A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Introdução

[iii]Há muito tempo eu tenho desejado escrever um romance, mas eu não pude determinar sobre o que ele devia ser. Eu não podia suportar qualquer coisa banal e não sabia o que fazer por um herói. Heróis são geralmente muito parecidos, tão monótonos, tão terrivelmente insípidos – tão completamente irmãos de uma raça, com a semelhança de família tão surpreendentemente forte – “Isso não será apropriado para mim,” pensei, enquanto eu passeava indiferentemente até um beco sombreado, em uma bela trade de junho: “Eu preciso ter aluma coisa nova, alguma coisa completamente fora do caminho batido: - mas o que? - sim, essa era a questão. Em vão eu torturo meu cérebro – em vão eu busquei o [iv]depósito de minha memória: eu não podia pensar em coisa alguma que não fora pensada antes.”
É muito estranho” disse eu, enquanto andava mais rápido, como se esperasse que a rapidez de meu movimento sacudiria a lentidão de minha imaginação. Era tudo em vão! Eu bati em minha testa e chamei a Sagacidade à minha assistência, mas a divindade maligna era surda à minha súplica. “Certamente,” pensei eu, “a mina profunda da imaginação não pode estar esgotada; deve haver algumas novas ideias restantes, se eu pudesse encontrá-las.” Encontrá-las, contudo, era a dificuldade.
Dessa maneira, perdida em meditação, eu caminhei adiante até que alcancei o topo de uma colina, e uma perspectiva esplêndida estourou sobre mim. Um vale fértil ricamente arborizado, decorado com muitas vilas e romântico chalés, e regado por um nobre rio, que feria lentamente seu preguiçoso curso para frente, espalhava-se sobre meus pés; e elevadas colinas dilatando-se aos céus, seus cumes perdidos nas nuvens, limitadas pelo horizonte. O sol estava pondo-se em todo seu esplendor, e seus raios persistentes davam aquelas tonalidades brilhantes e massas profundas de sombras à paisagem que algumas vezes [v]produzem um efeito tão mágico. Era bastante uma cena de Claude Lorraine; e, para mais completamente desfrutá-la, eu entrei em um campo de feno e sentei-me em um banco de areia coberto de grama. O dia tinha estado abafado; e a briza da tarde, enquanto ela murmurava através da folhagem, eu sentia fria e refrescante. “É um mundo adorável,” pensei eu, “a despeito de tudo que os cínicos possam dizer contra ele. Nossas próprias paixões trazem miséria sobre nossas cabeças, e então nós protestamos contra o mundo, embora unicamente nós estejamos em falta. Por que eu deveria buscar perambular pelas regiões da ficção? Por que não desfrutar tranquilamente das bençãos que os Céu concedeu-me?
Eu sentia-me bastante indolente para responder a minhas próprias questões; uma quietude deliciosa arrastou-se sobre meus sentidos, e o caos elevado de minhas ideias foi embalado ao repouso. Um carvalho majestoso estendia seus braços nodosos em dignidade taciturna acima de minha cabeça; miríades de insetos ocupados zumbiam ao redor de mim; e madressilvas e rosas selvagens, pendendo de cada cerca viva, misturavam seus perfumes com aquele de feno recém-cortado. Eu reclinei-me languidamente sobre minha cama coberta de grama, ouvindo o zum-zum indistinto da vila distante, e sentido aquele [vi]delicioso sentido de dispensa de cuidado, o qual o murmúrio fraco de alvoroço longínquo dá ao espírito cansado, quando subitamente os sinos começaram um badalar alegre – as notas animadas agora intensificando-se ruidosamente sobre o ouvido, depois se abatendo gentilmente para longe com a briza retirante, e então novamente retornando com doçura adicionada. Eu ouvi com deleite sua melodia, até que a suavidade delas pareceu aumentar; os sons tornaram-se gradualmente mais e mais fracos; a paisagem desapareceu da minha vista: um breve langor arrastou-se sobre mim: em resumo, eu adormeci.
Não seria de nenhuma utilidade ir dormir sem sonhar; e, adequadamente, eu mal fechara meus olhos quando, pareceu-me, um espírito colocou-se de pé diante de mim. Sua cabeça estava coroada de flores; suas asas azul celeste agitavam-se na briza, e uma roupagem leve, como o vapor veloso que pendia sobre o cume de uma montanha, flutuava em volta dele. Em sua mão, ele segurava um pergaminho, e sua voz soava suave e doce como a melódia liquida do rouxinol.
Tome isto,” disse ele, sorrindo benignamente; “é a Crônica de uma época futura. Narre-a [vii]em uma história. Isso gratificará seus desejos, quanto a dar-te um herói totalmente diferente de qualquer herói que alguma vez apareceu antes. Você hesita.” ele continuou, novamente sorrindo, e considerando-me seriamente: “Eu leio seus pensamentos, e vejo que você teme esboçar as cenas sobre as quais você deve escrever. Porque você imagina que elas devam ser diferentes daquelas com as quais você está familiarizada. Essa é uma desconfiança natural: de fato as cenas serão diferentes daquelas que você agora contempla; a inteira face da sociedade estará mudada: novos governos terão surgido; descobertas estranhas terão sido realizadas; e mais estranhos modos de vida adotados. A curiosidade e pesquisa sem descanso do homem então o terão capacitado a erguer o véu de muito que é, no presente (para ele, pelo menos), um mistério; e seus poderes (tanto quanto à ação mecânica quanto ao conhecimento intelectual) serão grandemente alargados. Mas, mesmo então, na plenitude de suas aptidões, ele será feito consciente da enfermidade de sua natureza, e será culpado de muitos absurdos que, em seu estado menos iluminado, ele se sentiria envergonhado de cometer.”
[viii]“Para ninguém senão para você mesma essa visão foi revelada: não tema contemplá-la. Embora estranha, ela pode ser integralmente entendida, pois muito ainda restará para conectar aquela época futura com o presente. Os impulsos e sentimentos da criatura humana devem, pela maior parte, ser semelhantes em todas as épocas; hábitos variam mas a natureza persiste; e as mesmas paixões foram delineadas, a mesma fraqueza ridicularizada, por Aristófanes, Plauto e Terêncio, como em tempos posteriores foram descritas por Shakespeare e Molière; e como serão nos tempos sobre os quais você deve escrever, - por autores ainda desconhecidos.”
Mas você ainda hesita; você objeta que a novidade das ilusões confundem você. Esse é um tipo bastante novo de delicadeza; como autores raramente se preocupam a tornarem-se familiarizados com um assunto antes que eles comecem a escrever sobre ele. Contudo, uma vez que você é tão escrupulosa, eu tentarei, se possível, auxiliar-te. Assim eu fiz.
Assim eu fiz; e vi, como em um espelho mágico, as cenas e personagens, os quais eu agora deverei esforçar-me para passar diante dos olhos do leitor.


