[88]“Por que você não se juntou à sua prima convidando Clara Montagu para ir conosco para Londres?” disse o Duque a Rosabella, conforme o balão deles prosseguia em direção à casa.
“Eu considerei que a humildade de minha situação tornava-o impróprio,” retornou Rosabella, com um ar afetado de modéstia. “Certamente seria errado para uma pobre dependente como eu mesma tomar a liberdade de convidar hóspedes para a casa de seu patrono.”
“Rosabella! Você sabe que eu não posso tolerar você falando tão ridiculamente – eu odeio ouvir de sua situação dependente, e humildade, e absurdo; todos nós sabemos que você não é humilde, você é tão orgulhosa quanto Lúcifer; e, quanto a dependência, eu [89]nunca faço nenhuma distinção entre você e Elvira. Vocês duas são minhas filhas enquanto eu viver, e deverão ser minhas herdeiras quando eu morrer – sim, e talvez antes que eu morra, mas você verá.”
“Eu estou certa de que minha prima não quis ofender você, Sir,” disse Elvira; “Ela ama você ternamente, e -”
“Apropos de bottes!” exclamou o Duque, “que carta foi aquela que eu vi você receber essa manhã?”
“Era de Edmund,” respondeu Elvira tremendo e ruborizando, enquanto ela sacava-a do seio e entregava-a ao pai dela.
No caso da morte de Claudia, Elvira e Rosabella eram as próximas herdeiras ao trono; e, como nenhuma delas alcançara a idade que as impediria de serem candidatas elegíveis, elas não tinham a menor ideia de que o duque as desejaria casadas antes que passado esse período. Dessa forma, ambas observavam seriamente o duque enquanto ele examinava a epístola, a qual Elvira sabia, e Rosabella suspeitava, inspirava apenas amor; e ambas esperavam uma torrente de fúria quando ele a concluira. Contudo, para a infinita surpresa delas, ele dobrou-a e, colocando-a dentro de [90]seu bolso, meramente disse a Elvira que ele desejava uma reunião privada com ela na biblioteca dele, tão logo eles chegassem à casa. A pobre Elvira empalideceu diante da menção da biblioteca; pois, quando alguma coisa ia errada na casa do duque, era lá que ele estava acostumado a pregar um sermão à infeliz ofensora, e ali Elvira mesma frequentemente tremera em sua infância; para resumir, o lugar estava associado na mente dela apenas com recordações desagradáveis, e, não antecipando nada agradável conectado com ele, ela sentou-se, inteiramente absorvida em um silêncio sombrio.
Rosabella parecia igualmente desinteressada por conversa. Embora a conduta do tio dela fosse bastante diferente da que ela tinha esperado, a mente ativa dela já sugerira mil explicações para ela, cada uma menos conforme ao seu julgamento do que aos seus desejos. “A carta dele deve ser ter sido uma de mera amizade – e é possível que ele não a ame,” pensou ela; enquanto a idea cintilizava através da mente dela, ela voltou-se ansiosamente para Elvira, para ler sua confirmação no semblante dela: - mas, ai de mim! Aqueles olhares tímidos, abatidos – e aquelas bochechas [91]brilhantes, contavam muito evidentemente um conto que conduziu Rosabella à distração. Escassamente o balão parara, ela saltou do carro e apressou-se para os seus próprios aposentos, em um pequeno estado de tiro curto de loucura, enquanto Elvira, com um coração batendo, seguiu o pai dela para a bilioteca.
Rosabella foi encontrada à entrada de seus aposentos por sua favorita criada, Marianne, quem tinha vivido com ela desde a infância e quem a governava com seu comando despótico. É estranho, mas as pessoas mais arrogantes são os escravos mais submissos àqueles que adquiriram poder sobre eles, e as mulheres orgulhosas que recusariam indignamente todo o controle de seus parentes titulados, obedecerão implicitamente – ou melhor, quase servilmente, aos desejos de um criado favorito. Dessa maneira era Rosabella. Marianne estava perfeitamente ciente do poder dela, e ela ocasionalmente o usava tiranicamente, mas, na presente ocasião, ela ficou realmente alarmada pelas bochechas rubras, olhos brilhantes e corpo agitado de Rosabella, e perguntou, com uma aparência de profundo interesse, se ela estava doente.
[92]Rosabella não falou, mas, jogando-se sobre um sofá, ocultou a face com ambas as mãos.
“Qual é o problema?” perguntou Marianne, encarando-a com espanto.
