[105]Quando Edric deixou seu pai para procurar o Dr. Entwerfen, ele encontrou o Padre Morris no caminho; e tão absorvido ele estava em suas próprias meditações que ele quase passara pelo reverendo padre sem o ver.
“Isso é bastante en philosophe,” disse o sacerdote com um sorriso, enquanto ele interceptava o caminho de seu pupilo. “Qual é o problema, Edric? Eu não penso que o Rei Quéops mesmo poderia ter feito você esquecer-se assim de seus velhos amigos.”
“De fato, eu não tinha me esquecido de você, pois eu estava pensando em você neste momento mesmo. Você realmente considera ser possível que, se eu for para o Egito, eu poderia ter sucesso em ressuscitar uma múmia?”
“Eu não duvido. Os antigos egípcios, [106]você sabe, acreditavam que as almas de suas múmias ficavam acorrentadas nelas em um estado entorpecido até o dia final do julgamento, e, supondo esta hipótese estar correta, há toda razão para imaginar que, empregando um agente tão poderoso quanto o galvanismo, a reanimação possa ser produzida.”
“Se eu lembro-me corretamente, os antigos egípcios não imaginavam que as almas dos seus mortos permanecessem em seus corpos, mas que elas retornariam a eles ao termo de três mil anos.”
“E agora são aproximadamente três mil anos desde que Quéops foi sepultado.”
“É estranho,” continuou Edric, ponderando, “que influência as suas palavras têm sobre a minha mente: enquanto eu ouço você, o desejo violento que sinto para explorar esse mistério se torna quase torturante; e eu medito sobre isso até que imagino um impulso a partir de um poder superior, e que eu sou realmente selecionado para ser o agente mortal de sua revelação para o homem.”
“E por que não pode esse impulso, o qual parece operar com força tão irresistível [107]sobre a sua mente, e o qual, você diz, você imagina, ser um sentimento real implantado em você pelo Autor Divino do seu ser, para guiar você a um país onde você está destinado a obter imortalidade? O Egito é rico em monumentos da antiguidade; e todos os historiadores unem-se na declaração de que os seus habitantes antigos possuíam conhecimento e ciência muito além mesmo dos progressos alardeados dos tempos modernos. Por exemplo, nós conseguiríamos tentar erigir construções estupendas como as pirâmides, onde massas enormes são organizadas com precisão geométrica, e os labores do homem emularam a durabilidade eterna da natureza? Nós somos mesmo capazes de conceber obras tão majestáticas como aquelas que eles colocaram em execução? Nós indubitavelmente não somos capazes; e, em cada ponto, exceto na religião deles, eles superaram-nos.”
“E contudo,” retornou Edric, “cada esquema de religão cai infinitamente abaixo da perfeição divina da cristandade; todavia, como a cristandade não foi revelada nos tempos dos quais nós estamos falando, não pode ser negado que os egípcios realizaram alguma aproximação da sabedoria mesmo em [108]suas devoções. Eles adoravam a natureza, embora eles disfarçassem-na sob os símbolos de seus atributos, e gratificavam o gosto vulgar ao conceder-lhe objetos tangíveis para representar ideias sublimes demais para a sua compreensão não iluminada. Que eles conceberem a divina ideia de uma ressureição, e de recompensas e punições em uma vida futura, é evidente, não por sua fábula favorita da fênix, e do uso que eles fizeram da agora banal imagem da borboleta; mas pelo cuidado que eles concederam à preservação do corpo; seus prantos pela perda de Osíris, e seus júbilos quando ele foi encontrado; e o tipo de julgamento ao qual eles sujeitaram o corpo humano após a morte, quando, se crimes sérios fossem alegados, e comprovados contra ele, eram negados os ritos da sepultura, e deixado para decair não lamentado. Então, podem quaisquer instituições modernas sobressair a sabedoria das leis promulgadas pelos Faraós? Ou pode qualquer magnificiência igualar aquela exibida nas cidades de Mênfis ou Tebas? E, uma vez que isso dificilmente será disputado, que país pode ser mais adequado do que [109]aquele uma vez tão favorecido, se a cena da mais importante descoberta alguma vez feita pelo Homem?”
“Eu concordo perfeitamente com você,” respondeu o Padre Morris; “e apenas me surpreendo, com essas impressões sobre a sua mente, que você possa hesitar um instante sobre empreender a sua viagem para o Egito.”
