A Floresta além do Mundo - Capítulo XXVII A Manhã entre os Ursos

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[197]Então Walter deitou-se e adormeceu, e não soube de mais nada até que acordou, sob brilhante luz do dia, com a Donzela de pé sobre ele. Ela estava fresca de água, pois estivera no rio para se banhar, e o sol através da porta aberta começou a fluir sobre os pés dela perto do travesseiro de Walter. Ele virou-se e lançou o braço em volta deles, e acariciou-os, enquanto ela permanecia de pé sobre ele; então ele ergueu-se e olhou para ela, e disse: ‘Como tu estás bela e brilhante nesta manhã! E contudo … e contudo … não seria melhor se tu retirasses toda essa murcha e decadente ostentação de folhas e flores, que te fazem parecer como a donzela de bardo em uma manhã de Emergência?’

E ele encorou-a pesarosamente.

Ela riu para ele alegremente, e disse: [198]‘Sim, e provavelmente esses outros não pensem melhor de meu traje, ou não muito melhor; pois acolá eles estão reunindo madeira pequena para o sacrifício; o qual, verdadeiramente, deverá ser de ti e de mim, a menos que eu melhore-o inteiramente pelos meios de sabedoria que eu aprendi com a velha mulher, e aperfeiçoei entre as listras de minha Senhora, a quem um pouco antes tu amaste um pouco.

E conforme ela falava os olhos dela brilhavam, a bochecha corava, e membros e pés pareciam como se eles escassamente pudessem privar-se de dançar de alegria. Então Walter franziu a sobrancelha e, por um momento, um pensamento meio formado surgiu em sua mente: ‘É assim, que ela me trairia e viveria sem mim?’ E ele lançou os olhos para baixo. Mas ela disse: ‘Olha para cima e para meus olhos, amigo, e vê se há neles qualquer falsidade para contigo! Pois eu conheço teu pensamento; eu conheço teu pensamento. Tu não vês que minha felicidade e alegria são por amor a ti, e pelo pensamento do descanso de problemas que está à mão?’

Ele olhou para cima, e os olhos dele encontraram os olhos de amor dela, e ele teria lançado os braços em volta dela; mas ela retrocedeu e disse: Não, tu deves abster-te por um tempo, [199]querido amigo, para que esse povo não lance os olhos sobre nós e considere-nos muito semelhantes a amantes para o que eu estou para lhes ordenar considerar-me. Aguarda por um tempo, e então deverá ser de acordo com tua vontade. Mas agora eu preciso contar-te que não está muito longe do meio-dia, e que os Ursos estão correndo para dentro do Vale, e que já há uma tropa de homens no Anel de Julgamento, e que, como eu disse, o fardo da oferenda está bem perto de ficar pronto, seja para nós ou para alguma outra criatura. E agora eu tenho de te ordenar isto, e será uma coisa fácil para tu fazeres, a saber, que tu olhes como se tu fosses da raça dos Deuses, e não titubeies, ou mostres sinal de titubeio, o que quer que aconteça: para dizer sim tanto ao meu dizer sim quanto ao meu dizer não: e por último isto, o que é a única coisa difícil para ti (mas tu já fizeste um pouco disso antes), para olhar para mim sem olhos dominantes de amor, nem como se estivesses ao mesmo tempo suplicando-me e comandando-me; em vez disso, tu deverás rebaixar-te tanto como se tu fosse meu homem inteiramente duma maneira simples, e de modo nenhum meu mestre.

Oh, amiga amada,’ disse Walter, ‘aqui finalmente tu és a mestra, e eu cumprirei todas as tuas ordens, com certa esperança disto, que nós devamos ou viver juntos ou morrer juntos.