“Ele ama-a! Ele adora-a!” exclamou Rosabella, començando a partir de seu sofá e atravessando o quarto rapidamente. “Amaldiçoada a beleza dela! Oh, que uma olhada minha pudesse murcha-la! Ou que ela pudesse sentir o fogo ardente que se enraivece aqui!” Então, parando subitamente, ela encarou sua criada com a selvageria de uma maníaca e, pressionando a mão firmemente contra o lado, jogou-se novamente sobre o sofá, exclamando, “Oh, Marianne! Por que eu não sou amada como Elvira?”
“E você está certa de que ela é amada?”
“Certa!” reiterou Rosabella, apertando as mãos; “Ai de mim! Ai de mim! Gostaria que eu não estivesse tão certa; mas, posso eu duvidar da evidência de meus sentidos? Neste dia – este mesmo dia! Ela recebeu uma carta dele. Eu vi um rubor de prazer consciente resplandecer sobre as bochechas dela, e eu [93]poderia tê-la esfaqueado no coração, - sim, e exultado em suas agonias moribundas – triunfado em seus gemidos. Oh, Marianne! Não é extraordinário que alguém tão grande, tão nobre e tão exaltado quanto Edmund, possa amar um ser tão pobre, fraco e débil quanto Elvira? Mas ela não o ama; pelo menos não como ele deveria ser amado. Ela é incapaz disso.”
“Eu considero que ela é – e que, embora agora ele admire a beleza dela, contudo, quando ele descobrir a fraqueza da alma dela, ele deve despreza-la.”
“Mas ele está tão cego que ele imagina as próprias faltas dela como perfeições.”
“Essa cegueira não pode continuar. Quando Edmund conheceu Elvira, ele não tinha visto nada do mundo; e as pessoas dessa maneira situadas, quem têm imaginações ardentes, geralmente maravilham a si mesmas conjurando um ídolo de perfeição ao qual elas atribuem todos os tipos de mérito, prováveis ou improváveis. Elas investem no primeiro rosto ou figura que lhes toma a imaginação, com esses encantos imaginários, não importa se eles concordem ou não, e então apaixonam-se pela imagem que ele criaram – enquanto a ilusão sob a qual elas [94]laboram, faz com que eles vejam cada ação do objeto amado sob uma falsa luz; exatamente como pessoas usando óculos veres imaginam a inteira criação tingida de esmeralda. O relacionamento com o mundo dispersa essas visões, e, quando Edmund retornar, ele será como alguém despertando de um sonho: ele procurará em vão pelos encantos que uma vez o enfeitiçaram.”
“Oh, nisso você pode estar certa! Mas eu ainda temo -”
“Nada tema – Edmund retornará bastante mudado. Embora, na realidade, ele tenha estado ausente apenas alguns meses, ele terá adquirido mais conhecimento de mundo do que em toda a sua vida prévia. Ele conhecerá a si mesmo, e sentirá que ele carece de uma companhia em uma esposa: alguém que pode entrar em suas visões, participar de seus desejos e, se necessário, auxiliar-lo em seus planos. Então, ele será capaz de estimar apropriadamente o seu caráter, e desprezar a débil Elvira, ele estenderá o coração e a mão dele humildemente aos seus pés.”
“Ai de mim! Ai de mim! Fosse mesmo essa visão lisonjeira realizada, então seria tarde demais.”
[95]“Tarde demais! O que você quer dizer?”
“Que agora mesmo Elvira está confessando a sua ligação para o pai dela, e, talvez – oh, há loucura no pensamento! - mesmo diante desse momento ela pode receber a aprovação dele.”
“Então nós estamos perdidas,” disse Marianne, e uma pausa seguiu-se, interrompida apenas pelos soluços convulcionantes de Rosabella, quem apertava as mãos e chorava alto na agonia mais amarga.
“Mas você está certa de que não enganou a si mesma?” retomou a confidente; “o seu ciúme pode ter concedido peso a ninharias indignas de atenção séria.”
“O Duque perguntou a ela se ela tinha ouvido sobre ele, e ela deu a ele a carta de Edmund. Meu tio leu-a calmamente e, quando ele tinha terminado, desejou que ela o acompanhasse à sua biblioteca.”
“Eu confesso que isso não parece bom,” disse Marianne, e outra longa paz seguiu-se, a qual foi quebrada pelo som de passos rápidos, e, em um instante, Elvira apressou-se para dentro do apartamente com uma face radiante de alegria.
“Oh, minha querida prima,” exclamou ela, “meu pai é tão amável! Tão bom! Eu contei-lhe tudo, [96]e ele não ficou com o mínino de raiva. Ele concedeu o seu consentimento, e tudo está resolvido. Eu vou casar com Emund, e você, com Edric, e -”
“Eu casar com Edric!” exclamou Rosabela, o rubor escarlate de raiva escurecendo através dos finos traços dela, e o desprezo orgulhoso encurvando seus belos lábios; “Casar-me com aquela débil abominação inanimada! Quando nos encontramos ele ofereceu a mão para me comprimentar, até o seu próprio toque parece congelar minhas veias. Frio, prudente e calculador, ele tem todos os vícios da época sem as suas escussas. E eu deverei casar-me com um semelhante ser? Não, se todos os outros recursos falharem, a morte deverá libertar-me antes que o momento odioso chegue!” e, começando a partir de seu sofá, ela caminhou em passo através do aposento em agitação violenta.
