A Água das Ilhas Maravilhosas - A Quarta Parte: Dos Dias de Permanência - Capítulo XVI Ainda um Dia e uma Noite eles demoram-se no Vale

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[255]Birdalone despertou quando o sol entrou no caramanchão dela, e imediatamente se colocou de pé, e desceu ao rio e lavou a noite dela; e então, quando ela estava vestida, convocou o cavaleiro para vir até ela; e ele veio, parecendo abatido e perturbado; de modo que Birdalone pensou consigo mesma: “Está bem, ele fará minha vontade.”

Ela ficou de pé diante dele e desejou-lhe a saudação do dia, e ele olhou para ela com tristeza. Em seguida, ela disse: ‘Agora chegou o momento quando eu devo te pedir para me levar de volta ao Castelo da Busca e à minah própria gente.’ Ele não foi rápido para a responder, e ela falou novamente: ‘Isso tu deves fazer, ou senão, levar-me para o Domínio Vermelho e entregar-me para o tirano daquele lugar; e eu ouvi a partir de tua própria boca que isso não será nada exceto lançar-me à vergonha e ao tormento e à morte. E eu considero que tu não o deves fazer.’ ‘Ou melhor,’ ela disse, impedindo as palavras que estavam saindo da boca dele, ‘eu tenho conhecimento de que tu o podes fazer, se teu coração permite-o; pois tu és mais forte do que eu, e tu podes quebrar o meu arco, e arrancar esta faca da minha mão; e tu podes prender-me e amarrar-me na sela e, dessa maneira, conduzir meu corpo desamparado à servidão e morte. Mas tu dizeste que me amas, e nisso eu acredito em ti. Portanto, eu sei que tu não podes desejar fazer isso.’

Ele respondeu na carrancuda voz dele: ‘Tu estás certa, dama, eu não posso. Ou melhor, ouve tu com atenção desta vez. Eu [256]estive ponderando durante toda a noite sobre o que tu dizeste sobre abandonar meu mestre, quer dizer, trai-lo, pois chega-se a isso; e agora eu me decidi a faze-lo, e eu o trairei pelo teu bem. Portanto, há uma terceira via a tomar que tu não viste; nós cavalgaremos para fora deste pequeno vale no intervalo de uma hora, e eu te levarei para aqueles que são apenas menos inimigos do Cavaleiro Vermelho do que os teus camaradas do Busca, a saber, para o capitão e os burgueses da boa cidade de Greenford à Água; e eu os farei saber que eu resgatei-te das mãos do Cavaleiro Vermelho, e tornei-me inimigo dele; e mostrar-lhes-ei todos as receitas e gastos dele, e cada partícula de desígnio, e armadilha dele, de modo que ele caia nas mãos deles. Agora, embora eu devesse ser capturado em batalha por eles, eu deveria ser rapidamente trazido ao enforcamento, ou, pode ser, à fogueira (pois nós somos todos feiticeiros no Domínio Vermelho); contudo, com essa palavra em minha boca, se eles crerem nela, eu deverei ser feito capitão deles e logo mestre. Acreditar em meu conto eles irão, se tu me corroborares naquele lugar, e eles te honrarão, e permitirão a ti dar a ti mesma a mim em casamento; e então eu conheço-te, e também a mim mesmo, e antes que tarde nós deveremos ser igualmente poderosos e amados, e belos serão os dias diante de nós.

A voz dele suavizara-se conforme ele falava, e perto do fim de suas palavras ele vacilou e, finalmente, irrompeu chorando e jogou-se sem palavras sobre a grama diante dela.

Ela ficou pálida, e a testa dela estava franzida, e a face [257]dela estremeceu; mas ela falou friamente para ele e disse: ‘Esse caminho eu não posso tomar; eu surpreendo-me contigo de que tu o revelaste a mim, por tu mesmo conheces que eu não posso ir contigo. Por isso, eu não irei a lugar nenhum exceto ao Castelo da Busca. Se tu não desejares me conduzir para lá, ou me colocar na estrada, eu te perguntarei diretamente, tu me obstarás se eu for buscar o caminho para lá por mim mesma?’

Ele levantou-se do chão com um rosto pálido e cheio de raiva bem como de tristeza, e pegou-a pelos punhos e disse, fazendo careta por um momento: Diz-me agora qual deles é; é o idiota estúpido do Baudoin, ou o tolo frívolo do Hugh, ou o pedante maçante de Arthur? Mas isso não importa; pois eu sei, e toda a região sabe, que eles estão prometidos, cada homem deles com sua própria mulher; e se eles não encontrarem as mulheres mesmas, estúpidos como eles são, que eles permanecerão para sempre adorando as meras sombras delas, e afastar-se-ão de carne e sangue, fossem eles os mais belos do mundo, como tu és, como tu és.’

