Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XII A Noite na Floresta

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[160]Inicialmente, Felix cavalgou rapidamente, mas o cavalo dele tropeçando, embora acostumado aos bosques, advertiu-lhe a ser mais cuidadoso. A passagem de tantos cavaleiros nos últimos poucos dias tinha cortado e destruído a trilha, a qual não era nada senão um caminho verde, e, é claro, a passagem dos carroções cobertos auxiliou a torná-la acidentada e quebrada. Portanto, ele cavalgava lentamente, e, concedendo ao seu cavalo rédea livre, ele escolhia o seu caminho de seu próprio acordo ao lado da estrada, frequentemente roçando na vegetação rasteira.

De fato, ainda absorvido pelos sentimentos que quase o dominaram na pérgula, e pensando em Aurora, ele [161]esqueceu-se de onde estava, até que os uivos sombrios dos cães do bosque, profundos na floresta, despertaram-no. Estava quase escuro como piche sob os altos salgueiros, as mais altas das árvores impedindo os raios de luz da lua de iluminarem o caminho até tarde da noite. Como uma curtina, a espessa folhagem acima bloqueava o céu, de maneira que nenhuma estrela era vísivel. Quando os cães do bosque pararam, não havia nenhum som além da queda leve dos cascos de cavalo enquanto ele caminhava sobre a grama. A escuridão e o silêncio prevaleciam; ele não conseguia ver nada. Ele falou com seu cavalo e afagou o pescoço dele; ele caminhou um pouco mais rápido e ergueu a cabeça, a qual ele tinha mantido baixa, como se abrindo o seu caminho pelo olfato.

A escuridão pesou sobre ele, infeliz como ele estava. Frequentemente como ele tinha voluntariamente buscado a solidão dos bosques, agora, nesse estado de mente, ela oprimia-o. Ele lembrava-se de que, além dos salgueiros, o chão estava aberto e limpo por um incêndio florestal, e começou a ficar ansioso para o alcançar. Pareceu uma hora, mas realmente foram apenas uns poucos minutos, quando os salgueiros se tornaram mais finos e mais amplamente separados, a folhagem acima desapareceu, e as estrelas brilharam. Diante dele estava o espaço aberto que ele tinha desejado, declinando-se para o lado direito, a alta grama verde-cinzenta à luz da lua, e perto à mão cintilando com orvalho.

Em meio a isso, erguiam-se os caules tortos e carbonizados do tojo, com os quais o chão tinha estado coberto antes do fogo ter passado. Uma coruja branca flutuava por perto, em vez de voar, seguindo a borda da floresta; muito longe a baixo da colina surgia as notas tagarelantes de um pardal de riacho, mostrando que havia água no buraco. Algum grande animal se moveu para dentro da névoa [162]branca que pendia ali e imediatamente o ocultou, como uma nuvem sobre o solo. Ele não estava certo, sob a luz difusa e com uma visão tão momentânea e distante, mas supôs, a partir do seu tamanho, que ele devia ter sido uma vaca de bosque branca ou parda.

Adiante, através do campo descoberto, surgia o topo escuro dos abetos através dos quais a rota se estendia. Em vez do alívio que ele tinha antecipado enquanto cavalgava na direção deles, o limpo espaço das árvores em torno pareciam expô-lo à visão de tudo que poderia estar se ocultando na floresta. Enquanto ele aproximava-se dos abetos e via quão escuro era debaixo deles, as profundezas sombrias sugeriam formas incertas escondendo-se ali, e a memória dele imediatamente retornou ao livro de mágica que ele tinha lido no castelo.

Não poderiam existir tais coisas, e, contudo, ninguém em seu coração duvidava da existência delas; negavam-nas como eles podiam, com suas línguas, enquanto eles sentavam-se à mesa de jantar e passavam em volta a cerveja, fora das portas, à noite, a pressa para atravessar o ponto assombrado, a respriação reduzida e as temerosas olhadas lançadas em volta, contavam outro conto. Ele tentou convocar a filosofia em seu auxílio; ele também se lembrou de quantas noites despendera na mais profunda floresta sem ver coisa alguma, e sem mesmo pensar em tais questões. Ele reprovou a si mesmo pela loucura e perguntou a si mesmo se alguma vez poderia ter esperança de ser um líder de sucesso de homens, quem se sobressaltava diante de uma sombra. Em vão: o tom da mente dele tinha sido enfraquecido pela tensão pela qual ele passara.