“Minha querida Rosabella,” disse Elvira seguindo-a e tentando conforta-la, “eu suplico a você para que se componha. Considere meu pai – quão irado ele ficaria se ele devesse ouvir você! Ele é tão categórico que ele poderia -” Aqui Elvira parou, a delicadeza dela tornando-a avessa a lembrar sua prima de quão completamente ela estava sob o poder do duque.
[97]“Prossiga,” exclamou Rosabella, provocativamente; “Eu sei o que você diria. Repreenda-me por minha maldade – pise-me – despreze-me – nem mesmo me poupe da memória do meu pobre querido pai; eu estou preparada para tudo; eu conheço o pior; eu sei que meu tio é categórico, e que eu sou uma pobre dependente, subsistindo sob a magnanimidade dele, e que está no poder dele me expulsar por essa porta, sem um centavo para comprar comida ou abrigo. Mas nem mesmo isso deve controlar minha vontade. Pobre e dependente como eu sou, eu sou livre; e antes eu laboraria na pior servidão, imploraria meu pão, ou mesmo pereceria por carência, do que residir em um palácio cercado por multidões de escravos adoradores, se o preço fosse que eu devesse chamar Edric de esposo.”
“Minha queria senhora,” exclamou Marianne, suavemente “você é violenta demais.”
“Eu estou muito magoada, Rosabella,” disse Elvira, “de descobrir que você me considere capaz de dizer intencionalmente qualquer coisa para ferir os seus sentimentos. Quanto ao seu infeliz pai, você deve estar ciente de que eu conheço a história dele apenas vagamente, visto que [98]é um assunto ao qual o duque nunca tolera ninguém aludir; e eu estou certa que ele nem mesmo esteve em meus pensamentos quando eu falava - ”
“Oh!” exclamou Rosabella, batendo as mãos energeticamente enquanto falava; “Oh que me fosse permitido limpar o nome do meu pai da sombra que pende sobre ele. Eu sei, eu sinto, que ele não pode ter sido culpado! Ele deve ter sido vítima de calúnia; de invenção vil ou malícia das tramas erguidas contra ele por auqueles que invejavam sua justa fama. Oh, se eu conhecesse os fatos, e pudesse limpar-lhe de toda vergonha! Pelos céus! Nem a gratificação do amor, nem nenhuma vingança, poderiam propiciar-me metade do prazer!”
“Você usa linguagem estranha, Rosabella,” disse Elvira, ruborizando diante do ardor da prima; “Eu reconheço que eu não posso compreender sentimentos tão violentos. Graças a Deus! A natureza formou-me em um molde mais temperado.”
“Os seus sentimentos!” exclamou Rosabella, desdenhosamente: “Você não tem nenhum – você não pode nem mesmo os imaginar – você é incapaz de amar!”
[99]“Aí você me faz injustiça,” respondeu Elvira; “de fato, paixões tão grandes quanto as suas eu sou incapaz de sentir – mas amor; real, puro, imaculado amor; aquela afeição absorvente que prefere a felicidade de outro à sua própria; aquela devoção que desceria desconhecida à cova, para adquirir a felicidade de outro; que não busca a sua própria satisfação, mas sacrificaria tudo que o mundo pode dar para promover o bem-estar de outro; que pode não sentir o sabor de prazer nenhum e tão tomar parte em deleite nenhum; a menos que ele seja participado pelo objeto amado, e mesmo então, alegra-se na satisfação satisfação dele mais do que na sua própria; isso é eu posso sentir; meu coração diz-me que eu posso, isso, em tempo, eu espero, eu deverei sentir por Edmund.”
“Então você reconhece que ainda não o ama?” perguntou Rosabella, com um sorriso amargo.
“Eu temo que não,” retornou Elvira, suspirando, “pelo menos não como ele deveria ser amado. Mas,” continuou ela, após uma pausa, “talvez minhas ideias de amor sejam tolas e românticas, e, com o tempo, eu deverei tornar-me mais razoável.”
Um sorriso de desdém foi a única resposta de Rosabella, quando a reunião delas foi interrompida pelas convocações de ambas para atenderem [100]ao duque. Elas obedeceram em silêncio e encontraram-no sentado em sua biblioteca, com o Padre Morris de pé ao lado da cadeira dele.