“Ai de mim! Eu não tenho mais nenhuma razão para hesitar!”
“O que você quer dizer?”
“Meu pai há pouco me ordenou sair da casa dele imediatamente, a menos que eu me case com Rosabella; e isso tortura nenhuma alguma vez deverá induzir-me a fazer – pois eu odeio-a!”
“Então o duque falou,” disse o Padre Morris, melancolicamente; “Eu pensava que esse sucesso de Edmund abriria os seus lábios; mas,” continuou ele, dirigindo-se a Edric, “eu penso que você deveria se regozijar diante de uma semelhante circunstância, visto que a sua principal objeção a visitar as pirâmides era a dificuldade de obter do seu pai o consentimento para uma semelhante expedição; pelo menos, essas objeção está agora removida.”
[110]“Mas como removida, Padre Morris? Você considera que eu poderia suportar deixar a Inglaterra, talvez para sempre, e em uma expedição tão terrível em sua tendência e suas consequências, enquanto laborando sob uma maldição de pai? Eu não posso fazer isso. Eu preciso ver novamente o meu pai e obter o perdão dele antes que eu vá.”
“Então você está preparado para concordar com os desejos dele?”
“Nunca! Eu antes disse a você, nenhuma força deverá me compelir a casar com Rosabella!”
“E você imagina que Sir Ambrose renunciará ao projeto dele tão facilmente? Não é mais provável que a sua oposição apenas aumentará a determinação dele; e que outra entrevista, se você ainda se recusa a obedecer aos seus comandos, pode provocar a maldição que você agora parece temer?”
“Então, o que eu deverei fazer? Pois, em meu presente estado de mente, a vida é um fardo para mim; - meu cérebro sente-se confuso.”
“Vá para o escritório do Dr. Entwerfen, e permaneça escondido lá pelo presente, até que a efervescência da raiva de seu pai deva ter evaporado. Meu dever agora me chama para o meu patrono, [111]mas logo deverei retornar; em seguida, eu deverei ver o seu pai, e talvez uma conversa comigo possa trazer-lhe à razão.”
“Eu confio minha causa às suas mãos, padre,” disse Edric “e possa sua eloquência conduzi-la a um desenlace feliz.”
“Você pode confiar em mim,” respondeu o reverendo padre; “eu sinto-me profundamente interessado no assunto:” e eles separaram-se, Edric prosseguindo para procurar seu tutor, e o Padre Morris retornando à casa do Duque de Cornwall.
Quando Edric entrou no escritório do Dr. Entwerfen, ele encontrou-o engajado no que, considerando a idade e posição dele, parecia um divertimento extraordinário. Aparentemente, ele estava dançando uma hornpipe, juntando seus tornozelos e, alternativamente, subindo e descendo como um palhaço em uma pantomima, torcendo o seu rosto, entrementes, nas mais horríveis caretas.
“Qual é o problema?” exclamou Edric, encarando-se com surpresa.
“Eu-eu-eu estou galvanizado,” exclamou o doutor, em um tom piedoso; acenando com a cabeça com um súbito empurrão, que parecia ameçar a cada instante [112]jogá-la fora de sua cavidade; e em seguida, começando subitamente, ele chutou uma perna horizontalmente e girou em torno da outra com um ar de um dançarino de ópera.
“Como isso aconteceu?” exclamou Edric, excessivamente chocado diante do contraste não naural exibido entre o sério semblante do doutor e as travessuras involuntárias.
“Eu não posso – exatamente – dizer,” respondeu o doutor, disparando suas palavras com dificuldade, e ainda flutuando, arreganhando a boca, e dando cambalhotas, para o horror inexpressível do seu companheiro, até que gradualmente as suas caretas diminuíram, e, finalmente, ele foi capaz de permanecer de pé toleravelmente firme. Agora ele informou ao seu pupilo que, tentando alguns experimentos com sua batéria galvânica, desafortunadamente, ele operou em si mesmo; e, por sua vez, ouviu o relato do que se passara entre Edric e Sir Ambrose. Contudo, em vez de expressar pesar, quando ele descobriu que seu pupilo tinha brigado com o pai, os olhos do doutor brilharam com alegria – “Então, você inevitavelmente tem de viajar,” exclamou ele. “Nós devemos visitar [113]as pirâmides, nós devemos animar as múmias, e nós devemos atingir a imortalidade.”
