[93]Surgiu diante de minha mente, com uma esperança irracional de escapar, que a porta externa do meu aposento ainda estava aberta para mim. Agora eu estava convencido, absolutamente certo, de que Moreau tinha estivera vivissecionando um ser humano. Todo o tempo, desde que ouvi o nome dele, eu estive tentando ligar em minha mente, de alguma maneira, o animalismo dos ilhéus com as abominações dele; e agora eu considerava que percebi isso tudo. A memória do trabalho dele sobre transfussão de sangue ocorreu-me. Aquelas criaturas que eu tinha visto eram as vítimas de algum experimento hediondo. Aqueles canalhas doentes meramente intencionaram restringir-me, para me iludirem com sua exibição de confiança e logo caírem sobre mim com um destino mais horrível do que a morte – com a tortura; e, após a tortura, a mais horrenda degradação que fosse possível conceber – para me despachar como uma alma perdida, uma besta, para o resto de seu rebanho de Kómos.
[94]Eu olhei em volta em busca de alguma arma. Nada. Então, com uma inspiração, eu virei-me sobre a cadeira da mesa, coloquei meu pé no lado dela e arranquei o corrimão lateral. Aconteceu que um prego veio com a madeira, e, projetando-se, deu um toque de perigo para uma arma de outra maneira insignificante. Eu ouvi um passo do lado de fora e, imediatamente, abri a porta e encontrei Montgomery a uma distância de uma jarda dela. Ele intencionava trancar a porta externa! Eu ergui este meu pedaço de madeira com prego e cortei o rosto dele; mas ele pulou para trás. Eu hesitei por um momento, em seguida, virei-me e fugi em volta do canto da casa. “Prendick, homem!” Eu ouvi a exclamação surpresa, “não seja um imbecil idiota, homem!”
Outro minuto, pensei eu, e ele teria conseguido trancar-me, e tão pronto quanto um coelho de hospital, para o meu destino. Ele emergiu detrás do canto, pois eu ouvi ele gritar, “Pendrick!” Em seguida, ele começou a correr atrás de mim, gritando coisas conforme ele corria. Desta vez correndo cegamente, eu fui na direção nordeste, em uma direção perpendicular à minha expedição anterior. Imediatamente depois, enquanto eu estava correndo precipitadamente praia acima, eu dei uma olhada sobre o meu ombro e vi o auxiliar [95]com ele. Eu corri furiosamente encosta acima, através ela, em seguida, correndo para o leste ao longo de um vale rochoso franjado em cada lado por selva, eu corri por talvez uma milha no todo, meu peito esforçando-se, meu coração batendo em meus ouvidos; e, a essa altura, não ouvindo nada de Montgomery ou de seu homem, e sentindo-me à beira da exaustão, eu retornei bruscamente na direção da praia, conforme eu julgava, e deitei-me sob o abrigo de um canavial. Ali eu permaneci por um longo tempo, muito temeroso para me mover, e, de fato, muito temeroso mesmo para planejar um curso de ação. A cena selvagem à minha volta estendia-se dormindo silentemente sob o sol, e o único som perto de mim era o zumbindo fino de alguns pequenos mosquitos que me descobriram. Logo eu me tornei ciente de um som de respiração sonolenta, o murmúrio do mar sobre a praia.
Após uma hora, eu ouvi Montgomery gritando meu nome, muito longe para o norte. Isso me colocou pensando em meu plano de ação. Como interpretei à época, está ilha era habitada apenas por aqueles dois vivissecionistas e suas vítimas animalizadas. Alguns desses, sem dúvida, eles podiam forçar em seu serviço contra mim se a necessidade emergisse. Eu sabia que tanto Moreau quanto [96]Montgomery portavam revólveres; e exceto por um débil pedaço de madeira de ocasião com um pequeno prego, a mais simples zombaria de uma maça, eu estava desarmado.