Mas, conforme ele conversaram, entrou o ancião, e [200]com ele uma jovem donzela, trazendo com eles o café da manha com coalhadas e creme e morangos, e ele convidou-os a comer. Então eles comeram, e não ficaram infelizes; e durante o intervalo de sua refeição o ancião falou com eles sobriamente, mas não duramente, ou com qualquer inimizade aparente; e sempre sua fala entrava na [questão da] seca, a qual estava agora queimando as pastagens dos baixos, e em como a grama nos vales irrigados, os quais não eram terra muito espalhada, não aguentaria muito mais a menos que Deus envia-se-lhes chuva. E Walter notou que aqueles dois, o ancião e a Donzela, entreolharam-se curiosamente em meio à conversa; a intenção do ancião sobre o que ela poderia dizer, e se ela dera atenção às suas palavras; enquanto que, do lado dela, a Donzela respondia sua fala graciosa e agradavelmente, mas dizia pouco do que fosse de alguma importância: nem ela teria os olhos fixos nele, os quais perambulavam levemente desta àquela coisa; nem os lábios dela endureceriam e parariam, mas sempre sorriam em resposta à luz dos olhos dela, conforme ela sentava-se com sua face como se fosse a face mesma da alegria do dia de verão.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.197-200. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/197/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

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A Raça Vindoura - Capítulo XXI

