A Água das Ilhas Maravilhosas - A Terceira Parte: Do Castelo da Busca - Capítulo X Os Campeões partem no Bote de Expedição

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[190]Quando o sol nascera pela manhã, os três Campeões desceram ao lugar de desembarque, e não havia ninguém com eles; pois eles deram comando para que nenhum homem devesse bisbilhotar em suas ações. A eles naquele lugar, vem Birdalone, não mais vestida em seu traje jubiloso, mas em um casaco preto, liso, e com pés descalços; e ela não parecia mais triste do que ela estava.

Pelo conselho de Birdalone, os Campeões desceram com os mantimentos, armas e armaduras de que eles necessitavam para a viajem em suas próprias mãos; pois ela não sabia se o Bote de Expedição poderia levar a mal que qualquer um devesse tocá-lo senão os expedidores. E, quando eles terminaram descarregando perto da borda da água, Birdalone falou aos seus amigos, e novamente lhes ordenou ter cuidado dos ardis da Ilha do Nada; e novamente ela contou-lhes das imagens lamentáveis da Ilha dos Reis e da Ilha das Rainhas, e do povo estranho da Ilha do Jovem e do Velho. Então ela disse: ‘Agora, quando vós chegardes à Ilha do Aumento Inesperado, o que vós pensais em fazer?’ Disse o Cavaleiro Verde: ‘Se eu pudesse comandar, nós deveríamos ir imediatamente para a bruxa sentada no salão dela, como tu contaste-nos, minha querida, e então arrancar a cabeça dela.’ O olhos dele cintilaram, as sobrancelhas franziram-se, e tão feroz ele pareceu que Birdalone recuou dele; mas o Escudeiro Negro sorriu e disse: ‘Pode-se chegar ao arrancar de cabeça no fim; [191]todavia nós precisamos adaptar nossa talha, para que nos auxilie na libertação de nossas amigas; senão, pode a bruxa morrer e o segredo da casa de prisão morrer com ela. Que dizes tu, querida Birdalone?’

Ela ruborizou diante do carinho da voz dele e respondeu: ‘Por meu conselho, vós deveis procurar e encontrar vossas amigas de fala antes que vós fazerdes guerra aberta contra a bruxa; senão pode a malícia dela destruí-las antes que vós a destruais. A face dela ruborizou ainda mais enquanto ela falava novamente: ‘Mas, concernente a todas as coisas, eu considero que Atra pode dar-vos o melhor conselho, quando vós tiverdes encontrado os amores; pois que ela conhece mais da ilha e de suas artimanhas do que as outras.’

Respondeu Baudoin: ‘Aqui há sabedoria, doce donzela, por tão inocente quanto tu possas ser; e assim tão longe quanto nós podemos dever seguir teu conselho; mas tudo jaz no penetrar do tempo vindouro. E agora este momento é o momento de separação e de despedida.

Então ele veio a Birdalone, levou suas duas mãos em volta da cabeça dela, ergueu a face dela para si, beijou-a gentilmente, como um pai beija uma filha, e disse: ‘Adeus, doce criança, atenta para a palavra que Arthur falou ontem e não caminhes a partir do castelo mesmo uma pequena distância, salvo com boa e certa companhia.

Então veio Hugh a ela e tomou a mão dela um pouco timidamente; apenas ela levantou a face para ele, de uma maneira simples, beijou cada bochecha dela e não disse nada mais que: ‘Adeus, Birdalone!’

Por último veio Arthur e colocou-se de pé diante dela por um tempo. Em seguida ele ajoelhou-se sobre as pedras diante dela [192]e beijou os pés dela muitas vezes, e ela estremeceu e prendeu a respiração enquanto eles sentiam os beijos dele. Mas nem ele nem ela falaram uma palavra. Ele colocou-se de pé, imediatamente se afastou na direção do Bote de Expedição e foi o primeiro dos três a embarcar nele; e os outros o seguiram imediatamente.

Depois disso cada um dos Campeões despiu um braço, deixaram o sangue fluir dali para dentro de uma vasilha, vermelharam proa e popa de seu barco e, em seguida, todos os três falaram o feitiço juntos dessa maneira, como Birdalone ensinara-lhes:


O vermelho vinho de corvo agora

Tu bebeste, popa e proa;

Desperta então, desperta!

E que o caminho do norte toma:

O caminho de Quem se dirige adiante através da enchente,

Pois a vontade dos Expedidores está misturada com o sangue.’


Depois disso, tudo prosseguiu como antes; o Bote de Expedição mexeu-se sob eles, em seguida se virou, apontou seus remos na direção do norte e acelerou rapidamente através das águas. Era um belo dia de sol, sem nuvens, nada salvo a neblina do verão estendendo-se sobre o lago distante. Birdalone permaneceu observando o acelerar do bote, até que ela não pôde mais vê-lo, nem mesmo uma mancha sobre a face das águas. Então ela afastou-se e caminhou na direção de seus aposentos, dizendo para si mesma que a separação era mais fácil de suportar do que ela considerara que seria, e que ela tinha muitas coisas para fazer naquele dia. Mas, quando chegou aos seus aposentos, e fechou a porta, ela [193]olhou de um lado para o outro para as coisas que se tornaram tão familiares para ela nesses poucos últimos dias e permaneceu olhando a brilhante luz do sol que fluía através do piso e deitava-se quente sob os pés dela. Então ela deu três passos em direção à janela e viu o lago estendendo-se todo cintilante sob o sol, com isso o coração falhou-a, e ela não teve tanta força quanto a pensar sobre o sofrimento dela e em acariciá-lo, mas, imediatamente, caiu onde estava, desmaiando de emoção sobre o chão, e jazeu lá, enquanto a casa começou a agitar-se em torno dela.


Aqui termina a Terceira Parte de A Água das Ilhas Maravilhosas, a qual é chamada Do Castelo da Busca, e começa a Quarta Parte do dito conto, a qual é chamada Dos Dias de Permanência.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 190-193. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/190/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

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A Água das Ilhas Maravilhosas - A Terceira Parte: Do Castelo da Busca - Capítulo IX Birdalone vem diante dos Campeões em sua Nova Vestimenta

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[186]Agora o tempo chegou quando Birdalone tinha toda sua vestimenta pronta, e as mulheres deviam permanecer no castelo como donzelas servas enquanto os Campões estivessem longe.

