[127]“E agora, Prendick, eu explicarei,” disse o doutor Moreau, tão logo nós tenhamos comido e bebido. “Eu tenho de confessar que você é o convidado mais ditatorial que eu alguma vez acolhi. Eu aviso a você que isso é a última coisa que eu deverei fazer para favorecer você. A próxima coisa sobre a qual você ameaçar cometer suicídio, eu não deverei o fazer, - mesmo diante de alguma inconveniência pessoal.”
Ele sentou-se em minha espreguiçadeira, um cigarro meio consumido em seus dedos brancos de aparência habilidosa. A luz da lâmpada oscilando caiu sobre o cabelo branco dele; ele encarou fixamente, através da pequena janela, para a luz das estrelas. Eu sentei-me tão longe dele quanto possível, a mesa entre nós e os revólveres à mão. Montgomery não estava presente. Eu não me importava de estar com dois deles em um quarto tão pequeno.
“Você admite que o ser humano vivissectado, como você o chama, afinal, é apenas o puma?” [128]Disse Moreau. Ele tinha feito eu visitar aquele horror na sala interior, para assegurar a mim mesmo de sua desumanidade.
“É o puma,” eu disse, “ainda vivo, mas tão cortado e mutilado que eu oro para que eu nunca veja carne viva novamente. De todas as coisas vis -”
“Esqueça-se disso,” disse Moreau; “pelo menos, poupe-me desses horrores juvenis. Montgomery costumava ser exatamente da mesma maneira. Você admite que é o puma. Agora fique quieto, enquanto eu desenrolo minha preleção fisiológica para você.”
E sem demora, começando no tom de um homem supremamente entediado, mas logo se aquecendo um pouco, ele explicou o trabalho dele para mim. Ele era muito simples e convincente. De vez em quando havia um toque de sarcasmo na voz dele. Logo eu descobri a mim mesmo ardido de vergonha diante de nossas posições mútuas.
As criaturas que eu tinha visto não foram homens, nunca tinham sido homens. Elas eram animais, animais humanizados, triunfos de vivissecção.
“Você esqueceu-se de tudo que um vivissecionista habilidoso pode fazer com coisas vivas.” disse Moreau. “Por minha própria parte, eu estou perplexo porque as coisas que eu fiz aqui nunca tinham sido feitas antes. [129]É claro, pequenos esforços foram feitos, - amputações, corte de língua, excisões. É claro, você sabe que um estrabismo pode ser induzido ou curado por cirurgia? Então, no caso de excisões, você tem todos os tipos de mudanças secundárias, distúrbios pigmentários, modificações das paixões, alterações na secreção do tecido adiposo. Eu não tenho dúvida de que você ouviu dessas coisas?”
“É claro,” disse eu. “Mas essas suas criaturas imundas -”
“Tudo no momento correto,” disse ele, acenando com a mão para mim; “eu estou apenas começando. Aqueles são casos triviais de alteração. Cirurgia pode fazer coisas melhores do que isso. Há tanto construção quanto demolição e mudança. Talvez você tenha ouvido sobre uma operação cirúrgica à qual se recorria em casos onde o nariz foi destruído: uma aba de pele é cortada da testa, dobrada sobre o nariz e cura-se na nova posição. Isso é um tipo de enxerto em uma nova posição de parte de um animal sobre si mesmo. Enxerto de material recentemente obtido também é possível, - o caso dos dentes, por exemplo. O enxerto de pele e osso é feito para facilitar a cura: o [130]cirurgião coloca no meio do ferimento parte de pele cortadas de outro animal, ou fragmentos de osso de uma vítima recentemente morta. A espora de galo do caçador – possivelmente você ouviu sobre isso – floresceu no pescoço do touro; e o rato rinoceronte dos zuavos argelinos também devem ser considerados, - monstros manufaturados pela transferência de um enxerto da cauda de um rato ordinário para o seu focinho, e permitindo-o curar-se nessa posição.”
