Capítulo anterior
“[192]Eu
já contei a vocês da doença e confusão que surgem com a viajem no
tempo. E desta vez eu não estava sentado corretamente no selim, mas
de lado e de uma
maneira instável. Por um tempo indefinido eu agarrei-me à
máquina enquanto ela balançava e
vibrava, bastante desatento de como eu
prosseguia e, quando eu trouxe a mim
mesmo para considerar novamente
os mostradores,
eu fiquei maravilhado de
descobrir onde eu chegara. Um mostrador registrava os dias; outro,
milhares de dias; outro, milhões de dias, e outro, milhares de
milhões. Agora, em vez de reverter as
alavancas, eu puxei-as para cima de
maneira a avançar com elas e, quando vim a examinar aqueles
mostradores, eu descobri que o [193]ponteiro
dos milhares estava girando tão rápido
como o ponteiro dos segundos de um relógio, à futuridade.”
“Muito
cautelosamente, pois eu lembrava de minha antiga queda de
cabeça para baixo, eu comecei a reverter o movimento. Mais e
mais lentos ficavam os ponteiros circulantes,
até que aquele dos milhares
parecia imóvel e o diário
não era mais uma névoa em sua escala.
Ainda mais lento, até que a neblina cinzenta à
minha volta tornou-se mais distinta, e contornos obscuros de uma
pequena colina e um mar tornaram-se visíveis.”
“Mas,
conforme meu movimento tornava-se mais lento, eu não descobri
nenhuma mudança piscante de dia e
noite. Um crepúsculo firme
cismava
sobre a terra. E a faixa de luz
que indicara o sol tornou-se mais fraca e de fato, eu agora notava,
desaparecera na invisibilidade no leste e, no oeste, estava
crescentemente mais ampla e mais vermelha. O circular
das estrelas tornando-se mais e mais lento dera lugar a rastejantes
pontos de luz. [194]Finalmente,
algum tempo antes de eu parar, o sol, vermelho e muito grande, parou
imóvel sobre o horizonte, uma cúpula
vasta
brilhando com um calor aborrecido. O trabalho do arrasto
da maré foi realizado. A terra veio a descansar com uma face
para o sol assim como, em nosso tempo, a lua encara a terra.”
“Eu
parei muito gentilmente e sentei sobre a Máquina do Tempo, olhando à
minha volta.”
“O
céu não era mais azul. Na direção nordeste, ele estava preto como
tinta e, para fora da escuridão, brilhavam intensa e firmemente as
pálidas estrelas brancas. Por cima da cabeça ficava um profundo
vermelho indiano, sem estrelas, e, na direção sul, ele tornava-se
mais brilhante para onde, cortado pelo horizonte, estendia-se a casca
imóvel do imenso sol vermelho.”
“As
rochas à minha volta eram de uma desagradável
cor avermelhada, e todos os traços de vida que eu inicialmente
pude ver
eram da
vegetação intensamente verde, a qual
cobria cada ponto protuberante em
seu lado sudestino. Era o mesmo
[195]verde
rico que alguém vê no musgo da
floresta ou no líquen nas cavernas, plantas
que, como essas, crescem
em crepúsculo perpétuo.”
“A
Máquina estava sobre uma praia inclinada.
O mar estendia-se longe na direção
sudoeste para se erguer em um penetrante horizonte brilhante contra o
céu pálido. Não havia nem ondas grandes
nem pequenas, pois nem a brisa do mar estava
agitando-se. Apenas uma vaga
levemente oleosa subia e caía como uma respiração gentil, e
mostrava que o mar eterno ainda estava movente e vivente. E, ao longo
da margem onde água às vezes quebra, ficava uma espessa incrustação
de sal – rosa, sob o céu lúgubre.”
“Havia
uma sensação de opressão em minha cabeça, e eu notei que estava
respirando muito rápido. As sensações lembravam-me de minha única
experiência em montanhismo e, a partir disso,
eu julguei que o ar estava mais rarefeito do que agora está.”