Próximo capítulo


ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.iii-viii. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n9/mode/1up>


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A Ilha do Doutor Moreau - Introdução

[v]Em primeiro de fevereiro de 1887, o Lady Vain foi perdido em uma colisão com um objeto abandonado quando aproximadamente na latitude 1ºS e longitude 107ºO.

Em cinco de janeiro de 1888 – quer dizer, onze meses e quatro dias depois – meu tio, Edward Prendick, um cavalheiro privado, quem certamente foi ao estrangeiro no Lady Vain em Callao e, quando fora considerado afogado, foi apanhado na latitude 5º3´S e longitude 101ºO em um pequeno bote aberto que se supõe ter pertencido à escuna desaparecida Ipecacuanha. Ele deu um relato tão estranho de si mesmo que foi presumido louco. Subsequentemente, ele alegou que sua mente ficou em branco desde o momento de sua evasão do Lady Vain. O caso dele foi discutido à época entre os psicólogos como uma curiosa instância de lapso de memória [vi]em consequência de estresse físico e mental. A narrativa seguinte foi encontrada nos papéis dele pelo que assina abaixo, seu sobrinho e herdeiro, mas desacompanhada de qualquer solicitação para publicação.

A única ilha conhecida existir na região na qual meu tio foi apanhado é a Ilha do Nobre, uma pequena ilhota vulcânica e inabitada. Ela foi visitada em 1891 por H.M.S. Scorpion. Um pequeno destacamento de marinheiros então desembarcou, mas não encontrou nada vivendo ali, excerto por certas curiosas mariposas brancas, alguns porcos e coelhos, e alguns ratos bastante peculiares. De maneira que esta narrativa está sem confirmação em seu particular mais essencial. Com isso entendido, parece não haver nenhum mal em colocar esta história estranha diante do público de acordo com, como eu acredito, as intenções do meu tio. Há, pelo menos, esse tanto a seu favor: meu tio ultrapassou o conhecimento humano sobre a latitude 5ºS e longitude 105ºO e reapareceu na mesma parte do oceano após um espaço de onze meses. De alguma maneira ele deve ter vivido durante o intervalo. E parece que uma escuna chamada de Ipecacuanha, com um capitão bêbado, John Davies, [vii]partiu da África com um puma e certos outros animais a bordo em janeiro de 1887, que a embarcação era bem conhecida em vários portos no Pacífico Sul, e que ela finalmente desapareceu desses mares (com uma considerável quantidade de copra abordo), navegando de Bayna para seu destino desconhecido em dezembro de 1887, uma data que corresponde inteiramente com a história de meu tio.