Então agora, na véspera do verão, uma hora antes do pôr do sol, Birdalone arrumou-se no mais rico de suas novas vestes e entrou no salão onde sentavam-se os Três juntos, e Sir Aymeris com eles. Ela estava de tal maneira vestida, que ela tinha um vestido verde com mangas bordadas, e sobre ele um kirtle branco debruado com ouro e bordado com ouro; e sobre os pés dela um calçado dourado ornamentado, perolado e ornamentado com gemas; e sobre a cabeça dela, uma guirlanda rosada; sobre o pescoço dela ela levava o colar do Cavaleiro Dourado; os quadris dela estavam circundados pelo cinto do Escudeiro Negro; e no pulso dela estava o antigo aro de ouro do Cavaleiro Verde; e ele levava em seus braços o vestido de Aurea e a bata de Viridis e o calçado de Atra.

Antes nascer do que pôr do sol parecia, conforme Birdalone verdadeiramente entrava no salão com brilhantes olhos ansiosos, bochechas coradas e semblante sorrindo com amor. Todos os homens puseram-se de pé e desceriam do estrado para a encontrar; mas ela ordenou-lhes retornarem e sentaram-se cada um em seu lugar até que ela se colocasse diante deles.

Para o salão então ela caminhou, e cada passo dela parecia mais adorável do que o último, até que ela veio a eles e deu a cada um a sua lembrança e disse: [187]‘Campeões, agora minha missão está inteiramente terminada, salvo que amanhã eu deverei mostrar-vos a maneira do Bote de Expedição; agora nada há, salvo a escuridão da noite vindoura, para vos impedir em vossa Busca; e sou eu quem vos trouxe a isso, e fiz este bem para vos, se nenhum outro bem eu fizer no mundo. Portanto, eu suplico-vos para me amar sempre e levar-me sempre em vossas mentes.’

Ele encaravam-na e foram vencidos pela beleza e graça dela, e pela bondade e valentia de seu coração. Em seguida se levantou o Cavaleiro Dourado, Baudoin a saber, e tomou uma cruz do peito dele, e segurou-a alto e falou: ‘Donzela, tu falaste bem, e nunca nos deveremos esquecer-te, ou parar de te amar; e aqui eu juro por Deus sobre a Árvore, que deverá ser uma coisa leve para mim morrer por ti, se, em qualquer necessidade, eu encontrar-te. Irmãos, vós não jurareis o mesmo? E isto é apenas o que te é devido, donzela, pois eu declaro diante de ti que, quando tu há pouco entraste no salão, era como se o sol mesmo do céu estivesse vindo a nós.

Depois disso, os outros dois tomaram o Crucifixo e juraram sobre ele: e Hugh ficou em silêncio, manso e triste, depois que ele jurara; mas Arthur, o Escudeiro Negro, abaixou a cabeça e chorou, e seus companheiros em nada se maravilharam com isso, nem Birdalone; e todo o corpo dela ansiava por ele para o consolar.

Agora se virou Sir Baudoin para o castelão e disse: ‘Sir Aymeris, agora eu te obrigarei a jurar guardar esta donzela como a maçã de teu olho enquanto nós três [188]estivermos longe, e para isso não poupar nem a ti mesmo nem aos outros. Pois bem tu viste que pesar estará sobre nós se ela chegasse a qualquer injúria.

E para mim também,’ disse o castelão. E com isso ele jurou sobre o Crucifixo e, em seguida, veio circulando a mesa, ajoelhou-se diante de Birdalone e beijou as mãos dela.

Depois disso, todos eles ficaram em silêncio por um tempo. Então veio Birdalone ao lado interno da mesa e sentou-se entre Baudoin e Hugh. Mas o Escudeiro Negro tomou a palavra e disse: ‘Birdalone, doce criança, uma coisa deve ser dita, a saber, que seria melhor se tu te mantivesses no interior das muralhas enquanto nós estivermos longe; ou, pelo menos, que tu saísses apenas um pouco além do castelo, e nunca dentro de um meio tiro de arco, salvo se tu estiveres bem acompanhada. Pois há homens de violência habitando a não grande distância, salteadores e vagabundos, que ficariam bastante satisfeitos em tomar de nós qualquer coisa que nós consideramos querida; além de outros que considerariam a remoção de uma semelhante joia de fato uma boa ventura. Sir Aymeris, acautela-te do Cavaleiro Vermelho, e, se tu pudesses obter mais alguns rapazes fortes, para os assalariar, isso seria bom.

Birdalone não prestou atenção ao que o castelão respondeu, um tal raio de alegria surgiu no coração dela quando ela ouviu aquela declaração amigável do próprio nome dela de uma maneira tal que ela nunca ouvira outrora, e isso diante de todos. Ela apenas murmurou alguma concordância para aquilo que Arthur falara para ela e, em seguida, ela silenciou pela doçura daquele momento.

Então ali eles sentaram-se e conversaram por um tempo, em querida e agradável conversa; e Hugh imediatamente começou a perguntar-lha [189]sobre a vida dela na Casa sob o Bosque, e ela respondeu tudo franca e simplesmente, e quanto mais ela contava mais querida ela parecia a eles.

Dessa maneira a noite aproximou-se, até que o povo entrou em grupo no salão; pois precisa haver festa e banquete pelo triunfo do avanço da Busca; e a maioria dos homens ficou feliz; mas um pouco mais sóbrios estavam todos os três campões, de maneira que quem quer que fosse, poderia ler isso nos rostos deles. Quanto a Birdalone, ela mostrou-se alegre para toda gente que a amava e exaltava-a; mas, interiormente, pesar surgiu no coração dela.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 186-189. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/186/mode/1up


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EderNB do Blog Eidonet

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Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo II A Casa de Aquila

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[67]Logo surgiu ali o som de um eixo de rodas rangendo, o qual se tornava cada vez mais e mais alto conforme o vagão aproximava-se, até que beirava um guincho. O adormecido moveu-se com dificuldade, mas, reconhecendo o barulho mesmo em seus sonhos, não despertou. Os sons horríveis pararam; havia o som de vozes, como se duas pessoas, um fora e outra dentro da muralha, estivessem chamando uma a outra; um portão abriu-se, e o carroção passou sob a janela mesma do quarto. Mesmo o hábito não poderia permitir a Felix suportar um barulho tão penetrante quando quase em seus ouvidos. Ele sentou-se por um minuto e encarou o quadrado de luz na parede para adivinhar a hora do dia por sua posição.

Em um minuto ou dois, o chiado do eixo de rodas cessou, enquanto o carroção alcançava os armazéns, e ele imediatamente retornou ao travesseiro. Do lado de fora, exatamente sob a janela, ali passava uma estrada ou caminho, a qual em [68]parte dividia a cercada em duas porções; a moradia e seus escritórios ficando em um lado, os celeiros e armazéns no outro. Mas, a umas poucas jardas do quarto dele, um forte portão na muralha da cercada dava entrada a essa estrada. Era chamado de Portão de Ácer, porque uma pequena árvore de ácer crescia próximo a ele do lado de fora. A muralha, a qual cercava o lugar todo a uma distância de oito ou dez jardas dos prédios, era de tijolos, e de aproximadamente nove pés de altura com um fosso do lado de fora.