“Muito
longe, na encosta desolada, eu [196]ouvi
um grito desagradável e vi uma coisa como uma imensa borboleta
branca subir, inclinando-se e esvoaçante, ao céu e, em círculos,
desaparecer sobre algumas colinas acolá.”
“O
som de sua voz era tão sombrio que eu tremi e
sentei-me mais firmemente sobre a Máquina.”
“Olhando
à minha volta eu vi que, bem perto de mim, o que eu entendera ser
uma massa avermelhada de rocha, agora estava movendo-se lentamente em
minha direção. Então eu vi que a coisa era realmente uma criatura
monstruosa semelhante a um caranguejo. Vocês podem imaginar uma
caranguejo tão grande quanto aquela mesa acolá, com suas numerosas
pernas movendo-se lenta e incertamente, suas grandes garras
balançando, suas longas antenas como chicotes
de carreteiros, acenando e
sentido, e seus olhos perseguidores brilhando
para você em cada lado de sua fronte metálica? Suas costas
eram enrugadas e ornamentadas com
saliências desajeitadas, e uma
incrustação esverdeada manchava aqui
e ali. Eu podia ver os numerosos palpos
de sua [197]complicada
boca oscilando e sentindo enquanto ele aproximava-se.”
“Enquanto
encarava essa aparição sombria arrastando-se em minha direção, eu
senti cócegas em minhas bochechas como se uma
mosca pousara ali.”
“Eu
tentava removê-la
com minha mão, mas,
em um momento, ela
retornava e, quase imediatamente, outra
chegava próximo do meu ouvido. Eu lutava contra isso e agarrei
alguma coisa filiforme. Ela foi
tirada rapidamente
de minha mão. Com uma terrível vertigem, eu
virei-me e vi que tinha agarrado as antenas de outro caranguejo
monstruoso que estava imediatamente atrás de mim. Seus olhos
malignos estavam contorcendo-se em seus talos,
sua boca
estava completamente viva com apetite, e suas vastas garras
desajeitadas, besuntadas com lodo verde, estavam descendo sobre mim.”
“Em
um momento, minha mão estava sobre a alavanca da Máquina do Tempo,
e eu colocara um mês entre mim mesmo e esses monstros. Mas eu
descobri que ainda estava na mesma praia e via-os [198]distintamente
assim que eu parei. Dúzias deles
pareciam rastejar aqui e ali sob a luz
sombria luz em meio a camadas cobertas de
folhas de verde intenso.”
“Eu
não posso transmitir a sensação de desolação abominável que
pendia sobre o mundo. O céu oriental vermelho, a escuridão ao
norte, o salgado Mar Morto, a praia pedregosa cheia de malignos
monstros de lentos movimentos, as
plantas uniformes, verdes
de aparência venenosa, e cobertas de
líquen, o ar fino que fere os pulmões de alguém; tudo contribuía
para o efeito apavorante.”
“Eu
continuei por mais cem anos,
e havia o mesmo sol vermelho, o mesmo
mar moribundo, o mesmo ar gélido, a mesma multidão
de crustáceos terrenos arrastando-se para dentro e para fora em meio
às ervas daninhas verdes e às rochas vermelhas.”
“Assim
eu viajei, parando sempre e novamente,
em grandes marchas de mil anos ou mais,
atraído pelo mistério do destino da terra, registrando com uma
estranha fascinação como o sol estava [199]tornando-se
maior e mais aborrecido no céu ocidental, e
a vida da velha terra, decaindo.
Finalmente, mais de trinta milhões de anos daqui,
a imensa cúpula quente e vermelha do sol chegou a obscurecer quase
uma sexta parte dos céus sombrios.
Nessa altura foi que eu parei,
pois a rastejante multidão de caranguejos desaparecera, e a praia
vermelha, salvo por seus
lívidos hepáticas e líquens verdes, novamente parecia sem vida.”
“Tão
logo eu parei, um frio implacável assaltou-me.