Ela afastou-se dele o quanto ela pode, mas ele ainda segurava os pulsos dela; em seguida, ela falou em uma voz trêmula, os próprios lábios dela pálidos com medo e ira: “Percebe-se bem que tu és um homem do Cavaleiro Vermelho; e talvez tu desejes fazer comigo o que ele desejaria. Mas uma coisa eu suplico de ti, se há qualquer grão de misericórdia em ti, que tu desembainha tua espada e trespassa-me; tu podes deixar de segurar-me e pegar a lâmina, eu não me mexerei de onde estou. Oh! Pensar que eu te considerei a quase um homem bom.”

Agora, ele largou as mãos dela e permaneceu distante [258]dela, olhando fixamente para ela, e logo se jogou no chão, rolando de um lado para o outro e chorando sobre a grama. Ela olhou para ele por um momento ou dois e, em seguida, deu um passo a frente e ficou de pé para ele, e tocou-o no ombro e disse: “Levanta, eu ordeno a ti, e sê um homem e não uma besta selvagem.”

Assim, em pouco tempo, ele levantou-se e ficou de pé diante dela como que pendurado por uma corda; então ela olhou para ele lamentavelmente, e disse: ‘Bom senhor e valente cavaleiro, tu perdeste a cabeça por um momento e, dessa forma, tu envergonhaste a mim e a ti mesmo; e agora é melhor que tu esqueças disso e, além disso, de minhas últimas palavras para ti.’

Após o que ela estendeu a mão para ele, e ele continuou em seus joelhos e pegou-a, soluçando, e beijou-a. Mas ela disse, e sorriu para ele: ‘Agora eu vejo que tu farás o que eu te supliquei, e daqui me conduzirá e colocar-me-á no caminho para o Castelo da Busca.’ Ele disse: ‘Eu te conduzirei para o Castelo da Busca.’

Disse Birdalone:Então deverá ser como eu prometi, que eu serei tua querida amiga enquanto nós ambos vivermos. E agora, se tu conseguir, fica um pouco mais alegre e vem e senta-te comigo, e comamos nossa comida, pois eu estou faminta.

Ele sorriu, mas lamentavelmente, e logo eles se sentaram para sua refeição; e ele esforçou-se para ficar um pouco de humor feliz, e para comer como alguém em uma festa; mas, enquanto isso, o coração lhe falhava, e cerrava os dentes e rasgava a grama, e o rosto dele ficou feroz e terrível de se olhar; mas Birdalone fez como se ela não prestasse atenção a isso, e foi jovial e afável com ele. [259]E quando eles terminaram sua refeição, ele sentou olhando para ela por um tempo e finalmente ele falou: ‘Dama, tu consideras que, quando tudo estiver dito, eu tenha feito alguma coisa por ti desde que primeiro nos encontramos, no dia antes de ontem, na extremidade mais baixa do Vale Negro?’ ‘Sim,’ ela disse, ‘como eu falei outrora, todas as coisas consideradas, eu julgo que tu fizeste muito.’ ‘E agora,’ disse ele, ‘eu devo fazer ainda mais; pois eu devo conduzir-te para onde, doravante, eu não deverei ter mais parte ou lote nenhum em ti do que se tu estivesses no céu e eu, no inferno.’ ‘Eu suplico-te para não falares assim,’ disse Birdalone; ‘eu não disse que serei tua amiga?’ ‘Dama,’ disse o cavaleiro, ‘eu conheço bem que, de acordo com a doçura do teu coração, tu farás o que tu podes.’ E com isso, ele ficou em silêncio por um tempo e ela também.

Então ele disse:Eu te pedirias uma graça se eu me atrevesse.’ ‘Peça-a,disse ela, ‘e eu te concederei se eu puder; eu contradisse-te o suficiente, parece-me.’

Dama,disse ele,eu te pedirei como uma recompensa do líder do caminho, a saber, que tu permaneças aqui comigo, neste pequeno vale, com toda honra mantida, até amanhã de manhã; e que esse lugar, o qual antigamente me ajudou, seja santificado pela tua habitação aqui; e eu, eu deverei ter tido um dia feliz, pelo menos, se nunca mais outro. Tu podes conceder-me isso? Se tu não podes, nós partiremos em uma hora.

O semblante dela diminuiu diante da palavra dele, e ela ficou em silêncio por um tempo; pois extremamente ela ansiava por estar rapidamente onde os amigos dela deveriam encontrá-la se eles retornassem ao castelo. Mas ela pensou dentro de si mesma quão selvagem e feroz o homem era, e duvidou de se ele poderia enlouquecer nas mãos dela e [260]destrui-la se frustrado demais; e além disso, ela apiedava-se dele, e faria o que ela poderia aliviar a dor dele e consolar o pesar do coração dele. Portanto, ela removou esse problema da face e que ela não mais se irritasse, apenas sorriu para o cavaleiro e disse: ‘Bom senhor, isso me parece uma pequena coisa para eu fazer, e eu concedo-te com uma boa vontade, e esse deverá ser o primeiro dia de minha amizade se tu desejares aceitá-la; e possa isso te consolar.’

