A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo X O Grito do Homem

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[86]Enquanto aproximava-me da casa, eu vi que a luz brilhava a partir da porta aberta do meu quarto; e então eu ouvi, saindo daquela escuridão ao lado daquele oblongo laranja de luz, a voz de Montgomery gritando, “Prendick!” Eu continuei correndo. Logo eu o ouvi novamente. Eu respondi com um fraco “Olá!” e, em outro momento, cambaleei até ele.

Onde você esteve?” disse ele, segurando-me pelo braço, de maneira que a luz a partir da porta caiu sobre o meu rosto. “Nós dois estivemos tão ocupados que nos esquecemos de você até a uma meia-hora atrás.” Ele conduziu-me para dentro do quarto e sentou-me na espreguiçadeira. Por um tempo, eu fiquei cego pela luz. “Nós não pensávamos que você começaria a explorar esta nossa ilha sem nos contar,” ele disse; e, em seguida, “eu fiquei receoso – mas – que – Olá!”

[87]Minha última força restante saiu de mim, e minha cabeça caiu para frente, sobre meu peito. Eu acho que ele encontrou alguma satisfação em me dar conhaque.

Pelo amor de Deus,” eu disse, “feche esta porta.”

Você esteve encontrando-se com algumas de nossas curiosidades, é?” Ele disse.

Ele trancou a porta e voltou-se para mim novamente. Ele não me fez perguntas, apenas me deu mais algum conhaque, água e pressionou-me para comer. Eu estava em um estado de colapso. Ele disse alguma coisa sobre ter se esquecido de me avisar, e perguntou-me brevemente quando eu deixei a casa e o que eu vira.

Eu respondi-lhe brevemente, de maneira fragmentária. “Diga-me o que tudo isso significa,” eu disse, em um estado de quase histeria.

Não é nada tão terrível,” disse ele. Mas eu acho que você já teve o suficiente por um dia.O puma deu um grito agudo de dor. Diante disso ele praguejou sob a sua respiração. “Eu estou condenado,” disse ele, “se esse lugar não for tão ruim quando a Gower Street, com seus gatos.”

Montgomery,” eu disse, “o que foi aquela [88]coisa que veio atrás de mim? Era uma besta ou era um homem?”

Se você não dormir hoje à noite,” ele disse “você estará fora de si amanhã.”

Eu coloquei-me de pé diante dele. “O que era aquela coisa que veio atrás de mim?” Eu perguntei.

Ele olhou-me diretamente nos olhos, e torceu o lábio de lado. Os olhos deles, os quais pareceram animados há um minuto, tornaram-se aborrecidos. “A partir do seu relato,” disse ele, “eu estou pensando que foi um duende.”

Eu senti um gosto de irritação intensa, a qual passou tão rapidamente quanto veio. Eu joguei-me na espreguiçadeira novamente, e pressionei a testa com as mãos. Mais uma vez, o puma começou.

Montgomery veio para trás de mim e colocou a mão dele sobre o meu ombro. “Veja aqui, Prendick,ele disse, “eu não tenho privilégios para deixar você à deriva nesta nossa tola ilha. Mas isso não é tão ruim quanto você sente, homem. Os seus nervos estão esgotados. Deixe-me dar alguma coisa para você que o fará dormir. Isso – ainda continuará por horas. Você simplesmente tem de dormir, ou eu não responderei por isso.”

Eu não respondi. Eu curvei-me para frente e [89]cobri o rosto com as mãos. Logo ele retornou com uma pequena medida contendo um líquido escuro. Ele deu-me isso. Eu tomei-o sem resistir e ele ajudou-me a para dentro da rede de dormir.

Quando eu acordei, era dia alto. Por um pouco, eu permaneci deitado, encarando o teto acima de mim. As vigas, eu observei, eram feitas da madeira de uma embarcação. Então eu virei a cabeça, e vi uma refeição preparada para mim sobre a mesa. Eu percebi que estava faminto, e preparado para escalar a rede de dormir para fora, a qual, muito polidamente antecipando minha intenção, torceu-se e depositou-me de quatro sobre o chão.

Eu levantei e sentei diante da comida. Eu tinha um sentimento pesado na cabeça e, em princípio, apenas a mais vaga memória das coisas que aconteceram durante a noite. A brisa da manhã soprava muito agradavelmente através da janela sem vidro, e isso e a comida contribuíram para o sentimento de conforto animal que eu esperienciei. Logo a porta atrás de mim – a porta interior perto do jardim do cercado – abriu-se. Eu virei-me e vi o rosto de Montgomery.

[90]“Tudo certo,” disse ele. “Eu estou assustadoramente ocupado.” E ele fechou a porta.

Subsequentemente, eu descobri que ele se esqueceu de a trancar novamente. Então eu lembrei-me da expressão do rosto dele na noite anterior e, com isso, a memória de tudo o que eu experienciara se reconstruiu diante de mim. Assim como aquele medo retornou para mim surgiu um choro do interior; mas, desta vez, não era de um puma. Eu abaixei o bocado que hesitava sobre meus lábios e ouvi. Silêncio, exceto pelo sussuro da brisa da manhã. Eu comecei a pensar que meus ouvidos me enganaram.

Após uma longa pausa, eu retomei minha refeição, mas com meus ouvidos ainda vigilantes. Logo eu ouvi alguma outra coisa, muito fraca e baixa. Eu sentei-me como se congelado em minha atitude. Embora fosse fraca e baixa, ela movia-se mais profundamente do que tudo o que eu até agora ouvira das abominações atrás da parede. Desta vez, não houve engano quanto à qualidade dos sons sombrios e quebrados; absolutamente nenhuma dúvida quanto à fonte deles. Pois eles eram gemidos, quebrados por soluços e suspiros de angústia. Não havia bruto desta vez; era um ser humano em tormento!

[91]Enquanto compreendia isso, eu levantei e, em três passos, tinha cruzado o quarto, pegado o trinco da porta para o jardim e abrido-a apressadamente.

Prendick, homem! Pare!” gritou Montgomery, intervindo.

Um assustado cão veadeiro latiu e rosnou. Havia sangue, eu vi, no esgoto, - marrom, e algum escalate, - eu senti o cheiro peculiar de ácido carbólico. Então, através de uma porta aberta além, à luz sombra da sombra, eu vi alguma coisa dolorosamente amarrada sobre uma estrutura, assustada, vermelha e enfaixada; e em seguida, maculando isso, apareceu o rosto do velho Moreau, branco e terrível. Em um momento ele pegou-me pelo ombro com uma mão que estava marcada com vermelho, e virou-me sobre meus pés, e lançou-se precipitamante de volta para o meu quarto. Ele levantou-me como se eu fosse uma criança pequeno. Eu caí de corpo todo sobre o chão e a parta bateu e fechou a intensidade apaixonada do rosto dele. Em seguida, eu ouvi a virada da chave na fechadura e a voz de Montgomery em repreensão.

Arruina o trabalho de uma vida,” eu ouvi Moreau dizer.

[92]“Ele não entende,” disse Montgomery, e outras coisas que foram inaudíveis.

Eu não posso dispensar o tempo, contudo,” disse Moreau.

O resto eu não ouvi. Eu ergui-me e permaneci de pé trêmulo, minha mente, um caos dos receios mais horríveis. Poderia ser possível, eu pensei, que uma coisa tal como a vivissecção de homens fosse realizada aqui? A questão disparou como o relâmpago através do céu tumultuoso; e, subitamente, o horror nublado de minha mente condensou-se em uma compreensão vívida do meu próprio perigo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.86-92. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/86/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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