[178]A passagem contraía-se ali até pouco mais de uma meia-milha, mas esses estreitos não continuavam muito longe; as costas, tendo dessa maneira aproximado-se uma da outra, rapidamente retrocediam, até que logo elas estavam separadas por, pelo menos, duas milhas. O navio mercante tinha atravessado os estreitos com o auxílio de suas correntes paralelas à costa, mas ele movia-se lentamente, e, como parecia para ele, com dificuldade. Ele estava aproximadamente a uma milha e meia de distância, e próximo da boca leste do estreito. Enquanto Felix observava, ele viu a vela quadrada dele novamente elevada, revelando que ele tinha alcançado um ponto onde as colinas deixaram de bloquear o vento. Entrando no Lago aberto, ele alterou o curso de navegou para o norte-nordeste, seguindo o curso da terra firme setentrional.
Olhando agora para o leste, através do Lago, ele via uma vasta e linda extensão de água, sem ilha ou falha de nenhum tipo, extendendo-se até o horizonte. Para o norte e [179]para o sul a terra desaparecia rapidamente, orlada, como usual, por ilhotas e bancos de areia, entre os quais as embarcações costeiras usualmente viajavam. Ele tinha ouvido sobre essa água aberta, e era intenção dele navegar para fora e explorá-la, mas, conforme o sol agora começava a declinar na direção do oeste, ele considerou que faria melhor em esperar pela manhã, e, dessa maneira, ter um dia inteiro diante dele. Entrementes, ele remaria através do canal, aterrisaria a canoa em uma ilhota que ficava mais longe e, dessa maneira, começaria seguro no dia seguinte.
Virando-se agora para olhar para trás na outra direção para o oeste, ele ficou surpreso ao ver um segundo canal, o qual chegava quase do pé da colina sobre a qual ele estava de pé, mas ali terminava, e não se conectava com o primeiro. A entrada para ele era escondida, como ele agora via, por uma ilha, além da qual ele deve ter navegado naquela tarde. Esse canal segundo ou sem saída parecia mais familiar para ele do que a costa plana e coberta de juncos na boca do verdadeiro estreito, e ele agora a reconhecia como uma para a qual ele tinha viajado a pé através da floresta. À época ele não tinha absolutamente atingido o estreito verdadeiro; ele tinha se sentado e ponderado ao lado dessa ilhota enganosa, pensando que ela dividia as terras firmes. A partir dessa descoberta, ele viu quão fácil era estar enganado em tais questões.
Mas isso ainda o convenceu mais completamente da importância desse lugar não habitado e negligenciado. Ele parecia como um canal cortado de propósito para abastecer um forte na retaguarda, a partir do Lado, com provisões e material, supondo o acesso na frente impedido por frotas e exercítos hóstis. Um castelo, se construído próximo de onde ele estava de pé, dominaria o canal; de fato, flechas [180]não poderiam ser disparadas através dele, mas as embarcações sob a proteção do castelo poderiam disputar a passagem, obstruída como ela poderia estar por barragens flutuantes. Um invasor vindo a partir do norte tinha de atravessar aqui; por muitos anos passados tem havido um sentimento geral de que, algum dia, um tal tentativa seria realizada. Fortificações seriam de valor incalculável para repelir as hordas hóstis e impedir o desembarque delas.
Quem possuísse este estreito possuiria a chave do Lago, e seria o mestre de, ou, pelo menos, manteria a balança entre os reis e as repúblicas que pontilhavam ao longo das costas de cada lado. Nenhuma embarcação poderia atravessar sem a permissão dele. Isso era a ilustração mais patente da perspectiva extremamente local, da visão mental contraída dos reis insignificantes e seus homens de estado, quem estavam tão preocupados com as fronteiras das suas províncias e frequentemente interferiam e lutavam por uma propriedade territorial ou baronia cercada por paliçada, contudo, estavam desatentos da oportunidade de império aberta aqui para qualquer um que pudesse a aproveitar.
Se o governandor de um tal castelo como ele imaginava construísse sobre o estreito e tivesse embarcações de guerra, ele poderia posicionar-se nesse segundo canal abrigado de todos os ventos e pronto para atacar e levar uma força de ataque sobre o flanco. Enquanto ele poderava sobre essas vantagens, ele não pôde esconder de si mesmo que, uma vez, ele sentou-se e sonhou junto a essa segunda enseada, considerando-a ser o canal. A dúvida surgiu de, se ele era tão facilmente enganado em uma questão tão grande, trangível e puramente física, se ele não poderia também estar enganado em suas ideias; [181]se, se testadas, elas não poderiam falhar; se o mundo não estava certo e ele errado.