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[192]Por algum tempo eu observei na altamente informada e poderosamente proporcionada filha de meu anfitrião aquele sentimento amável e protetivo o qual, quer acima da terra ou abaixo dela, uma Providência onisciente conferiu à divisão feminina da raça humana. Mas, até muito recentemente, eu atribuíra-o àquela afeição por ‘animais domésticos’ que uma mulher de qualquer idade compartilha com uma criança humana. Agora eu tornei-me dolorosamente consciente de que o sentimento com o qual Zee dignou-se a me considerar era diferente daquele que eu inspirara em Taë. Mas essa convicção não me deu nenhuma daquela gratificação complacente que a vaidade de um homem ordinariamente imagina a partir da apreciação lisonjeira de seus méritos pessoais da parte do belo sexo; pelo contrário, ela inspirou-me medo. Contudo, de toda as Gy-ei na comunidade, se Zee fosse [193]talvez a mais sábia e mais forte, ela era, pela reputação comum, a mais gentil, e ela era certamente a mais popularmente amada. O desejo de ajudar, de socorrer, de proteger, de confortar, de abençoar, pareciam permear o ser inteiro dela. Embora as complicadas misérias que se originavam na penúria e culpa fossem desconhecidas ao sistema social dos Vril-ya, entretanto, nenhum sábio ainda descobrira no vril uma atuação que pudesse banir a tristeza da vida; e, aonde quer que em meio a seu povo a tristeza pudesse encontrar espaço, lá Zee seguia na missão de confortadora. Alguma irmã Gy falha em assegurar o amor pelo qual ela suspirava? Zee buscava-a e trazia todos os recursos de seu conhecimento, e todos os consolos de sua simpatia, para suportar uma dor que assim precisa do consolo de uma confidente. Nos raros casos, quando uma doença grave, apoderava-se de infância ou juventude, e os casos, menos raros, quando, na liberdade destemida e aventurosa de infantes, algum acidente, comparecido com dor e ferimento, Zee abandonava seus estudos e esportes, e tornava-se a curadora e a enfermeira. Os voos favoritos dela eram na direção das fronteiras extremas do domínio onde as crianças ficavam estacionadas [194]de guarda contra os surtos de forças hostis na natureza, ou as invasões de animais devoradores, de modo que ela poderia avisá-los de qualquer perigo que o conhecimento dela detectasse ou previsse, ou estar à mão se qualquer ferimento acontecesse. Não, mesmo no exercício de suas aquisições científicas havia uma benevolência concorrente de propósito e vontade. Ela aprendeu alguma novidade que seria útil ao praticante de alguma arte ou ofício? Ela apressava-se a comunicá-la e explicá-la. Estava algum sábio veterano dos Colégio perplexo e cansado com a labuta de um estudo obscuro? Ela pacientemente se devotaria a seu auxílio, calcularia os detalhes para ele, sustentaria seus espíritos com um sorriso esperançoso, estimularia a vontade dele com a luminosa sugestão dela, seria para ele, por assim dizer, seu bom gênio tornado visível como fortalecedora e inspiradora. A mesma ternura ela exibia para com as criaturas inferiores. Eu frequentemente conhecia que ela trazia para casa algum animal doente ou ferido, e cuidava e afagava como uma mãe cuidaria de e afagaria sua criança ferida. Muitas vezes, quando eu sentava-me no balcão, ou jardim suspenso, para o qual minha janela abria-se, eu via-a [195]erguendo-se no ar com suas asas radiantes e, em poucos momentos, grupos de infantes, vendo-a, planariam para cima com sons felizes de saudações; agrupando-se e divertindo-se em torno dela, de modo que ela parecia um centro mesmo de alegria inocente. Quando eu caminhava com ela em meio às rochas e aos vales do lado de fora da cidade, o servo farejá-la-ia ou vê-la-ia de longe, viria saltitando, ansioso pelo carinho da mão dela, ou seguiria os passos dela, até ser dispensado por algum sussurro musical que a criatura aprendera a compreender. É a moda entre as virgens Gy-ei usar em suas testas um diadema, ou grinalda, com gemas assemelhando-se a opalas, arranjadas em quatro pontos ou raios como estrelas. Essas eram sem brilho no uso ordinário, mas, se tocadas pela varinha de vril, ele assumiam uma chama clara e brilhante, que iluminava e, contudo, não queimava. Isso serve como um ornamento nas festividades deles, e como uma lâmpada, se, em suas andanças além das luzes artificiais, elas tinham de atravessar o escuro. Há ocasiões, quando eu via a majestade pensativa de Zee de face iluminada por esse halo coroante, que eu escassamente poderia acreditá-la ser uma criatura de nascimento [196]mortal, e inclinava minha cabeça diante dela como a visão de um ser em meio às ordens celestes. Mas nenhuma vez meu coração sentiu por esse tipo elevado da nobre feminilidade um sentimento de amor humano. É que, em meio à raça a qual eu pertenço, o orgulho de homem influencia tanto suas paixões que a mulher perde para ele seu charme especial de mulher se ele sentia-se ser em todas as coisas eminentemente superior a ele mesmo? Mas que paixão estranha poderia ter essa filha inigualável de uma raça que, na supremacia de seus poderes e na felicidade de suas condições posiciona todas as outras raças na categoria de bárbaros, condescendeu a me honrar com sua preferência? Em qualificações pessoais, embora eu passasse por ter boa aparência em meio às pessoas de onde eu venho, o mais belo de meus compatriotas poderia ter parecido insignificante e desajeitado ao lado do tipo imponente e sereno de beleza que caracterizava o aspecto dos Vril-ya.
Essa novidade, a própria diferença entre eu mesmo e aqueles a quem Zee estava acostumada, poderia servir para influenciar a imaginação dela era provável o suficiente, e como o leitor verá depois, uma [197]causa semelhante poderia ser suficiente para explicar a predileção com a qual eu era distinguido por uma jovem Gy escassamente saída da infância, e muito inferior em todos os aspectos a Zee. Mas, quem quer que considerará aquelas características tenras que eu há pouco atribui à filha de Aph-Lin, pode prontamente conceber que a principal causa de minha atração a ela estava em seu desejo instintivo de cuidar, de confortar, de proteger e, ao proteger, sustentar e exaltar. Dessa maneira, quando eu olho para trás, eu considero [isso] como a única fraqueza indigna de sua natureza elevada, a qual curvava a filha dos Vril-ya à afeição de uma mulher por alguém tão inferior a ela mesma como era o hóspede de seu pai. Mas, seja a causa o que possa ser, a consciência de que eu tinha inspirado semelhante afeição excitou-me com admiração – uma admiração moral das perfeições mesmas dela, de seus poderes misteriosos, das distinções inseparáveis entre a raça dela e a minha própria; e com essa admiração, eu preciso confessar para minha vergonha, aqui se combinavam o pavor mas material e ignóbil dos perigos aos quais a preferência dela expor-me-ia.
Poderia ser suposto por um momento que os [198]pais e amigos desse ser exaltado poderiam ver sem indignação e desgosto a possibilidade de uma aliança entre ela mesma e um Tish? Ela eles não poderiam punir, ela eles não poderiam confinar nem conter. Nem na vida doméstica nem na política eles reconhecem qualquer lei de força entre eles mesmos; mas eles poderiam efetivamente colocar um fim no afeto dela por meio de um lampejo de vril infligido sobre mim.
Sob essas circunstâncias ansiosas, afortunadamente, minha consciência e senso de honra estavam livres de censura. Meu dever tornou-se claro, se a preferência de Zee continuasse a manifestar-se, para a indicar a meu anfitrião, com, é claro, toda delicadeza a qual deve sempre ser preservada por um homem bem-educado, ao confidenciar a outro qualquer grau de favor pelo qual alguém do belo sexo condescendia em o distinguir. Desse modo, em todos os eventos, eu deveria ser liberto da responsabilidade ou suspeição de participação voluntária nos sentimentos de Zee; e a sabedoria superior de meu anfitrião provavelmente poderia sugerir algum desenredamento sábio de meu perigoso dilema. A esse respeito, eu obedeci o instinto [199]ordinário de homem civilizado e moral, quem, contudo errante ele seja, geralmente ainda prefere o curso direito nesses casos onde é obviamente contra suas inclinações, seus interesses, e sua segurança eleger o errado.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.192-199. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/192/mode/1up>