Charles Edward Prendick.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibilty. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.v-vii. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/n10/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

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A Máquina do Tempo - Capítulo XIV Após a História do Viajante do Tempo - Final

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[207]Houve uma quietude momentânea. Então cadeiras começaram a ranger e sapatos a esfregar-se sobre o carpete. Eu tirei os olhos do rosto do Viajante do Tempo e olhei para sua audiência em volta. Eles estavam no escuro e pequenas manchas de cor flutuavam diante deles. O Médico parecia absorvido na contemplação de nosso anfitrião. O Editor estava olhando duro para o término de seu charuto – o sexto. O Jornalista tateava por seu relógio. Os outros, tanto quanto eu lembro, estavam imóveis.

O Editor colocou-se de pé com um suspiro.

Que pena que você não é um escritor de histórias!” Ele disse, colocando [208]a mão sobre o ombro do Viajante do Tempo.

Você não acredita?”

Bem ------”

Eu pensei que não.” O Viajante do Tempo virou-se para nós. “Onde estão os fósforos?” Ele disse. Ele acendeu um e falou por cima de seu cachimbo, soprando, “Contar toda verdade a vocês – eu mesmo dificilmente a acredito – e contudo ------”

Os olhos dele iniciaram uma investigação muda a cerca das murchas flores brancas sobre a pequena mesa. Em seguida, ele voltou-se para a mão segurando seu cachimbo, e viu que ele estava olhando para algumas cicatrizes meio curadas em suas juntas.

O Médico levantou-se, veio até a lâmpada e examinou as flores. “A estranheza do gineceu.” Ele disse.

O Psicologo inclinou-se para frente para ver, estendendo sua mão por um espécime.

Eu estou enforcado se não é um quinze para uma,” disse o Jornalista. “Como nós deveremos chegar em casa?”

[209]“Há muitos táxis na estação,” disse o Psicologo.

É uma coisa curiosa,disse o Médico; “mas eu certamente não conheço a ordem natural dessas flores. Posso tê-las?”

O Viajante do Tempo hesitou. Então subitamente, “Certamente não.”

Onde você realmente as conseguiu?” Disse o Médico.

O Viajante do Tempo levou a mão à cabeça. Ele falou como alguém que estivesse tentando segurar firme uma ideia que se esquivava dele. “Elas foram colocadas em meu bolso por Weena – quanto eu viajei no tempo.” Ele encarou a sala em volta. “Eu estou em d------ se tudo não está tudo acontecendo. Essa sala, você e a atmosfera do cotidiano, é demais para minha memória. Eu alguma vez construí uma Máquina do Tempo, ou um modelo de uma Máquina do Tempo, ou isso tudo foi um sonho? Eles dizem que a vida é uma sonho, um precioso pobre sonho às vezes – mas eu não suportar outro que não se adequará. É loucura. E [210]de onde o sonho veio? Eu preciso examinar aquela Máquina. Se existe alguma.

Ele agarrou a lâmpada rapidamente e carregou seu vermelho cintilante através da porta para o corredor.

Nós o seguimos.

Ali, à luz oscilante da lâmpada estava a Máquina, exatamente como alguém esperaria, agachada, feia e torta, uma coisa de bronze, ébano, marfim e translúcido quartzo cintilante. Sólida para o toque – pois eu coloquei minha mão e senti o carril dela – e com manchas e borrões marrons sobre o marfim, e pedaços de grama e musgo sobre as partes inferiores, um carril curvado torto.

O Viajante do Tempo baixou a lâmpada ao banco, e percorreu com sua mão ao longo do carril quebrada.

Tudo está certo agora,” ele disse.A história que eu contei-lhes foi verdadeira. Desculpem-me por ter trazido você aqui para fora – no frio.

Ele pegou a lâmpada e, um [211]silêncio absoluto, nós retornamos à sala de fumo.

O Viajante do tempo entrou no salão conosco e ajudou o Editor com seu casaco. O Médico olhou no rosto de nosso anfitrião e, com uma certa hesitação, contou-lhe que ele estava sofrendo de excesso de trabalho, diante do que ele riu muito. Eu lembro dele de pé na soleira aberta da porta gritando boa noite.

Eu compartilhei um táxi com o Editor. Ele considerou a história uma “mentira de mau gosto.” De minha parte, eu fui incapaz de chegar a qualquer conclusão sobre o assunto. A história foi tão fantástica e incrível; a narração, tão incrível e sóbria. Eu deitei-me acordado pela maior parte da noite pensando nela. Eu determinei-me a ir no dia seguinte e ver a Máquina do Tempo novamente.

Contaram-me que ele estava no laboratório e, estando em termos fáceis na casa, eu subi até ele. Contudo, o laboratório estava vazio. Eu encarei a Máquina do Tempo por um minuto, [212]estendi minha mão e toquei-a. Com aquele agachamento, massa aparentemente substancial balançou como um galho agitado pelo vento. Sua instabilidade assustou-me extremamente, e eu tive uma estranha reminiscência dos dias de infância, quando eu estava acostumado a ser proibido de me intrometer. Eu retornei através do corredor. O Viajante do Tempo encontrou-me na sala de fumo. Ele estava vindo da casa. Ele tinha uma pequena câmera sob um braço e uma mochila sobre o outro. Ele riu quando me viu e acotovelou-me para me sacudir.

