[103]Nessa altura, alguma coisa fria tocou minha mão. Eu desloquei-me violentamente e vi, próxima a mim, uma sombria coisa rosada, parecendo-se muito mais com uma criança esfolada do que qualquer outra coisa no mundo. A criatura tinha exatamente as características suaves mas repulsivas de uma preguiça, a mesma fronte baixa e os gestos lentos.
Enquanto o primeiro choque da mudança de luz passava, eu enxergava mais distintamente em volta. A pequena criatura semelhante a uma preguiça estava de pé e encarando-me. Meu condutor tinha desaparecido. O lugar era uma passagem estreita, entre altas paredes de lava, uma fenda na rocha nodosa, e, em cada lado, pilhas entrelaçadas de corais, folhas de palma e juncos encostadas na rocha formavam escuras cabanas grosseiras e impenetráveis. O caminho sinuoso para a ravina acima entre elas mal era de uma largura de três jardas, e era desfigurado por [104]protuberâncias de polpas de frutas em decomposição e outros refugos, os quais eram responsáveis pelo fedor desagradável do lugar.
A pequena criatura-preguiça rosada ainda estava piscando para mim quando meu homem-macaco reapareceu na abertura da mais próxima dessas tocas, e acenou para eu entrar. Conforme eu fazia isso, um monstro curvado contorceu-se para fora dos lugares, mais adiante nesta rua estranha, e colocou-se pé em uma silhueta inexpressiva contra o verde brilhante além, encarando-me. Eu hesitei, tendo quase um ânimo de correr pelo caminho que eu cheguei; e então, determinado a passar pela aventura, eu agarrei meu pedaço de madeira com prego perto do meio e rastejei para dentro do alpendre malcheiroso após o meu condutor.
Era um espaço semicircular, dado forma como a metade de uma colméia; e, contra a parede rochosa que formava o círculo interno dele, ficava uma pilha de frutas variadas, cocos entre outros. Alguns grosseiros vasos de lava e madeira ficavam em volta do chão, e um sobre um banco grosseiro. Não havia fogo. No canto mais escuro da cabana sentava-me uma massa disforme de escuridão que gruniu “Ei!” enquanto eu entrava, e o meu homem-macado estava de pé na luz sombria da entrada e [105]estendeu uma parte de coco para mim enquanto eu rastejava para dentro do outro canto e acocorava-me. Eu aceitei-a, e comecei a consumí-la, tão serenamente quanto possível, a despeito de uma certa trepidação e da proximidade quase intolerável do covil. A pequena criatura-preguiça rosada permaneceu na abertura da cabana, e mais alguma coisa, com um rosto monótono e olhos brilhantes, chegou encarando sobre o seu ombro.
“Ei!” surgiu a partir da protuberância de mistério oposta. “É um homem.”
“É um homem,” tagarelou meu condutor, - “um homem, um homem, um homem-cinco, como eu.”
“Cale-se!” disse a voz a partir da escuridão e grunhiu. Eu consumia meu coco em meio a uma quietude impressionante.
Eu espiei diligentmente dentro da escuridão, mas não pude distinguir nada.
“É um homem,” a voz repetiu. “Ele chega para viver conosco?”
Era uma voz grossa, com alguma coisa nela – um tipo de tom sibilante – isso me impressionou como peculiar; mas o sotaque inglês era estranhamente bom.
O homem-macaco olhou para mim como se ele esperasse alguma coisa. Eu percebi que a pausa era [106]interrogativa. “Ele vem para viver com você,” Eu disse.
“É um homem. Ele precisa aprender a lei.”
Agora, eu comecei a distinguir uma escuridão mais profunda no preto, um contorno vago de uma figura encurvada. Em seguida, eu notei que a abertura do lugar estava escurecida por mais duas cabeças negras. Minha mão apertou meu pedaço de madeira.
A coisa no escuro repetiu em um tom mais alto, “Diga as palavras.” Eu deixei passar sua última observação. “Não caminhar de quatro; essa é a Lei,” ele repetia em um tipo de ritmo monótono.
Eu fiquei confuso.
“Diga as palavras,” disse o homem-macado, repetindo, e as figuras na entrada ecoaram isso, com uma ameaça no tom das vozes delas.
