Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XVI A Cidade

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[194]Descendo lentamente na direção da cidade, Felix procurou em vão por quaisquer meios para cruzar o canal ou a angra, os quais se estendiam do lado deste dela, e nos quais ele contou vinte e duas embarcações mercantis ancoradas, ou atracadas ao banco de areia, além de um número de barcos menores e botes. O navio de guerra, o qual tinha chegado antes dele, estava aterrissado [195]perto de um portão da cidade, o qual se abria para a angra ou o porto, e a tripulação dele estava ocupada descarregando suas reservas. Enquanto ele caminhava perto da angra, tentando chamar a atenção de algum de barqueiro para o atravessar, ele ficou impressionado com o silêncio, pois, embora a muralha da cidade não estivesse a muito mais do que uma pedrada de distância, não havia nada do zumbido usual que surge a partir dos movimentos das pessoas. Olhando de mais perto, ele também observou poucas pessoas nos navios mercantes, e nenhum bando trabalhando para carregar ou descarregar. Exceto pela sentinela espreitando para lá e para cá sobre a muralha, e a tripulação no navio de guerra, não havia ninguém vísivel. Enquanto a sentinela passava para lá e para cá, a lâmina de sua partasana bilhava à luz do sol. Ele deve ter visto Felix, mas, com indiferença militar, ele não prestou a mais leve atenção aos esforços do último para atrair a sua atenção.

Ele agora passou pelo navio de guerra, e gritou para os homens trabalhando, quem estavam, ele pôde ver, carregando feixes de flechas e pacotes de dardos do navio e colocando-os nas carroças; mas eles não se incomodaram em responder. As suas vestes comuns e aparência ordinária não inspiraram neles nenhuma esperança de pagamento a partir dele se eles o favorecessem com um bote. A indiferença completa com a qual a sua aproximação foi vista revelou a ele o desprezo com o qual ele era considerado.

Olhando em volta para ver se não havia nenhuma ponte ou balsa, ele notou a vista da cinzenta torre de igreja, a qual ele tinha observado de longe enquanto navegava. Ela ficava a bem uma milha da cidade e isolada do lado de fora das muralhas. Ela erguia-se [196]sobre a encosta da colina, sobre o pico da qual a torre era vísivel. Ele perambulou na direção dela, visto que ali, usualmente, haviam pessoas dentro ou em torno das igrejas, as quais sempre estavam abertas dia e noite. Se mais ninguém, o porteiro no pavilhão à porta da igreja estaria lá, pois ele ou o seu representante nunca a abandonavam, sempre estando de vigília com medo de que algum ladrão tentasse entrar no tesouro, ou roubar os vassos sagrados.

Mas, enquanto subia a colina, ele encontrou-se com um pastor, os cães do qual se prepararam para voar sobre ele, reconhecendo um estranho. Por um momento, o homem pareceu inclinado a permitir-lhes saciar a sua vontade, mas, vendo Felix baixar sua lança, provavelmente lhe ocorreu que alguns de seus cães seriam mortos. Portanto, ele ordenou-lhes pararem e permanecerem, para escutar. Felix aprendeu que não havia ponte através da angra, e apenas uma através do rio; mas havia uma balsa para qualquer um que fosse conhecido. A nenhum estranho era permitido a atravessar na balsa; ele tem de entrar pela estrada principal através da ponte.

Mas como eu entro naquele lugar, então?” disse Felix. O pastor sacudiu a cabeça, disse que ele não poderia dizer a ele e foi embora para cuidar dos seus negócios.

Desencorajado diante dessas vexações insignificantes, as quais pareciam cruzar o seu caminho a cada passo, Felix encontrou o seu caminho para a balsa, mas, como o pastor tinha tido, o barqueiro recusou-se a transportá-lo, sendo um estranho. Persuasão nenhuma conseguiu movê-lo; nem a oferta de uma pequena moeda de prata, no valor de aproximadamente dez vezes a sua passagem.

[197]“Então eu devo nadar para o outro lado,” disse Felix, preparando-se para tirar suas roupas.

Nade, se você desejar,” disse o barqueiro, com um sorriso sombrio; “mas você nunca chegará à terra.”

Por que não?”

Porque o sentinela disparará uma flecha em você.”

Felix olhou e viu que ele estava oposto ao ângulo extremo da muralha da cidade, um ponto usualmente guardado com cuidado. Havia uma sentinela espreitando para lá e para cá; ele carregava uma partasana, mas, é claro, poderia ter seu arco ao alcance, ou, provavelmente, poderia convocar os soldados da guarda.

Isso é irritante,” disse Felix, pronto para desistir de seu empreendimento. “Como eu alguma vez posso entrar na cidade?”