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EderNB do Blog Eidonet

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A Floresta além do Mundo - Capítulo XXVI Eles vão ao Povo dos Ursos

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[189]Eles prosseguiram e, antes que se passasse muito tempo, chegaram a uma região baixa, onde escassamente havia uma árvore, salvo arbustos espinhosos retorcidos e nodosos aqui e ali, mas nada mais alto do que o tojo. E aqui nessas terras superiores eles viram que as pastagens estavam muito queimadas com a seca, embora o verão não estivesse gasto. Agora eles prosseguiram para o sul, fazendo o necessário, em direção às montanhas, cujas picos eles viam de tempos em tempos erguendo-se em azul profundo sobre o cinza sem vida dos cristas das encostas. E assim eles prosseguiram, até que, finalmente, perto do pôr do sol, após eles terem escalado longamente sobre um alto declive, eles chegaram ao pico de lá e, olhando para baixo, contemplaram novas notícias.

Havia um amplo vale abaixo deles, mais verde do que os baixos que eles atravessaram, e ainda mais verde no meio, a partir [190]da água de um córrego, o qual, todo cercado de salgueiros, serpenteava aqui e ali na terra baixa. Ovelha e rês estava pastando de um lado para o outro do vale e, além deles, uma longa linha de fumaça estava subindo direto para os céus sem vento a partir do meio de um círculo de pequenas casas redondas construídas de turfa e com teto de junco. E além disso, em direção da esquina voltada para o oeste do vale, eles podiam ver o que parecia ser como um anel de julgamento de grandes pedras, embora não houvesse locais rochosos naquela terra. Em torno do fogo de cozinha em meio às casas, e aqui e ali em outros lugares, eles viram, de pé ou indo e vindo, grandes figuras de homens e mulheres, com crianças brincando entre eles.

Eles ficaram de pé e olharam fixamente para baixo por um minuto ou dois, e embora tudo estivesse em paz ali, contudo para Walter, pelo menos, parecia estranho e horrível. Ele falou suavemente, como se ele não desejasse ter sua voz alcançando aqueles homens, embora eles estivessem, verdadeiramente, fora do alcance audição de tudo salvo de um grito: ‘Então, são esses os filhos do Urso? O que nós devemos fazer agora?’

Ela disse: ‘Sim, do Urso eles são, embora haja outros povos deles muito longe para o norte e para o leste, perto das [191]bordas do mar. E quanto ao que nós devemos fazer, desçamos de uma vez, e pacificamente. De fato, por agora não haverá escapatória deles; pois oh você! Eles viram-nos.’

Verdadeiramente, uns três ou quatro dos homens viraram-se em direção ao declive onde os dois estavam de pé, e estavam saudando-os com vocês imensas, rudes, nas quais, seja o que for, parecia não haver nem raiva ou ameça. Assim a Donzela tomou Walter pela mão, e desse modo eles desceram quietamente, e o Povo do Urso, vendo-os, permaneceu todo junto, encarando-os e aguardando sua chegada. Walter via-os, que embora eles fossem muito altos e grandemente constituídos, eles não eram tão muito acima da estatura dos homens para serem prodígios. Os rapazes eram de cabelos longos, e de barba desgrenhada, e seus cabelos inteiramente vermelhos ou amarelo acastanhado; suas peles, onde a carne nua mostrava-se, era amorenada com o sol e o clima, mas a um belo e prazeroso tom de moreno, não como os negros. As moças eram graciosas e belas de se olhar; nem havia nada de feroz ou maligno de se olhar ou sobre os rapazes ou sobre as moças, mas de aspecto um pouco grave e solene eles eram. Vestidos estavam todos eles, mas um pouco escassamente, e em nada exceto peles de ovelhas ou veados.