Em vez de o fortalecerem, os ensinamentos da filosofia agora pareciam frios e débeis, e ocorreu-lhe que, [163]possivelmente, a crença do povo comum (completamente partilhada por seus instrutores religiosos) era exatamente tão merecedora de crédito quanto essas meras suposições e teorias. Os detalhes do volume ocorriam à minha mente; a descrição precisa dos demônios da floresta e da colina, e, especialmente, dos horríveis vampiros envolvendo a vítima com asas estendidas. A despeito de si mesmo, incrédulo, contudo excitado, ele pressionou o seu cavalo a uma velocidade maior, embora a trilha fosse estreita e muito quebrada sobre os abetos. O animal obedeceu e trotou, mas relutantemente, e necessitava de impulso contínuo.

A centelha amarela de um vaga-lume brilhando através de um arbusto fez ele cerrar os dentes; insignificante e bem conhecida como ela era, a luz, subitamente vista, emocionara-o com o terror do inesperado. Estranhos movimentos apressados soavam entre as samambaias, como se as asas de um demônio roçasse nas enquanto viajava. Felix sabia que eles eram causados por coelhos apressando-se, ou um javali prendendo-se longe, contudo eles aumentavam a excitação febril com a qual ele estava sobrecarregada. Embora escuro sob os abetos, não era como a escuridão das faias; essas árvores não formavam uma cobertura perfeita sobre a cabeça em ponto nenhum. Em alguns lugares, ele conseguia ver onde um raio de luz da lua chegava obliquamente através de uma abertura e alcançava o chão. Um tal raio caía sobre a trilha adiante; as ávores ali tinham decaído e caído, e uma ampla faixa de luz iluminava o caminho.

Enquanto ele aproximava-se dela, e quase tinha entrado, subitamente alguma coisa disparou na direção dele através do ar; um brilho, por assim dizer, como se algum objeto tivesse cruzado o raio de luz, e fosse tornado [164]vísivel por um décimo de um segundo, como uma partícula de pó nos raios de sol. No mesmo instante de tempo, o cavalo, o qual ele tinha pressionado para ir mais rápido, colocou a sua pata dentro de um sulco ou buraco e tropeçou, e Felix foi lançado tão adiante que ele apenas se salvou de ser arremessado agarrando-se no pescoço dele. Um leve som de zumbido passou sobre a cabeça dele, seguido imediatamente por uma pancadinha afiada contra uma árove em sua retarguarda.

A coisa aconteceu em um piscar de olhos, mas ele reconhecia o som; era o zumbido de uma seta de besta, a qual errou a cabeça dele, e enterrou a ponta em um abeto. O tropeço salvou-o; a seta teria atingigo a cabeça ou o peito dele não houvesse o cavalo ido quase ao seu joelho. O ladrão tinha planejado tanto a sua emboscada que a presa dele deveria ser bem vista, distinta à luz da lua, de maneira que o seu alvo poderia ser certo. Recuperando-se, o cavalo, sem a necesidade da espora, como se reconhesse o perigo para o seu cavaleiro, partiu adiante em velocidade máxima, e correu, independentemente dos barrancos, ao longo da trilha. Felix, quem dificilmente tinha chegado ao seu assento novamente, pôde por um tempo apenas mal o conter, tão selvagemente ele fugia. Ele deve ter sido carregado dentro de algumas jardas de distância do bandido, mas não viu nada, nem uma segunda seta seguiu-o; a besta toma tempo para se curvar, e, se o bandido tivesse companheiros, eles estavam armados de maneira diferente.