“Não! Eu não posso deixar a Inglaterra sem estar reconciliado com meu pai: ele é idoso, e eu posso nunca mais o ver novamente; eu não poderia suportar me separar dele com raiva.”
“Mas considere o objeto que você tem em vista; e os países que você visitará: toda a viagem inglesa. Em minha vida, eu nunca conheci um jovem inglês que não fosse afeiçoado a ela. Os habitantes dos outros países viajam pelo que eles pode obter, ou pelo que eles esperam aprender; mas um inglês viaja porque ele não sabe o que fazer consigo mesmo. Ele não poupa nem tempo, nem dificuldade, nem dinheiro; ele vai a todos os lugares, vê todas as coisas; após o que, ele retorna – exatamente tão sábio quanto ele partiu. Não que eu culpe a curiosidade – não – eu admiro-a mais do que todas as coisas! - ela é aquilo que conduziu a todas as grandes descobertas que foram realizadas desde a criação do mundo, e é isso que agora nos impele a explorar as pirâmides.”
Edric parecia incomodado diante da conclusão desse [114]discurso, e, para mudar de assunto, perguntou ao doutor, se ele considerava a sua batéria galvânica suficientemente poderosa para o experimento que eles intencionavam tentar com ela.
“Poderosa!” exclamou o doutor; “porque eu a sinto mesmo agora formigando nas extremidades dos meus dedos. Eu deveria considerar, Sir, que o efeito que ela teve sobre mim é uma prova suficiente da força da máquina.”
“Se nós formos,” disse Edric, aparentemente perseguindo o fio de suas próprias reflexões, “eu deveria sentir-me inclinado a visitar outros países além do Egito.”
“E o mesmo deveria eu. - Eu deveria particulamente gostar de ver a Índia, pois, alguns panfletos de letras negras aludem a ela sendo governada por uma velha mulher; e, como os historiadores regulares não fazem menção ao fato, eu deverei gostar de ver que tradições eu poderia reunir a respeito disso in loco. A religião dos antigos hindus, antes que eles fossem convertidos à cristandade, tem sido dita ter assemelhado-se àquela dos antigos egípcios; comparando os [115]monumentos de ambos, um poderia ser feito para ilustrar o outro. Eu também deveria gosta, antes de deixarmos a África, de ver a celebrada corte de Timbuktu. Há muito eu tenho estado em correspondência com um pândita instruído de lá, quem me comunicou algumas das mais sublimes descobertas.”
“Todo o interior da África deve ser interessante, particulamente os estados ascendentes sobre os bancos de areia do Niger. É geralmente instrutivo, bem como divertido, observar o nascimento e as contendas das repúblicas infantes; e observar, primeiro, quão rápido os povos invadem, e, em seguida, os governantes. Enquanto os governantes são fracos, eles sempre são liberais; mas os seus sentimentos exaltados, no geral, diminuem na exata proporção em que eles se tornam poderosos.”
“Para resumir,” retomou o doutor, “De boa vontade eu atravessaria o mundo todo; eu conheço apenas um país que eu deveria objetar visitar.”
“E qual é esse?” perguntou Edric.
“América. Eu não tenho desejo de ter minha garganta cortada, ou minha respiração interrompida, por uma corda de arco. Eu [116]tenho um horror perfeito de governos despóticos.”
“Então como você suporta este sob o qual nós vivemos?”
“O caso é bastante diferente. Conosco, o esporão do despotismo escassamente é sentido; e as pessoas, sendo permitadas a, ocasionalmente, pensarem e agirem por si mesmas, não são rebaixadas e brutalizadas como os escravos do poder absoluto no geral são. Conosco o despotismo é como uma vara que o mestre-escola mantêm pendurada à vista de seus meninos, mas da qual ele muito raramente tem qualquer ocasião para fazer uso. De um tal despotismo como aqueles dos americanos, contudo, que o Céu nos defenda!”
“Amém! Pois, como nós somos felizes agora, nós devemos ser idiotas para desejar uma mudança.”
“Que sentimento não filosófico!” Exclamou o doutor: “Eu estou realmente bastante chocado que você, Edric, deveria proferir uma tal fala. Que doutrina abominável! Lembre-se que, se uma vez você admite que a inovação seja perigosa, você instantamente coloca uma parada para todo o progresso – você absolutamente fecha e afferolha suas portas contra ele. Oh! É horrível, que uma tal [117]doutrina alguma vez deva ser abordada em um país civilizado. Você certamente não poderia estar ciente do que você está dizendo?”