[192]Para armas eles viram entre eles clavas, e lanças encabeçadas com osso ou sílex, e feios machados de grandes sílices montados em punhos de madeira; nem havia, até onde eles podiam ver, seja agora ou depois, qualquer arco entre eles. Mas alguns dos jovens pareciam ter fundas arrumadas em volta de seus ombros.

Agora quando eles chegaram a apenas três braças deles, a Donzela ergueu a voz, e falou clara e docemente: Saúdo-vos, povo dos Ursos! Nós chegamos em meio a vós, e isso para vosso bem e não para vosso dano; por isso nós gostaríamos de saber se somos bem-vindos.

Havia um velho homem quem se colocava de pé à frente, no centro, envolto em um manto de pele de veado trabalhado muito vistosamente, e com um anel de ouro em seu braço, e uma coroa de pedras azuis em sua cabeça, e ele falou:Pequenos sois vós, mas tão vistosos, que se vós fôsseis apenas maiores, nós deveríamos considerar que vós viésseis da Casa de Deus. Contudo, eu ouvi que, por mais poderosos que os Deuses sejam, e principalmente nosso Deus, eles são às vezes não tão grandemente constituídos quanto nós dos Ursos. Como isso pode ser, eu não sei. Mas, se vós não sois dos Deuses ou de seu parentesco, então sois meros estrangeiros; e nós não sabemos o que fazer com estrangeiros, salvo [193]encontrá-los em batalha, ou dá-los ao Deus, ou salvo fazê-los filhos dos Urso. Contudo novamente, vós podeis ser mensageiros de algum povo que nos vincularia em amizade e aliar-se-ia conosco: caso no qual vós deveis pelo menos partir em paz, e enquanto vós estiverdes conosco deverão ser nossos convidados em completo bom ânimo. Agora, portanto, nós ordenamo-vos declarar o assunto para nós.

Então falou a Donzela:Pai, seria fácil para nós declarar para que estamos aqui presentes. Mas, parece-me, vós que estais reunidos em volta do fogo aqui nesta noite são menos do que o total dos filhos do Urso.

Assim é, Donzela,disse o ancião, ‘que o Urso têm muito mais filhos.’

Isto então eu ordeno-vos,’ disse a Donzela,que vós envieis os símbolos de mão em mão e reunais vosso povo para vós e, quando eles estiverem reunidos no Anel de Julgamento, então nós deveremos expor nossa incumbência diante de vós: e, de acordo com isso, vós devereis lidar conosco.

Tu falaste bem,disse o ancião;e assim mesmo nós oferecemo-vos nós mesmos. Amanhã, antes do meio-dia, vós devereis colocar-se de pé no Anel de Julgamento neste Vale, e falar com os filhos do Urso.

[194]Após o que ele virou-se para seu próprio povo e gritou algo, do que os dois não conheciam o significado; e ali vieram a ele, uma após o outro, seis jovens, a cada um dos quais ele deu uma coisa de sua bolsa, mas o que era Walter não pôde ver, salvo que era pequeno e de pouca importância. Para cada um, também, ele falou uma palavra ou duas, e imediatamente eles começaram a correr, um após o outro, virando na direção da campina que ficava diante daquela através da qual a dupla chegou ao Vale, e logo ficaram fora da visão no crepúsculo.

Em seguida o ancião voltou-se novamente para Walter e a Donzela, e falou:Homem e mulher, seja o que for que vós podeis ser, ou, seja o que for que vos aguarda amanhã, vós sois convidados bem-vindos para nós; assim, nós convidamo-vos para vir comer e beber junto a nossa fogueira.

Então eles sentaram-se juntos em volta das brasas do fogo, e comeram coalhadas e queijos, e beberam leite em abundância; e, conforme a noite crescia sobre eles, eles animaram o fogo, para que eles pudessem tem luz. Esse povo selvagem conversava alegremente entre eles mesmos, com riso suficiente e gracejos amigáveis, mas para os recém-chegados eles eram de poucas palavras, contudo, como os dois julgavam, por nenhuma [195]inimizade que eles trouxeram-lhes. Mas isto considerou Walter, que os mais jovens, ambos homens e mulheres, pareceriam achar uma questão difícil manterem seus olhos longe deles; e pareciam, além disso, encarar-lhes com um pouco de dúvida, ou, podia ser, de medo.