Estava parcialmente fortificado, e parcialmente com abertura para flechas, e uma banqueta de terra batida corria em volta na parte de dentro, de modo que os defensores poderiam disparar dardos e flechas através das canhoneiras, e descerem para preparar um suprimento fresco. Em cada canto ficava uma grande plataforma, onde um número considerável de homens poderia permanecer e comandar as abordagens; não havia, contudo, bastiões ou torres de flanco. Sobre o teto da moradia uma plataforma similar fora preparada, protegida por um parapeito; a partir da altura do qual a cercada inteira podia ser divisada.

Outra plataforma, embora de uma altura menor, ficava sobre o teto dos alojamentos dos retentores, assim posicionada como para especialmente comandar o segundo portão. Entrando no Portão de Ácer, a moradia ficava à direita, e os celeiros e armazéns gerais à esquerda, os últimos construídos em três lados de uma praça. Mais adiante, no mesmo lado, ficavam os estábulos, e, próximo a eles, a forja e as oficinas. Além desses, novamente, ficavam os alojamentos dos retentores e trabalhadores, próximos dos quais, no canto, ficava o [69]Portão Sul, a partir do qual a Estrada Sul levava aos estábulos de gado, fazendas e, do lado de fora, para o sul.

Do lado direito, após a moradia e conectada com ela, vinham as reservas do administrador, onde as ferramentas de ferro e semelhantes artigos valiosos de metal eram guardados. Então, após uma passagem coberta, a cozinha e o salão gerais, sob um teto com a casa. A casa fronteava a estrada na direção oposta; havia um estreito relvado verde entre ela e o entorno fechado, ou muralha, e diante do grande salão e cozinhas uma quadra coberta com cascalho. Essa era separada do relvado por paliçadas, de modo que a gente da casa desfrutava de privacidade e, todavia, ficava perto de seus servos. O lugar era chamado de Casa Antiga, pois ele datava de volta ao tempo dos antigos, e os Aquilas eram orgulhosos da designação simples de sua residência fortificada.

A janela de Felix fiava quase no exato oposto à entrada para a área do armazém ou celeiro, de maneira que o carroção, após ultrapassá-la, tinha de prosseguir apenas por pouca distância e então, virando à esquerda, parava diante das portas do armazém. Esse carroção era baixo, construído apenas para o transporte de bens, de prancha talhada escassamente alisada, e as rodas eram sólidas; cortadas, de fato, a partir do topo de um olmo. A menos que continuamente untado o chiado de semelhantes rodas é terrível, e os carreteiros frequentemente se esquecem de seus chifres de graxa.

Muito do trabalho da fazenda, tal como a carroça de feno e milho em tempo de colheita, era feito sobre trenós; os carroções (havia apenas poucos deles) sendo reservados para [70]jornadas mais longas em estradas irregulares. Esse carroção, carregado de lã, um pouco da tosquia da temporada, vinha a quatro ou cinco milhas a partir de uma cabana relativamente remota, ou curral de ovelhas, aos pés das colinas. Nas construções em volta da área do celeiro eram armazenados não apenas o milho e a farinha requeridos pelos retentores (os quais, a qualquer momento, poderiam tornar-se uma guarnição sitiada), mas os produtos mais valiosos da propriedade, a lã, peles, e couro curtido das covas de curtição, além de uma grande quantidade de bacon e carne salgada; de fato, qualquer artigo possível que poderia ser necessário.

Essas construções eram unidas com pinos de madeira, por conta da escassez de ferro, e eram todas (a moradia incluída) cobertas com telhas vermelhas. Casas menores, cabanas e barracões à distância eram de palha, mas em uma cercada as telhas eram necessárias, com medo de que, no caso de um ataque, fogo devesse ser jogado.

Uma meia-hora depois, às seis horas, o vigia soprou seu chifre tão alto quanto possível por uns dois ou três minutos, o som vazio ecoando através do lugar. Ele voluntariou-se para o relógio de sol na muralha, sendo uma manhã de verão; no inverno ele era guiado pela posição das estrelas e, frequentemente, quando sol ou estrelas estavam obscurecidos, prosseguia por suposição. O chifre da casa era soprado três vezes ao dia: às seis da manhã, como um sinal para que o dia começasse; ao meio-dia, como um sinal para o almoço; e às seis da noite, como um sinal de que o dia (exceto em tempo de colheita) terminou. Os vigias caminhava em sua ronda em torno da cercada durante toda a noite, desobrigados a cada três horas, [71]armados com lanças, e assistidos por mastins. Durante o dia, um era suficiente, e seu posto ficava então usualmente (embora não sempre) na parte mais alta do teto.

O chifre despertou novamente Felix; era a nota pela qual ele fora acostumado a erguer-se por anos. Ele abriu as persianas de carvalho, e a luz do sol e a briza fresca da manhã de maio entraram livremente no quarto. Agora havia o murmúrio de vozes de fora, homens descarregando a lã, homens nas oficinas e nos celeiros, e outros esperando à porta do armazém do mordomo pelas ferramentas, as quais ele entregava a eles. O ferro sendo tão escasso, as ferramentas eram uma tentação, eram cuidadosamente trancadas a cada noite e entregues novamente pela manhã.

Felix foi à cruz de marfim e beijou-a em recordação afetuosa de Aurora, e então olhou na direção da janela aberta, para o orgulho e alegria da juventude virando-se para o Oriente, a manhã e a luz. Antes que ele estivesse meio vestido, ali veio uma batida e, em seguida, um chute impaciente na porta. Ele destrancou-a, e o irmão dele, Oliver, entrou. Oliver estivera em sua natação no rio. Ele sobressaia-se em natação, como, de fato, em todo exercício masculino, sendo tão ativo e enérgico quanto Felix era externamente lânguido.

O quarto dele ficava apenas no outro lado do descanso, sua porta, exatamente oposta. Também estava espalhada com ferramentas e armas. Mas havia um número muito maior de ferramentas; ele era um artífice hábil e artístico, e a mesa e o assento dele, diferente dos blocos rudes do quarto de Felix, eram entalhados com bom gosto. O assento dele, além disso, tinha um dorso, e ele até tinha [72]um sofá de sua própria construção. Perto da cabeceira dele pendia sua espada, sua posse mais valorizada e valiosa. Era uma que escapara da dispersão dos antigos; ela fora antiga mesmo nos dias deles, e de muito melhor trabalho do que eles mesmos produziam.

