A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XIII Uma Negociação

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[118]Eu virei-me novamente e desci na direção do mar. Eu descobri o córrego quente alargado até uma areia rasa, coberta por ervas daninhas, na qual uma abundância de caranguejos e criaturas de corpos longos e de muitas pernas se moviam a partir de minhas passadas. Eu caminhei até a beira mesma da água salgada, e nessa ocasião eu senti que estava seguro. Eu virei e encarei, braços com as mãos nos quadris, o verde espesso atrás de mim, dentro do qual uma ravina cheia de vapor cortava como um talho fumante. Mas, como eu digo, eu estava cheio demais de excitação e (um dito verdadeiro, embora aqueles que nunca tenham conhecido o pergio possam duvidar) desesperado demais por morrer.

Então surgiu em minha cabeça que ainda havia uma chance diante de mim. Enquanto Moreau e Montgomery e sua turba bestial perseguiam-me através da ilha, eu não poderia dar a volta até chegar à cercada deles, - fazer uma marcha de flanco sobre eles, de fato, e, em seguida, com [119]uma rocha arrancada de sua parede frouxamente construída, esmagar a fechadura da porta menor e ver o que poderia encontrar (faca, pistola, ou seja o que for) para lutar com eles quando eles retornarem? De qualquer maneira, era algo para tentar.

Assim eu me virei na direção oeste e caminhei ao longo da borda da água. O sol poente brilhou o seu calor cegante em meus olhos. A leve maré do pacífico estava correndo para dentro com uma ondulação gentil. Logo a costa desapareceu na direção sul, e o sol circulou sobre minha mão direita. Então, subitamente, longe à minha frente, e eu vi, primeiro uma e então várias, figuras emergindo a partir dos arbustos, Moreau, com seu cão de caça cinzento, em seguida, Montgomery, e outros dois. Diante disso, eu parei.

Eles viram-me, e começaram gesticulando e avançando. Eu permaneci observando eles aproximando-se. Os dois homens-besta avançaram correndo para me remover da vegetação rasteira, em direção à terra. Montgomery vinha, também correndo, mais diretamente na minha direção. Moreau seguia mais lentamente, com o cão.

Finalmente, eu despertei a mim mesmo da inação e, voltando-me na direção do mar, eu caminhei diretamente para dentro da [120]água. Inicialmente, a água era muito rasa. Eu estava trinta jardas para fora da terra antes que as ondas alcançassem minha cintura. Vagamente, eu pude ver as criaturas da zona entremarés disparando para longe de meus pés.

O que você está fazendo, homem?” Exclamou Montgomery.

Eu virei, de pé com água até a cintura, e encarei-lhes. Montgomery parou ofegante à margem da água. O rosto dele estava vermelho brilhante, seu longo cabelo linhoso espalhado em volta da cabeça dele, e o seu lábio inferior caído mostrava os seus dentes irregulares. Moreau estava apenas chegando, seu rosto pálido e firme, e o cão à sua mão latia para mim. Os dois homens tinham chicotes pesados. Mais distantes praia acima, olhavam fixamente os homens-besta.

O que eu estou fazendo? Eu estou prestes a afogar-me,” eu disse.

Montgomery e Moreau olharam um para o outro. “Por quê?” perguntou Moreau.

Porquê é melhor do que ser torturado por você.”

Eu disse a você,” disse Montgomery, e Moreau disse alguma coisa em um tom baixo.

O que faz você pensar que eu deverei torturar você?” perguntou Moreau.

[121]“O que eu vi,” eu disse. “E aqueles – acolá.”

Bah!” disse Moreau e ergueu a mão.

Eu não serei torturado,” eu disse. “Eles eram homens: o que eles são agora? Pelo menos, eu não serei como eles.”

Eu olhei além dos meus interlocutores. Praia acima, estavam M’ling, assistente de Montgomery e um dos brutos enfaixados em branco do bote. Mais acima, à sombra das árvores, eu vi meo homem-macaco, e, atrás dele, algumas outras figuras sombrias.

Quem são essas criaturas?” Eu disse, apontando para eles, levantando mais e mais a voz para que ela pudesse alcançá-los. Eles foram homens, homens como vocês mesmos, a quem você infectou com alguma mácula bestial, - homens a quem você escravizou, e a quem você silenciou com medo. Vocês quem ouvem, eu exclamei, agora apontando para Moreau e gritando além dele para os homens-bestas – “Vocês quem ouvem! Vocês não veem que esse homem que silenciou vocês com medo, corre de pavor de vocês? Então, por que vocês o temem? Vocês são muitos –”

[122]“Pelo amor de Deus,” exclamou Montgomery, “pare com isso, Prendick!”

Prendick!” exclamou Moreau.

Eles ambos gritaram juntos, como se para afogarem minha voz; e atrás deles baixavam-se os rostos pasmados dos homens-besta, ponderando, as mãos deformadas deles pendendo para baixo, os ombros deles curvados. Eles pareciam, como eu imaginava, estar tentando entender-me, para lembrar, eu pensava, de alguma coisa do seu passado humano.