O ar sentia intensamente frio, e raros
flocos brancos sempre e novamente desciam em redemoinho. Para
a direção nordeste, o brilho da neve estendia-se sob a luz das
estrelas no céu negro e eu podia ver
uma crista ondulada de rosadas colinas brancas. Havia franjas
de gelo ao longo da margem do mar, massas à deriva mais longe, mas a
expansão principal daquele oceano salgado, todo sangrento só o
eterno pôr do sol, ainda estava descongelado.”
“Eu
olhei ao meu redor para ver se [200]restavam
quaisquer traços de animais. Uma certa apreensão indefinível ainda
me mantinha no selim da Máquina. Eu não vi nada se movendo em
terra, céu ou mar. O lodo verde sobre as rochas testemunhava sozinho
que a vida não estava extinta. Um banco de areia raso aparecera no
mar e água recedera da praia. Eu imaginei que vi algum objeto negro
virando-se de um
lado para o outro sobre esse banco, mas ele tornou-se sem
movimento enquanto eu olhava para ele, e eu julguei que meu olho fora
enganado e que o objeto era meramente uma rocha. As estrelas no céu
estavam intensamente brilhantes e pareciam-me cintilar muito pouco.”
“Subitamente
eu notei que o contorno circular, na
direção ocidental, do sol mudara, que uma concavidade, uma baía,
aparecera na curva. Eu vi que ela
crescia.
Por um minuto, talvez, eu encarei horrorizado
essa escuridão que estava arrastando-se sobre o dia, e então
eu compreendi que um eclipse estava começando. Sem dúvida, agora
que a lua [201]estava
arrastando-se ainda mais próximo da terra, e a terra do sol,
eclipses eram uma ocorrência frequente.”
“A
escuridão acelerou-se,
um vento gélido começou a soprar em
rajadas refrescantes a partir do oriente, e então os flocos brancos
estavam caindo do ar aumentado. A maré estava arrastando-se
com uma ondulação e um sussurro. Além
desses sons sem vida o mundo estava silencioso – silencioso! Seria
difícil transmitir para vocês a quietude disso. Todos
os sons do homem, o balido de ovelha, os gritos dos pássaros, o
zumbido de insetos, o rebuliço que forma o pano de fundo de nossas
vias, acabou. Enquanto a escuridão aumentava, os flocos em
redemoinho tornavam-se mais abundantes, dançando diante de
meus olhos; e o frio do ar, mais intenso. Finalmente, rapidamente, um
após o outro, os picos brancos das colinas distantes desapareceram
na escuridão. A briza cresceu em um vento gemente. Eu vi a escura
sombra central do eclipse deslizando em direção a mim. Em
[202]outro
momento, apenas as estrelas pálidas eram visíveis. Tudo o mais era
uma obscuridade sem raios. O
céu ficou absolutamente negro.”
“Um
temor dessa grande escuridão surgiu
sobre mim. O frio que atingiu minha essência,
e a dor que eu sentia, venceram-me. Eu
tremi e uma náusea mortal capturou-me. Então, como um arco vermelho
quente no céu, apareceu a borda do sol.”
“Eu
sai da Máquina para me recuperar. Eu
sentia-me tonto e incapaz de encarar a
jornada de retorno. Enquanto eu erguia-me doente e confuso, eu vi
novamente a coisa movente sobre o banco de
areia – agora não havia engano de que era uma coisa movente
– contra a água vermelha do mar. Era uma coisa redonda, do tamanho
de uma bola de futebol, talvez, ou
maior; ela parecia preta contra a tumultuosa água vermelho-sangue, e
estava saltitando irregularmente de
um lado para o outro. Então eu
senti que estava desmaiando. Um pavor terrível de
jazer indefeso naquele crepúsculo remoto sustentou-me enquanto eu
subia no selim.”