Ampla, longa, reta e bem balanceada, ela parecia capaz de cortar através de capacete e cota da malha, quando empunhada pelo braço forte de Oliver. Uma espada semelhante não teria sido comprada por dinheiro; dinheiro, de fato, tinha sido oferecido por ela em vão; persuasão, e mesmo ameaças dissimuladas por aqueles de mais elevada autoridade que a cobiçavam, foram semelhantemente desperdiçadas. A espada estivera na família por gerações e, quando o Barão tornou-se muito velho, ou melhor, quando ele afastou-se da vida ativa, o segundo filho reivindicou-a como o mais apto a usá-la. A reivindicação foi tacitamente concedida; em todos os eventos, ele tinha-a e pretendia mantê-la.

Em um canto ficava a lança dele, longa e afiada, para uso sobre o cavalo, e perto dela, sua sela e apetrechos. O capacete e a camisa de malha, as grevas e esporões, a curta maça de ferro pendia do arco da sela, falava do cavaleiro, o homem de cavalos e guerra.

Todo o prazer de Oliver estava em exercício e esporte. O mais ousado corredor, o melhor nadador, o melhor em salto, em lançamento de dardo ou martelo pesado, sempre pronto para disputa ou torneio, sua vida inteira foi despendida com cavalo, espada e lança. Um ano mais novo do que Felix, ele era pelo menos dez anos mais velho fisicamente. Ele media vários polegadas a mais em volta do peito; seus ombros massivos e [73]braços imensos, bronzeados e peludos, seus membros poderosos, pescoço semelhante a uma torre, mandíbula um pouco quadrada eram os companheiros naturais de enorme força física.

Todo o sangue e osso e força muscular e tendão da casa parecia ter caído para a parte dele; todo o espírito ardente e inquieto e temperamento desafiador; toda a completa imprudência e instinto do guerreiro. Ele era em cada polegada um homem com cabelo escuro, encaracolado e de corte curto, bochecha bronzeada e queixo romano, bigode aparado, olho castanho, sombreado pelos longos cílios e bem marcadas sobrancelhas; cada polegada de um natural rei de homens. Essa mesma preponderância física e beleza animal talvez fosse a ruína dele, pois seus companheiros eram tantos, e o amor dele por aventuras tão inumerável, que eles deixavam-no sem tempo para ambições sérias.

Entre os irmãos havia a mais estranha mistura de afeição e repulsão. O mais velho sorria diante da excitação e energia do mais jovem; o mais jovem abertamente desprezava os hábitos estudiosos e vida solitária do mais velho. Em tempo de problema real e dificuldade eles teriam sido reunidos; por assim dizer, havia pouca comunicação; um seguia seu caminho, e o outro, o seu. Talvez houvesse antes uma inclinação para depreciar as realizações do outro do que as elogiar, uma espécie de ciúmes ou inveja sem antipatia pessoal, se isso pode ser entendido. Eles eram bons amigos e, todavia, mantinham-se separados.

Oliver fazia de todos amigos, e espancava e batia em seus inimigos com silêncio respeitoso. Felix fazia de ninguém amigo, e era desprezado igualmente por amigos nominais e inimigos atuais. Oliver era aberto e jovial; Felix, [74]reservado e desdenhoso, ou sarcástico de maneiras. Seu corpo esguio, alto demais para sua largura, estava contra ele; ele nunca pôde quer erguer os pesos quer experimentar o esforço muscular prontamente suportado por Oliver. Era fácil ver que Felix, embora nominalmente o mais velho, todavia não alcançara o desenvolvimento completo. Uma compleição leve, cabelos e olhos claros, também eram contra ele; onde Oliver fazia conquistas, Felix era ignorado. Ele ria, mas, talvez, seu orgulho secreto ficasse machucado.

Havia apenas uma coisa que Felix podia fazer no caminho de exercício e esporte. Ele podia atirar com o arco em uma maneira até então inteiramente não abordada. As flechas dele caíam infalivelmente no centro do alvo, o cervo veloz e a lebre eram abatidos com facilidade, e até o pombo da floresta em pleno voo. Nada estava a salvo daquelas terríveis flechas. Por isso, e apenas isso, a fama dele divulgava-se; e mesmo isso foi tornado uma fonte de amargura para ele.

Os nobres julgavam nenhuma arma digna de homens de descendência, apenas a espada e lança; armas de projétil, como o dardo e a flecha, eram as armas de retentores. Sua degradação era completa quando, em um torneio, onde ele misturara-se com a multidão, o Príncipe convocava-o para atirar no alvo, e exibir seu talento em meio à soldadesca, em vez de em meio aos cavaleiros no círculo de justa. Felix atirava, de fato, mas fechava seus olhos para que sua flecha pudesse ir longe, e ficava escarnecido como uma falha mesmo nessa competição ignóbil. Apenas por um autocontrole de ferro ele privou-se naquele dia de lançar um das desprezadas flechas no olho do Príncipe.

Mas quando Oliver riu-se dele sobre sua falha, Felix [75]pediu-lhe para pendurar sua couraça a duzentas jardas. Ele assim o fez e, em um instante uma flecha foi enviada através dela. Após isso, Oliver fez silêncio e, em seu coração, ele começou a considerar que o arco era uma arma perigosa.

Então, você está atrasado novamente nesta manhã,” disse Oliver, inclinando-se contra o recuo da janela e colocando seus braços sobre ele. O brilho do sol caía sobre escuro cabelo encaracolado, ainda molhado do rio. “Estudando última noite, eu suponho?” virando sobre o pergaminho. “Por que você não cavalga para a cidade comigo?”

A água deve ter estado fria nesta manhã?” disse Felix, ignorando a questão.

Sim; houve uma leve geada, ou alguma coisa parecida, muito cedo, e uma neblina na superfície; mas foi esplêndido na lagoa. Por que você não se levanta e vem? Você costumava fazê-lo.

Eu posso nadar,” disse Felix laconicamente, implicando que, tendo aprendido essa arte, ela não mais o punha à prova. “Você atrasou-se última noite; eu ouvi que você constrangeu a Noite.”

Nós chegamos em casa com estilo; estava bastante escuro, mas a Noite galopou as Milhas Verdes.”

Espero que ela não ponha o casco dela em um buraco de coelho em alguma noite.”

Isso não. Ela pode enxergar como um gato. Eu acredito que nós superamos vinte milhas em menos de uma hora. Trabalho forte, considerando as colinas. Você não pergunta sobre as notícias.”

Quais as notícias para mim?”