Eu estou assustadoramente ocupado,” ele disse; “com essa coisa aqui.”

Mas isso não é alguma brincadeira?Eu disse. “Você realmente viajou no tempo?”

Real e verdadeiramente eu viajei.” E ele olhou francamente em meu olhos.

Ele hesitou. Os olhos dele erravam em torno da sala.Eu quero apenas metade de uma hora,ele disse. “Eu sei porque você veio, e é muito bom de [213]você. Há algumas revistas aqui. Se você parar para almoçar eu provarei esta viajem no tempo para você completamente. Espécimes e tudo. Você perdoar-me-á deixar você agora?”

Eu consenti, dificilmente compreendendo a importância completa de suas palavras, e ele acenou com a cabeça e desceu o corredor. Eu ouvi a porta do laboratório bater, sentei-me em uma cadeira, e tomei a New Review. O que ele estava fazendo antes da hora do almoço? Então eu fui subitamente lembrado por um anúncio de que eu prometera encontrar-me com Richardson, o editor, às duas. Eu olhei para o meu relógio e vi que eu mal poderia salvar esse compromisso. Eu levantei-me e desci pela passagem para contar ao Viajante do Tempo.

Enquanto tomava posse da maçaneta da porta, eu ouvi uma exclamação estranhamente truncada na extremidade, um clique e um baque. Uma rajada de ar girou à minha volta enquanto eu abria a porta, e de dentro veio o [214]som e vidro quebrado caindo no chão. O Viajante do Tempo não estava ali. Eu parecia ver uma fantasmagórica figura indistinta sentando-se em uma massa turbilhonante de escuridão e bronze por um momento, uma figura tão transparente que o banco atrás [dela], com suas folhas de desenhos, estava absolutamente distinto; mas esse fantasma eu imediatamente percebi que era ilusório. A Máquina do Tempo desaparecera. Salvo por uma retrocedente agitação de poeira, o espaço central do laboratório estava vazio. Aparentemente, um painel da claraboia fora explodido.

Eu senti uma admiração irracional. Eu sabia que algo estranho acontecera e, por um momento, não pude distinguir o que a coisa estanha podia ser. Enquanto eu permanecia encarando, a porta para o jardim abriu-se, e o servo apareceu.

Nós olhamos um para o outro. Então as ideias começaram a surgir.

O Sr. ------ saiu por aquele caminho?” Eu disse.

[215]“Não, Senhor. Ninguém saiu por esse caminho. Eu estava esperando encontrá-lo aqui.”

Diante disso eu entendi. No risco de desapontar Richardson, eu permaneci esperando o Viajante do Tempo, esperando pela segunda história, talvez ainda mais estranha, e os espécimes e fotografias que ele traria consigo.

Mas agora eu estou começando a temer que eu precise esperar uma vida inteira por isso. O Viajante do Tempo desapareceu há três anos. Até o presente ele não retornou e, quando retornar, encontrará a casa dele nas mãos de estranhos e sua pequena reunião de ouvintes dispersa para sempre. Filby trocou a poesia pela dramaturgia, e é um homem rico – como se passa com literatos – e extremamente impopular. O Médico está morto, o Jornalista está na Índia e o Psicólogo sucumbiu à Paralisia. Alguns dos outros homens que eu costumava encontrar aqui desapareceram tão [216]completamente da existência como se eles também tivessem viajado sobre semelhantes anacronismos. E assim, terminando em um tipo de parede morta, a história do Viajante do Tempo deve permanecer pelo presente, pelo menos.


O FIM


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.207-216. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/207/mode/1up>


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EderNB do Blog Eidonet

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A Água das Ilhas Maravilhosas - A Quarta Parte: Dos Dias de Permanência - Capítulo II Birdalone aprende o Saber do Sacerdote. Dez Dias de Espera consomem-se

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[197]Consumiram-se aquele dia e o seguinte, e Birdalone começou a falar com suas mulheres, das quais agora restavam cinco; e quatro delas eram jovens, a mais velhas escassamente tinha trinta anos, e a quinta era uma mulher de sessenta, ambas sábias e amáveis. Todas elas contaram a ela alguma coisa de suas próprias vidas quando ela perguntava a elas; e além disso algumas contaram do povo que elas conheceram ou do qual ouviram falar. E bem satisfeita ficou Birdalone de ouvir disso e aprender mais das maneiras do mundo, e perspicaz ela foi na lição, de maneira que ela não necessitou fazer muitas perguntas.