Ele já estava a um furlong ou mais a partir daquele ponto, antes que ele compreendesse bem o perigo do qual ele escapara. O arco dele estava não encordoado em sua mão, suas flechas estavam todas na aljava; dessa forma, houvesse a seta atingido-o, mesmo se o ferimento não tivesse sido mortal (como é provável que ele teria sido) ele não poderia ter [165]produzido resistência. Quanta tolice desprezar os avisos dos cavalariços no castelo! Agora era tarde demais; tudo que ele podia fazer é cavalgar. Temendo a cada momento ser arremessado, ele impulsionava tão rápido quando o cavalo gostaria de ir. Não houve perseguição e, após uma milha ou aproximadamente, conforme ele deixava os abetos e entrava nos bosques de freixo, ele relaxou um pouco. De fato, isso foi bastante necessário, pois aqui os cascos dos cavaleiros precedentes tinham esmagado a relva (sempre úmida sob o freixo) em barro. Estava menos escuro, pois os galhos dos freixos não se encontravam acima.

Enquanto ele passava, os pombos do bosque erguiam-se com altos tinidos a partir de seus abrigos, e, uma ou duas vezes, ele viu na escuridão os olhos ferozes, fosfóricos, do cinzento gato do bosque. Quão alegremente ele reconheceu imediatamente a mudança de árvores para arbustos, quando ele cavalgou para fora a partir dos espessos freixos em meio aos espinheiros baixos, e sabia que estava dentro de uma milha ou aproximadamente da Barreira Sul de casa! Ele já ouvia a canção do rouxinol, a longa nota que penetra tão distante à noite; o rouxinol, o qual ama os espeinheiro e a vizinhança do homem. Imperceptivelmente, ele aumentou a velocidade novamente; também o cavalo sabia que ele estava se aproximando de casa e respondeu de bom grado.

A trilha era muito mais ampla e relativamente boa, mas ele sabia de em um ponto onde ela era pantanosa e precisava ser aberta. Ali ele seguiu por um lado, quase roçando em um arbusto de bordo que se projetava. Alguma coisa atingiu o cavalo, ele imaginou o ricochete de um galho; ele pulou, literalmente pulou, como um pinote, e disparou ao longo da estrada. Com um pé fora do estribo, foi com a máxima dificuldade [166]que ele se segurou em seu assento; ele não esteve cavalgando, apenas segurando-se, por um momento ou dois. Logo se recuperando do movimento brusco, ele tentou examiná-lo, mas o freio não serviu para nada; o animal estava consumido pelo terror e correu diretamente até que eles alcançassem a barreira. É claro, ela estava fechada, e o sentinela estava adormecido; de modo que, até que ele desmontasse, e chutasse e gritasse, ninguém o desafiou.

Então o sentinela, lança à mão, apareceu com sua lanterna, mas, reconhecendo a voz, correu para o portão. Dentro do portão, a umas poucas jardas, havia cinzas de uma fogueira, e, em torno dela, ao bivaque de homens a pé que tinham estado na festa e retornaram dessa forma muito antes do cair da noite. Ouvindo o barulho, alguns deles levantaram-se, e circundaram-no dele, quando um imediatamente exclamou e perguntou se ele estava ferido. Felix respondeu que ele não estava, mas, olhando para o seu pé, onde o homem apontou, viu que estava coberto de sangue. Mas, em consequência de exame minucioso, não havia corte ou incisão; ele não estava machucado. O sentinela agora os chamou, e mostrou um longo arranhão profundo perto do flanco do cavalo, a partir do qual o sangue estava pingando.

Era um arranhão como poderia ter sido produzido com um prego de ferro, e, sem hesitação, todos eles assumiram que um escardilho de um homem do mato era a causa. Sem dúvida, o homem do mato, ouvindo a aproximação de Felix, ocultara-se no arbusto de bordo, e, enquanto ele passava, atacou com sua adaga semelhante a um prego; mas, calculando mal a velocidade na qual o cavalo estava indo, em vez de perfurar a coxa do cavaleiro, o golpe caiu sobre o cavalo, e a ponta afiada foi puxada ao longo do lado. O cavalo tremia enquanto eles o tocavam.