“Monstros manufaturados!” Eu disse. “Então você quer dizer para mim -”
“Sim. Essas criaturas que você viu são animais esculpidos e trabalhados em novas formas. A isso, ao estudo da plasticidade das formas vivas, a minha vida tem sido dedicada. Eu tenho estudado por anos, ganhando em conhecimento conforme eu avanço. Eu vejo que você parece horrorizado e, contudo, eu não estou dizendo a você nada de novo. Tudo se assenta na superfície da anatomia prática há anos, mas ninguém teve a audácia de o tocar. Não é simplesmente a forma externa de um animal que eu posso mudar. A fisiologia, o ritmo químico da criatura, pode ser feita passar por uma modificação permanente, - da qual a vacinação e outros métodos de inoculação com a matéria viva ou morta são [131]exemplos que, sem dúvida, serão familiares a você. Uma operação similar é a transfusão de sangue, - assunto com o qual, de fato, eu comecei. Todos esses são casos familiares. Menos assim, e provavelmente muito mais extenso, eram as operações daqueles praticantes medievais, quem criavam anões, mendigos aleijados, monstros de exibição, - alguns vestígios dos quais a arte ainda permanece na manipulação preliminar dos jovem charlatão ou contorcionista. Vitor Hugo fornece um relato deles em ‘L’Homme qui Rit.’ - Mas talvez a minha intenção torne-se evidente agora. Você começa a perceber que é uma coisa possível transplantar tecido de uma parte de um animal para outra, ou a partir de um animal para outro; alterar suas reações químicas e métodos de crescimento; modificar as articulações dos seus membros; e, de fato, mudá-lo em sua estrutura mais íntima.”
“E contudo, esse ramo extraordinário do conhecimento nunca foi procurado como um fim, e sistematicamente, por investigadores modernos até que eu o assumi! Algumas dessas coisas têm sido descobertas no último recurso da cirurgia; a maior parte da evidência aparentada que ocorrerá em sua mente foi demonstrada, por assim dizer, por acidente, - por [132]tiranos, por criminosos, por criadores de cães e de cavalos, por todos os tipos de destreinados homens de mãos desajeitadas trabalhando para os seus próprios fins imediatos. Eu fui o primeiro homem a assumir essa questão armado com cirúrgia antisséptica e com um conhecimento realmente científico das leis de crescimento. Contudo, alguém imaginaria que isso foi praticado em segredo antes. Criaturas tais como os Gêmeos Siameses – e nos porões da Inquisição. Sem dúvida, o objetivo principal deles foi a tortura artística, mas alguns dos inquisidores, pelo menos, têm de ter tido um toque de curiosidade científica.”
“Mas,” eu disse, “essas coisas – esses animais falam!”
Ele disse que era assim, e prosseguiu para ressaltar que a possibilidade de vivissecção não para na mera metamorfose física. ‘Um porco pode ser educado. A estrutura mental é ainda menos deteminada do que a corporal. Na ciência crescente do hipnotismo, nós descobrimos a premissa de uma possibilidade de suplantar antigos instintos herdados através de novas sugestões, enxertando sobre ou substituindo as ideias fixas herdadas. De fato, muito do que nós chamamos de educação moral,’ ele disse, ‘é uma modificação tão artificial e pervesão do [133]instinto; a combatividade é treinada em autossacrifício corajoso, e a sexualidade suprimida em emoção religiosa. E a grande diferença entre homem e macaco está na laringe,’ ele continuou, - ‘na incapacidade de construir símbolos sonoros delicamente diferentes pelos quais o pensamento poderia ser sustentado.’ Nisso eu falhei em concordar com ele, mas, com uma certa incivilidade, ele declinou de notar a minha objeção. Ele repetiu que a coisa era assim, e continuou com sua explicação do seu trabalho.
Eu perguntei a ele porque ele tinha tomado a forma humana como um modelo. Isso pareceu para mim à época, e ainda parece para mim agora, uma estranha pervesidade para essa escolha.
Ele confessou que tinha escolhido aquela forma por acaso. “Eu poderia exatamente tão bem ter trabalhado para formar ovelhas em lhamas e lhamas em ovelhas. Eu suponho que haja alguma coisa na forma humana que apele à modificação artística mais poderosamente do que qualquer forma animal pode. Mas eu não me confinei à produção de homens. Uma ou duas vezes -” Ele ficou silente, por um minuto, talvez. “Esses anos! Como eles se escoaram! E aqui eu desperdicei um dia salvando a sua vida, [134]e agora desperdiçando uma hora explicando-me!”
