[154]Felix caiu no assento ao lado dela, enterrando o seu rosto nas dobras do vestido dela; ele soluçava, não com lágrimas, mas paixão asfixiante. Ela segurou-o perto do coração dela, como ele fosse uma criança, acariciando o cabelo dele e beijando-o, sussurando para ele, assegurando-lhe que o amor dela era dele, que ela estava inalterada. Pouco tempo antes da festa, o Barão subitamente tinha irrompido em uma crise de temperamento, tal como a algo ela nunca vira ele ceder anteriormente; a causa foi a pressão colocada sobre ele pelos seus credores. Verdades desagradáveis escaparam-lhe; em meio às quais, o seu desgosto, a sua desaprovação positiva do compromisso tácito no qual eles tinham entrado.
Ele declarou que, se o menor sinal externo disso aparecesse diante dos convidados que eram esperados, ele ordenaria Felix a deixar o lugar, e cancelaria a amizade de coração, não importa qual a consequência. Era claro que ele estabelecera uma aliança rica e poderosa para ela; que o Earl ou estava chegando, ou enviaria o seu filho, ele sabia; e ele sabia que nada repele de tal modo um possível pretentente como o rumor de que a dama tem um compromisso anterior. Para resumir, ele fez disto uma condição para a presença de Felix ser de qualquer maneira tolerada; que Aurora deveria cuidadosamente se abster de mostrar a mais leve atenção para ele; que ela deveria ignorar a existência dele.
Nem pôde ela evitar que Durand a seguisse sem uma [155]recusa evidente para ouvir a conversa dele, uma recusa que, certamente, de uma vez, teria causada a terrível explosão. Ela considerava melhor, sob as circunstâncias, preservar a paz, com medo de que a relação entre ela e Felix devesse ser inteiramente rompida para sempre. Essa era a história secreta da aparente indiferença e negligência que tão profundamente o machucaram. A explicação, acompanhada como ela estava por tantas expressões tenras e carinhos, acalmou-o; ele retornou os beijos dela e tornou-se mais calmo. Ele não podia duvidar dela, pois, em seu coração, ele suspeitava de alguma coisa do tipo há muito tempo.
Contudo, não foi tanto a explicação mesma, nem mesmo o amor que ela derramava sobre ele, como o mero fato da presença dela tão perto que o trouxe de volta a si mesmo. A influência da natureza firme dela, da sua visão clara, ampla, franca das coisas, a decisão do seu carácter, os motivos elevados, desinteressados que a animava, tudo junto supria aquilo do que ele estava carecendo nele mesmo. A indecisão dele, a sua disposição excessivamente impressionável, as quais reprimiam e obstavam a força de seu talento, e contrariavam a determinação de sua vontade naturalmente de ferro; essas, por assim dizer, ficaram aliviadas; em uma palavra, com ela ele tornava-se ele mesmo.
Quantas vezes ele tinha contado tanto a ela! Quantas vezes ela respondera que não era ela mesma, mas aquilo no que ela acreditava, que era a causa real desse sentimento! Era aquela religião antiga e verdadeira; a religião da igreja primitiva, como ela encontrava nos [156]fragmentos das escrituras que foram herdados dos antigos.
Aurora tinha aprendido sua fé desde a infância; de fato, era uma tradição da casa preservada intacta durante essas centenas de anos em meio aos credos discordantes, os discipulos dos quais ameaçavam e destruíam uns aos outros. Por outro lado, o suntuoso rito do Vice-papa, com os sacerdotes e monges, reivindicavam domínio, e realmente mantinha um grande quinhão, igualmente sobre o corpo e a alma; por outro lado, os partidários da Liga, com seu credo audacioso, severo e sem flores, eram igualmente arrogantes e igualmente fanáticos. Em volta deles, os homens do bosque erravam sem um deus; os ciganos, invocavam a lua cheia. No interior das cortes e cidades, os irreverentes e os instruídos, do mesmo modo, zombavam de toda fé, e acreditavam apenas no ouro.
A crueldade reinava em todos os lugares; de misericórdia, exceto no nome de honra, não havia nenhuma; a humanidade era desconhecida. Uns poucos, apenas uns poucos, tinham conhecimento de, ou aderiam a, os dogmas principais que, no tempo dos antigos, eram assentidos por todos, tais como o dever de humanidade para com todos, o dever de salvar e proteger a vida, de amabilidade e gentileza. Esses poucos, com seus pastores, simples e desinteressantes, não tinham poder ou influência; contudo, eles existiam aqui e ali, um protesto vivo contra a ausência de lei e brutalidade da época.
Entre essas, em dias anteriores, a casa de Thyma tinha sido notável, mas, durante os últimos anos os barões de Thyma, mais por política do que por qualquer outra coisa, tinham, em vez disso, ignorado sua fé ancestral, inclinando-se em direção da Liga, a qual [157]era então poderosa neste reino. Ter agido de outra maneira teria sido excluírem a si mesmos de todos as nomeções. Mas Aurora, aprendendo a fé antiga nos joelhos da mãe dela, tornara-se imbuída demais em sua beleza moral para consentir com esse curso. Gradualmente, enquanto ela crescia, isso se tornou nela uma paixão; mais do que uma fé, uma paixão; o objeto da vida dela.