“Talvez eu não esteja: pois eu reconheço candidamente que escasamente sei o que estou fazendo!”
“Então, para entreter você, eu darei a você um deleite. Eu te mostrarei uma curiosa coleção de baladas, todas as quais são, pelo menos, de trezentos anos de idade, as quais um amigo meu adquiriu em Londres para mim outro dia, e enviou-me pelo balão de correio. Todas elas são do genuíno papel de algodão, uma certa prova de antiguidade; pois, você saber, o papel de asbesto que agora nós usamos não tinha sido inventado mais do que há duzentos anos. Mas você deverá vê-las: siga-me.”
Assim falando, o doutor trotou para fora de sua biblioteca, aquele paraíso de volumes meio esquecidos, a maior parte dos quais tinha sido salva de sua destinação bem-merecida de cobertura para manteiga, e envoltório de queijo, para ser extraída da poeira e obscuridade na qual elas deitaram por séculos para o ornamento das estantes do Doctor Entwerfen; e cujos [118]autores das quais, se eles pudessem ter tido uma olhadela sobre a terra, e observado-as, teriam ficado bastante surpresos por as descobrirem imortais. Entrando nesse empório de conhecimento negligenciado, o doutor, com vivacidade, apressou-e para uma mesa, sobre a qual se estendiam os seus recém-adquiridos tesouros, e erguendo-os, exclamou, “Veja, Edric, quão belamente sujo está o papel; nenhuma arte poderia falsificar esta tonalidade sombria. Este tingimento de ferrugem é o tom genuíno de antiguidade. Você sabe Edric, nos tempos antigos o calórico empregado em propósitos culinários e, de fato, para todos os usos comuns da vida, era produzido pela combustão de madeira, e de uma escura substância betuminosa, ou anfilitas, extraída das entranhas da terra, chamada de carvão, da qual você ainda pode ver amostras nos gabinetes dos curiosos. Conforme essas substâncias decompunham-se, ou antes expandiam-se, pela força do calor, a atração da coesão era dissolvida, e as partes componentes voavam para longe na forma de fumaça ou fuligem. Essa fumaça, erguendo-se no ar, era dispersa por ele, e as partículas minúsculas, ou átomos, dos quais elas eram compostas, caindo e descansando sobre cada coisa que, por acaso, [119]estivesse em seu caminho, produziam aquela incomparável tonalidade sombria, a qual os modernos tentaram, embora em vão, imitar. Eu suplico o seu perdão, Edric, por usar linguagem tão vulgar para expressar o que eu desejava dizer, mas realmente, tratando sobre um semelhante assunto, eu não sabia como me explicar elegantemente.”
“Oh! Eu entendi você muito bem, Sir. Afinal, o único uso da linguagem é para transmitir as ideias de uma pessoa para o entendimento de outra; e, contanto que o fim seja obtido, eu realmente não vejo que seja de qualquer consequência de quais palavras nós fazemos uso.”
“Verdadeiro, querido Edric! Às vezes, você faz observações muito justas. Bem, mas as baladas; eu estava para mostrar a você meus tesouros, - minhas joias! Como a dama romana disse para os filhos dela. Veja que belas amostras elas são! Um pequeno espinho aqui e ali, e com umas poucas linhas inteligíveis. Eu garantiria cada uma delas acima de trezentos anos de idade. Veja, é papel de linho real; você pode dizer isso pela textura; e então a ortografia, veja que número de letras eles colocaram nas [120]palavras deles que não tinham nenhum uso. Olhe para os títulos deles. Aqui está o ‘O fim trágico da pobre Senhorita Bailey’ – e aqui ‘Cereja Madura’ – e ‘Eu estive vagando.’ Aqui está ‘Os amores do Capitão Wattle e da Senhorita Roe’ – aqui estão ‘Jessy, a flor de Dumblane,’ e ‘Dunois, o bravo.’ Mas essa é minha Fênix – aqui está o que será a inveja de todos os colecionadores! Aqui está o meu tesouro inestimável! Isto, eu acredito, é absolutamente único, e que eu estou tão abençoado de possuir a única cópia existente. A data está ausente, mas as maneiras que ele descreve são tão rudes, que eu quase deveria considerar que ele pode ser traçado de volta aos tempos dos bretões aborígenes. - Assim ele começa: -”
‘Em Wednesbury houve uma briga de galos,
Uma partida entre Newton e Scroggings;
Os pregueiros e carvoeiros deixaram o trabalho,
E, para o Spittle, todos eles foram caminhando.