Além disso, ela retornou a seu bordado novamente, e imediatamente começou a fazer um vistoso par de calçados para Atra, uma vez que ela desgastara aqueles emprestados um tanto severamente. E as mulheres maravilharam-se de seu bordado, tão maravilhosamente encantador como ele era, e de como, naquele pequeno espaço de tempo, surgiram flores e árvores, e pássaros e bestas, tudo lindo; e elas diziam que a fada deve ter ensinado aquela arte a ela. Mas ela ria e ruborizava, e pensava em sua mãe-do-bosque; e, sentada ali dentro das quatro paredes, ela ansiava pelas clareiras de carvalhos, e os relvados no bosque, e pela visão das bestas que habitavam naquele lugar.

Novamente ela encontrou Leonard, o sacerdote, e ele perguntou a ela se ela podia ler em um livro, e, quando ela disse que não, ele ofereceu-se para a ensinar esse saber, e [198]ela concordou com isso alegremente; e a partir dai ela o teria consigo a cada dia por um bom tempo; e uma apta estudiosa ela era, e ele não mau mestre, e ela aprendeu o A B C dela velozmente.

Agora era o nono dia desde que os Campeões partiram, e durante todo esse tempo ela não estivera fora dos portões; e após os dois primeiros dias, ela obrigara-se a preencher seu tempo com seu trabalho como acima dito: mas neste último dia ele pôde fazer apenas pouco, pois ela não podia senão tomar como certo que amanhã seria o dia do retorno; ou melhor, ela considerava até que eles poderiam chegar durante o curso da noite; de modo que, quando ela foi para a cama, embora ela estivesse cansada, ela despertaria se ela pudesse, de maneira que era perto da madrugada antes que ela adormecesse.

Aproximadamente três horas após ela ter acordado, e ouvido o som de gente mexendo-se na casa e do choque de armas, o coração saltou nela, e ela disse: ‘Eles chegaram, eles chegaram!’ Mesmo assim, ela não se atreveu a sair da cama, com medo de que sua esperança iludira-a. Ela deitou-se por outra hora, e nenhuma notícia chegou a ela, então ela chorou até dormir. Quando acordou mais uma vez, ela descobriu que deve ter chorado dormindo, pois o travesseiro diante de seu rosto estava todo molhado de lágrimas.

O sol agora estava alto, e seus raios eram lançados de volta a partir da ondulação no lago, e brilhava uma oscilação na parede da câmara, a janela do qual dava para a água. Então veio uma mão ao trinco da porta, e ela motivou-se, e seu coração afligia-a. Mas era uma das mulheres quem [199]abriu e entrou, e Birdalone ergueu-se sentando-se em sua cama, e disse fracamente, pois ela escassamente podia falar: ‘Há alguma novidade acontecendo, Catherine?’ A donzela disse: ‘Sim, minha senhora; pois cedo, antes do nascer do sol, chegaram homens armados ao portão e queriam vender-nos carnes; e meu senhor, Sir Aymeris, precisou sair e reatear com eles, embora talvez eles estivessem pirateando o que não era nem nosso, nem deles, nem dos vizinhos. Talvez Sir Aymeris buscasse comprar novidades deles assim como carne. De qualquer maneira, eles partiram quando eles receberam seu dinheiro e beberam um copo. E agora se diz que o Cavaleiro Vermelho fora ferido em algum combate e era mantido em sua cama; portanto, a terra deverá ter paz dele por um tempo.’ Disse Birdalone: ‘Eu agradeço-te, boa Catherine; eu deverei deitar-me um pouco mais; sai agora.’

A mulher saiu. Quando ela tinha ido-se, Birdalone chorou e soluçou, e contorceu-se sobre sua cama, não encontrou consolação para sua tristeza. Mas ela levantou-se e caminhou pela câmara e subsequentemente olhou para fora da janela através da água vazia, e chorou novamente. Em seguida, ela disse: ‘Contudo, eles podem chegar antes do meio-dia, ou pode ser antes da tarde, ou talvez amanhã de manhã.’ E ela conteve seu choro e ficou mais calma. Mas ainda ela caminhava pelo piso, e às vezes olhava para fora da janela, e às vezes ela olhava pra seus membros e sentia a suavidade de seus lados, e ela disse: ‘Oh, meu corpo! Como tu anseias.’

Mas finalmente, ela vestiu-se com pressa e saiu furtivamente da câmara, como se ela temesse encontrar alguém. Ela subiu silenciosamente para o topo da torre que [200]ficava mais perto, olhou através da porta para as telhas, e não viu ninguém ali. Assim ela saiu, esperou perto das ameias, e olhou longamente através da água, mas não viu nem montanha em chamas vindo na direção dela.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 197-.200 Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/197/mode/1up


TRADUÇÃO:

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A Máquina do Tempo - Capítulo XIII A Visão Ulterior

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[192]Eu já contei a vocês da doença e confusão que surgem com a viajem no tempo. E desta vez eu não estava sentado corretamente no selim, mas de lado e de uma maneira instável. Por um tempo indefinido eu agarrei-me à máquina enquanto ela balançava e vibrava, bastante desatento de como eu prosseguia e, quando eu trouxe a mim mesmo para considerar novamente os mostradores, eu fiquei maravilhado de descobrir onde eu chegara. Um mostrador registrava os dias; outro, milhares de dias; outro, milhões de dias, e outro, milhares de milhões. Agora, em vez de reverter as alavancas, eu puxei-as para cima de maneira a avançar com elas e, quando vim a examinar aqueles mostradores, eu descobri que o [193]ponteiro dos milhares estava girando tão rápido como o ponteiro dos segundos de um relógio, à futuridade.”

