram publicadas em Amsterdã, ‘na casa de Adrian Braakman,’ sob o título Le Théâtre Italien, ou le Recueil de toutes les Comédies et Scènes Françoises qui ont été jouées sur le Théâtre Italien pa la Troupe des Comediens du Roy de l’Hôtel de Bourogne à Paris.

[387]Arlequin Empereur dans la Lune tinha sido publicada em sua inteireza há onze anos (1684), mas foi suficientemente popular para Gherardi incluir várias cenas dela em sua coleção. Portanto, ele começa o seu primeiro volume fornecendo a ‘Scène de la Fille de Chambre,’ onde Harlequin, disfarçado como uma mulher, finge estar procurando um lugar como serva do Doutor – Emperor of Moon, Ato II, v. No francês, Pierrô, vestido como a esposa do Doutor, entrevista o candidato. Gherardi também fornece uma cena entre Isabella (Elaria) e Colombina (Mopsophil); uma cena onde Harlequin chega fantasiado como apotecário para conquistar Colombina (na da sra. Behn, é Scaramouch quem tenta conquistar dessa maneira Mopsophil); e a cena final, a qual difere consideravelmente da conclusão da farsa inglesa. No vol. II, há dois extratos adicionais ‘obmisses dans le premier Tome,’ um diálogo entre o Doutor e Harlequin, ‘recit que fait Arlequin au Docteur, du Voyage qu’il a fait dans le Monde de la Lune’, e uma curta passagem entre Harlequin e Colombina, ambas as quais pode ser paralelizadas de perto na versão inglesa. É claro, a sra. Behn usou a edição de 1684. A afirmação dela de que apenas pegou ‘uma orientação básica e leve do enredo’ do italiano e, novamente, de que ‘todas as palavras são inteiramente novas, sem uma do original’ não tem de ser enfatizada estritamente demais, embora inegavelmente ela tenha infundido uma nova vida, inteligência e humor novos nas cenas estrangeiras.

Na obra padrão sobre comédia italiana de Maurice Sand, Masques et Bouffons (Paris, 1860), serão encontradas copiosas citações dessa pantomima, a popularidade da qual ele atribui inteiramente a Gherardi. Contudo, foi Biancolelli quem primeiramente a favoreceu e em cuja vida ela foi efetivamente impressa, uma honra rara, embora, sem dúvida, foi devido ao grande Gherardi que ela reteve e renovou seu sucesso. Gherardi morreu em 31 de agosto de 1700.

Como o autor mesmo afirma em seu prefácio, Harlequin roi dans la Lune, uma comédia de três atos de Bodard de Tézay, produzida na Variétés Amusantes, 17 de dezembro de 1785, não tem nada a ver com as antigas cenas italianas. Uma ópera por Settle, intitulada de The World in the Moon, encenada em Drury Lane em 1697, é bastante diferente da farsa da sra. Behn. Settle tinha escrito uma comédia que lida com o ensaio de uma nova ópera, The New World in the Moon. Tom Dawkins, um rapaz de interior há pouco chegou à Londres, é levado ao teatro para ver o ensaio e as cenas cômicas ordinárias misturadas com provisão para cenários elaborados, enquanto a ópera prossegue, formam a confusão mais estranha. A peça toma o seu nome a partir da primeira cena operática, a qual representa uma imensa lua de bronze que gradualmente desaparece, enquanto a canção, ‘Within this happy world above,’ é executada.