Tol de rol lol.’
Eu costumava ficar muito intrigado diante desse refrão, o qual é uma recorrência frequente em canções antigas. Primariamente, eu considerei-o uma relíquia de [121]alguma linguagem agora irrevogavelmente perdida. Então, ocorreu-me, poderia ser uma invocação das divindades dos aborígenes. Em resumo, eu fiquei bastante perplexo e não sabia o que pensar, quando um instruído amigo meu pensou uma ideia outro dia, a qual parecia resolver completamente a dificuldade. Ele sugere que era uma maneira antida de percorrer para cima e para baixo a escala; e que ‘Tol de rol lol’ tinha a mesma significação de ‘Do re mi fa;’ solução que é, de uma vez só, tão simples e engenhosa, que eu estou certo de que você, assim como a mim mesmo, deve ter sido atingido por ela. Aqui, eu omito algumas estrofes, nas quais o autor enumera os seus heróis exatamente na maneira homérica. Os nomes são tão bárbaros, que eu estou temeroso de afrouxar meus dentes ao pronunciá-los: -
‘Havia muita carne no jantar,
De um touro que foi atraído para a morte;
Bunny Hyde arranjou um caroço da garganta dele,
O que provavelmente parou a respiração dele.’
Que simplicidade bela há nesta última linha,
‘O que provavelmente parou a respiração dele.’
[122]Oh, nós modernos não temos nada igual a isso! -
‘A companhia caiu em confusão,
Ao ver esse pobre Bunny Hyde engasgar-se,
Assim eles se apressaram com ele para baixo, para a cozinha,
E seguraram a cabeça dele sobre a fumaça.’
Isso desenvolve uma prática de curiosa antiguidade. Você sabe, Edric, bem agora eu expliquei a você a maneira pela qual a combustão era antigamente efetuada, e as causas da produção de fumaça. Contudo, eu reconheço que parece ser uma maneira estranha de reviver um homem quase sufocado, segurar a cabeça dele sobre a fumação, a qual, estando carregada, como eu disse antes, com inumeráveis átomos de todos os tipos e tamanhos, alguém poderia pensar, seria mais provável de impedir a respiração do que de a restaurar. Contudo o fato é incontestável; e não apenas proporciona uma curiosa ilustração das maneiras dos antigos, mas é de si mesmo uma prova forte da autenticidade da balada; pois uma semelhante ideia nunca poderia ter entrado na cabeça de um moderno. Para retornar ao pobre Hyde -
[123]‘Um deu-lhe um chute no estômago,
E outro, uma dedada na testa.
A esposa dele exclamou, joguem ele no estábulo,
E ele ficará melhor em pouco tempo.’
Essa conduta insensível da esposa dele não fala muito em consideração das damas dessas épocas. Aqui se segue um hiato de várias estrofes: contudo, eu considero, por uma palavra ou duas aqui e ali, que eles celebram as façanhas de dois herois galeses:-
‘O melhor é o criado no interior;
Aquele era um escuro de asa de bronze,
E o outro, um vermelho de asa escura.’
Ambas essas vítimas infelizes da crueldade do homem parecem ter perecido. Contudo, há uma estrofe, antes dessa catastófe, que parece relatar o combate.
‘O conflito foi difícil para cada um,
Até que o escuro de asa lustrosa foi sufocado,
Os carvoeiros ficaram nacionalmente irritados,
E os pregueiros foram todos provocados.’
Essa passagem parece muito obscura: ‘Nacionalmente’ [124]é evidentemente um sinal de comparação, mas eu não consigo dizer se alguma vez eu o vi empregada antes. Contudo, ela é outra prova da incrível antiguidade da balada. Após isso, parece que as pessoas invadiram o ringue, e ambos os galos foram esmagados aos átomos. Eu não sei se você está familiarizado com a maneira pela qual esses combates gauleses eram conduzidos, Edric. Um tipo de anfiteatro era formado, sobre o que os pássaros eram colocados uns contra os outros, de onde o nome fosso do galo. Os combatentes eram armados com grandes esporas de ferro, e o vencedor geralmente deixava o seus rival morto sobre o campo. A balada prossegue: -
‘O fosso do galo ficava próximo da igreja,
Como um ornamento para a cidade;
Em um lado ficava uma velha mina de carvão,
E o outro era uma carqueja bem redonda.’