“É claro, Elvira já contou a você o que eu pretendo fazer por você?” Disse o duque, dirigindo-se a Rosabella.
“Sim! Meu senhor, ela contou,” retornou Rosabella com dignidade.
“Bem, e o que você diz sobre isso?”
“Eu pensei que vossa graça não pretendesse que nem minha prima, nem eu mesma, casasse, até que nós passassemos da idade fixada pela falecida Rainha?”
“Bah! Absurdo; nenhuma de você tem a menor chance de ascender ao trono. Claudia não tem trinta anos; e é provável para ela viver esses cinquenta anos.”
Rosabella não falou, mas a cor fugiu de suas bochechas, e os olhos dela voltaram-se para o chão, enquanto os lábios fortemente comprimidos mostravam que era com dificuldade infinita que ela controlou suficientemente os sentimentos dela para ouvir o tio com paciência.
“Para resumir,” continuou o duque, “eu decidi que vocês duas deverão casar; [101]e como Edmund parece arranjado para Elvira, eu não consigo pensar em fazer melhor do quer conceder você ao irmão mais jovem dele”
“E você sabe de quem você está dispondo tão sem cerimônia?” perguntou Rosabella, erguendo os olhos brilhantes do chão e fixando-os sobre ele com um olhar de desprezo orgulhoso. O duque recuou involuntariamente da olhadela intimidante, a qual parecia cair sobre ele com o poder lendário daquele do basilisco.
“De quem eu estou dispondo?” gaguejou ele, inconscientemente repetindo as palavras dela, “De quem eu estou dispondo? Por que, de minha sobrinha, para ser certo,” ele continuou, arranjando com dificuldade as ideias dispersas. “Você é minha sobrinha, não é?”
“Sim,” retornou Rosabella, “infelizmente eu sou sua sobrinha; e eu envergonho-me de um tio que não tem escrúpulos para abusar tão barbaramente do último legado transmitido a ele por um irmão infeliz. Sim, meu senhor duque, eu sou sua sobrinha – sua protegida – sua dependente. Eu não estou envergonhada de admitir que eu devo o meu pão diário [102]à sua magnanimidade; mas, independentemente de tudo isso, eu não estou ciente de que eu seja sua escrava, nem eu considero que as obrigações pecuniárias sob as quais eu estou para com você sejam suficiente para conceder a você o direito de dispor de mim como de um artigo de mobília, ou de uma besta de carga.”
“Você equivoca-se inteiramente sobre a questão, Rosabella,” disse o duque; “eu não desejo magoar os seus sentimentos.”
“Então, você considera que eu seja formada de pedra ou ferro, para que seja dito para eu casar quando e onde você ordenar, sem ter minhas inclinações consultadas ou minhas afeições conquistadas? Eu não sou tão quiescente. Se estivesse meu pobre pai vivo, você não me trataria dessa forma.”
“Cuidado, Rosabella, você pisa em terreno perigoso!” disse o duque, violentamente agitado.
“Ai de mim! Ai de mim!” exclamou Rosabella, apertando as mãos, “por que eu sou tratada dessa forma? Não tenho eu nenhum amigo para tomar meu partido? Ninguém interferirá para me salvar da destruição? Oh, se meu pobre pai estivesse vivo! Pelo menos ele teria piedade desta filha infeliz. Padre Morris, você sempre declarou me amar. Foi-me dito [103]que você era amigo do meu pai. Pode você permanecer e ver-me dessa forma cruelmente oprimida, e não proferir uma única palavra em meu nome? Eu apelo a você como um amigo, como um cristão, como um homem.”
O Padre Morris não respondeu a esse apelo, mas os lábios dele tornaram-se de uma palidez vívida, e, proferindo um gemido baixo, ele afundou-se em uma cadeira, escondendo o rosto com as mãos, enquanto cada nervo tremendo com agitação.
“Vá para os seus aposentos, Rosabella,” disse o duque, em uma voz trêmula, “e, quando você tiver aprendido a expressar-se mais temperadamente com relação a quem tem sido o seu único amigo e benfeitor, talvez eu possa convoca-la novamente.”
Rosabella tentou falar, mas o duque firmemente a proibiu. “Vá,” disse ele, “a sua ignorância de sua real situação agora advogam em defesa de sua conduta. Mas em breve a ocasião chegará quando estremer-se-á diante de sua loucura, e pensará sobre minha indulgência presente.”
Espantada pela maneira dele, e pela misteriosa [104]emoção do Padre Morris, Rosabella retirou-se em silêncio, seguida por Elvira, e cada uma retirou-se para seus aposentos separados, para meditar em solidão sobre os eventos estranhos que ocorream durante o dia.
Próximo capítulo
ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century.London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.88-104.Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n102/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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