História Teatral


The Emperor of the Moon, a qual certamente é como Lowe diz ‘umas das melhores farsas pantomímicas alguma vez vistas’ nos palcos ingleses em qualquer caso, foi produzida com grande sucesso no Duke’s Theatre, Dorset Garden, em 1687. O personagem de Scaramouch era admiravelmente ajustada para Tony Leigh, um comediante inferior ‘do tipo mercurial’, quem ‘no humor… amou levar uma carreira completa’, enquanto que Tom Jevon, jovem, magro e mais gracioso dos [388]dançarinos, provou-se o rei de todos os arlequins, passados, presente e por vir. Lee e Jevon também interpretaram as partes de Scaramouch e Harlequin na extravaganza em três atos de Mountford, Dr. Faustus (Quarto 1697), mas produzida uma década antes, provavelmente em novembro de 1685. Scaramouch é o homem do necromante, e as cenas cômicas, embora os truques de palco sejam antigos, provaram-se pantomima muito boa. Deve ser lembrado que Harlequin e Scaramouch devem ser encontrados em The Rover, parte II. A farsa da sra. Behn tem o seu lugar no repertório e por muito tempo permaneceu uma favorita. Em 18 de setembro de 1702, em Drury Lane, Will Pinkethman, reclamando com o desejo de vários amigos e críticos, ensaiou o Harlequin sem a tradicional máscara negra, ‘mas, ai de mim! em vão: Pinkethman não conseguiu assumir a vergonha do personagem sem estar oculto; ele não era mais o Harlequin; o humor dele estava bastante desconcertado; a consciência dele não conseguiu declarar-se contra a natureza, com o mesmo descaramento, sem a cobertura daquela face imutável, a qual ele estava certo de que nunca ruborizaria por ela; não, o caso era bastante outro; sem aquela armadura, a coragem dele não conseguiu alcançar os esforços ousados que eram necessários para superar o senso comum.’

Entre as representações teatrais mais notáveis de The Emperor of the Moon estão duas no Dorset Garden, em 16 e 21 de novembro de 1796, quanto Estcourt atuou como Scaramouch, e Pinkethman, Harlerquin. Em 3 de setembro de 1708, em Drury Lane, Bulloch foi Scaramouch; Bickerstaffe, Harlequin; Johnson, o velho doutor; Powell, dom Cinthio. Em Licoln’s Inn Fields, 28 de junho de 1717, Bullock novamente sustentou Scaramouch e teve Spiller como seu Harlequin. Quatro anos depois, 6 de fevereiro de 1721, eles estavam interpretando os mesmos papéis nesse mesmo teatro, com o sra. Cross como Bellemante, e Quin, Ryan no elenco. A farsa foi repetida em 25 de outubro do mesmo ano. Bullock e Spiller mantiveram suas partes favoritas, Hall foi Baliardo; Quin, Cinthio, Ryan, Charmante; a sra. Egleton, Mopsophil; a sra. Bullock, Bellemante. The Country Wake, de Doggett, foi interpretada na mesma noite. Dez anos depois, ainda nesse teatro, em 20 de outubro de 1731, Hall foi Baliardo novamente e a sra. Egleton, Mopsphil. Nessa ocasião, Pinkethman interpretou Harlequin; Hippisley, Scaramouch; Milward, Charmante; e Chapman, Cinthio. A farsa foi colocada como uma primeira peça em Covent Garden, 14 de fevereiro de 1739. Pinkethman foi Harlequim; Rosco, Scaramouch; Arthur, o doutor; Hallam, Charmante; Hall, Cinthio; o sr. James, Mopsophil; o sr. Vincente, Elaria; e o belo Bellamy, Bellemante. Em 1748 houve uma curiosa rivalidade entre os dois teatros, ambos produziram The Emperor of the Moon na mesma noite, 26 de dezembro. Em Covent Garden, onde ele foi anunciada ‘não interpretado por 10 anos’, e produzida inicialmente como uma primeira peça a despensas consideráveis com decorações magníficas, Cushing interpretou Harlequin; Dunstall, Scaramouch; Sparks, Baliardo; Ryan, Charmante; Delane, Cinthio; Peg Woffington, Bellemante; e a Bellamy, Elaria. Contudo, isso foi uma falha mortal e apenas montado duas vezes. Contrariamente às expectativas, Cushing esteve muito ruim como Harlequin, ao passo que, em Drury Lane, Woodward esteve excelente. No Lane, onde foi montado com A Bold Stroke for a Wife, do sr. Centlivre, e anunciada ‘não montado por vinte anos’, Yates foi Scaramouch; Palmer, Charmante; King, Cinthio; Winstone, Baliardo; a senhorita Murgatroyd, Bellemante; e a inimitável sra. Green, Mopsophil. Um grande efeito foi produzido quando Harlequin é jogado em um lençol, no ato iii. Duas faixas longas foram costuradas nos lados do lençol, pelas [389]quais ele foi sustentado. Contudo, a partir da frente, elas eram invisíveis, e como pareceu que Woodward estava sendo lançado a uma grande altura, esse espetáculo satisfez imensamente as galerias.