“Mas,” disse eu, “Eu ainda não entendo. Onde está a sua justificação para inflingir toda essa dor? A única coisa que poderia desculpar para mim a vivissecção seria alguma aplicação -”
“Precisamente,” disse ele. “Mas, veja você, eu sou diferentemente constituído. Nós estamos sobre princípios diferenes. Você é um materialista.”
“Eu não sou um materialista,” eu comecei intensamente.
“Em minha visão – em minha visão. Pois, é apenas a questão da dor que nos separa. Enquanto a dor visível ou audível deixar você doente; enquanto as suas próprias dores conduzirem você; enquanto a dor subjazer às suas proposições sobre pecado, - enquanto assim for, eu digo a você, você será um animal, pensando um pouco menos obscuramente o que um animal sente. Essa dor -”
Eu dei de ombros impacientemente diante de um sofisma tão grande.
“Oh, mas ela é uma coisa tão pequena! Uma mente verdadeiramente aberta para o que a ciência tem a ensinar deve perceber que ela é uma coisa pequena. Pode ser que, exceto neste pequeno planeta, nesta partícula de poeira cósmica, invisível muito antes que a estrela mais próxima pudesse ser alcançada, - pode ser, eu digo, que em nenhum outro lugar [135]essa coisa chamada de dor ocorra. Mas as leis com respeito às quais nós sentimos o nosso caminho – Por que, mesmo nesta terra, mesmo entre coisas vivas, que dor existe?”
Enquanto ele falava ele sacou um pequeno canivete do bolso, abriu a lâmina menor, e moveu a cadeira dele de modo que eu pudesse ver a coxa dele. Em seguida, escolhendo o lugar deliberadamente ele enfiou a lâmina em sua perna e removeu-a.
“Sem dúvida,” ele disse, “você viu isso antes. Uma picada de alfinete não machuca. Mas o que isso revela? A capacidade para dor não é necessária no músculo, e ela não está colocada ali, - é apenas um pouco necessária na pele, e apenas aqui e ali através da pele é um ponto capaz de sentir dor. A dor é simplesmente o nosso intrínseco conselheiro médico, para nos avisar e estimular-nos. Nem toda carne viva é dolorosa; nem é todo nervo, nem mesmo todo nervo sensorial. Não há tom de dor, dor real, nas sensações do nervo ótico. Se você machucar o nervo ótico, você meramente vê flashes de luz, - exatamente como a doença do nervo auditivo meramente significa um zumbido em nossos ouvidos. As plantas não sentem dor, nem os animais inferiores; é possível que tais animais [136]como a estrela-do-mar e a lagosta absolutamente não sintam dor. Então com homens, quanto mais inteligentes eles tornam-se, mais inteligentemente eles procurarão o seu próprio bem estar, e menos eles necessitará de aguilhoada para os manter fora de perigo. Eu nunca ouvi sobre uma coisa inútil que não fosse excluída da existência pela evolução, mais cedo ou mais tarde. Você ouviu? E a dor torna-se desnecessária.”
“Então, eu sou um homem religioso, Prendick, como todo homem são precisa ser. Pode ser, eu imagino, que eu tenha visto mais dos caminhos do Criador desse mundo do que você, - pois eu busquei as leis dele, da minha maneira, toda a minha vida, enquanto você, eu entendo, tem estado coletando borboletas. E eu digo a você, prazer e dor não têm nada a ver com paraíso ou inferno. Prazer e dor – bah! O que é o êxtase do seu teólogo senão a houri de Maomé no escuro? Essa provisão na qual homens e mulheres colocam o prazer e a dor, Prendick, é a marca da besta sobre eles, - a marca da besta a partir da qual eles surgiram! Dor, dor e prazer, eles apenas são para nós enquanto nós nos contorcemos no poeira.”