A clareza mesma e o caráter multifacetado da mente dele frequentemente impediam, e mesmo completamente reprimiam, o melhor estabelecimento das impressões dele, mais especialmente quando ele, por assim dizer, permanecia parado e pensava. No devaneio, a sutileza da mente dele embaraçava-o; na ação, ele quase sempre estava certo. A ação incitava a decisão dele. Descendo da colina, ele agora toma algum refresco e, em seguida, ele impulsiona-se novamente para fora na canoa. Tão poderosa era a corrente na parte mais estreita do estreito que ela o ocupou por duas horas remando por tantas milhas.
Quando ele estivesse livre do canal, ele alçaria vela e dirigiria o seu curso diretamente para fora, por uma ilha que se erguia quase oposta à entrada. Mas, conforme ele aproximava-se, conduzido adiante em um bom ritmo, subitamente a conoa pareceu ser agarrada debaixo. Em um instante ele soube que estava encalhado em lama macia e saltou para baixar a vela, mas, antes que ele pudesse fazê-lo, a canoa chegou a uma imbobilização sobre o banco de lama, e as ondas seguindo por trás, imediatamente ela parou, parada sobre a popa. Afortunadamente, elas eram bastante pequenas, tendo apenas uma milha ou aproximadamente para rolarem a partir da praia, mas, em uns poucos minutos, elas lançaram água suficiente a bordo para estragar parte das provisões dele, e para deixar boiando o que estava solto no casco da embarcação.
Ele estava apreensivo com medo de que ela devesse encher, pois agora ele percebia que tinha se esquecido de qualquer coisa com a qual a embalar. Alguma coisa sempre é esquecida. Tendo baixado a vela (com medo de que o vento devesse estalar o [182]mastro), ele tentou duramente forçar a canoa de volta com o seu remo mais longo, usado como um leme móvel. O peso dela e a resistência da lama aderente, sobre a qual ela tinha sido impelida com muita força, eram grandes demais; ele não pôde empurrar. Quando empurrada, o remo afundava-se no fundo macio, e não lhe dava nada contra o que forçar. Após procurar libertar-se por algum tempo, ele parou, começando a temer que a sua viagem já tinha alcançado um fim.
Um pensamento de minuto, mais potente do que a força de dez homens, mostrou-lhe que a canoa precisava ser aliviada. Não havia carga para ser jogada ao mar, nem lastro. Ele era o único peso. Imediatemente, ele se despiu e lançou-se ao mar à proa, mantendo o controle do tronco. Os pés dele afundaram-se profundamente dentro do lodo; ele sentia como se, houvesse ele deixado passar, ele gradualmente deveria ter descido para dentro da areia movediça da lama fina. Contudo, movendo rapidamente os pés, ele conseguia empurrar a canoa; ela elevou-se consideravelmente tão logo ele estava fora dela, e, embora ele tivesse o controle da proa, o corpo dele ainda estava mais leve na água. Empurrando, debatendo-se, e pressionando para frente, ele, por puro impacto, por assim dizer, pois os pés dele não encontraram suporte na lama, forçou-a de volta através de graus lentos.
Os golpes das ondas conduziam-no adiante quase tanto quanto ele a empurrava para trás. Ainda, em tempo, e quando a força dele estava diminuindo rapidamente, ela moveu-se, e ele teve a satisfação do sentimento da água mais profunda sobre ele. Mas, quando ele tentou puxar-se sobre a proa para dentro da canoa, imediatamente o poder motor dele cessou, as ondas desfizeram o avanço que ele tinha alcançado, e ele teve de recomeçar o [183]seu labor. Desta vez, pensando novamente, antes que ele tentasse entrar novamente na canoa, ele virou a lateral dela para o vento, com o estabilizador para o sotavento. Quando a proa aguda e a quilha arredondada dela atingiram o fim do banco de lama, ela fluiu facilmente ao longo dele. Mas, virada lateramente, o comprimento dela encontrou mais resistência, e, embora as ondas a lançassem a alguma distância sobre ele, ela logo chegou a uma imobilização. Ele subiu para dentro com esforço tão rapidamente quanto ele pôde (não é fácil entrar em um bote a partir da água, o corpo é sentido tão pesado), e, tomando o remo, sem esperar para se vestir, laborou para fora do lugar.