Em 1777, The Emperor of the Moon, muito desnecessariamente alterada e de nenhuma maneira melhorada ‘com a adição de vários arias, duetos e coros selecionados de outras composições’ (Oitavo, 1777), foi produzida no Patagonian Theatre. Esse teatro ficava situado em Exeter Change, Strand, sobre uma porção do terreno de Burleigh House, a casa do grande Lorde Tesoureiro, a qual posteriormente foi conhecida como Exeter House. É muito duvidoso se o teatro existiu como tal depois de 1779.

Há uma referência surpreendente a The Emperor of the Moon em The Spectator, nº 22 (Steele), 26 de março de 1711. ‘Seu mais humilde servo, William Screne,’ esreve para o sr. Espectador, berrando o fato de que ninguém no palco se eleva ao mérito. Embora crescido no serviço do teatro, e frequentemente tendo aparecido nos palcos, ele nunca teve uma linha dada a ele para falar. Mesmo assim, ‘Eu tenho interpretado’, ele afirma, ‘várias partes das coisas de casa com grande aplauso por muitos anos; eu sou um dos homens nas cortinas do Imperador da Lua.’1 Ralph Screene, amigo de Screne, em uma carta subsequente, implora que, em consequência da promoção do cavalheiro a partes falantes, ‘Eu possa sucedê-lo nas cortinas, como minha mão nas laranjeiras.’ Essas alusões humorosas são evidência ampla da popularidade da pantomima da sra. Behn e da frequência com a qual ela foi representada.


[390]Ao

Lorde Marquês

de

Worcester, &.


Meu Lorde

É uma noção comum, que se acumula conforme segue, e quase se tornou um erro vulgar, que dedicatórias na nossa época são apenas os efeitos de lisonja, uma forma de comprimento, e nada mais; de modo que o grande, apenas a quem elas são devidas, declinam daqueles patrocínios nobres que eram tão geralmente concedidos aos antigos poetas; uma vez que o terrível costume tem sido tão escandalizado por discursos equivocados, e uma peça de muito valor é perdida pela carência de proteção honorável, e, algumas vezes, muitas indiferentes atravessam o mundo apenas com passaporte vantajoso.

Esta oferta humilde, a qual eu presumo estender aos pés de vossa senhoria, é aquela de natureza crítica, aquela que não apenas requer o patrocínio de uma grande título, mas também um grande homem, e, às vezes, há uma vasta diferença entre essas duas grandes coisas; e entre os mais elevados, há apenas muito poucos em quem um nascimento ilustre e partes iguais completam o heróis; mas, entre esses, vossa senhoria porta a primeira posição, a partir de uma justa reivindicação, tanto das glórias da sua raça quanto das suas virtudes. Nem nós temos de olhar de volta para longas eras passadas para trazer a nós os feitos magnânimos dos seus ancestrais: Nós não temos de contemplar mais do que (o que nós temos feito tão frequentemente com maravilha) aqueles do grande duque de Beauford, seu pai ilustre, cada ação do qual é um presidente glorioso e duradouro para todo grande futuro; cuja lealdade firme e todas as outras virtudes eminentes tornaram-no para nós alguma coisa mais do que um homem, e as quais, apenas, merecedoras de um volume inteiro, estariam aqui senão para diminuir a fama dele, para misturar suas grandezas com aquelas de qualquer outro; e embora aqui eu esteja me dirigindo ao filho, quem é o único digno daquele sangue nobre que ele ostenta, e quem concede ao mundo uma perspectiva daquelas galanterias vindouras que igualarão aquelas do seu glorioso pai; já, meu lorde, tudo que você diz e faz é admirado, e cada toque da sua pena, reverenciado; a excelência e rapidez da sua vontade, é o sujeito que se ajusta mais agradavelmente ao mundo. De minha parte, eu nunca presumir contemplar vossa senhoria, mas minha alma curva-se com uma veneração perfeita à sua poderosa mente; e enquanto eu tenha adorado os efeitos delicados da sua inteligência incomum, eu nada mais tenho desejado [391]do que uma oportunidade de expressar minha sensação infinita dela; e essa ambição, meu lorde, foi o único motivo da minha presunção presente ao dedicar esta farsa à vossa senhoria.