Quem então ficou contente senão o cavaleiro, e estranho era ver toda a tristeza fugir dele; e ele tornou-se feliz e alegre como um jovem, e contudo, além disso, excessivamente cortês e gentil com ela, como se ele estivesse servindo uma poderosa rainha.

Então assim ele consumiram juntos o dia, em companhia completamente boa; e primeiro, eles subiram o pequeno vale juntos e exatamente ao pé daquela grande cachoeira, onde o riacho caía trovejante a partir das rochas puras; por muito tempo Birdalone ficou de pé para observar isso, e muito ela se maravilhou diante disso, pois nenhuma coisa semelhante ela vira antes.

Depois disso, eles caminharam a pé para dentro do bosque atrás do caramanchão verde, e quando caminharam alguma distância naquele lugar para o prazer deles, eles imediatamente começaram a procurar veação para o jantar deles; e, ao mesmo tempo, o cavaleiro pegou o arco e as flechas de Birdalone para acertar a presa, mas ele teria colocado o cinto de sua espada na cintura dela, para que ela pudesse não ficar desarmada. Assim ele pegaram um cabrito-montês e trouxeram-no de volta para o caramanchão, e o cavaleiro preparou-o e cozinhou-o, e, novamente, eles comeram em comunhão e gentileza; e Birdalone estivera [261]no rio e foi buscar de lá reserva de orelhas de rato de flores azuis, e de ulmeira, das quais ainda restavam um pouco dos dias iniciais de verão, e fizera para si grinaldas para a cabeça e quadris; e o cavaleiro sentou e adorou-a, contudo, ele não desejava tanto quanto tocar a mão dela, intensamente como ele desejava a beleza do corpo dela.

E seguida, quando o jantar estava terminado, e eles deitaram à sombra das árvores, e ouviram com atenção a galinha d’água chorando a partir da água, e o gemido do pombo do bosque nas altas árvores, ela virou-se para ele e ordenou que ele contasse a ela alguma coisa do conto de vida e dos feitos dele; mas ele disse: ‘Não, dama, eu suplico-te perdão para mim, pois pouco eu tenho a contar que seja bom, e eu não te aceitaria conhecer sobre mim nada pior do que tu já conheces de mim. Antes, sê tu amável para mim, e conta-me de teus dias que têm sido, no que eu conheço muito certamente que não deverá haver nada senão o bem.’

Ela sorriu e ruborizou, mas, sem mais alvoroço, imediatamente começou a contar-lhe da vida dela na Casa sob o Bosque, e nem mesmo se privou de contar a ele um pouco sobre a mãe do bosque. E ele não disse nenhuma palavra para ela além disso, salvo agradecimentos e elogios pela gentileza da história dela.

Finalmente o dia se consumiu ao seu final, e então o pesar do cavaleiro marchou sobre ele novamente, e ele ficou melancólico e de poucas palavras; e Birdalone ainda foi alegre com ele, e teria consolado o pesar dele; mas ele disse: ‘Deixe estar; quanto a ti, tu deverás ficar feliz amanhã, mas este meu dia feliz está quase desgastado, e é como o desgaste de minha vida.’ [262]E a noite escura chegou, e ele desejou boa noite a ela tristemente, e partiu para o seu covil no bosque. Birdalone deitou-se no caramanchão, e não conseguiu dormir por um longo tempo devido a sua alegria pelo dia seguinte, o qual deveria conduzi-la de volta ao Castelo da Busca.

Mas, quando era de manhã, e o sol tinha apenas nascido, Birdalone despertou, e colocou-se de pé e arrumou a sua vestimenta, e convocou o cavaleiro seu servo, e ele veio imediatamente conduzindo os dois cavalos e disse: ‘Agora, vamos para o Castelo da Busca.’ E ele estava sóbrio e triste, mas nada feroz ou selvagem.

Assim Birdalone o agradeceu gentilmente e elogiou-o, e ele não mudou o semblante de jeito nenhum.

Então eles montaram e partiram, e o cavaleiro conduziu diretamente para dentro do bosque e por estradas das quais ele tinha conhecimento, de modo que eles não foram de maneira nenhuma lentamente por voltas através da densa floresta. Dessa forma, eles prosseguiram juntos em seu caminho, ele triste e ela alegre.

Mas agora cessa o conto para contar de Birdalone e do cavaleiro com quem ela se deparou no Vale Negro das Greywethers, e volta-se para o Castelo da Busca e o povo do mesmo, e para o que eles fizeram entrementes e subsequentemente.


Aqui termina a Quarta Parte da Água das Ilhas Maravilhosas, a qual é chamada Dos Dias de Permanência, e agora a Quinta Parte começa, a qual é chamada de O Conto do Fim da Busca.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 255-262. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/255/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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