Não até que ele tivesse com aproximadamente um quarto de milha para trás na direção da terra firme ele parou para se secar e retomar parte da roupa dele; a canoa, ainda estando parcialmente cheia de água, não era útil para colocar tudo sobre ela. Descansando por um tempo após os seus esforços severos, ele olhou para trás, e agora presumiu, a partir da cor da água e das indicações gerais, que esses rasos se estendiam a uma longa distância, circundando as ilhas na boca do canal, de maneira que nenhuma embarcação poderia entrar ou atravessar para fora em uma linha direta, mas precisa conduzir para o norte ou sul até que o obstáculo fosse rodeado. Com medo de tentar desembarcar em outro ilha, o seu único curso, conforme o sol estava descendo, era retornar à terra firme, a qual ele alcançou sem muito problema, visto que a corrente o favoreceu.
Ele puxou a canoa para a terra tão longe quanto ele conseguiu. Não era um bom lugar para desembarcar, visto que o fundo era de gesso, lavado em buracos pelas ondas, e decorado com pedras angulares. Enquanto o vento estava fora da costa, isso não [184]importava; se ele tivesse soprado a partir do leste, a canoa dele muito provavelmente teria sido muito danificada. A costa estava coberta com aveleiras até dentro de uma distância de vinte jardas da água, então, o chão subia e era vestido com pequenos freixos, os galhos dos quais pareciam muito restritos por tempestade, revelando quão exposto aos vendavais do leste o ponto era primavera. O vento sudoeste estava bloqueado pelas colinas atrás. Felix estava tão cansado que, por um tempo, ele não fez nada exceto descansar sobre o chão, o qual era apenas escassamente coberto por grama. Contudo, um descanso de uma hora restauro-o a si mesmo.
Ele recolheu alguns galhos secos (havia muitos sobre os freixos), bateu seu sílex contra o aço, acendeu a madeira, e logo tinha uma fogueira. Isso não era necessário para calor, a tarde de junho era suave e quente, mas era o instinto do caçador. Ao acampar pela noite, o caçador, a menos que se suspeite de que homens do mato estejam nas redondezas, invarialmente acende uma fogueira, primeiro para cozinhar o seu jantar e, em segundo lugar e frequentemente de maneira principal, para fazer do lugar a sua casa. A fogueira é o lar, quer haja paredes em volta dele, quer não. Imadiatmente existam cinzas brilhantes, o lugar não é mais selvagem, ele torna-se humano. Felix não tinha nada que necessitasse de cozinhar. Ele pegou a sua pele de vaca da canoa e esticou-o sobre o chão.
Uma pele de vaca bem amadurecida é a primeira posse de todo caçador; ele protege-o da umidade; e com uma segunda, suportada sobre três curtas estacas fincadas na terra (duas cruzadas no topo à frente, formando uma bifurcação, e amarradas com uma tira de couro, a terceira descansando sobre elas), ele protege [185]a si mesmo da chuva mais pesada. A pequena tenda sempre é construída com o fundo para o barlavento. Felix não erigiu um novo esconderijo, a tarde estava tão quente e bela que ele não teve necessidade disso, o manto seria bastante para cobertura. A fogueira crepitou e brilhou em intervalos, bastante distante dele para que ele não sentisse nenhuma inconvência a partir do calor dela.
Os tordos cantavam em todo bosque de freixo em torno dele, o cuco chamava, e a felosa-comum nunca parava por um momento. Diante dele estendia-se a vastidão das águas; mesmo aqui ele podia enxergar através das ilhas baixas. No céu, a faixa de nuvens estava manchada pelo pôr do sol, lentamente tornando-se mais pálida enquanto a luz partia. Ele reclinou-se naquele estado inativo, sem pensamento, que se segue ao esforço incomum, até que a sombra que se aprofunda e o fogo que afunda, e o aparecimento de uma estrela, avisaram-lhe que a noite estava realmente aqui. Então ele levantou-se, jogou mais combustivel e buscou seu manto, seu cofre, e sua lança para javali da canoa. O cofre ele cobriu com um canto da pele, enrolou-se no manto, trazendo bem sobre o seu rosto, por conta do orvalho; então, puxando os cantos inferiores da pele sobre seus pés e membros, ele esticou-se à plena altura e adormeceu, com a lança ao lado dele.
Havia a possibilidade de homens do mato, mas não muita probabilidade. Havia muito mais perigo perto do caminho da floresta, onde eles poderiam esperar um viajante e observar para o emboscar, mas eles não poderiam dizer antecipadamente onde ele descansaria aquela noite. Se alguém tivesse visto os movimentos da canoa dele, se algo iluminado sobre o bivaque dele por acaso, [186]o destino dele era certo. Ele sabia disso, mas confiava na extrema improbabilidade dos homens do mato frequentando um lugar onde não havia nada para pilhar. Além disso, ele não tinha escolha, visto que ele não podia alcançar as ilhas. Se havia risco, ele foi alcançado na extremidade do seu cansaço.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.178-186. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/178/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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