Eu compreendi que tinha de repetir essa fórmula idiota; e então, começou a cerimônia mais insana. A voz no escuro começou entoando uma litania insana, linha por linha, e eu e o resto a repeti-la. Enquanto faziam isso, eles oscilavam de lado a lado da mais estranha maneira, e batiam as mãos deles sobre os joelhos; e eu segui o exemplo deles. Eu podia imaginar que eu já estava morto e [107]em outro mundo. Essa cabana escura, essas grotescas figuras sómbrias, apenas manchadas aqui e ali por um vislumbre de luz, e todos eles oscilando em uníssono e entoando o cântico,
“Não caminhar de quatro; essa é a Lei. Nós não somos Homens?”
“Não sugar Bebida; essa é a Lei. Nós não somos Homens?”
“Não comer Peixe ou Carne; essa é a Lei. Nós não somos Homens?”
“Não golpear com Garra a Casca de Arvóres; essa é a Lei. Nós não somos Homens?”
“Não perseguir outros Homens; essa é a Lei. Nós não somos Homens?”
E assim, a partir da proibição desses atos de loucura, para a proibição do que eu considerava serem as coisas mais loucas, mais impossíveis e mais indecentes que alguém bem poderia imaginar. Um tipo de fervor rítmico caiu sobre todos nós; tagarelávamos e oscilávamos cada vez mais rápido, repetindo essa lei incrível. Superficialmente, o contágio desses brutos estava sobre mim, mas, profundamente dentro de mim, o riso e a repugnância lutavam juntos. Nós repetimos uma longa lista de [108]proibições, e, em seguida, o canto oscilou em volta para uma nova fórmula.
“Dele é a Casa da Dor.
Dele é a Mão que cria.
Dele é Mão que fere.
Dele é a Mão que cura.”
E assim por diante, por outra longa série, principalmente bobagem bastante incompreensível para mim sobre Ele, quem quer que ele possa ser. Eu podia ter imaginado que era um sonho, mas nunca antes eu ouvi entoação de cânticos em um sonho.
“Dele é o clarão do relâmpago,” nós cantamos. “Dele é a profundeza, o mar salgado.”
Uma horrível imaginação surgiu dentro da minha cabeça de que Moreau, após ter animalizado esses homens, tinha infectado seus cérebros diminuídos com um tipo de deificação de si mesmo. Contudo, eu estava muito intensamente consciente dos dentes brancos e das garras fortes ao meu redor para parar a minha entoação de cânticos baseado nessa consideração.
“Dele são as estrelas no céu.”
Finalmente, essa canção terminou. Eu vi o rosto do homem-macado brilhando com transpiração; e meus olhos estando agora acostumados com a escuridão, eu [109]enxergava mais distintamente a figura no canto a partir da qual a voz vinha. Era do tamanho de um homem, mas parecia coberta com um enfadonho cabelo cinzento como um Skye-terrier. O que ela era? O que todos eles eram? Imagine-se rodeado por todos os mais horríveis aleijados e maníacos que seja possível conceber, e você poder entender um pouco dos meus sentimentos com essas grotescas caricaturas de humanidas ao meu redor.
“Ele é um homem-cinco, um homem-cinco, um homem-cinco – como eu,” disse o homem-macaco.
Eu apresentei minhas mãos. A criatura cinzenta no canto inclinou-se adiante.
“Não correr de quatro; essa é a Lei. Nós não somos homens?” ele disse.
Ele colocou para fora uma garra estranhamente distorcida e agarrou meus dedos. A coisa era quase como o casco de um cervo manufaturado em garras. Eu podia ter gritado de surpresa e dor. O rosto dele avançou e espreitou minhas unhas, avançou à luz da abertura da cabana; e eu vi, com um desgosto trêmulo, que era como o rosto nem de homem nem de besta, mas uma mera massa de pelo cinza, com três arqueamentos excedentes para marcar olhos e boca.
[110]“Ele tem unhas pequenas,” disse essa criatura medonha em sua barba cabeluda. “Está certo.”
Ele jogou minha mão para baixo, e, instintivamente, eu agarrei meu pedaço de madeira.
“Coma raízes e ervas; é a vontade Dele,” disse o homem-macaco.
“Eu sou o Pronunciador da Lei,” disse a criatura cinzenta. “Aqui todos que são novos vêm para aprender a Lei. Eu sento na escuridão e digo a Lei.”
“É assim mesmo,” disse uma das bestas na entrada.
“Miseráveis são punições daqueles que infringem a Lei. Ninguém escapa.”
“Ninguém escapa,” disse o povo-besta, lançando olhares uns para os outros.
“Ninguém, ninguém,” disse o homem-macaco, “ninguém escapa. Veja! Eu fiz uma pequena coisa, uma coisa errada, uma vez. Eu grasnei, grasnei, parei de falar. Ninguém podia entender. Eu fui queimado, estigmatizado na mão. Ele é grande. Ele é bom!”