A carqueja era um tipo de urze ou tojo.
‘Peter Hadley espreitou através da carqueja,
Para ver a briga de galos;
Spittle perfurou seu olho para fora com um garfo,
E disse, “Exploda-se, que isso o sirva bem!”’
[125]Isso é muito animado e expressivo, embora as quantidades falsas tornem-no difícil de ler.
‘Algumas pessoas podem considerar isso estranho,
Quem Wednesbury nunca conheceram,
Mas aqueles que alguma vez estiveram ali,
Não terão a menor dúvida senão que é verdade.
Pois todos eles são selvagens por natureza,
E culpados dos feitos que são escandalosos,
Jack Baker ele golpeou o seu próprio feyther,
E assim terminou a briga de galos de Wednesbury.’
“É muito belo, certamente,” disse Edric, quem estava quase adormecido.
“Pela minha palavra,” retornou o doutor, “Eu não acho que você tenha ouvido uma única palavra do que eu estive dizendo.”
“Oh! Sim, eu ouvi,” respondeu Edric, “cada sílaba. Era sobre um homem matando o seu próprio pai, e removendo os olhos dele com um garfo.”
“Eh!” exclamou o doutor, um tanto irritado diante da prova inequívoca de que, embora suas palavras pudessem ter atingido os órgãos auriculares do seu pupilo, elas não alcançaram o cérebro dele. A exclamação do doutor restaurou Edric ao seus sentidos, e ele começou a desculpar-se.
[126]“Eu realmente estou muito sentido,” disse ele, “mas você tem de desculpar minha desatenção. Algumas vezes, você sabe, a mente não está em sintonia para discussões literárias, mesmo quando provindo dos lábios mais eloquentes. Esse é o meu caso no momento presente. Minha mente está tão ocupada pela mudança que há pouco ocorreu em meus assuntos, que, eu admito, mesmo o seu conhecimento e eloquência foram jogados para longe de mim.”
“Se esse for o estado de sua mente,” respondeu o doutor, com desgosto, “não adianta mostrar a você mais de meus tesouros literários; ainda mais que eu tenho alguma excelência incomparável. Aqui está uma carta endereçada a Sheridan, um escritor espirituoso de comédias, do século XVIII, a qual nunca foi aberta, - e aqui está uma conta de alfaite do imortal Byron, a qual, possivelmente, pode nunca ter sido examinada. Mas aqui está a mais inestimável das minhas relíquias. Veja isto, pelo menos. Este pedaço de papel, coberto descuidadamente com marcas e linhas, uma vez esteve na posse daquele encantador, daquele inimitável novelista do século XIX, geralmente distinguido nas obras de [127]escritores contemporâneos pelo título de ‘O Grande Desconhecido!’ Veja, aqui está metado da palavra ‘Waverley,’ escrita sobre ele, e, sem dúvida, todas essas outras marcas e riscos irregulars procedem diretamente a partir dela. Eu confesso, Edric, que eu nunca contemplei esta relíquia sem um sentimento de reverência, e quase de temor. ‘Talvez,’ digo eu para mim mesmo, quando eu olho para ele, ‘quando essas letras foram formadas, a primeira inicial tinha apenas há pouco surgido na mente do autor daquelas obras imortais, as quais foram, subsequentemente, destinados a aperfeiçoar e deleitar o gênero humano. Talvez, diante daquele momento mesmo, pensamentos gigantescos estavam correndo através do cérebro dele, e uma variedade de novas ideias abrindo os tesouros para a imaginação dele.’ Oh, há alguma coisa na mera marca aleatória da caneta de um personagem celebrado, inexpressivelmente afetando a mente; - isso transporta alguém de votla para o tempo mesmo quando ele viveu – isso parece tornar alguém familiarizado com ele, e deixar-nos entrar nos pensamentos mais íntimos dele. Mas eu percebo que você não está prestando atenção em mim, Edric!”
“Eu sinto muito – em outra ocasião, eu deveria ficar [128]feliz – mas agora – eu não posso. Contudo, quando nós retornarmos, talvez –”
“Então pode ser muito tarde,” disse o doutor, com solenidade; e trancando seu gabinte, ele liderou o caminho de volta para sua sala de estar comum, em alta indignação.
Próximo capítulo
ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.105-128. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n119/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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