Então, quando a noite estava consumindo-se um pouco, o ancião levantou-se e ordenou aos dois que viessem com ele, e guio-os a uma pequena casa ou tenda, a qual ficava no meio de todas, e um pouco maior do que as outras, e ele arrumou-os para saber que eles deveriam descansar ali naquela noite, e desejou-lhes dormir em paz e sem medo até a manhã. Assim eles entraram, e lá encontraram camas de urze e maruca. Eles deitaram-se docemente, como irmão e irmã, quando tinham beijado um ao outro. Mas eles notaram que quatro homens vigorosos assentavam-se fora da tenda, e através da porta, com suas armas ao lado deles, de modo que eles precisavam ver a si mesmos como cativos.

Então Walter não pode deter-se, mas falou:Doce e querida amiga eu vim um longo caminho desde o cais em Langton, e da visão do Anão, da Donzela e da Senhora; e por esse beijo com o qual eu beijei-te mesmo agora, e pela bondade de [196]teus olhos, isso foi digno de tempo e labuta árdua. Mas amanhã, parece-me, eu não deverei ir mais além neste mundo, embora minha jornada seja muito mais longa do que de Langton para cá. E agora possam Deus e Todos os Santos guardar-te em meio a este povo selvagem, quando eu dever ter-me ido de ti.

Ela riu baixa e docemente, e disse:Querido amigo, tu falas para mim assim pesarosamente para me incitar a te amar melhor? Então teu labor está perdido; pois não posso amar-te melhor do que eu agora faço e isto é com meu inteiro coração. Mas mantém uma boa coragem, eu ordeno-te; pois nós ainda não fomos separados, nem deveremos ser. Nem eu considero que nós devamos ser mortos aqui, ou amanhã; mas muitos anos a contar deste momento, após nós termos conhecido toda a doçura da vida. Entrementes, eu desejo-te boa noite, bom amigo!


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MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.189-196. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/189/mode/1up


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EderNB do Blog Eidonet

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A Raça Vindoura - Capítulo XX

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[186]Desde a data da expedição com Taë que eu narrei há pouco, a criança fez-me frequentes visitas. Ele desenvolveu um carinho por mim, o qual eu cordialmente retribuí. De fato, como ele ainda não tinha 12 anos de idade, e não começara o curso de estudos científicos com o qual a infância termina naquele país, meu intelecto era menos inferior ao dele do que àqueles dos membros mais velhos de sua raça, especialmente das Gy-ei e mais especialmente da talentosa Zee. As crianças dos Vril-ya, tendo sobre suas mentes o peso de tantos deveres ativos e responsabilidades graves, não são geralmente joviais; mas Taë, com toda sua sabedoria, tinha muito do bem-estar lúdico – humor que alguém frequentemente descobre ser a característica de homens idosos de gênio. Ele sentia aquele tipo de prazer em minha companhia que um menino de uma idade similar no mundo [187]de cima tem na companhia de um cão ou macaco de estimação. Divertia-lhe tentar ensinar-me as maneiras de seu povo, como diverte um sobrinho meu fazer seu poodle andar sobre suas patas traseiras ou pular através de um arco. Eu voluntariamente me emprestava a semelhantes experimentos, mas eu nunca alcancei o sucesso do poodle. Inicialmente, eu estava muito interessado na tentativa de usar as asas que os mais jovens dos Vril-ya usam tão ágil e facilmente como nós usamos nossas pernas e braços; mas meus esforços eram atendidos com contusões sérias o suficiente para me fazerem abandoná-los em desespero.