De fato, em nossos dias de ferro, uma garota podia fazer apenas pouco, mas esse pouco ela vez. A capela ao lado do castelo, há muito caída em ruínas, foi, diante de sua solicitação diligente, reparada; um pastor veio e permaneceu como capelão, e serviços, do tipo mais simples, mas sérios e cheios de sentido, ocorriam duas vezes em uma semana. Para esses ela atraía tantos quanto possíveis dos habitantes da cercada; alguns até vinham de longe uma vez de vez em quando para os frequentar. Correspondência era mantida com o remanescente da fé.
Para que ninguém pudesse alegar ignorância (pois, até aquela data, não havia registro escrito) Aurora estabeleceu para si mesma a tarefa de reduzir à escrita as tradições que tinham sido transmitidas. Quando o manuscrito estava finalmente completo, ele ocupou-a por meses para que ele transcrevesse cópias dele para circulação; e ela continuou a fazer cópias, as quais eram enviadas por mensageiros e por mercadores viajantes aos mercados, e mesmo através do mar. Além desse caráter intrinsecamente elevado, o mero labor mental desprendido nesse trabalho evidentemente fortalecera um intelecto naturalmente excelente. Como ela dizia, era a fé, a esperança de que aquela fé um dia seria reconhecida, o que concedia a ela tanta influência sobre outros.
[158]Apenas em consequência dessa única coisa eles diferiam; Felix não se opunha, nem mesmo discutia, eles estava simplesmente intocado. Não era que ele não acreditasse em mais nada, nem que ele duvidasse; ele era meramente indiferente. Ele tinha uma aptidão grande demais pelas ciências naturais, e uma mente muito clara, para aceitar o que era ensinado por um ou outros dos dois principais partidos opostos. Nem podia ele juntar-se ao rídiculo e escárnio dos cortesõs irreverentes, pois o mistério da existência impressionara-o profundamente enquanto perambulando sozinho na floresta. Apenas el permanecia distante; ele sorria e ouvia, não convencido; como as criaturas selvagens da floresta, ele não tinha ouvidos para esses assuntos. Ele amava Aurora, isso era tudo.
Mas ele sentia exatamente a mesma influência; com toda sua força de mente e desdém pelas superstições dos outros, às vezes, ele não conseguia se livrar das preocupações excitadas por presságios indesejáveis, como quando ele pisou na víbora nos bosques. Aurora não conhecia nada dessas coisas; a fé dela era clara e brilhante como uma estrela; nada poderia a alarmar, ou trazer inquietação de mente. Essa bela calma, não fria, mas cintilando com esperança e amor, acalmou-o.
Naquela tarde, com a esperança e o amor dela, com sua mensagem de confiança, ela quase o persuadiu. Ele quase se voltou para o que ela tinha pensado por tanto tempo. Ele quase se arrependeu daquela dureza de coração, daquela distância indescritível, por assim dizer, entre ele e os outros homenes, a qual jazia no fundo de sua expedição proposta. Ele abriu os lábios para confessar a ela o seu propósito, e, houvesse ele feito isso, certamente ela o teria persuadido para longe dele. Mas, no ato [159]mesmo de falar, ele hesitou. Era característico dele fazer isso. Se ela instintivamente sentiu que havia alguma coisa oculta dela, ou advinhou que o descontentamenteo que ela sabia que ele tinha suportado por tanto estava chegando a um fim, ou temia que o que ela tinha contado a ele poderia conduzí-lo a algum ato mal considerado, ela implorou a ele, com todo o poder do seu amor, para que ele não fizesse nada precipitado, ou, em desespero, nada que os separaria. Ele colocou os braços em volta dela, ele pressionou-a bem perto dele, ele tremeu com a paixão e luta dentre dele.
“Minha senhora chama por você, Mademoiselle,” disse uma voz; era a criada de Aurora, quem mantinha vigília. “Ela perguntou por você por algum tempo. Alguém está entrando no jardim!”
Não havia nenhuma ajuda para isso; Aurora beijou-lhe e foi-se antes que ele pudesse chegar a si mesmo. Quão longo a entrevista durou (o tempo voa velozmente em tais intercursos doces), ou quão longo ele se sentou após ela ter saído, ele não podia dizer; mas, quando ele saiu, a escuridão já estava acumulando-se, o sol tinha descido e, no leste, a ainda pálida orbe da lua estava elevando-se através das colinas. Como se em um sonho, ele caminhou com passos instáveis para o estábulo do castelo; o cavalo dele tinha sido colocado para trás, e os cavalariços sugeriram a ele que não era bom tentar a floresta à noite. Mas ele estava determinado; ele deu-lhes cada moeda que ele tinha perto dele – não era muito, mas mais do que eles esperaram.
Eles correram ao lado dele até a barreira; aconselhando-o enquanto eles corriam, como ele iria, para encordoar o seu arco e afrouxar uma [160]flecha em seu cinto, e, acima de tudo, para não andar lentamente, nem deixar o seu cavalo caminhar, mas para o manter em um trote tão forte quanto ele pudesse. O fato de que tantas pessoas ricas reuniram-se no castelo para a festa seria certo de ser conhecido para os banditti (os fora da lei das cidades e os servos fugidos). Eles eram certos de ficarem à espreita por viajantes; que ele estivesse ciente.
Os ouvidos deles formigavam e ele sentia a cabeça quente, como se o sangue corresse dentro dela (era a violência da emoção que ele tinha sentido), enquanto ele cavalgava a partir da barreira, escutando e, contudo, sem consciência do que eles diziam. Eles observaram-no até alto na encosta e viram-lhe desaparecer da visão sob as faias escuras da floresta.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.154-160. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/154/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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