“Veja você, eu segui com essa pesquisa exatamente [137]da maneira que ela me conduziu. Essa é a única maneira que eu alguma vez ouvi falar de verdadeira pesquisa avançando. Eu fiz uma pergunta, concebi algum método de obter uma resposta, e obtive uma nova questão. Era isto ou aquilo possível? Você não pode imaginar o que isso significa para um investigador, que paixão intelectual cresce sobre ele! Você não pode imaginar o deleite estranho, incolor, desses desejos intelectuais! A coisa diante de você não é mais um animal, uma criatura companheira, mas um problema! Dor simpática, - tudo o que eu conheço disso eu lembro como uma coisa da qual eu costumava sofrer há alguns anos. Eu desejava – era a única coisa que eu desejava – encontrar o limite extremo da plasticidade em uma forma viva.”
“Mas,” eu disse, “a coisa é uma abominação -”
“Até hoje eu nunca fui incomodado sobre a ética da questão,” ele continuou. “O estudo da Natureza torna um homem, pelo menos, tão sem remorso quando a própria Natureza. Eu prossegui, não prestando atenção a nada exceto a questão que eu estava perseguindo; e o material – pingou dentro das cabanas acolá. São realmente onze anos desde que nós chegamos aqui, eu e Montgomery e seis canacas. Eu lembro da [138]quietude verde da ilha e do oceano vazio à nossa volta como se fosse ontem. O lugar parecia esperar por mim.”
“As provisões foram desembarcadas e a casa foi construída. Os canacas fundaram algumas cabanas próximas da ravina. Eu prossegui para trabalhar sobre o que eu tinha trazido comigo. Inicialmente, houve algumas coisas desagradáveis que aconteceram. Eu comecei com uma ovelha, e matei-a após um dia e meio com um deslize do bistúri. Eu pequei outra ovelha, e fiz uma coisa de dor e medo e deixa-a amarrada para se curar. Ela parecia bastante humana para mim quando eu tinha terminado-a; mas, quando eu caminhei até ela, eu fiquei descontente com ela. Ela lembrava-se de mim; e ficou aterrorizada além da imaginação; e não tinha mais do que a inteligência de uma ovelha. Quanto mais eu olhava para ela, mas desajeitada ela parecia, até que, por fim, eu tirei o monstro de sua miséria. Esses animais sem coragem, essas coisas assombradas pelo medo, comandadas pela dor, sem uma centelha de energia pugnaz para encarar o tormento, - elas não são boas para a criação de homens.”
“Em seguida, eu peguei um gorila que eu tinha; e sobre isso, trabalhando com cuidado infinito e dominando dificuldade após dificuldade, eu criei meu primeiro homem. Toda [139]semana, toda noite e todo dia, eu moldava-o. Com ele, era principalmente o cérebro que necessitava de modelagem; muito teve de ser adicionado, muito mudado. Eu considerei-o um belo espécime do tipo negróide quando eu tinha o concluído, e ele permaneceu em bandagens, amarrado e sem movimento diante de mim. Foi apenas quando a vida dele estava assegurada que eu o deixei e entrei no quarto dele novamente, e encontrei Montgomery muito como você está. Ele tinha ouvido alguns dos gritos conforme a criatura se tornava humana, - gritos como aqueles que perturbam você assim. Inicialmente, eu não confiei nele completamente. E os canacas também tinham compreendido alguma coisa disso. Eles ficaram assustados à irracionalidade pela visão de mim. Eu recuperei Montgomery para mim – de uma forma; mas eu e ele tivemos o trabalho mas difícil para evitar que os canacas desertassem. Finalmente, eles o fizeram; e, dessa maneira, nós perdemos o iate. Eu despendi muitos dias educando o bruto, completamente, eu o tive por três ou quatro meses; eu ensinei-lhe os rudimentos do inglês; dei-lhe ideias de contagem; até fiz a coisa ler o alfabeto. Mas nisso ele foi lento, embora eu tenha me encontrado com idiotas mais lentos. Mentalmente, ele começou com uma folha em branco; não tinha memórias deixadas em sua mente do [140]que ele tinha sido. Quando as cicatrizes dele estavam bastante curadas, e ele não era mais alguma coisa exceto dolorido e rígido, e capaz de conversar um pouco, eu levei-o acolá e apresentei-o aos canacas como um clandestino interessante.”