“Ninguém escapa,” disse a criatura cinzenta.
[111]“Ninguém escapa,” disse o povo-besta, olhando de solaio uns para os outros.
“Para todos o desejo que é mau,” disse o cinzento Pronunciador da Lei. “O que você desejará, nós não sabemos; nós devemos saber. Alguns querem seguir coisas que se movem, observar e esgueirar-se e esperar e saltar; matar e morder, morder profunda e abundantemente, sugando o sangue. Isso é ruim. ‘Não perseguir outros Homens; essa é a Lei. Nós não somos homens? Não comer Carne ou Peixe; essa é a Lei. Nós não somos Homens?’”
“Ninguém escapa,” disse a manchada criatura de pá na entrada.
“Para todos o desejo é mau,” disse o cinzento Pronunciador da Lei. “Alguns querem ir rasgando com dentes e mãos dentro as raízes das coisas, fungando dentro da terra. Isso é ruim.”
“Ninguém escapa,” disse os homens na porta.
“Alguns vão golpear árvores com garras; alguns vão arranhar as covas dos mortos; alguns vão lutar com frontes ou pés ou garras; alguns mordem subitamente, ninguém dando oportunidade; alguns amam impureza.”
“Ninguém escapa,” disse o homem-macaco, arranhando a sua batata da perna.
[112]“Ninguém escapa,” disse a pequena criatura-preguiça rosada.
“A punição é forte e certa. Portanto, aprenda a Lei. Diga as palavras.”
E, incontinentemente, ele começou novamente a estranha litania da Lei, e novamente eu e todas aquelas estranhas criaturas começamos cantando e gingando. Minha cabeça titubeava com essa tagarelice e o fedor próximo do lugar; mas eu continuava, confiando em descobrir logo alguma chance para um novo desenvolvimento.
“Não caminhar de quatro; essa é a Lei. Não somos nós homens?”
Nós estavamos fazendo um barulho tão grande que eu não notei nada de um tumulto do lado de fora, até que alguém, quem eu acho que era um dos dois homens suínos que eu vira, empurrou sua cabeça sobre a pequena criatura-preguiça rosada e bradou alguma coisa animadamente, alguma coisa que eu não compreendi. Incontinentemente, aqueles na abertura da cabana desapareceram; o meu homem-macaco saiu correndo; a coisa que se sentava no escuro seguiu-o (eu apenas observei que era grande e desajeitada, e coberta com pelo prateado), e eu fui deixado sozinho. Então, antes que eu alcançassse a abertura, eu ouvi o latido de um cão de caça.
[113]Em outro momento, eu estava de pé do lado de fora do casebre, meu corrimão de cadeira em minha mão, cada músculo de mim, tremendo. Diante de mim estavam as costas desajeitadas de uma vintena desses pessoas-bestas, suas cabeças deformadas meio ocultas pelas suas omoplatas. Eles estavam gesticulando animadamente. Outros rostos meio-aimais olhavam fixamente, interrogação a partir dos casebres. Olhando para a direção a qual eles encaravam, eu vi vindo através da névoa sob as ávores, além do fim da passagem das tocas, a figura escura e o horrível rosto branco de Moreau. Ele estava segurando o cão de caça saltitante e, perto atrás dele, vinha Montgomery, revólver na mão.
Por um momento, eu permaneci acometido por horror. Eu virei-me e vi a passagem atrás de mim bloqueada por outro bruto pesado, com um grande rosto cinzento e pequenos olhos cintilantes, avançando na minha direção. Eu olhei ao meu redor e vi, à minha direita e a uma meia dúzia de jardas diante de mim, uma estreita brecha na parede de rocha através da qual um raio de luz se inclinava dentro das sombras.
“Pare!” exclamou Moreau enquanto eu caminhava a passos lagos na direção da brecha, e, em seguida, “Segurem-no!”
Diante disso, primeiro um rosto virou-se na minha direção, e, [114]em seguida, outras. Felizmente, as mentes bestiais dele eram lentas. Eu colidi meu ombro em um monstro desajeitado que estava se virando para ver o que Moreau quis dizer, e lancei-o adiante sobre outro. Eu senti as mãos dele precipitarem-se em volta, agarrando-me e perdendo-me. A pequena criatura-preguiça rosada colidiu-se comigo, eu cortei seu rosto feio com o prego em meu pedaço de madeira, e, em outro minuto, eu estava subindo um íngrime caminho lateral, um tipo de chamine inclinada, para fora da ravina. Eu ouvi um uivo atrás de mim, e gritos de “Peguem-no!” “Segurem-no!” e a criatura apareceu atrás de mim e emperrou o seu imenso tamanho dentro da fenda. “Continuem! Continuem!” eles uivaram. Eu escalei para cima a fenda na rocha e sai sobre o enxofre no lado virado para o ocidente da vila dos Homens fera.