Assim eu me deitei ali, até que eu comecei a pensar em comida e bebida; e diante desse pensamento, a real desesperança da minha posição foi compreendida completamente por mim. Eu não conhecia nenhuma maneira de obter qualquer coisa para comer. Eu era ignorante demais em botânica para descobrir qualquer recurso de raiz ou fruto que poderia jazer à minha volta; eu não tinha meios de capturar os poucos coelhos sobre a ilha. Tornava-se cada mais sem resultado quanto mais eu ponderava sobre a perspectiva. Finalmente, no desespero da minha posição, minha mente voltou-se para os homens animais que eu encontrara. Eu tentei achar alguma esperança no que eu me lembrava deles. Em resposta, eu lembrei-me de cada um que eu tinha visto, e tentei extrair algum augúrio de assistência a partir de minha memória.
Em seguida, subitamente, eu ouvi o latido de um cão de caça e, diante disso, percebi um novo perigo. Eu levei pouco tempo para pensar, ou então eles teriam me capturado, mas, pegando meu peadço com prego, apressei-me precipitamente a partir de meu esconderijo na direção do som do mar. Eu lembrei-me de um aumento de plantas espinhosas, com espinhos que furavam como canivetes. Eu emergi sangrandando e com roupas [97]rasgadas sobre a orla de uma longa angra abrindo-se na direção norte. Eu caminhei diretamente para dentro da água sem um minuto de hesitação, avançando um pouco angra acima, e logo me encontrando até os joelhos em um pequeno riacho. Finalmente, eu arrastei-me para fora sobre o banco de areia na direção oeste, e, com o coração batendo ruidosamente em meus ouvidos, arrastei-me para dentro de um emaranhado de samambaias para esperar o desenlace. Eu ouvi o cão (havia apenas um) aproximar-se, e latir quando ele chegou aos espinheiros. Nessa altura, eu não ouvi mais nada, e logo comecei a pensar que eu tinha escapado.
Os minutos passaram-se; o silêncio estendeu-se e, finalmente após uma hora de segurança, minha coragem começou a retornar para mim. Por esse momento, eu não mais estava muito aterrorizado ou muito miserável. Por assim dizer, eu tinha passado do limite do terror e desespero. Agora eu sentia que minha vida estava praticamente perdida, e essa persuasão me tornou capaz de me atrever a qualquer coisa. Eu até tive um certo desejo de me encontrar com Moreau cara a cara; e conforme eu tinha avançado dentro da água, eu lembrei-me de que, se eu estivesse em grande dificuldade, pelo menos um caminho para longe do tormento ainda se estendia aberto para mim, - eles não poderiam muito bem evitar que eu me afogasse. Eu quase tive um ânimo para me afogar [98]nessa altura; mas um estranho desejo de ver a inteira aventura terminada, um desejo estranho, impessoal, espetacular em mim mesmo, restringiu-me. Eu estiquei os membros, feridos e doloridos das picadas das plantas espinhosas, e encarei as árvores ao meu redor; e, tão subitamente aquilo pareceu pular para fora do rendilhado verde em torno dele, meus olhos acenderam-se sobre um rosto negro observando-me. Eu vi que era a criatura símia quem tinha recebido o barco de bordo na praia. Ele estava agarradno o tronco oblíquo de uma palmeira. Eu peguei meu pedaço de maderia e fiquei de pé encarando-o. Ele começou a tagarelar. “Você, você, você” foi tudo que eu consegui distinguir inicialmente. Subitamente, ele desceu da árvore e, em outro momento, estava segurando as frondes separadas e encarando-me.
Eu não senti a mesma repugnância com relação a essa criatura que eu experienciara com os outros homens-fera. “Você,” ele disse, “no bote.” Ele era um homem, portanto, - pelo menos tão homem quanto o auxiliar de Montgomery, - pois ele podia falar.
“Sim,” eu disse, “eu cheguei no bote. A partir do navio.”
“Oh!” ele disse, e seus olhos brilhantes, sem descanço, [99]viajaram sobre mim, para minhas mãos, para o pedaço de maderia que eu carregava, para meus pés, para os pontos esfarrapados em meu casaco, e para os cortes e arranhões que eu tinha recebido dos espinheiros. Ele extendeu a própria mão e contou os dígitos lentamente, “Um, dois, três, quatro, cinco – oito?”