O velho barqueiro sorriu ironicamente, mas não disse nada, e retornou a uma rede que ele estava consertando. Ele não produziu nenhuma resposta para as questões adicionais que Felix colocou para ele. Em seguida, Felix gritou para a sentinela; o soldado olhou uma vez, mas não prestou mais atenção. Ele ficou profundamente desencorajado. Essas repulsas, ninharias em si mesmas, assumiam uma importância porque a sua mente há muito estava amarrada a um tom alto de tensão. Um homem impassível não teria pensando nada delas. Após um tempo, ele ergueu-se, novamente perguntando a si mesmo como ele deveria se tornar um líder, quem não tinha a perseverença para entrar em uma cidade em uma aparência pacífica?

Não sabendo mais o que fazer, ele seguiu a angra em volta do pé da colina, e assim por diante, por uma milha ou mais. Esse banco de areia era íngreme, por causa do baixo; [198]o outro, cultivado, o milho já estando alto. O cuco cantava (ele ama a redondeza próxima do homem) e voava através do canal na direção de um pequeno grupo de árvores. Quase subitamente, a angra girava em torno, sob um baixo penhasco de gesso, e, em um momento, Felix encontrou a si mesmo confrontado por outra cidade. Essa não tinha muralha; era defendida meramente por um vala e um aterro, sem torre ou bastião.

As casas estavam posicionadas densamente juntas; havia, ele pensava, seis ou sete vezes mais do que ele anteriormente tinha visto, e elas eram cobertas com palha ou com telhas, como aquelas na sua própria região. Ela levantava-se no meio dos campos, e o milho vinha até o fosso; havia muitas pessoas trabalhando, mas, como ele percebia, a maioria delas era de homens velhos, encurvados e fracos. Um pouco mais além, ele viu um segundo ancoradouro de botes no rio; ele apressou-se para lá, e a barqueira, pois o bote era empurrado de lado a lado por uma dama robusta, não criou a menoa dificuldade para o atravessar de barco. Tão encantado ele ficou diante dessa fortuna inesperada que ele deu a ela a pequena moeda de prata, à vista da qual ele instantaneamente cresceu em estima para ela.

Ela explicou a ele, em resposta aos seus inquéritos, que esta também era chamada de Aisi; esta era a cidade do povo comum. Aqueles que eram ricos ou poderosos tinham casas na cidade murada, nos arredores da Corte. Muitas das casas lá, também, eram estalagens das grandes famílias que habitavam no interior, em seus castelos, mas quando elas vinham à Corte requeriam uma casa. Os seus escudos, ou brasões, estavam pintados sobre as portas. A cidade murada era guardada com cuidado tão grande porque muitas tentativas tinham [199]sido realizadas para a surpreender, e para assassinar o rei, a disposição impetuosa e as guerras constantes de quem lhe criaram tantos inimigos. Muito cuidado era tomado para evitar um único estranho de entrar, como se ele fosse a vanguarda de um exército hóstil, e se agora ele retornasse (como ele poderia fazer) à ponte sobre o rio, ele seria parado e questionado e, possivelmente, confinado em um prisão até que o rei retornasse.

Onde está o rei?” perguntou Felix; “Eu vim para fazer uma tentativa e servi-lo.”

Então você será bem-vindo,” disse a mulher. “Ele está no acampamento, e há pouco se sentou diante de Iwis.”

Era por isso que a cidade murada parecia tão vazia, então,” disse Felix.

Sim; todo o povo está com ele; haverá uma grande batalha desta vez.

A que distância fica Iwis?” disse Felix.

Vinte e sete milhas,” respondeu a dama; “e se você aceitar o meu conselho, você deveria caminhar as vinte e sete milhas até lá do que duas milhas de volta até a ponte sobre o rio.”

Alguém chamou do banco de areia oposto, e ela partiu para pegar outro passageiro.

Muito obrigado,” disse Felix, enquanto ele desejava a ela bom dia; “mas, por que o homem na outra não disse que eu podia atravessar aqui?”

A mulher riu imediatamente. “Você supõe que ele colocaria um penny em meu caminho que ele mesmo não pôde conseguir?”

[200]Tão malvado e mesquinho é o mundo! Felix entrou na segunda cidade e caminhou alguma distância através dela, quando ele se lembrou que não tinha comido nada por algum tempo. Ele procurou em vão por uma estalagem, mas, ao falar com um homem que estava se inclinando sobre sua muleta em uma porta, imediatemente foi dito a ele para entrar, e tudo o que a casa dispunha foi colocado diante dele. O homem com a muleta sentou-se em frente e observou que a maioria do povo tinha ido para o acampamento, mas ele não pôde pois o pé dele fora machucado. Em seguida, ele prosseguiu para contar como tinha acontecido, com a usual garrulice do ferido. Ele estava ajudando a colocar a viga de um aríete sobre uma vagoneta (requereram-se dez cavalos para a arrastar) quando uma alavanca estalou e a viga caiu. Tivesse a viga tocado-o, ele teria morrido no lugar; como foi, apenas uma parte da alavanca ou pólo quebrado atingiu-lhe. Arremessado com tal força, o peso do aríete movendo-o, o fragmento do pólo arranhou a perna dele, e ou quebrou um dos pequenos ossos que formam o arco do peito do pé, ou assim o machucou de modo que era pior do que quebrado. Todos os ajustadores de ossos e cirurgiões tinham ido para o acampamento, e ele foi deixado sem assistência, exceto as das mulheres, quem banhavam o pé com loções diariamente, mas ele tinha pouca esperança de recuperação presente, sabendo que tais coisas eram de aproximadamente meses.