Muito cautelosamente, pois eu lembrava de minha antiga queda de cabeça para baixo, eu comecei a reverter o movimento. Mais e mais lentos ficavam os ponteiros circulantes, até que aquele dos milhares parecia imóvel e o diário não era mais uma névoa em sua escala. Ainda mais lento, até que a neblina cinzenta à minha volta tornou-se mais distinta, e contornos obscuros de uma pequena colina e um mar tornaram-se visíveis.

Mas, conforme meu movimento tornava-se mais lento, eu não descobri nenhuma mudança piscante de dia e noite. Um crepúsculo firme cismava sobre a terra. E a faixa de luz que indicara o sol tornou-se mais fraca e de fato, eu agora notava, desaparecera na invisibilidade no leste e, no oeste, estava crescentemente mais ampla e mais vermelha. O circular das estrelas tornando-se mais e mais lento dera lugar a rastejantes pontos de luz. [194]Finalmente, algum tempo antes de eu parar, o sol, vermelho e muito grande, parou imóvel sobre o horizonte, uma cúpula vasta brilhando com um calor aborrecido. O trabalho do arrasto da maré foi realizado. A terra veio a descansar com uma face para o sol assim como, em nosso tempo, a lua encara a terra.”

Eu parei muito gentilmente e sentei sobre a Máquina do Tempo, olhando à minha volta.”

O céu não era mais azul. Na direção nordeste, ele estava preto como tinta e, para fora da escuridão, brilhavam intensa e firmemente as pálidas estrelas brancas. Por cima da cabeça ficava um profundo vermelho indiano, sem estrelas, e, na direção sul, ele tornava-se mais brilhante para onde, cortado pelo horizonte, estendia-se a casca imóvel do imenso sol vermelho.”

As rochas à minha volta eram de uma desagradável cor avermelhada, e todos os traços de vida que eu inicialmente pude ver eram da vegetação intensamente verde, a qual cobria cada ponto protuberante em seu lado sudestino. Era o mesmo [195]verde rico que alguém vê no musgo da floresta ou no líquen nas cavernas, plantas que, como essas, crescem em crepúsculo perpétuo.

A Máquina estava sobre uma praia inclinada. O mar estendia-se longe na direção sudoeste para se erguer em um penetrante horizonte brilhante contra o céu pálido. Não havia nem ondas grandes nem pequenas, pois nem a brisa do mar estava agitando-se. Apenas uma vaga levemente oleosa subia e caía como uma respiração gentil, e mostrava que o mar eterno ainda estava movente e vivente. E, ao longo da margem onde água às vezes quebra, ficava uma espessa incrustação de sal – rosa, sob o céu lúgubre.”

Havia uma sensação de opressão em minha cabeça, e eu notei que estava respirando muito rápido. As sensações lembravam-me de minha única experiência em montanhismo e, a partir disso, eu julguei que o ar estava mais rarefeito do que agora está.

Muito longe, na encosta desolada, eu [196]ouvi um grito desagradável e vi uma coisa como uma imensa borboleta branca subir, inclinando-se e esvoaçante, ao céu e, em círculos, desaparecer sobre algumas colinas acolá.”

O som de sua voz era tão sombrio que eu tremi e sentei-me mais firmemente sobre a Máquina.

Olhando à minha volta eu vi que, bem perto de mim, o que eu entendera ser uma massa avermelhada de rocha, agora estava movendo-se lentamente em minha direção. Então eu vi que a coisa era realmente uma criatura monstruosa semelhante a um caranguejo. Vocês podem imaginar uma caranguejo tão grande quanto aquela mesa acolá, com suas numerosas pernas movendo-se lenta e incertamente, suas grandes garras balançando, suas longas antenas como chicotes de carreteiros, acenando e sentido, e seus olhos perseguidores brilhando para você em cada lado de sua fronte metálica? Suas costas eram enrugadas e ornamentadas com saliências desajeitadas, e uma incrustação esverdeada manchava aqui e ali. Eu podia ver os numerosos palpos de sua [197]complicada boca oscilando e sentindo enquanto ele aproximava-se.

Enquanto encarava essa aparição sombria arrastando-se em minha direção, eu senti cócegas em minhas bochechas como se uma mosca pousara ali.