E não entendi a intenção dele então; posteriormente, eu deveria descobrir que uma grande proporção dessas pessoas-bestiais tinham mãos malformadas, algumas vezes, carecendo de até três dígitos. Mas, adivinhando que, de alguma maneira, isso devia ser um comprimento, eu fiz a mesma coisa como forma de resposta. Ele sorriu com satisfação imensa. Em seguida, seu rápido olhar errant circulou novamente; ele fez um movimento rápido – e desapareceu. As frondes de samambaia entre as quais ele tinha estado se juntaram silvando.
Eu impulsionei-me para fora do matagal seguindo-o, e fiquei surpresso ao descobri-lo balançando alegremente por um braço esguio a partir de uma corda de trepadeira que se curvava para baixo a partir da folhagem acima da cabeça. Ele estava de costas para mim.
“Olá!” Eu disse.
Ele desceu com um pulo torcido e colocou-se pé encarando-me.
[100]“Eu digo,” eu disse, “onde eu posso conseguir alguma coisa para comer?”
“Comer!” ele disse. “Comer comida de Homem, agora.” E os olhos dele voltaram-se para o balanço das cordas. “Nas cabanas.”
“Mas onde estão as cabanas?”
“Oh!”
“Eu sou novo, você sabe.”
Diante disso, ele girou e partiu em uma caminhada rápida. Todos os seu movimentos eram curiosamente rápidos. “Venha junto,” disse ele.
Eu fui com ele para ver a aventura terminada. Eu imaginava que as cabanas eram algum abrigo grosseiro onde ele e alguns mais dessas pessoas-bestiais viviam. Talvez eu pudesse considero-los amigáveis, encontrar algum meio nas mentes deles para os controlar. Eu não sabia quão longe eles tinham se esquecido de sua herança humana.
Meu companheiro semelhante a macaco trotava ao meu lado, com suas mãos pendendo e sua mandíbula projetada adiante. Eu ponderava sobre que memória ele poderia ter nele. “Por quanto tempo você esteve nesta ilha?” Disse eu.
“Quanto tempo?” Ele perguntou; e, após ter a questão repetida, e ele segurou alto três dedos.
[101]A criatura era pouco melhor do que um idiota. Eu tentei fazer sentido do que ele quis dizer com isso e, parece-me, que eu o entediei. Após outra questão ou duas, ele subitamente deixou meu lado e foi saltando para alguma fruta que pendia de uma árvore. Ele puxou para baixo um punhado de cascas espinhosas e prosseguiu comendo os conteúdos. Eu observei isso com satisfação, pois aqui, pelo menos, estava uma pista para alimentação. Eu testei-o com algumas outras questões, mas suas respostas tagarelantes, prontas, eram tão frequentes quanto quando não eram conflitantes com a minha questão. Algumas eram adequadas, outras, bastante semelhantes às de papagaio.
Eu estava tão atento a essas peculiriadades que eu escassamente notei o caminho pelo qual nós seguíamos. Logo nós chegamos às árvores, todas chamuscadas e marrons e, dessa maneira, a lugar vazio, coberto com incrustação branca-amarelada, através da qual uma fumaça à deriva, pungente em baforadas para o nariz e os olhos, seguia à deriva. À nossa direita, através de um reborbo de rocha nua, eu vi o nível azul do mar. O caminho serpenteava abruptamente abaixo, para uma ravina estreita de massas caídas e nodossas de escórias enegrecidas. Dentro disso nós mergulhamos.
Essa passagem estava extremamente escura, após a [102]cegante luz do sol refletir-se sobre o chão sulfuroso. As paredes dela tornaram-se íngremes e aproximaram-se uma da outra. Manchas de verde e carmesim espalhavam-se através de meus olhos. Meu condutor parou subitamente. “Casa!” Disse ele, e eu estava de pé no chão de um abismo que inicialmente era absolutamente escuro para mim. Eu ouvi alguns barulhos estranhos, e impeli as juntas de minha mão esquerda dentro de meus olhos. Eu tornei-me ciente de um odor desagradável, como a jaula mal limpa de um macaco. Além, a rocha abria-se em uma encosta gradual de folhagem iluminado pelo sol, e, em cada lado, a luz descia através de caminhos estreitos para a escuridão central.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.93-102. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/93/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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