Eu continuei gritando, eu mal me lembro o que, - que Moreau e Montgomery poderiam ser mortos, que eles não deviam ser temidos: isso foi o fardo que eu coloquei nas cabeças do povo-besta. Eu vi o homem de olhos verdes em farrapos escuros, quem se encontrara comigo na tarde de minha chegada, sair de entre as árvores, e outros o seguiam, para me ouvir melhor. Finalmente, por falta de fôleo, eu parei.

Ouça-me por um momento,” disse a voz firme de Moreau; “e, em seguida, diga o que você quiser.”

Bem?” Eu disse.

Ele tossiu, pensou, então, exclamou: “Latim, Prendick! Latim ruim, latim de menino de escola; mas experimente e entenda. Hi non sunt homines; animalia qui nos habemus – vivisseccionados. Um [123]processo humanizante. Eu explicarei. Venha para a praia.

Eu ri. “Uma bela história,” eu disse. “Uma bela história,” eu disse. “Eles falam, constróem casas. Eles eram homens. É provável que eu irei para a praia.”

A água bem além de onde você está de pé é profunda – e cheia de tubarões.”

Esse é o meu caminho,” eu disse. “Curto e afiado. Logo.”

Espere um minuto.” Ele tirou algo do bolso que brilhou de volta para o sol, e largou o objeto aos seus pés. “Isso é um revólver carregado,” disse ele. “Montgomery aqui fará o mesmo. Agora nós iremos subir a praia até que você esteja satisfeito que a distância é segura. Então venha e tome os revólveres.”

Não eu! Vocês têm um terceiro entre vocês.”

Eu quero você para pensar sobre as coisas, Prendick. Eu nunca pedi a você para vir a esta ilha. Se nós vivissectássemos homens, nós deveríamos importar homens, não bestas. Em segundo lugar, se tivéssemos nós drogado você na última noite, nós teríamos desejado fazer a você algum dano; e, em terceiro lugar, agora que o seu primeiro pânico passou e você consegue pensar [124]um pouco, Montgomery aqui é bastante capaz para o temperamento que você concede a ele? Nós perseguimos você para o seu próprio bem. Porque esta ilha está cheia de – fenômenos hostis. Além disso, por que nós deveríamos querer atirar em você quando há pouco você ofereceu-se para se afogar?

Por que você colocou – o seu povo sobre mim quando eu estava na cabana?”

Nós estavámos certos de capturar você e trazer você para fora de perigo. Afinal, nós expulsamos você do fedor, para o seu bem.”

Eu ponderei. Isso parecia bem possível. Então eu lembrei de alguma coisa novamente. “Mas eu vi,” eu disse, “na cercada -”

Aquilo era o puma.”

Veja aqui, Prendick,” disse Montgomery, “você é um asno idiota! Saia da água, pegue esses revólveres e fale. Nós não podemos fazer nada mais do que nós pudemos fazer agora.”

Eu confessarei que, então e de fato, eu sempre desconfiei de e temi Moreau; mas Montgomery era um homem que eu sentia que entendia.

Subam a praia,” eu disse, após pensar, e acrescentei, “levantando suas mãos.”

Não posso fazer isso,” disse Montgomery, com [125]um explicativo aceno de cabeça sobre os ombros. “Indigno.”

Subam para as árvores, então,” eu disse, “como vocês desejarem.”

É uma detestável cerimônia boba,” disse Montgomery.

Ambos viraram e encararam as seis ou sete criaturas grotescas, quem permaneciam ali à luz do sol, sólidas, projetando sombras, movendo-se e, contudo, tão increvelmente irreais. Montgomery estalou o seu chicote nelas, e, com isso, todas elas viraram-se e fugiram a trouxe-mouxe para as árvores; e, quando Montgomery e Moreau estavam a uma distância que eu julguei suficiente, eu caminhei com esforço para a praia, e peguei e examinei os revólveres. Para me satisfazer contra a mais sútil trapaça, eu descarreguei um contra um pedaço redondo de lava, e tive a satisfação de ver a pedra pulverizada e a praia respingada com chumbo. Ainda assim, eu hesitei por um momento.

Eu aceitarei o risco,” eu disse, finalmente; e, com um revólver em cada mão, eu caminhei praia acima na direção deles.

Assim é melhor,” disse Moreau, sem afetação. “Como está, você desperdiçou a melhor parte do meu dia com a sua imaginação [126]confusa.” E, com um toque de desdém que me humilhou, ele e Montgomery viraram-se e caminharam em silêncio diante de mim.

O grupo de homens-besta, ainda se maravihando, permaneceu para trás, entre as árvores. Eu passei por eles tão serenamente quanto possível. Um começou a seguir-me, mas recuou novamente quando Montgomery estalou o chicote. O resto permaneceu em silêncio – observando. Uma vez eles podem ter sido animais; mas eu nunca antes vi um animal tentando pensar.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 118-126. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/118/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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