[167]“Sir,” disse um dos retentores, o chefe deles, “se você me perdoar, você faria melhor encordoar o seu arco e enviar uma flecha através do coração dele, pois ele morrerá em sofrimento antes da manhã.

O escardilho do homem do mato, o que ele usa para assassinato ou para despachar sua presa, está envenenado. É um veneno vagaroso, e requer várias horas para produzir seu efeito; mas nenhum remédio é conhecido, e muitos que escaparam do golpe covarde arrastaram-se pelo caminho apenas para expirarem em tortura. Não havia como negar que o que o retentor propôs era a única coisa que poderia ser feita. Entrementes, o sentinela tinha trazido um balde de água, da qual a pobre criatura bebeu ansiosamente. Felix não poderia fazer isso; ele não poderia matar a criatura que o tinha carregado por tanto tempo e que, duas vezes nesta noite, tinha salvado-o, e agora devia, por assim dizer, morrer em seu lugar. Ele não poderia consentir com isso; ele conduziu o cavalo na direção da casa, mas ele estava fraco ou cansado, e não conseguiu ir além do Cercado.

Ali o grupo se reuniu em torno dele. Felix ordenou que o arranhão fosse limpo, enquanto ele recapitulava em sua mente cada remédio possível. Ele deu ordens estritas que ele não deveria ser despachado e, em seguida, apressou-se para a casa. Ele desatou com mãos trêmulas as fixas de couro que amarravam o seu cofre, e tomou seus manuscritos, esperando contra a esperança que, em meio às muitas notas, pudesse haver alguma coisa. Mas não havia nada, ou, em sua excitação, ele deixou passar. Lembrando-se de que Oliver era uma grande autoridade em cavalos, ele entrou em seu quarto e tentou [168]despertá-lo. Oliver, cansado de sua cavalgada, e como ainda não tendo dormindo dos efeitos da festa, não pôde ser acordado.

Felix deixou-o e apressou-se de volta para o Cercado. Cansado como ele estava, ele observou por perto o cavalo até que as cotovias começassem a cantar e a aurora estivesse à mão. Até agora, ele não tinha mostrado nenhum sintoma severo, exceto a contração dos membros e uma sede constante, a qual água nenhuma podia saciar. Mas, subitamente ele caiu, e o velho retentor advertiu a todos eles para se afastarem, pois ele morderia qualquer coisa que estivesse próxima. As palavras deles foram instantaneamente cumpridas; o cavalo rolava, chutava e mordia tudo dentro do seu alcance. Vendo essa agonia, Felix não pôde mais postergar. Ele encordou o seu arco, mas não pôde ajustar a flecha à corda; ele perdeu o encaixe, tanto as mãos dele tremiam. Ele moveu-se para os retentores, quem se reuniram ao redor dele, e um deles lançou a sua lança dentro do cavalo atrás do ombro dele.

Quando Felix finalmente retornou ao seu aposento, ele não pôde senão refletir, enquanto o sol surgia e os raios de luz entravam, que cada presságio tinha sido contra ele: a víbora sob o pé, a seta do bandido, a ponta envenenado do homem do mato. Ele dormiu até o meio-dia, e saindo, não revigorado e ainda cansado, ele descobriu que eles já tinham enterrado o cavalo, e ordenou que um monte fosse erigido acima do tumulo dele. O dia passou-se lentamente; ele perambulava pelo castelo e terrenos cercados, buscando conforto e encontrando nenhum. A mente dele vacilava; ele lembrava-se de tudo que Aurora tinha dito, persuadindo-o para não fazer nada com pressa ou desespero. Contudo, ele não podia continuar em sua presente condição. [169]Outro dia se passou, e, ainda indeciso e duvidante, ele permaneceu em casa.

Oliver começou zombar dele; tinha ele abandonado a expedição? Oliver não podia entender a indecisão; talvez ele não visse tantos lado da questão, a mente dele era sempre rapidamente decidida. A ação era o seu forte, não o pensamento. A noite chegou, e Felix ainda protelava, hesitando.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.160-169. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/160/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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