“Inicialmente, eles ficaram horrivelmente assustados com ele, de alguma maneira, - o que me ofendeu bastante, pois eu estava vaidoso sobre ele; mas as maneiras dele pareciam tão suaves, ele era tão abjeto, que, após um tempo, eles receberem-no e tomaram a educação dele em mãos. Ele foi rápido para aprender, muito imitativo e adaptativo, e construiu para si mesmo uma cabana bastante melhor, pareceu-me, do que os seus próprios barracos. Havia entre os rapazes um pouco de missionários, e eles ensinaram a coisa a ler, ou, pelo menos, a selecionar letras, e concederam-lhe algumas ideias rudimentares de moralidade; mas parece que os hábitos da besta não eram tudo que é desejável.”
“Depois disso, eu descansei por alguns dias, e fiquei com um ânimo de escrever um relato do assunto todo para despertar a fisiologia inglesa. Então, eu deparei-me com a criatura agachando-se em uma árvore e falando sem sentido para dois canacas quem a tinham estado provocando. Eu ameacei-a, contei [141]a ela sobre a inumanidade de um semelhante procedimento, excitei o sentido dela de vergonha e voltei à casa, resolvido a fazer melhor antes que eu levasse o meu trabalho de volta para a Inglaterra. Eu estive fazendo melhor. Mas, de alguma maneira, as coisas deslizam para trás: a teimosa carne da besta cresce de volta dia após dia novamente. Mas eu ainda pretendo fazer as coisas melhores. Eu pretendo vencer isso. Esse puma -”
“Mas essa é a história. Todos os rapazes canacas estão mortos agora; um caiu ao mar a partir da lancha, e um morreu de um calcanhar machucado que ele envenenou de alguma maneira com suco de planta. Três sumiram no iate, e eu suponho, e espero, que estejam afogados. O outro – foi morto. Bem, eu substitui-os. Montgomery continuou muito como você está disposto a fazê-lo, inicialmente, e então -”
“O que aconteceu com o outro?” disse eu bruscamente, - “o outro canaca que foi morto?”
“O fato é, após eu ter criado um número de criaturas eu criei uma Coisa.” Ele hesitou.
“Sim,” eu disse.
“Foi morto.”
[142]“Eu não entendo,” eu disse; “você quer dizer-”
“A Coisa matou os canacas – sim. Ela matou várias outras coisas que capturou. Nós a perseguimos por alguns dias. Ela apenas escapou por acidente – eu nunca pretendi que ela escapasse. Ela não estava terminada. Era puramente um experimento. Era uma coisa sem membros, com um rosto horrível, que se contorcia para frente no chão de uma maneira serpentina. Ela era imensamente forte, e estava com uma dor enfuriante. Ela ocultou-se nos bosques por alguns dias, até que nós a caçamos; e então ela contorceu-se para dentro da parte norte da ilha, e nós dividimos o grupo para a cercar. Montgomery insistiu em vir comigo. O homem tinha um rifle; e quando o corpo dele foi encontrado, um dos canos estava curvado na forma de um S e quase inteiramente mordido. Montgomery atirou na coisa. Depois disso, eu fixei-me no ideial de humanidade – exceto para pequenas coisas.”
Ele tornou-se silente. Eu sentei-me observando o rosto dele.