Eu tentava removê-la com minha mão, mas, em um momento, ela retornava e, quase imediatamente, outra chegava próximo do meu ouvido. Eu lutava contra isso e agarrei alguma coisa filiforme. Ela foi tirada rapidamente de minha mão. Com uma terrível vertigem, eu virei-me e vi que tinha agarrado as antenas de outro caranguejo monstruoso que estava imediatamente atrás de mim. Seus olhos malignos estavam contorcendo-se em seus talos, sua boca estava completamente viva com apetite, e suas vastas garras desajeitadas, besuntadas com lodo verde, estavam descendo sobre mim.

Em um momento, minha mão estava sobre a alavanca da Máquina do Tempo, e eu colocara um mês entre mim mesmo e esses monstros. Mas eu descobri que ainda estava na mesma praia e via-os [198]distintamente assim que eu parei. Dúzias deles pareciam rastejar aqui e ali sob a luz sombria luz em meio a camadas cobertas de folhas de verde intenso.

Eu não posso transmitir a sensação de desolação abominável que pendia sobre o mundo. O céu oriental vermelho, a escuridão ao norte, o salgado Mar Morto, a praia pedregosa cheia de malignos monstros de lentos movimentos, as plantas uniformes, verdes de aparência venenosa, e cobertas de líquen, o ar fino que fere os pulmões de alguém; tudo contribuía para o efeito apavorante.

Eu continuei por mais cem anos, e havia o mesmo sol vermelho, o mesmo mar moribundo, o mesmo ar gélido, a mesma multidão de crustáceos terrenos arrastando-se para dentro e para fora em meio às ervas daninhas verdes e às rochas vermelhas.”

Assim eu viajei, parando sempre e novamente, em grandes marchas de mil anos ou mais, atraído pelo mistério do destino da terra, registrando com uma estranha fascinação como o sol estava [199]tornando-se maior e mais aborrecido no céu ocidental, e a vida da velha terra, decaindo. Finalmente, mais de trinta milhões de anos daqui, a imensa cúpula quente e vermelha do sol chegou a obscurecer quase uma sexta parte dos céus sombrios. Nessa altura foi que eu parei, pois a rastejante multidão de caranguejos desaparecera, e a praia vermelha, salvo por seus lívidos hepáticas e líquens verdes, novamente parecia sem vida.

Tão logo eu parei, um frio implacável assaltou-me. O ar sentia intensamente frio, e raros flocos brancos sempre e novamente desciam em redemoinho. Para a direção nordeste, o brilho da neve estendia-se sob a luz das estrelas no céu negro e eu podia ver uma crista ondulada de rosadas colinas brancas. Havia franjas de gelo ao longo da margem do mar, massas à deriva mais longe, mas a expansão principal daquele oceano salgado, todo sangrento só o eterno pôr do sol, ainda estava descongelado.”

Eu olhei ao meu redor para ver se [200]restavam quaisquer traços de animais. Uma certa apreensão indefinível ainda me mantinha no selim da Máquina. Eu não vi nada se movendo em terra, céu ou mar. O lodo verde sobre as rochas testemunhava sozinho que a vida não estava extinta. Um banco de areia raso aparecera no mar e água recedera da praia. Eu imaginei que vi algum objeto negro virando-se de um lado para o outro sobre esse banco, mas ele tornou-se sem movimento enquanto eu olhava para ele, e eu julguei que meu olho fora enganado e que o objeto era meramente uma rocha. As estrelas no céu estavam intensamente brilhantes e pareciam-me cintilar muito pouco.”

Subitamente eu notei que o contorno circular, na direção ocidental, do sol mudara, que uma concavidade, uma baía, aparecera na curva. Eu vi que ela crescia. Por um minuto, talvez, eu encarei horrorizado essa escuridão que estava arrastando-se sobre o dia, e então eu compreendi que um eclipse estava começando. Sem dúvida, agora que a lua [201]estava arrastando-se ainda mais próximo da terra, e a terra do sol, eclipses eram uma ocorrência frequente.

A escuridão acelerou-se, um vento gélido começou a soprar em rajadas refrescantes a partir do oriente, e então os flocos brancos estavam caindo do ar aumentado. A maré estava arrastando-se com uma ondulação e um sussurro. Além desses sons sem vida o mundo estava silencioso – silencioso! Seria difícil transmitir para vocês a quietude disso. Todos os sons do homem, o balido de ovelha, os gritos dos pássaros, o zumbido de insetos, o rebuliço que forma o pano de fundo de nossas vias, acabou. Enquanto a escuridão aumentava, os flocos em redemoinho tornavam-se mais abundantes, dançando diante de meus olhos; e o frio do ar, mais intenso. Finalmente, rapidamente, um após o outro, os picos brancos das colinas distantes desapareceram na escuridão. A briza cresceu em um vento gemente. Eu vi a escura sombra central do eclipse deslizando em direção a mim. Em [202]outro momento, apenas as estrelas pálidas eram visíveis. Tudo o mais era uma obscuridade sem raios. O céu ficou absolutamente negro.