Eu estou ciente, meu lorde, até onde a palavra farsa poderia ter ofendido alguns, cujos títulos de honra, uma aptidão na vestimenta, ou sua arte na escrita de uma Billet Doux, tenham sido seu principal talento, e quem, sem consideração do intento, do caráter ou da natureza da coisa, teria bradado sobre a linguagem e teria condenado-a (porque as personagens nela absolutamente não falam como heróis) como degradado e vulgar demais para entreter um homem de qualidade; mas eu estou segura contra essa censura, quando vossa senhoria deverá ser seu juiz, cujo gosto refinado e a delicadeza de julgamento, através de todas as ações humildes e trivialidade de assunto, encontrarão natureza ali, e aquela diversão que não é intencionada para os muitos, quem nada compreendem além de mostra e bufonaria.

Uma orientação muito básica e leve do enredo eu obtive da italiana, e a qual, mesmo como foi, foi montada na França oitenta curiosas vezes sem intervalo. Agora ela está muito alterada, e adaptada ao nosso teatro e gênio inglês, quem não pode considerar um entretenimento a uma taxa tão baixa quanto o francês encontrará, quem está contente com quase quaisquer incoerências, por mais que misturadas sob o nome de uma farsa; a qual eu tentei, tanto quanto a coisa suportaria, trazer para dentro do escopo de possibilidade e natureza, para que eu pudesse com tão pouca imposição sobre a audiência quanto eu poderia; todas as palavras são inteiramente novas, sem uma do original. Ela foi calculada para sua falecida majestade de memória sagrada, aquele grande patrono de poesia nobre, e do palco, por quem as Musas tem de lamentar para sempre, e cuja perda, apenas a benção de um sucessor tão ilustre pode alguma vez reparar; e é uma grande pena ver que a melhor e mais útil diversão do gênero humano, cuja magnificência de outrora, era o sinal mais certo de um estado florescente, agora bastante desfeita pela compreensão equivocada do ignorante e má representação do invejoso, o que evidentemente mostra o mundo não está melhorado em nada, senão no orgulho, má natureza e sutileza afetada; e a única diversão agora na cidade é a disputa intensa, as controvérsias públicas em tavernas, cafeterias, etc, e aquelas coisas que deveriam ser os maiores mistérios em religião, e tão raramente o assunto de discurso, são tornadas em ridículo, e não se parecem senão como tantas estratagemas fanáticos para arruinar o púlpito assim como o palco. A defesa do primeiro é deixada para o reverendo Gown, mas o palco que parte não pode ser restaurado de outra maneira senão por alguns espíritos líderes, tão generosos, tão públicos e tão incansáveis quanto vossa senhoria, cujos patrocínios são suficiente para o suportar, cujos inteligência e julgamento, para o julgar, e cujas bondade e qualidade, para o justificar; tal encorajamento inspiraria os poetas com novas artes [392]para agradar, e os atores com indústria. Foi isso que ocasionou tantas peças admiráveis outrora, como as de Shakespeare, as de Fletcher e as de Johnson, e foi apenas isso que tornou a cidade capaz de sustentar tantos teatros vivos, quem agora não pode manter um. Todavia, meu lorde, por minha parte, eu não mais reclamarei se essa peça encontrar favor aos seus olhos, e que ela possa ser tão feliz para conceder a vossa senhoria uma hora de diversão, a qual é a única honra e fama que é desejada para coroar os empreendimentos de,


Meu lorde,

A Serva

Mais Humilde e

Mais Obediente

De Vossa Senhoria,

A. BEHN.


Conteúdos2


Prologue. 393

Dramatis Personae. 395

Act I. 396

Act II. 417

Act III. 436

Epilogue. 462


ORIGINAL:

BEHN, A. The Emperor of the Moon. In:______. The Works of Aphra Behn. Edited by Montague Summers. Volume III. London: William Heinemann, Stratford-on-avon: A. H. Bullen, 1915. p. 385-392. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofaphrbehn03behnuoft/page/385/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[389]É claro, a alusão é ao ato ii, iii.

2Nota do tradutor: Não presente no texto original.

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

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