[203]“Assim
eu cheguei em casa. Por um longo tempo,
eu devo ter ficado insensível sobre a Máquina. A
sucessão piscante dos dias e das noites foi retomada e o sol
tornou-se dourado novamente, e o céu, azul. Eu respirava com
uma maior liberdade. Os contornos flutuantes da
terra recediam e fluíam. Os ponteiros
giravam para trás sobre os mostradores. Finalmente, novamente
eu vi as sombras escuras de casas, as
evidências da humanidade decadente. Essas, também, mudadas e
passadas, e outras surgidas. Logo, quando o
mostrador dos milhões estava no zero, eu abrandei a velocidade e
comecei a reconhecer nossa própria arquitetura bela e familiar.
O ponteiro dos
milhares retrocedeu ao ponto de início, a noite e o dia agitavam-se
mais e mais lentamente. Então, as velhas paredes do
laboratório surgiram à minha volta. Muito gentilmente eu diminuí o
ritmo do mecanismo.”
“Eu
vi uma pequena coisa que parecia estranha para mim. Eu acho que
contei a vocês [204]que,
quanto eu parti, antes que minha
velocidade viesse a ser muito alta, a Sra. Watchett caminhara através
da sala, viajando, como me parecia, como um foguete. Enquanto
retornava, eu passei novamente por
aquele minuto quando ela atravessava o laboratório. Mas agora, cada
movimento parecia-me a inversão exata de um
movimento anterior dela. A porta na extremidade inferior
abriu-se e ela deslizou quietamente laboratório
acima, de volta à
frente, e desapareceu atrás da porta
pela qual ela anteriormente entrara.”
“Então
eu parei a Máquina, e novamente vi à minha volta o velho
laboratório familiar, minhas ferramentas, meus utensílios,
exatamente como eu deixara-os. Eu desci da
coisa muito trêmulo e sentei-me sobre meu banco. Por vários minutos
eu tremi violentamente. Em seguida eu fiquei mais calmo. À
minha volta estava novamente minha velha oficina, exatamente como ela
estivera. Eu podia ter dormido lá e a coisa
toda tinha sido um sonho.”
“E
contudo,
não exatamente. A coisa [205]começara
a partir do canto sudeste do laboratório. Ela veio a
descansar no noroeste, contra a parede, onde vocês encontra-la-ão.
Isso dá-lhes a distância exata de meu pequeno
relvado ao pedestal da esfinge branca.”
“Por
um tempo meu cérebro tornou-se estagnado.
Logo eu levantei-me e passei pela
passagem aqui, mancando, porque meu calcanhar
ainda estava dolorido, e sentindo-me extremamente
sujo. Eu vi o Pall Mall Gazette na mesa perto à porta.
Eu descobri que a data era de fato hoje, e olhando para o relógio,
vi que a hora era quase oito. Eu ouvi suas vozes e o barulho
de pratos. Eu hesitei – eu sentia-me tão doente e fraco. Então,
eu senti o cheiro de boa carne saudável, e abri aporta. Vocês
conhecem o resto. Eu banhei-me e jantei, e
agora eu estou contando a vocês a história.”
“Eu
sei,” ele disse após um tempo, “que tudo isso parecerá
absolutamente [206]incrível
para vocês, mas para mim a única coisa incrível é que eu estou
aqui, nesta noite, nesta antiga sala familiar, olhando em seus rostos
saudáveis, e contando a vocês todas aquelas estranhas aventuras.”
Ele
olhou para o Médico.
“Não;
eu não posso esperar que vocês acreditem nisso. Tomem
isso como uma mentira, ou uma profecia. Digam
que eu sonhei-a na oficina. Considerem
que eu estivesse especulando sobre os destinos de nossa raça, até
que eu imaginei
essa ficção. Tratem minha declaração da verdade dela como
um mero golpe de arte para realçar seu
interesse. E, tomando-a como uma
história, o que vocês pensam dela?”
“Ele
tomou seu cachimbo e começou, em sua
antiga maneira costumeira, a tocar
nas barras
da grelha.”
Próximo
capítulo
ORIGINAL:
WELLS,
H.G.
The
Time
Machine;
An
Invention.
New
York:
Henry
Holt and Company,
1895.
pp.192-206.
Disponível em:
<https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/192/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Eidonet
Licença:
CC
BY-NC-SA 4.0