“Assim, por vinte anos no todo – contando os nove anos na Inglaterra – eu estive prosseguindo; [143]e ainda há alguma coisa em tudo o que eu faço que me derrota, deixa-me insatisfeito, desafia-me a esforço adicional. Algumas vezes eu elevo-me acima do meu nível, algumas vezes, eu caio abaixo dele; mas sempre eu não alcanço as coisas com as quais eu sonho. A forma humana eu posso obter agora, quase com facilidade, de maneira que ela é ágil e graciosa, ou espessa e forte; mas, frequentemente, há dificuldade com as mãos e as garras, - coisas dolorosas, às quais eu não me atrevo a dar forma frequentemente. Mas é no enxerto e remodelagem sútis que o meu problema jaz. Frequentemente, a inteligência é estranhamente baixa, com incontáveis fins em branco, lacunas inesperadas. E o menos satisfatório de tudo é alguma coisa que eu não posso tocar, em algum lugar – eu não posso determinar onde – no local das emoções. Anseios, instintos, desejos que causam dano à humanidade, um estranho reservatório oculto que irrompe subitamente e inunda o inteiro ser da criatura com raiva, ódio ou medo. Essas minhas criaturas pareceramm estranhas e fabulosas para você quando você começou a observá-las; mas para mim, exatamente depois de eu criá-las, elas parecem ser indisputavelmente seres humanos. É subsequentemente, conforme eu as observo, que a persuasão enfraquece. Primeiro, [144]um traço animal, em seguida, outro se arrasta para a superfície e encara-me. Mas eu ainda o conquistarei! A cada vez que eu mergulho uma criatura viva dentro do banho de dor ardente, eu digo, ‘Desta vez que eu queimarei todo o animal; desta vez eu mesmo criarei uma criatura racional! Afinal, o que são dez anos? Os homens estiveram uma centena de milhares em criação.’ Ele pensou sombriante. ‘Mas eu estou aproximando-me da estabilidade. Esse meu puma -’ Após um silêncio, ‘E eles retrocedem. Tão logo minha mão é retirada deles, a besta começa a rastejar de volta, começa a afirmar-se novamente.’” Outro silêncio longo.
“Então você leva as coisas que você cria para dentro daqueles antros?” Eu disse.
“Eles vão. Eu volto-me para eles quando eu começo a sentir a besta neles, e, dentro em pouco, eles perambulam por lá. Todos eles temem esta casa e a mim. Há um tipo de caricatura de humanidade através daquele lugar. Montgomery sabe sobre isso, pois ele interfere nos assuntos deles. Ele treinou um ou dois deles para o nosso serviço. Ele está envergonhado disso, mas eu acredito que ele quase gosta de alguma daquelas bestas. É a ocupação dele, não a minha. Eles frequentemente me deixam doente com uma sensação de falha. Eu [145]não tenho interesse nelas. Eu imagino que elas sigam nas linhas que o missionário canaca marcou, e têm um tipo de zombaria de uma vida racional, pobres bestas! Há alguma coisa que eles chamam de a Lei. Cantam hinos sobre ‘tudo é teu.’ Elas constroem para elas mesmas as suas próprias tocas, colhem frutas, e manejam ervas – até casam-se. Mas eu consigo ver através disso tudo, enxegar das almas mesmas delas, e ver lá nada exceto as almas de bestas, bestas que perecem, têm raiva, os desejos para viverem e gratificarem a si mesmas. - Conturo, elas são estranhas; complexas, como tudo o mais vivo. Há um tipo de esforço ascendente nelas, parte vaidade, parte emoção sexual desperdiçada, parte curiosidade desperdiçada. Eu tenho alguma esperança com aquele puma. Eu tenho trabalhado intensamente na cabeça e cérebro dele -”
“E agora,” ele disse, ficando de pé após um longo intervalo de silêncio, durante o qual cada um perseguia os seus próprios pensamentos, “o que você pensa? Ainda está com medo de mim?”
Eu olhei para ele, e vi um homem de rosto branco e cabelo branco, com olhos calmos. Salvo pela serenidade dele, o toque de quase beleza que resultava a partir de sua tranquilidade determinada e sua constituição [146]magnificente, ele poderia ter passado em inspeção em meio a uma centena de outros idosos cavalheiros confortáveis. Então eu estremeci. Na forma de resposta à sua segunda questão, eu entreguei-lhe um révolver com cada uma das mãos.
“Fique com eles,” ele disse e estendeu a mão em um bocejo. Ele ficou de pé. Encarou-me por um minuto, e sorriu. “Você teve dois dias agitados,” ele disse. “Eu deveria aconselhar algum sono. Eu estou feliz de que tudo está claro. Boa noite.” Ele ponderou sobre mim por um momento, em seguida, saiu pela porta interna.
Eu imediatamente virei a chave na porta externa. Eu sentei-me novamente; sentei-me por um momento em um tipo de humor estagnado, tão cansado, emocionalmente, mentalmente e fisicamente, que eu não pude pensar além do ponto no qual ele tinha me deixado. A janela preta encarava-me como um olho. Finalmente, com um esforço, eu apaguei a luz e entrei na rede para dormir. Dentro de pouco tempo, eu estava adormecido.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 127-146. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/127/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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