Bem, houve uma desavença no palácio ontem à tarde. O Príncipe disse a Louis que ele era um traidor de [76]duas caras, Louis disse ao Príncipe que ele era um tolo desconfiado. Quase se chegaram aos golpes, e Louis foi banido.”

Pela quinquagésima vez.”

Desta vez é mais sério.”

Não acredito nisso. Ele será convocado novamente esta manhã; não pode ver o por quê?”

Não.”

Se o Príncipe estivesse realmente desconfiado, ele nunca enviaria o irmão dele para o campo, onde ele poderia servir-se de pessoas descontentes. Ele o manteria perto, à mão.”

Eu gostaria que a contenda cessasse; isso estraga metade da diversão; alguém é obrigado a arrastar-se de um lado para o outro da corte e falar aos sussurros, e você não pode dizer com quem você está falando; eles podem voltar-se contra você se você falar demais. Tampouco há dança. Eu odeio esse estado taciturno. Eu desejaria ou que eles dançassem ou lutassem.”

Lutar! Quem?”

Alguém. Há algumas outras notícias, mas você não se importa.”

Não. Eu não.”

Por que você não sai e vive nos bosques sozinho?” disse Oliver, com alguma exaltação.

Felix riu.

Conte-me suas novidades. Eu estou ouvindo.”

Os irlandeses desembarcaram em Blacklands no dia antes de ontem, e queimaram a região de Robert; eles tentaram Letburn, mas o povo de lá fora advertido e estava pronto. E há um enviado de Sypolis chegado; alguns consideram a [77]Assembleia dispersa; todos eles estão de adagas desembainhadas. Lá se foi a Liga Sagrada.

Demais para a Liga Sagrada,” Repetiu Felix.

O que você fará hoje?” perguntou Oliver, após um tempo.

Eu descerei para minha canoa,” disse Felix.

Eu irei com você; as trutas estão aumentado. Você conseguiu alguns anzóis?

Há alguns ali na caixa, eu acho; retire as ferramentas.”

Oliver procurou em meio às ferramentas na caixa aberta, todas enferrujadas e cobertas de poeira, enquanto Felix terminava de vestir-se, guardava seu pergaminho e amarrava a tira em volta de seu baú. Ele encontrou alguns anzóis na base e, após o café da manhã, eles caminharam juntos, Oliver levando seu bastão, e uma lança para javali, e Felix também uma lança para javali, em adição a uma pequena cesta de espadana com alguns cinzéis e goivas.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.67-77. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/67/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Água das Ilhas Maravilhosas - A Terceira Parte: Do Castelo da Busca - Capítulo VIII No Entrementes da Partida dos Campeões, eles aprazem Birdalone com Feitos de Armas e Jogos de Destreza

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[184]Agora os dias passavam-se rapidamente, e os três campeões fizeram o que podiam para o conforto de Birdalone. Pois eles e a casa deles mostraram os brasões a ela, e eles inclinavam-se juntos cortesmente; e os sargentos apresentavam-se e atiravam de arco diante dela, até que ela mesma, a convite deles, tomou o arco em mão e disparou mais reto e quase tão dificilmente como o melhor homem ali, pelo que eles maravilharam-se, e muito a elogiaram.

Então os jovens correram descalços diante dela pelo prêmio de um cinto e faca, e verdadeiramente ela bem tinha conhecimento de que, fosse ela correr contra eles com as saias amarradas, ela conquistaria o prêmio; mas ela não tinha o coração nisso, pois, em meio a todos eles, e às novas amizades dela, ela envergonhara-se e não podia mais se divertir como donzela do bosque.

Todavia, duas vezes os Campeões foram mais adiante no campo com ela, para a mostrar algum artesanato em madeira; contudo, eles não estavam muito livres para ir longe, por causa dos maus vizinhos dos quais o capelão contara a ela na primeira noite da chegada dela.

E em todos esses passatempos, seja o que for que eles fossem, Birdalone, portava-se bem e alegremente, e afastava dela a tristeza da separação, e o perigo para as queridas amigas dela, que agora tanto se aproximava à mão.

[185]O capelão acima mencionado, quem se chamava Leonard, ela encontrava-se com ele não raramente; e ele sempre era dócil e humilde diante dela. Além disso, sempre era a tristeza facilmente vista no semblante dele, e preocupação ao mesmo tempo. Ela não sabia como o ajudar, salvo sendo cortês e gentil com ele quando eles encontravam-se; mas não mais podia ele convocar semblante alegre em resposta à gentileza dela.

Com Sir Aymeris, o castelão de cabelo grisalho, ela também se reunia frequente e suficientemente, e não podia abster-se de algumas felizes zombarias com ele relativas a seu primeiro encontro, e como ela fora um fardo e um terror para ele. Essas zombarias ela fazia com ele porque ela via-o não lhe desejar mal ser zombado de uma maneira amigável; embora, verdadeiramente, em meio ao riso, ele olhasse para ela um pouco pesarosamente. E sempre, até que ele partisse dela, ele preparava a ocasião para beijar as mãos dela; e ela tolerava-o sorrindo, e era jovial com ele; visto que ela via que ele era de boa vontade com ela. De tal maneira, então, consumiram-se as horas e os dias.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 184-185. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/184/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


A Água das Ilhas Maravilhosas - A Terceira Parte: Do Castelo da Busca - Capítulo VII De Birdalone, como ela contou toda sua História aos Campeões

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[180]Foi uma questão de oito dias, a confecção de toda a vestimenta de Birdalone. Enquanto isso, ela sempre estava com os três Campeões, quer todos os três juntos, quer um ou outro deles. E quanto às maneiras deles com ela, sempre foi o Cavaleiro Dourado de comportamento um pouco mais sóbrio, como se ele fosse um homem mais velho do que verdadeiramente ele era. O Cavaleiro Verde sempre estava elogiando a beleza de Birdalone diante da face dela, e parecia não considerar coisa fácil manter seus olhos longe dela. Ele cansava-a um pouco com beijos e carinhos, mas um rapaz animado e brincalhão ele era, e, quando ela repreendia-o por seu excesso de carinho, como agora e novamente ela fazia, ele ria de si mesmo junto com ela. Em verdade, ela considerava-o sincero e de toda verdade para Viridis e, frequentemente, ele falava dela para Birdalone; elogiava a beleza querida dela para ela, e contava de seu anseio por seu amor distante. Apenas,’ disse ele, ‘tu estás aqui, minha irmã, residindo entre nós, derramando tua fragrância sobre nós e mostrando-nos, tu queiras ou não, como fazem as flores, toda a graça e encanto de ti; e tu, ao mesmo tempo, de coração tão tenro que tu não deves culpar-me demais se, às vezes, eu esqueço de que tu és minha irmã e de que meu amor está, ai de mim!, muito longe. Então, tu me perdoarás, não perdoarás?’ ‘Sim, verdadeiramente,’ disse ela, ‘de todo o coração. Todavia tu não precisas esticar a mão para a minha; tu tiveste o suficiente dela nesta manhã.’ E ela escondeu-a, [181]rindo, nas dobras de seu vestido; e ele também riu e disse: ‘De uma verdade, tu és boa em todos os sentidos, e um jovem tolo eu sou; mas Viridis deverá tornar-me mais sábio, quando nos reunirmos novamente. Alguma vez tu viste uma donzela tão bela?’ ‘Nunca,’ ela disse, ‘e verdadeiramente não há nenhuma mais bela em todo o mundo. Assim, mantém agora distância por um tempo, e pensa nela.’