Essas asas, como eu disse antes, são muito grandes, alcançando o joelho, e em repouso ficavam jogadas para trás como a formar um manto muito gracioso. Elas são compostas pelas penas de um pássaro gigante que abunda nos montes rochosos da região – a cor principalmente branca, mas algumas vezes com listras avermelhadas. Elas são firmadas em volta dos ombros com leves mais fortes molas de aço; e, quando expandidas, os braços deslizam através de laços para esse propósito, formando, por assim dizer, uma robusta membrana central. Conforme os braços são erguidos, um forro tubular sob a veste ou túnica torna-se, por [188]artifício mecânico, inflado de ar, aumentado ou diminuído à vontade pelo movimento dos braços, e servindo para flutuar a forma inteira como sobre bexigas. As asas e o aparato semelhante a balões são altamente carregados de vril; e quando o corpo é dessa maneira flutuado para cima, ele parece tornar-se singularmente aliviado de seu peso. Eu achei suficientemente fácil elevar-me do solo; de fato, quando as asas eram estendidas era muito difícil não se elevar, mas então vinham a dificuldade e o perigo. Eu falhava completamente no poder de usar e dirigir as asas, embora eu fosse considerado em meio a minha própria raça incomumente alerta e apto a exercícios físicos, e eu sou um nadador muito experimentado. Eu apenas podia fazer os esforços mais confusos e desajeitados no voo. Eu era o servo das asas; as asas não eram minhas servas – elas estavam além de meu controle; e quando, por uma violenta tensão de músculo, e, eu preciso justamente confessar, naquela força anormal que é dada por medo excessivo, eu restringia seus giros e trazia-os para perto do corpo, parecia como se eu perdesse o poder de sustentação armazenado nele e nas bexigas conectadas, como quando o ar é deixado sair de um balão, e encontrava-me [189]precipitado novamente à terra; salvo, de fato, por algum bater de asas espasmódico, de ser colidido em pedaços, mas não salvo das contusões e do atordoo de uma queda pesada. Contudo, eu teria perseverado em minhas tentativas, apenas pelo conselho ou comandos da científica Zee, quem benevolentemente acompanhara meus bateres de asas, e de fato, na última ocasião, voara exatamente sob mim, recebeu minha forma como se ela caísse sobre suas próprias asas expandidas e preservou-me de quebrar minha cabeça no teto da pirâmide a partir da qual nos ascendêramos.

Eu entendo,ela disse,que suas tentativas são em vão, não devido à falta das asas e seus pertences, nem por causa de qualquer imperfeição ou malformação de seu próprio sistema corpuscular, mas por causa de defeito irremediável, porque orgânico, em seu poder de volição. Aprenda que a conexão entre a vontade e as atuações daquele fluido que foi subjeitado ao controle dos Vril-ya nunca fora estabelecida pelos primeiros descobridores, nunca alcançada por uma única geração; foi em incrementos, como outras propriedades da raça, em proporção conforme tem sido uniformemente [190]transmitida de pai para filho, de modo que, finalmente, tornou-se um instinto; e um infante An de nossa raça, deseja voar tão intuitiva e inconscientemente quanto ele deseja andar. Ele trabalha em suas asas inventadas ou artificiais com tanta segurança quanto um pássaro trabalha com aquelas com as quais nasceu. Eu não pensei suficientemente nisso quando permiti a você tentar um experimento que me encantou, pois eu ansiava por tem em você um companheiro. Eu agora deverei abandonar o experimento. Sua vida está tornando-se cara para mim.Com isso, a voz e face da Gy suavizaram-se, e eu senti-me mais seriamente agitado do que eu estivera em meus voos anteriores.

Agora que eu estou no tema nas asas, eu não devo omitir menção a um costume entre as Gy-ei que me parece muito bonito e tenro no sentimento que ele implica. Uma Gy usa as asas enquanto ainda virgem – ela junta-se aos Ana em seus esportes aéreos – ela aventura-se sozinha e longe em regiões selvagens do mundo sem sol: na ousadia e altura de suas subidas, não menos do que na graça de seus movimentos, ela ultrapassa o sexo oposto. Mas a partir do dia do casamento, ela não mais usa as asas, ela [191]suspende-as por sua própria vontade, entregues ao leito nupcial, nunca a serem retomadas a menos que o laço de casamento seja rompido por divórcio ou morte.

Agora, quando a voz e os olhos de Zee suavizaram-se dessa maneira – e diante dessa suavização eu profeticamente recuei e estremeci – Taë, quem nos acompanhara em nossos voos, mas quem, como criança, divertira-se muito mais com minha inabilidade do que simpatizara com meus medos ou conscientizara-se de meu perigo, pairou sobre nos, equilibrou-se em meio ao ainda radiante ar, sereno e imóvel em suas asas estendidas, e ouvindo as palavras cativantes da jovem Gy, riu alto. Ele disse, “Se o Tish não pode aprender o uso das asas, você ainda pode ser a companheira dele, Zee, pois você pode suspendê-lo por si própria.”


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.186-191. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/186/mode/1up>


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EderNB do Blog Eidonet

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