Essa fenda foi completamente feliz para mim, pois a chaminé estreita, inclinando-se obliquamente para cima, deve ter impedido os perseguidores mais próximos. Eu corri através do espaço branco e para baixo de uma encosta íngreme, através de uma vegetação espalhado de árvores, e cheguei a um trecho de baixa altitude de juncos altos, através do qual eu me impulsionei para dentro de um matagal escuro e espesso que [115]era escuro e espesso sob o pé. Enquanto eu mergulhava dentro dos juncos, meus perseguidores dianteiros emergiam da fenda. Eu interrompi meu caminho através desse matagal por alguns minutos. O ar atrás de mim e ao meu redor logo ficou cheio de gritos ameaçadores. Eu ouvi o tumulto de meus perseguidores na fenda acima da encosta, em seguida, a colisão dos juncos e, de vez em quanto, o estalado crepitante de um galho. Algumas das criaturas rugiam como animadas bestas de rapina. Eu ouvi Moreau e Montgomery gritando na mesma direção. Eu virei-me bruscamente para a direita. Pareceu-me, mesmo então, que eu ouvi Montgomery gritando para eu correr por minha vida.
Logo, o chão colapsou, abundante e lamacento, sob meus pés; mas eu estava desesperado e caminhei precipitadamente para dentro dele, esforcei-me através [dele] até os joelhos, e, dessa maneira, cheguei a caminho sinuoso entre canas altas. O barulho de meus perseguidores desapareceu à minha esquerda. Em um lugar, três estranhos rosados, animais saltitantes, aproxidamente do tamanho de gatos, corriam diante de meus passos. Esse caminho corria colina acima, através de outro espaço aberto coberto por incrustações brancas e, novamente, mergulhava em um canavial. Então, [116]subitamente, ele tornou-se paralelo à borda de uma fenda de paredes íngrimes, a qual surgiu sem aviso, como o valado de um parque inglês, - virou-se com uma brusquidão inesperada. Eu ainda estava correndo com toda a minha força, e não vi essa baixa até que estava voando impetuosamente através do ar.
Eu cai sobre meus antebraços e cabeça, entre espinheiros, e levantei-me com uma orelha cortada e rosto sangrando. Eu tinha caído dentro de uma ravina íngreme, cheia de uma névoa obscura que se espalhava ao meu redor em punhados, e com um estreito riacho pequeno a partir do qual essa névoa originava-se, serpentando para baixo no centro. Eu fiquei admirado diante desse fino nevoeiro no pleno esplendor da luz do dia; mas eu não tinha tempo para permanecer considerando isso nessa altura. Eu virei-me para minha direita, córrego abaixo, esperando chegar ao mar nessa direção e, dessa maneira, ter meu caminho aberto para me afogar. Foi apenas depois que eu descobri que eu derrubara o meu pedaço de madeira com prego em minha queda.
Logo a ravina estreitou-se por uma área, e, descuidadamente, eu pisei dentro do riacho. Eu saltei novamente muito rápido, pois a água estava quase fervente. Eu também notei que havia uma fina espuma sulfúrea flutuando sobre sua água serpenteante. Quase imediatamente surgiu uma curva na [117]ravina, e o azul indistinto do horizonte. O mar mais próximo estava reluzindo o sol a partir de uma miríade de facetas. Eu vi minha morte diante de mim; mas eu estava quente e ofegante, com o sangue quente correndo lentamente sobre o meu rosto e correndo agradavelmente através de minhas veias. Eu também senti mais do que um toque de exultação, ao ter distanciado meus perseguidores. Portanto, não estava em mim sair e afogar-me, ainda. Eu encarei de volta o caminho pelo qual eu vim.
Eu escutei. Salvo pelo zumbido dos mosquitos e o chilro de alguns insetos pequenos que saltavam entre os espinheiros, o ar estava absolutamente parado. Em seguida, surgiu o latido de um cão, muito fraco, e um tagarelar e tagarelice, o estalo de um chicote, e vozes. Eles tornaram-sem mais altos, então mais fracos, novamente. O barulho retrocedeu riacho acima e desapareceu. Por um tempo, a perseguição estava terminada; mas eu agora sabia quanta esperança de ajuda para mim existe no povo-besta.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 103-117. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/103/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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