Quanto ao Escudeiro Negro, de nome Arthur, Birdalone ficou incomodada por ele, e ele tornou-a um pouco triste. Verdadeiro é que ele não veio novamente diante dela tão triste e abatido como quando ele estava dando o testemunho dele a ela; todavia, ela considerava que ele forçava-se a parecer de bom ânimo. Além disso, embora ele sempre buscasse a companhia dela, e essa solitária como ele, ele falaria com ela quase como um homem com outro, embora com uma certa ternura na voz dele, e olhando sinceramente para ela por um tempo. Todavia, nunca ele tomava a mão dela, ou tocava-a de maneira alguma. E verdadeiro é que ela ansiava pelo toque da mão dele.

No terceiro dia de sua estadia no Castelo da Busca, Birdalone tomou coragem diante da grande instigação de seus amigos, enquanto todos eles sentavam-se juntos na campina fora do castelo, para lhes contar a história dela; ela não escondeu nada, salvo concernente à mãe do bosque, pois ela considerava que sua doce amiga amá-la-ia melhor se ela não desse com a língua nos dentes sobre ela.

Assim os Campeões ouviram atentamente ela contar o conto em sua voz amavelmente clara, e grande foram o amor e a piedade deles pela pobre donzela solitária. E especialmente [182]claro era ver que eles ficaram movidos severamente quando ela contou como primeiro ela chegou ao Bote de Expedição, e como a bruxa-esposa atormentou o corpo inocente dela por aquela culpa. Então Baudoin colocou a mão dele sobre a cabeça dela e falou: ‘Pobre criança, de fato, muito tu sofreste! E agora eu te direi que foste por nós e por nossos amores que tu carregaste toda essa angústia de cativeiro e fadiga e barras.’

Mas Hugh curvou-se sobre ela, enquanto ela sentava-se com a cabeça pendendo para baixo, beijou a bochecha dela e disse: ‘Sim! E eu não estava lá para bater na cabeça daquela maldita; e não conhecia nada de ti e de tua angústia, enquanto eu tomava meu leve prazer em volta destes prados livres.E ele ruborizou muito e chegou perto de chorar.

Arthur sentou-se imóvel, com seus olhos inclinados para o chão abaixo, e ele não disse nada; e Birdalone relanceou para ele melancolicamente antes que ela prosseguisse com o conto dela. E ela prosseguiu e contou rigorosamente tudo que lha acontecera na travessia da água e na Ilha do Aumento Inesperado e nas outras Ilhas Maravilhosas; e ela não considerou demais que ela deveria contar isso duas vezes do começo ao fim, nem que ele devessem ouvi-la com atenção duas vezes do começo ao fim.

Naquela tarde mesma, enquanto Birdalone caminhava por si mesma no jardim fechado do castelo, ela viu Arthur espreitando aqui e ali, como se ele estivesse procurando alguém. Então ela apresentou-se e perguntou-lhe o que ele estava procurando, e ele disse: ‘Eu estava procurando-te.’ Mas ela não se atreveu a perguntar o que ele desejava, apenas permaneceu silente e trêmula diante dele, até que ele pegou a mão dela e falou, não em voz alta, mas avidamente.

[183]‘Depois do que nos contaste hoje, eu pareço conhecer quem tu és; e eu conto a ti que é uma dor e sofrimento para eu deixar-te, sim, deixar-te fosse apenas por um minuto. Oh, eu suplico-te apieda-te de mim pela separação.’ E com isso ele virou-se e apressou-se para o castelo. Mas Birdalone permaneceu ali, com o coração batendo forte e a carne dela tremendo e uma estranha doçura de alegria tomou de conta dela. Mas ela disse a si mesma que não é de se admirar que ela sentisse-se tão feliz, vendo que ela descobrira que, a despeito de seus medos, esse seu amigo amava-a não menos do que os outros. E então ela falou isso em uma voz suave que de fato ela se apiedaria dele pela separação, sim e também de si mesma.

No entanto, quando subsequentemente eles encontraram-se, o comportamento dele com ela não foi de nenhuma outra maneira do que tinha sido; mas ela não mais prestava atenção nisso, uma vez que agora ela acreditava nele.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 180-183. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/180/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo I Sir Felix

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[58]Em uma brilhante manhã de maio, a luz do sol, às cinco horas da manhã, estava derramando-se dentro de um quarto que se voltava para o leste na ancestral casa dos Aquilas. Neste quarto, Felix, o mais velhos dos três filhos do Barão, estava dormindo. Os raios de luz passavam sobre a cabeça dele e iluminavam um espaço quadrado na oposta parede caiada, onde, em meio à luz brilhante, pendia uma cruz de marfim. Havia apenas duas vidraças na janela, cada uma de não mais do que duas ou três polegadas quadradas, o resto da janela estando fechada por fortes persianas de carvalho, espessas o suficiente para resistirem à pancada de uma flecha.

Durante o dia uma dessas, pelo menos, teria sido aberta para permitir ar e luz. Elas não exatamente se encontram, e um raio de luz do sol, em adição àquele que vem através das vidraças minúsculas, entrava pela aberta. Apenas uma janela na casa continha mais do que duas de semelhantes vidraças (ela ficava na sala de estar da baronesa), e a maioria [59]delas não tinha nenhuma em absoluto. O vidro deixado pelos antigos em suas habitações há muito fora usado ou quebrado, e os fragmentos que permaneceram eram preciosos demais para serem colocados em quartos ordinários. Quando grandes pedaços eram descobertos, eles eram levados para os palácios dos príncipes, e até esses eram apenas frugalmente supridos, de maneira que dizer “ele tem vidro na janela” era equivalente a “ele pertence às classes superiores.”