Ele pensou que foi sorte não ter sido pior, pois muitos poucos, ele tinha observado, alguma vez se recuperam de ferimentos sérios de lança ou flecha. O ferido geralmente morria; apenas o afortunado escapava. Dessa maneira, ele prosseguia, falando tanto para o seu próprio entretenimento quanto o de seu convidado. [200]Ele afligia-se porque ele não pôde se juntar ao acampamento e ajudar a operar a artilharia; ele supunha que o aríete estaria em posição por agora, e sacudindo a muralha com o seu golpe. Ele ponderava se o Barão Ingulph sentiria falta do rosto dele.

Quem é ele?” perguntou Felix.

Ele é o capitão da artilharia,” respondeu o seu anfitrião.

Você é o retentor dele?”

Não; eu sou um servo.”

Imediatamente, Felix moveu-se um pouco, e apenas controlou a si mesmo para não se levantar da mesa. Um “servo” era um escravo; isso era um eufemismo usado em vez da palavra odiosa, a qual nem mesmo o mais degradado pode suportar ouvir. A classe dos nobres à qual ele pertencia considerava uma desgraça sentar-se com um escravo, comer com ele, mesmo acidentalmente tocar nele. Com os retentores, ou homens livres, eles estavam em termos familiares, embora despóticos ao maior grau; o escravo era menos do que o cão. Então, dando uma olhada sorrateira no rosto do homem, Felix viu que ele não tinha bigode; ele não tinha notado isso antes. A nenhum escravo era permitido usar o bigode.

Esse homem, tendo estado doente em casa alguns dias, tinha negligenciado se barbear, e havia alguma marca no seu lábio superior. Conforme ele notava o olhar do seu anfitrião, o escravo pendeu a cabeça, e pediu ao seu convidado, em uma voz baixa e humilde, para não mencionar essa falta. Com o rosto levemente ruborizado, Felix terminou a sua refeição; ele ficou confuso ao último grau. O seu longo treinamento e o espírito da sociedade na qual ele se movia (embora um membro tão desprezado dela) imbuiam-no tão fortemente de preconceito com o homem cuja [202]hospitalidade era tão bem-vinda. Por outro lado, as ideias que por tanto tempo laboraram em sua mente, em suas conversações solitárias na floresta, eram inteiramente opostas à servidão. No princípio abstrato, há muito, ele a tinha condenada, e desejava aboli-la. Mas aqui estava o fato.

Ele tinha comido à mesa do escravo, e sentado-se com ele face a face. Estranhamente, teoria e prática estão frequentemente em desacordo. Ele sentiu isso como um importante momento; ele sentiu que ele mesmo, por assim dizer, estava em equilíbrio; deveria ele aderir ao seu antigo prejuízo, à antiga exclusividade da sua classe, ou, ousadamente, ele deveria seguir o ditado da sua mente? Ele escolheu a segunda opção, e estendeu a mão para o servo enquanto ele levantava-se para dizer adeus. O ato foi significante; ele conheceu o homem como de casta distinta. O servo não soube do conflito que tinha ocorrido; mas apertar a mão, de qualquer maneira, mesmo de um retentor, como ele supunha que Felix era, foi, de fato, uma surpresa. Ele não conseguiu entender; era a primeira vez que a mão dele tinha sido apertada por qualquer um de posição superior desde que ele tinha nascido. Ele ficou mudo de admiração, e mal pôde indicar a estrada quando perguntado; nem ele aceitou a pequena moeda que Felix ofereceu, uma das poucas que ele possuia. Portanto, Felix deixou-a sobre a mesa e novamente partiu.

Atravessando a cidade, Felix seguiu o caminho que conduzia na direção indicada. Em aproximadamente uma milha, ela conduziu-o a um caminho mais amplo, o qual ele imediatamente reconheceu como o caminho e a estrada principal para o acampamento pelos [203]sulcos e pela poeira, pois o relvado tinha sido pisado por uma largura de cinquenta jardas, e mesmo o milho foi cortado por rodas e cascos de cavalos. O exército tinha passado, e ele apenas tinha de seguir a trilha inconfundível.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.194-203. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/194/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

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