Um temor dessa grande escuridão surgiu sobre mim. O frio que atingiu minha essência, e a dor que eu sentia, venceram-me. Eu tremi e uma náusea mortal capturou-me. Então, como um arco vermelho quente no céu, apareceu a borda do sol.

Eu sai da Máquina para me recuperar. Eu sentia-me tonto e incapaz de encarar a jornada de retorno. Enquanto eu erguia-me doente e confuso, eu vi novamente a coisa movente sobre o banco de areia – agora não havia engano de que era uma coisa movente – contra a água vermelha do mar. Era uma coisa redonda, do tamanho de uma bola de futebol, talvez, ou maior; ela parecia preta contra a tumultuosa água vermelho-sangue, e estava saltitando irregularmente de um lado para o outro. Então eu senti que estava desmaiando. Um pavor terrível de jazer indefeso naquele crepúsculo remoto sustentou-me enquanto eu subia no selim.

[203]“Assim eu cheguei em casa. Por um longo tempo, eu devo ter ficado insensível sobre a Máquina. A sucessão piscante dos dias e das noites foi retomada e o sol tornou-se dourado novamente, e o céu, azul. Eu respirava com uma maior liberdade. Os contornos flutuantes da terra recediam e fluíam. Os ponteiros giravam para trás sobre os mostradores. Finalmente, novamente eu vi as sombras escuras de casas, as evidências da humanidade decadente. Essas, também, mudadas e passadas, e outras surgidas. Logo, quando o mostrador dos milhões estava no zero, eu abrandei a velocidade e comecei a reconhecer nossa própria arquitetura bela e familiar. O ponteiro dos milhares retrocedeu ao ponto de início, a noite e o dia agitavam-se mais e mais lentamente. Então, as velhas paredes do laboratório surgiram à minha volta. Muito gentilmente eu diminuí o ritmo do mecanismo.”

Eu vi uma pequena coisa que parecia estranha para mim. Eu acho que contei a vocês [204]que, quanto eu parti, antes que minha velocidade viesse a ser muito alta, a Sra. Watchett caminhara através da sala, viajando, como me parecia, como um foguete. Enquanto retornava, eu passei novamente por aquele minuto quando ela atravessava o laboratório. Mas agora, cada movimento parecia-me a inversão exata de um movimento anterior dela. A porta na extremidade inferior abriu-se e ela deslizou quietamente laboratório acima, de volta à frente, e desapareceu atrás da porta pela qual ela anteriormente entrara.

Então eu parei a Máquina, e novamente vi à minha volta o velho laboratório familiar, minhas ferramentas, meus utensílios, exatamente como eu deixara-os. Eu desci da coisa muito trêmulo e sentei-me sobre meu banco. Por vários minutos eu tremi violentamente. Em seguida eu fiquei mais calmo. À minha volta estava novamente minha velha oficina, exatamente como ela estivera. Eu podia ter dormido lá e a coisa toda tinha sido um sonho.

E contudo, não exatamente. A coisa [205]começara a partir do canto sudeste do laboratório. Ela veio a descansar no noroeste, contra a parede, onde vocês encontra-la-ão. Isso dá-lhes a distância exata de meu pequeno relvado ao pedestal da esfinge branca.

Por um tempo meu cérebro tornou-se estagnado. Logo eu levantei-me e passei pela passagem aqui, mancando, porque meu calcanhar ainda estava dolorido, e sentindo-me extremamente sujo. Eu vi o Pall Mall Gazette na mesa perto à porta. Eu descobri que a data era de fato hoje, e olhando para o relógio, vi que a hora era quase oito. Eu ouvi suas vozes e o barulho de pratos. Eu hesitei – eu sentia-me tão doente e fraco. Então, eu senti o cheiro de boa carne saudável, e abri aporta. Vocês conhecem o resto. Eu banhei-me e jantei, e agora eu estou contando a vocês a história.

Eu sei,” ele disse após um tempo, “que tudo isso parecerá absolutamente [206]incrível para vocês, mas para mim a única coisa incrível é que eu estou aqui, nesta noite, nesta antiga sala familiar, olhando em seus rostos saudáveis, e contando a vocês todas aquelas estranhas aventuras.”

Ele olhou para o Médico.

Não; eu não posso esperar que vocês acreditem nisso. Tomem isso como uma mentira, ou uma profecia. Digam que eu sonhei-a na oficina. Considerem que eu estivesse especulando sobre os destinos de nossa raça, até que eu imaginei essa ficção. Tratem minha declaração da verdade dela como um mero golpe de arte para realçar seu interesse. E, tomando-a como uma história, o que vocês pensam dela?

Ele tomou seu cachimbo e começou, em sua antiga maneira costumeira, a tocar nas barras da grelha.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.192-206. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/192/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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