No recesso da janela ficava um tinteiro, o qual recentemente estivera em uso, pois uma pena estendia-se ao lado dele, e uma folha de pergaminho parcialmente coberta com escrita. A tinta era espessa e muito escura, feita de carvão em pó, deixando uma escrita levemente em relevo, a qual podia ser percebida pelo dedo ao roçar levemente sobre ela. Sob a janela, no chão descoberto, ficava um baú aberto, no qual havia vários pergaminhos e livros semelhantes, e a partir do qual, evidentemente, a folha no recesso fora tomada. Esse baú, embora pequeno, era extremamente pesado e forte, sendo talhado com cinzel e goiva a partir de um bloco sólido de carvalho. Exceto por alguns sulcos paralelos, não houve tentativa de ornamentação sobre ele. A tampa, na qual não possuía dobradiças, mas levantava-se completamente em separado, estava inclinada contra a parede. Também era de carvalho, algumas polegadas de espessura, e ajustada sobre o baú por um tipo de um encaixe nas extremidades.

Em vez de uma fechadura, o baú era fechado por uma comprida tira de couro de boi, a qual agora se estende em uma espiral no chão. Encerrada por voltas e voltas, torcidas e entrelaçadas, e finalmente amarrado com um especial e secreto nó (as extremidades ficando [60]escondidas), a tira de couro guardava os conteúdos do baú de olhos curiosos ou mãos ladras. É claro, com machado ou faca facilmente o nó poderia ser cortado, mas ninguém poderia obter acesso ao quarto exceto os retentores da casa, e qual deles, mesmo se desleal, atrever-se-ia a empregar semelhantes meios na visão da punição certa que deveria seguir-se? Ocupar-se-iam horas para desfazer o nó, e então ele não poderia ser amarrado exatamente da mesma maneira, de modo que o uso real da tira era assegurar ao proprietário de que não se interferiu com seus tesouros em sua ausência. Fechaduras tais como as que eram feitas eram da mais desajeitada construção. Elas não eram tão difíceis de roubar quanto a tira de desamarrar, e o custo delas, ou melhor, a dificuldade de conseguir um artífice que poderia manufaturá-las, confinava o seu uso aos líderes das grandes casas. O baú do Barão era trancada, e o dele apenas, na residência.

Além de pergaminhos, os quais eram os mais próximos do topo, como os mais usados, havia três livros, muito desgastados e decaídos, os quais foram preservados, mais por acidente do que por cuidado, das bibliotecas dos antigos. Um era uma história resumida de Roma, o outro um relato similar da história inglesa, o terceiro, uma cartilha de ciência ou conhecimento; todos os três, de fato, sendo livros que, em meio aos antigos, eram usados para ensinarem crianças e os quais, pelos homens daqueles dias, teriam sido deixados de lado com desdém.

Expostos por anos em casas decadentes, chuva e mofo [61]mancharam e macularam as páginas deles; as capas deterioram-se nessas centenas de anos, e agora eram providas por uma larga camada de couro mole com amplas margens demasiado sobrepostas às extremidades; muitas das páginas estavam bastante perdidas, e outras rasgadas por manuseio sem cuidado. O resumo da história romana fora chamuscado por um incêndio na floresta, e as extremidades carbonizadas das folhas caíram em buracos semicirculares. Todavia, ao ponderar sobre elas, Felix tinha, por assim dizer, reconstruído muito do que era propriedade comum (e portanto desvalorizado) de todos quando eles foram impressos.

Os pergaminhos continham as anotações dele, e o resultado de seus pensamentos; eles também estavam cheios de extratos de volumes decadentes jazendo totalmente negligenciados nas casas de outros nobres. A maioria desses era de extrema antiguidade, pois, quando os antigos partiram, os livros modernos que ele compuseram foram deixados em casas decadentes à merce do clima, apodreceram ou foram destruídos por frequentes incêndios na floresta. Mas aqueles que foram preservados pelos antigos em museus escaparam por um tempo, e alguns desses ainda permaneceram em despensas e cantos, nos quais eles eram ocasionalmente trazidos adiante pelos servos para maior conveniência no acendimento de fogos. Os jovens nobres, inteiramente dedicados à caça, às intrigas amorosas e à guerra oprimiam Felix Aquila com ridículo quando eles descobriam-no debruçando-se sobre essas relíquias e, sendo de um espírito orgulhoso e suscetível, eles até agora sucederam em que ele abandonasse a busca aberta de semelhantes estudos, e roubavam o conhecimento dele por olhadelas [62]inquietas quando não havia ninguém por perto. Como entre os antigos conhecimento era estimado sobre todas as coisas, assim agora, por uma espécie de contraste, era de todas as coisas a mais desprezada.

Sob os livros, em um canto do baú, ficava uma bolsa de couro contendo quatro soberanos, tais como eram usados pelos antigos, e dezoito peças do moderno dinheiro de prata, os degradados centavos do dia, não muito mais da metade do qual era prata, e o resto era liga. As moedas de ouro foram encontradas enquanto cavando buracos para os pilares da nova paliçada e, pela lei, deveriam ter sido entregues ao tesouro do Príncipe. Todo o ouro descoberto, quer em forma de moeda ou joalheria, era propriedade do Príncipe, quem se supõe pagar por seu valor em moeda.

Como o valor atual da moeda era apenas metade de seu valor nominal (e algumas vezes menos), a transação ficava grandemente em favor do tesouro. Tal era a escassez de ouro que a lei era estritamente aplicada, e houvesse a menor suspeita do fato, a casa teria sido revistada dos porões ao teto. Aprisionamento e multa teriam sido o destino inevitável de Felix, e a família muito provavelmente teria sofrido pela falta de um de seus membros. Mas, independente e determinado ao último grau, Felix corria qualquer risco em vez de renunciar ao que ele encontrara, e que ele considerara seu mesmo. Essa independência inflexível e orgulho de espírito, junto com desdém escassamente oculto pelos outros, resultara no quase isolamento dele [63]da juventude de sua idade, e causaram-lhe ser considerado com antipatia pelos anciãos. Ele era raramente, se alguma vez, convidado para se juntar à caça, e ainda mais raramente convidado para as festividades e entretenimentos providos nas casas adjacentes, ou para os maiores entretenimentos dos nobres superiores. Muito rápido para se ofender, onde nada era realmente pretendido, ele imaginava que muitos nutriam-lhe má vontade quem escassamente lhe dera um pensamento temporário. Ele não podia perdoar as piadas grosseiras proferidas sobre sua aparência pessoal por homens de constituição mais pesadas, quem desprezam um rapaz tão delgado.

Ele preferiria ficar sozinho a juntar-se à companhia deles, e não competiria em nenhum dos esportes deles, de maneira que, quando sua ausência na arena fosse notada, era atribuída a fraqueza ou covardia. Essas imputações doíam-lhe muito, levando-o a cismar-se dentro de si mesmo. Ele nunca era visto nos pátios ou antessalas no palácio, nem seguindo a comitiva do Príncipe, como era o costume dos jovens nobres. A servilidade da corte irritava-o e enojava-o; o ânsia do forte para carregar uma almofada ou buscar um cachorro aborreciam-no.

Havia aqueles que observariam a ausência dele da multidão nas antessalas. No meio de tanta intriga e esforço contínuo por poder, homens astutos, por um lado, sempre estavam em alerta para o que, eles imaginavam, provar-se-iam instrumentos com vontade; e, por outro lado, os conselheiros do Príncipe mantinham um olho vigilantes sobre a disposição de todos da menor consequência; de maneira que, embora com apenas vinte e cinco anos, Felix já estava [64]em duas listas, aquela do palácio, de pessoas cujas as visões, se não traiçoeiras, eram duvidosas, e a outra, nas mãos de um possível aspirante, como um descontente e, portanto, útil homem. Felix estava inteiramente ignorante de que ele atraíra tanta observação. Ele supunha a si mesmo simplesmente desprezado e ignorado; ele não acalentava nenhuma traição, não tinha a menor simpatia com qualquer aspirante, mantinha-se totalmente à distância da intriga, e seus devaneios, se eles fossem ambiciosos, diziam respeito apenas a ele mesmo.

Mas os mais preciosos tesouros no baú eram oito ou dez pequenas folhas de pergaminho, cada uma delicadamente enrolada e fechada com uma fita, cartas da Aurora Thyma, quem também lhe dera a cruz de marfim na parede. Era de feitura antiga, uma relíquia do mundo antigo. Uma bússola, umas poucas pequenas ferramentas (valiosas porque preservadas por tantos anos, e não agora para serem obtidas por qualquer consideração), e uma lente de aumento, também uma relíquia dos antigos, completavam os conteúdos do baú.

Sob uma mesa baixa ao lado do estrado da cama, ficavam um sílex e aço e gravetos, e uma lamparina a óleo de barro, não destinada a ser carregada de um lado para o outro. Ali, também ficava a faca dele, com uma empunhadura feita de chifre de bode, usada por todos no cinto, e seu machado de floresta, uma pequena ferramenta, mas extremamente útil nos bosques, sem a qual, de fato, o progresso era frequentemente impossível. Essas ficavam no cinto, o qual, como ele estava despido, ele jogara sobre a mesa, junto com sua bolsa, na qual havia uma dúzia de moedas de cobre, não muito regulares em forma, e estampadas apenas em um lado. A mesa era formada por duas curtas pranchas cortadas, escassamente alisadas, [65]erguidas sobre pranchas semelhantes (na borda) em cada extremidade, de fato, uma forma longa.

A partir de uma estaca fixada na parede pendia um disco de bronze por um fino cordão de couro; esse disco, polido ao último grau, respondia como um espelho. A única outra peça de mobília, se assim ela pode ser chamada, era um bloco de madeira ao lado da mesa, usado como uma cadeira. No canto, entre a mesa e a janela, erguia-se um longo arco de teixo, e uma aljava cheia de flechas prontos para uso imediato, ao lado dos quais três ou quatro feixes jaziam sobre o chão. Uma besta pendiam de uma estaca de madeira; o arco era de madeira, e, portanto, não muito poderoso; dardos e setas de cabeça quadrada estavam espalhados descuidadamente sobre o chão sob ele.

Seis ou sete dardos mais finos, usados para arremesso com a mão, como lanças, ficavam em outro canto da porta, e duas mais robustas lanças de porco. Perto da parede, um monte de redes estendia-se em confusão aparente, algumas usadas para perdizes, algumas de barbante grosso para galinha-do-mato; outra, estendendo-se um pouco à parte, para peixes. Próximas dessas, as partes componentes de duas armadilhas para perus estavam espalhadas em volta, junto com um pequeno escudo ou alvo circular, tais como aqueles que são usados por espadachins, laços de arame, e, em uma caixa aberta, vários cinzéis, goivas e outras ferramentas.

Um tubo de sopro estava fixado por três estacas, de maneira que ele não pudesse empenar-se, um chifre de caça pendia de outra, e, sobre o chão, ficavam um número de flechas em vários estágios de manufatura, algumas amarradas à haste de endireitamento, algumas com penas já anexadas, e algumas dificilmente dadas a forma a partir da [66]tora de faia ou anciã. Um monte de peles enchia o terceiro canto, e em meio a elas haviam numerosos chifres de veados machos, e dois de vaca branca, todavia nenhum do muito temido e muito desejado touro branco. Também havia umas poucas penas de pavão, raras e difíceis de conseguir, e destinadas a Aurora.

Em volta de um de pé da cama ficava um longo rolo de fino couro cru – um lasso, e sobre outro ficava suspenso uma touca de ferro ou capacete sem viseira.

Não havia nem espada ou lança. De fato, de todas as armas e instrumentos, nenhum parecia em uso, a julgar pela poeira que se amontoava sobre eles, e as pontas enferrujadas, exceto o arco e a besta e um das lanças para javali. A cama mesma era muito baixa, construída de madeira, grossa e sólida; as roupas eram do mais grosseiro linho e lã; havia peles para esquentar no inverno, mas essas não eram requeridas em maio. Não havia carpete, nem qualquer substituto para ele; as paredes estavam caiadas, forro não havia nenhum: as vigas comidas por vermes estavam visíveis, e a viga mestra. Mas sob a mesa havia uma grande tigela de barro, cheias de orquídeas da campina, jacintos silvestres e um punhado de espinheiros-alvares em flor.

O chapéu dele, largo na aba, ficava no chão; seu gibão ficava sobre o bloco ou assento de madeira, com as longas calças justas, as quais mostravam cada músculo dos membros, e perto delas altos calçados de curtido mas não enegrecido couro. Seu curto manto pendia de uma estaca de madeira contra a parede, a qual era fixada com uma ampla cavilha de carvalho. O pergaminho no recesso da janela, no qual ele estivera [67]trabalhando exatamente antes de se retrair, estava coberto com esboços rudes, evidentemente seções de um projeto para uma embarcação ou galé impulsionada por remos.

O ponto quadrado de luz sobre a parede lentamente movia-se conforme o sol subia, até que a cruz de marfim foi deixada na sombra, mas o sonhador dormia, desatento, também, do chilrear dos tragos sob as cornijas, e do chamado do cuco não muito distante.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.58-67. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/58/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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